Por que dolarizar: como o câmbio afeta a sua cesta de consumo e por que ter ativos atrelados ao dólar protege o poder de compra.
A dolarização de carteira e o impacto nos ativos internacionais
Escrito por Felipe Arrais em INTERNACIONAL
Neste relatório, você encontrará:
Diversificação que funciona: evidências de que combinar Brasil + dólar reduz volatilidade e preserva retorno no longo prazo.
Como avaliar sua performance em dólares: passo a passo prático para acompanhar resultados (direto no exterior e via ETFs no Brasil).
Talvez você já entenda a importância de dolarizar parte da carteira com investimentos internacionais, mas, em momentos em que a performance do dólar é fraca, muitos investidores repensam a estratégia.
O viés do retrospecto (hindsight bias), amplamente estudado pela psicologia financeira, nos leva a dar peso excessivo aos eventos recentes. Assim, após um ano de alta do dólar, que melhora a percepção de valorização da carteira convertida para reais, tendemos a querer ampliar ainda mais os investimentos fora do país. O inverso também ocorre quando o dólar cai.
Observamos um número crescente de dúvidas sobre a performance dos ativos em nossas lives e na comunidade no Circle (aliás, você já faz parte? Clique aqui para participar).
Para esclarecer essas questões e trazer dicas objetivas, elaboramos o relatório de hoje com base no comportamento dos ativos ao longo de 2025.
Nossa expectativa é que você passe a enxergar a performance em reais e em dólares, além de ganhar ferramentas simples para acompanhar tudo no dia a dia.
Uma ótima leitura!
Impactos da dolarização em nossas vidas
Como todo brasileiro, você conhece o poder de corrosão da inflação: ano após ano, os custos sobem e a sensação é de que o dinheiro rende menos.
Investir é uma forma de proteger o poder aquisitivo com ativos que tenham potencial de valorização acima da inflação.
Em um primeiro momento, quando falamos de proteção contra a inflação brasileira, lembramos dos títulos indexados ao IPCA (IPCA+), instrumentos poderosos, mas que, sozinhos, podem não oferecer proteção plena.
Nossa carteira busca diversificação para se manter robusta mesmo quando o cenário doméstico não é favorável. E, como cidadãos de um país emergente, manter parte do patrimônio atrelada a moedas fortes é uma arma valiosa.
Ao final de 2024, pesquisadores da FGV estudaram o impacto da dolarização na cesta de consumo dos brasileiros no relatório “O impacto cambial no consumo dos brasileiros e a necessidade de diversificação internacional”. As conclusões reforçam a estratégia que adotamos na Finclass.
O estudo aponta que a dolarização é uma forma robusta de proteção inflacionária e recomenda um piso entre 16% e 18% de ativos internacionais/dolarizados, variando conforme o perfil de consumo e a renda (maior para renda média-alta, pelo peso de gastos no exterior).
O estudo sustenta essa conclusão em dois pilares:
· O impacto do dólar na cesta de consumo;
· O impacto do dólar na carteira de investimentos.
Dólar em nossa cesta de consumo
A economia brasileira importa direta ou indiretamente uma fatia relevante do que as famílias consomem. Pelos dados do estudo, as importações giraram em torno de 10,1% do PIB no período analisado. Além disso, entre 10% e 25% da cesta de consumo é influenciada (direta ou indiretamente) por bens/insumos precificados em moeda estrangeira (sobretudo dólar). Ou seja, variações cambiais “entram” na inflação das famílias, com intensidade diferente por segmento (eletrônicos, veículos/autopeças, combustíveis, medicamentos, trigo/alimentos processados e vestuário são os mais sensíveis).
Um exemplo recente foi o início da pandemia em 2020, quando a cotação cambial subiu quase 30% do início do ano até o fim de março (pouco menos de três meses). Tanto o IPCA quanto o IGP-M, que respondem a choques de câmbio, aceleraram rapidamente em meio a uma crise que elevou o desemprego.
O repasse do câmbio para a inflação não é instantâneo: a correlação mais forte entre variação do dólar e inflação por faixa de renda aparece com defasagem de aproximadamente 4 meses, e parte do efeito se estende por mais tempo. Em outras palavras, choques de câmbio de hoje tendem a “bater no bolso” nos meses seguintes.
Quando o estudo “limpa” os índices setoriais para isolar o câmbio, encontra a parcela da inflação explicada pelo dólar — maior nas rendas mais baixas. O impacto cambial estimado sobre a cesta é de 13,9% (renda muito baixa), 13,9% (baixa), 13,1% (média-baixa), 12,8% (média), 12% (média-alta) e 11,1% (alta). Em outras palavras: as classes de menor renda são, proporcionalmente, as mais expostas ao dólar, sobretudo via alimentos, transporte e itens essenciais.
Fonte: “O impacto cambial no consumo dos brasileiros e a necessidade de diversificação internacional”, FGV.
Isso evidencia que a dolarização é importante para todos — e talvez ainda mais para os menos afortunados, dada a maior exposição a itens dolarizados na cesta.
O estudo também considera hábitos como gastos no exterior (viagens/educação), mais comuns em rendas altas, que elevam a sensibilidade ao dólar.
Entre as camadas de maior renda, somam-se os gastos no exterior: só em 2023 foram US$ 19,5 bilhões, o que aumenta a exposição efetiva dessas famílias. Com essa inclusão, a sensibilidade total da cesta sobe para 14,7% (média-alta) e 13,7% (alta).
Fonte: “O impacto cambial no consumo dos brasileiros e a necessidade de diversificação internacional”, FGV.
Um último fator considerado é a volatilidade cambial.
Lembra do salto do dólar em poucos meses no início da pandemia? Oscilações grandes em períodos curtos exigem “amortecedores” que protejam carteira e poder aquisitivo.
Considerando uma volatilidade histórica do dólar em cerca de 22,6%, os pesquisadores expandem o percentual necessário para cada faixa de renda, conforme o gráfico a seguir.
Fonte: “O impacto cambial no consumo dos brasileiros e a necessidade de diversificação internacional”, FGV.
Desses números chegamos ao piso mínimo de 16% de dolarização sugerido pelo estudo, devendo ser expandido ainda mais a depender dos hábitos de consumo de cada cidadão.
Dólar como diversificador de carteira
Além do consumo, a diversificação internacional nos investimentos é reconhecida há décadas: dá acesso a empresas e setores indisponíveis no mercado local, e reduz o risco da carteira e a vulnerabilidade do poder de compra às variações cambiais.
Em resumo: a carteira internacional não só protege o bolso, como pode impulsionar o crescimento patrimonial.
As empresas mais inovadoras e consistentes em crescimento costumam estar fora do Brasil e, adicionalmente, o fato de esses investimentos serem dolarizados ajuda a reduzir a volatilidade da carteira brasileira.
O gráfico abaixo mostra a correlação entre dólar e Ibovespa: embora não seja linear, ela permanece negativa em janelas anuais.
Fonte: Quantum Axis
Em prazos longos, a tendência é de que o dólar mantenha força contra o real. Quando combinamos ativos com correlação negativa e retorno esperado positivo (ex.: dólar + Ibovespa), o resultado histórico tende a ser mais estável, com boa preservação do retorno potencial.
Mesmo que o dólar, isoladamente, tenha volatilidade relevante (historicamente >20% a.a.), quando combinado da forma correta, o efeito é reduzir a volatilidade total da carteira.
Outro ângulo para observar essa redução de “chacoalhos” é um estudo da Finclass (gráfico abaixo): a volatilidade histórica de uma carteira diversificada de ativos brasileiros (FIIs, ações, multimercados, pós-fixados e indexados à inflação) cai à medida que adicionamos dólar à composição.
Fonte: Quantum Axis e Finclass
Note que, até próximo de 30% de dolarização, observamos queda da volatilidade total — dado que reforça a importância de manter um bolsão estrutural de ativos dolarizados.
Segundo a JPMorgan Asset Management, ~2% da carteira dos brasileiros está fora do país — patamar insuficiente para defender o bolso da corrosão inflacionária.
Você, por estar na Finclass, já está à frente da média brasileira em internacionalização.
Como analisar a performance dos ativos internacionais
Até aqui, o objetivo foi reforçar por que dolarizar. Em um ano de queda significativa do dólar, porém, a percepção de performance em reais pode decepcionar — mesmo que, em dólares, a carteira esteja bem.
Por isso, vale ajustar o prisma na hora de julgar os resultados.
Nas conversas com investidores e instituições, percebemos diferenças marcantes entre quem investe diretamente no exterior e quem investe via fundos/ETFs listados no Brasil.
Quem investe direto (por exemplo, via Avenue) faz uma remessa e passa a ver tudo em dólares. Para saber o montante em reais, precisa converter pela cotação vigente.
Quem investe no Brasil vê a conversão cambial o tempo todo, pois os ativos são cotados em reais.
Em um ano como este, com o dólar caindo mais do que 14%, a carteira em reais pode parecer “fraca”, mesmo com boa performance em dólares.
Lembrando: câmbio é a paridade entre duas moedas e sofre influência de inúmeras variáveis. Não tentamos especular o câmbio de curto prazo, e ele não altera nossa análise de fundamento: não deixaremos de comprar boas ações internacionais em um ano de queda do dólar, pois a depreciação do dólar frente ao real não implica, por si só, impactos relevantes para empresas americanas.
Performance dos ativos em carteira
Pensando nisso, trouxemos alguns números referentes a nossa carteira internacional, para que você tenha uma ideia na ordem de grandeza de como tem sido o resultado nos últimos dois anos.
Tomamos como referência os seguintes ativos que atualmente integram as carteiras internacionais:
· WRLD11 (ETF de ações)
· ALUG11 (ETF de REITs)
· USDB11 (renda fixa americana)
· BNDX11 (renda fixa de países desenvolvidos)
· GOLD11
· Morgan Stanley Global Opportunity Dólar (fundo de ações globais dolarizado)
· PIMCO Income Dólar (fundo de renda fixa global dolarizado)
· Oaktree Global Credit USD (fundo de renda fixa global dolarizado)
Premissas: consideramos a parcela dolarizada como um todo, ainda que, oficialmente, a carteira internacional seja de 17% (os 3% de ouro servem de proteção para a carteira completa, não apenas para a fatia internacional).
Selecionamos a faixa intermediária de patrimônio (a mais comum entre nossos assinantes e que contém todos os ETFs da carteira recomendada em sua composição) e calculamos os resultados em reais (como vistos na corretora) e em dólares (convertendo os preços diários pela taxa de câmbio vigente).
O período escolhido tem, aproximadamente, uma primeira metade de forte valorização do dólar e uma segunda metade (cerca de últimos 10 meses) de forte desvalorização — visível na linha cinza.
Dessa leitura, destacamos:
· A carteira em dólares e em reais se comporta de forma distinta, mas ambas mostram retornos positivos no período.
· Quando somamos um período de dólar em alta com ativos internacionais em alta, a linha em reais acelera. Já em um período de queda do dólar, ainda é possível ter retornos positivos, impulsionados pela valorização dos ativos no exterior.
A tabela abaixo resume os retornos dos ativos em três janelas distintas — útil para entender a dinâmica da sua carteira. Se você investe direto no exterior, os números podem divergir levemente, mas a ordem de grandeza tende a convergir ao objetivo deste relatório (ao fim do ano publicaremos um relatório exclusivo de performance).
Ao olhar a tabela, entendemos o aumento dos questionamentos em 2025: mesmo com cerca de 18% em dólares, a percepção em reais é de uma carteira “de lado” (quase 0%), devido à queda de mais de 14% do dólar no ano.
Ainda assim, vemos a carteira — e a maioria dos ativos individualmente — acima do dólar e do CDI em 24 meses (vale notar que poucos ativos superaram o CDI nos últimos anos).
Dicas de como calcular seu ganho em dólares
Existem várias formas de acompanhar o crescimento em dólares. Hoje, duas dicas simples:
1) Pesquisar a variação do ETF listado no exterior
Para ter uma ideia rápida do comportamento no dia a dia, pesquise no Google ou em provedores gratuitos (ex.: Yahoo Finance) os ETFs análogos no exterior.
Fonte: Finclass.
Pesquisando a valorização do ETF internacional, você terá uma boa aproximação de quanto o seu ETF brasileiro está rendendo em dólares.
Fonte: Google.
Assim, mesmo que você esteja vendo uma valorização negativa do WRLD11, se o VT está se valorizando em dólares, você já consegue tirar a conclusão de que está ganhando dinheiro em dólares embora, momentaneamente esteja visualizando uma “perda” em reais.
2) Planilha de preços
Para acompanhar rentabilidade em dólar de forma estruturada, use Excel ou Google Sheets (no caderno também funciona, mas é menos prático).
Registre, em cada compra de um ETF internacional listado no Brasil:
· Preço em reais pago na compra da cota;
· Cotação do dólar no momento da compra;
· Valor em reais investido.
O preço da cota você vê no home broker (ou na nota de corretagem). Para o câmbio, use a cotação do dólar futuro, facilmente encontrada em sites como Yahoo Finance ou Trading View.
Com essas três variáveis, você calcula quantos dólares comprou a cada aporte.
Fonte: XP e Yahoo Finance
Sabendo, por exemplo, que você tinha R$ 1.000, é possível ver quantas cotas consegue comprar e quantos dólares essa compra representa.
Com o tempo, você terá o histórico de cada mutação patrimonial, sabendo quantos dólares adquiriu. Em uma data futura, pesquise o saldo total do ETF e divida pela taxa de câmbio atual para obter o patrimônio em dólares.
Conhecendo dólares comprados vs. dólares que você tem, dá para estimar a rentabilidade em dólares da carteira.
De quebra, manter esse registro facilita sua declaração de IR, ao organizar o preço médio de aquisição.
Ficamos por aqui…
A dolarização cumpre um duplo papel na vida financeira do brasileiro: protege o poder de compra (porque parte relevante da nossa cesta é influenciada pelo dólar) e melhora o equilíbrio da carteira (pela correlação historicamente negativa entre dólar e bolsa local). Em outras palavras, ela ajuda na defesa e também no ataque no jogo do crescimento patrimonial.
Os dados mostram que manter um núcleo estrutural de ativos dolarizados reduz a volatilidade total e ajuda a navegar ciclos domésticos adversos sem abrir mão de oportunidades globais. No limite, o objetivo não é “acertar o câmbio”, mas capturar o prêmio da diversificação em prazos longos.
Para materializar essa estratégia, duas atitudes práticas fazem diferença: (i) avaliar resultados em dólares quando se trata de investimentos internacionais (especialmente em anos de queda do câmbio) e (ii) acompanhar os equivalentes dos ETFs no exterior ou manter uma planilha simples que traduza seus aportes em reais para dólares. Isso alinha a sua leitura de performance com a realidade econômica dos ativos.
Quanto à perspectiva futura para cada um deles, continuaremos tratando ao longo de nossos conteúdos na comunidade, lives semanais e relatórios futuros. Continue colaborando e participando, pois essa colaboração nos ajuda a selecionar e priorizar os conteúdos futuros que traremos para a Finclass.
Um grande abraço e até a próxima!
Sobre os analistas
Felipe Arrais
Sócio
Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.