Relatórios

A importância de diversificar sua carteira com ativos prefixados e indexados à inflação de longo prazo

Escrito por Fillipe Colus, Felipe Arrais, Guilherme Cadonhotto em RENDA FIXA

9 min de leitura

Olá, assinantes do Spiti One!

As flutuações dos ativos do mercado financeiro são frequentemente influenciadas por uma ampla gama de fatores, como eventos econômicos, políticos e sociais, bem como mudanças nas condições de mercado e no comportamento dos investidores.

Porém, essa imprevisibilidade não deve ser vista como algo unicamente nocivo. Afinal, ela também traz oportunidade de maiores retornos, sem contar que existem várias formas de lidar com esses “imprevistos” no mundo financeiro, tais como:

  • Diversificação de carteira: é uma das melhores estratégias para lidar com a imprevisibilidade no mundo financeiro. A ideia é distribuir o investimento em vários ativos, setores e indexadores, a fim de melhorar a relação risco versus retorno sem deixar de lado a qualidade desses ativos.
  • Investimento a longo prazo: ao investir com a mentalidade de longo prazo, investidores podem mitigar o impacto de flutuações a curto prazo nos preços dos ativos. Além disso, ao investir em ativos com maior horizonte de investimentos, como títulos de dívida ou ações, essas pessoas podem aproveitar os seus potenciais de crescimento ao longo dessa jornada.
  • Acompanhamento constante: mantendo uma atualização sobre as últimas tendências econômicas e políticas, investidores podem estar mais bem preparados para lidar com a imprevisibilidade. Além disso, o monitoramento constante da carteira é importante para identificar rapidamente quaisquer problemas ou oportunidades potenciais. Essa é a parte que entregamos toda semana em nossas lives e nos relatórios de acompanhamento.

Aqui, vamos enfatizar a questão da diversificação da carteira, com foco em dois ativos que têm sido parte fundamental das nossas carteiras: o Tesouro Prefixado (título público prefixado) e o Tesouro IPCA+ (indexado à inflação de longo prazo).

Esses ativos têm sido uma escolha estratégica para nossas carteiras, e hoje vamos analisar o porquê. Vamos explorar algumas de suas características, vantagens e desvantagens, bem como a sua evolução ao longo do tempo, e de que forma esses ativos podem contribuir para uma carteira diversificada e de sucesso.

Sobre os ativos

Na nossa análise sobre esses ativos, vamos utilizar os índices fornecidos pela Anbima, a entidade que representa as instituições participantes do mercado: o IRF-M e o IMA-B 5+. Esses dados vêm direto do órgão autorregulador, sendo assim, são uma ótima referência para avaliar o desempenho desses tipos de ativos.

A partir deles, vamos avaliar como esses ativos têm se desenvolvido no mercado e como eles podem contribuir para uma carteira diversificada e de sucesso.

O IRF-M é um índice que mede o desempenho dos títulos de renda fixa prefixados no mercado, composto por dois tipos de títulos públicos federais prefixados, as LTNs e as NTN-Fs (atualmente chamados de Tesouro Prefixado) – suas respectivas composições podem ser consultadas aqui.

Já o IMA-B é um índice que acompanha o desempenho dos títulos do Tesouro IPCA+ (as famosas NTN-Bs, como eram chamadas antigamente), ou seja, ele representa o desempenho dos preços de mercado dos títulos públicos atrelados ao IPCA + uma taxa prefixada – lembrando que o IPCA é a principal referencial de inflação do país. E o IMA-B 5+, especificamente, acompanha o desempenho dos títulos IPCA com vencimento acima de cinco anos e sua composição pode ser consultada aqui.

Notícias e eventos econômicos podem impactar o desempenho dos ativos e, consequentemente, dos índices IMA-B e IMA-B 5+ como foi o caso em 2022, quando o aumento do risco fiscal no país resultou em altas nas taxas dos títulos do Tesouro, incluindo as NTN-Bs, causando fortes oscilações em ambos os índices.

Método de análise

Para trazermos uma análise robusta dos motivos pelos quais temos tanto prefixados quanto de inflação de longo prazo em nossas carteiras, realizamos uma série de estudos quantitativos para mostrar o quão positivo para uma carteira é poder carregar esses ativos em diferentes períodos.

Vamos começar este capítulo pedindo um pouco de paciência. Trouxemos o conteúdo na forma mais palatável possível, mas não conseguimos fugir de alguns termos que só existem nos mundos acadêmico e estatístico.

Para conseguir obter resultados mais relevantes, utilizamos métodos estatísticos e de estudos de janelas móveis para verificar diversos momentos de entrada, um dos vários benefícios desse tipo de análise.

Para exemplificar por que faremos isso, imaginemos o seguinte exercício. Imagine que você quer saber quanto uma criança cresceu em um ano. Você poderia medir a altura uma vez após a primeira aferição, mas isso só lhe diria a variação da sua altura entre aquelas datas. Para entender quanto a criança cresceu ao longo de todo o ano, você poderia medir sua altura várias vezes, em momentos diferentes.

Essa é a mesma ideia por trás da análise de janela móvel. Em vez de olhar para os dados apenas uma vez, você os observa várias vezes, cada uma delas em um intervalo de tempo preestabelecido (mensal, por exemplo). Dessa forma, você pode ver como os dados mudam ao longo do tempo, assim como quanto a criança cresceu ao longo do ano.

Um dos pontos positivos sobre a análise de janela móvel é que ela lhe dá uma melhor compreensão de como os dados mudam ao longo do tempo. Você pode ver tendências, padrões e outras informações importantes que você pode não observar se apenas olhasse para os números uma vez (do período completo) ou apenas uma média desse período completo.

Da mesma forma, a avaliação dos retornos ao longo do tempo pode ser influenciada por diversos fatores, como eventos econômicos, financeiros ou políticos, e os retornos de janelas móveis permitem a avaliação do desempenho de um ativo considerando os mais diferentes fatos passados.

Além disso, os retornos de janelas móveis também são importantes para a avaliação do desempenho de um ativo em relação ao de outros ativos no mesmo período, o que é útil para comparações de performance e tomada de decisão de investimento.

Os resultados do nosso estudo

A base de dados que usamos aqui vem lá de 2003, quando os índices começaram a ser calculados pela Anbima, e os resultados que vamos apresentar são os obtidos das janelas de investimentos em cinco anos.

Então, vamos começar!

Linha azul: CDI; Linha cinza: IRF-M; Linha vermelha: IMA-B 5+Fonte: Quantum Axis

O gráfico acima mostra o retorno absoluto em janelas de cinco anos. Podemos notar que, no decorrer dos quase 20 anos dos índices, temos pouco mais de 3.600 janelas móveis de cinco anos para considerar na análise e, para cada uma dessas janelas, nós também anualizamos o retorno para compor o estudo (deixar em termos anualizados significa que temos uma média de retorno anual para esses cinco anos da janela móvel).

A mediana destes retornos anualizados ficou em 13% para o IRF-M e 15% para o IMA-B 5+. Quando comparamos com o CDI, que possui retorno mediano de 10%, a vantagem é clara. No entanto, quando observamos a variação dos retornos anuais, vemos distinções importantes.

Fora das considerações já mencionadas, foi possível perceber que, em geral, os ativos indexados à inflação apresentam variações mais elevadas em relação aos prefixados. Isso pode ser visto na comparação entre o IMA-B 5+ e o IRF-M, em que o primeiro apresenta faixas de oscilação maiores em todas as janelas de tempo. Já o CDI, que é um ativo de referência para a taxa de juros no Brasil, apresenta faixas mais baixas em relação aos outros.

Quando colocamos todos os retornos anualizados das janelas móveis de cinco anos lado a lado e organizamos dentro de faixas de retorno, é possível construir o que chamamos de distribuição normalizada. Sua forma lembra o formato de uma boca de sino, e a partir dela é possível retirar ainda mais informações importantes dos investimentos.

A partir da distribuição normalizada que citamos acima, foi possível trazer as métricas de assimetria e curtose para nossas análises, tanto do IRF-M como do IMA-B 5+, que nos fornecem informações valiosas sobre a distribuição de seus retornos. Por exemplo, uma assimetria negativa indica que existe uma maior concentração de valores na zona de valores mais elevados da amostra – no nosso caso, uma maior acumulação de retornos acima da média e mediana:

Tradução livre: quadro da esquerda: assimetria negativa; quadro central: sem assimetria, representa a curva normal perfeitamente simétrica; quadro da direita: assimetria positiva.Fonte: Spiti

Nesse caso, ambos possuem assimetria negativa, mas o IRF-M tem uma assimetria mais negativa (-0,64) em relação ao IMA-B 5+ (-0,25), o que significa que o primeiro é mais propenso a ter retornos concentrados na cauda da direita, ou seja, maiores do que a média.

Já a curtose é uma medida que nos ajuda a entender como a distribuição dos dados em uma série estatística é concentrada ou espalhada. Imagine que você tem uma pilha de dominós, e se ela é pouco alta e mais achatada, significa que os dominós estão bem espalhados.

Se a pilha é alta e menos achatada, significa que estão mais concentradas no meio. A curtose nos ajuda a medir esse tipo de concentração ou espalhamento. Então, basicamente, essa medida nos diz se os dados estão mais concentrados ou mais espalhados em uma série estatística.

Uma das possíveis análises em uma série mais espalhada é ela ser mais suscetível aos chamados eventos de caudas, que são aqueles que estressam ativos tanto positivamente quanto negativamente. A título de curiosidade, no desenho a seguir, uma curva que possui percentual relevante de evento de cauda é a pintada na cor laranja; já uma que possui pouquíssimo percentual é a verde.

Fonte: Spiti

Portanto, em termos estatísticos, a curtose é uma medida que mede eventos de cauda, com uma curtose mais alta indicando mais eventos extremos (outliers) em comparação com uma curtose mais baixa.

O IRF-M tem uma curtose positiva de 0,30, enquanto o IMA-B 5+, uma curtose negativa de -1,32, indicando que o IRF-M é menos propenso a ter eventos extremos se comparado ao IMA-B 5+.

Agora, em termos de faixa de retorno, ainda considerando os retornos anualizados das janelas de cinco anos, o IRF-M tem um intervalo de 9 pontos percentuais (de 7% a 16%), enquanto o IMA-B 5+, de 13 p.p. (de 7% a 20%). Isso significa que IMA-B 5+ tem um intervalo mais amplo de retornos em comparação com o outro índice. Ou seja, mais uma medida que mostra que os retornos médios do IMA-B 5+ apresentam mais oscilação, mas notem que a banda positiva do IMA-B 5+ (20%) foi superior à do IRF-M (16%).

Com esses dados, é possível aferir que, em uma carteira de longo prazo, é positivo ter uma mistura de ativos IRF-M e IMA-B 5+, pois eles têm perfis de risco e retorno diferentes. O primeiro oferece uma opção de menor risco com retornos relativamente consistentes, enquanto o segundo oferece retornos mais altos, ainda que com uma volatilidade maior.

Importante mencionar que neste relatório focamos nas janelas móveis de cinco anos, pois acopla os diferentes ciclos econômicos e torna a análise mais ampla. Mesmo assim, internamente calculamos para janelas de três anos e um ano, e os resultados obtidos foram similares, corroborando as tendências observadas até aqui.

Ao fim da etapa de estudos, concluímos que uma carteira que combina de forma eficiente esses ativos pode proporcionar um melhor equilíbrio entre risco e recompensa, ajudando a gerenciar o risco geral da carteira e alcançar objetivos de investimento de longo prazo.

Considerações finais sobre as recomendações

A análise dos dados sugere que, em comparação com o CDI, IRF-M (índice que referenciou os prefixados do nosso estudo) e IMA-B 5+ (que referenciou os indexados à inflação), dois dos principais ínedices do mercado, apresentam oscilações mais elevadas nas janelas de tempo de um, três e cinco anos, mas também apresentam potencial de retornos mais elevados.

No entanto, é importante destacar que, ao longo do tempo, a carteira diversificada que inclui ativos prefixados (atrelados ao IRF-M) e indexados à inflação (IMA-B 5+) pode ajudar a equilibrar o risco e maximizar os retornos. É por isso que é importante considerar o investimento em ambos os tipos de ativos para o longo prazo, a fim de obter uma carteira equilibrada e diversificada.

Tanto IRF-M quanto IMA-B5+ trouxeram vantagens, como a consistência do IRF-M na distribuição de retorno, ou a maior presença de eventos de cauda do IMA-B 5+, e podem trabalhar em conjunto a fim de otimizar a carteira.

Ao investir em ativos indexados à inflação de longo prazo, você tem exposição a variações mais elevadas, mas também à possibilidade de retornos mais elevados. Já ao investir em ativos prefixados, conta com uma expectativa de retorno mais previsível, ainda que menor.

Com isso em mente, uma conclusão possível é que ambas as classes possuem vantagens e desvantagens, e devem ter um papel consolidado em uma carteira de investimentos, e o percentual de exposição vai ditar o perfil de volatilidade da carteira, tendo em vista a maior oscilação dos ativos de inflação de longo prazo.

E, como sempre, o mais importante é diversificar a carteira de investimentos e considerar a combinação entre esses ativos, bem como a janela de tempo desejada para o investimento. Especificamente para médio e longo prazos, a diversificação pode ajudar a equilibrar o risco e maximizar os retornos ao longo do tempo.

Um dos benefícios de abordar a análise usando dados desde 2003 é que conseguimos trazer uma visão completa dos resultados dos ativos, considerando tanto períodos muito positivos quanto aqueles mais difíceis. Mesmo com a presença de eventos adversos no mercado, os resultados mostram que é vantajoso possuir uma parcela estrutural desses ativos na carteira. Isso demonstra a importância da diversificação e da escolha de ativos de longo prazo para uma carteira sólida e resiliente.

Como exemplos de títulos prefixados de curto prazo, temos o Tesouro Prefixado 2026. Já entre os títulos indexados à inflação de longo prazo, o IPCA+ 2045.

Fonte: Tesouro Direto

Ficamos por aqui e esperamos que tenha gostado deste relatório de recomendação de dois dos ativos mais relevantes do mercado financeiro brasileiro.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de Estrategista da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como um grande especialista em Renda Fixa. Bacharel em Economia pela FGV e pela Nova School of Business and Economics, além de ter mais de 10 anos na gestão de fundos de investimento de Renda Fixa, Crédito Privado e Multimercado, hoje ele ensina seus alunos e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.