Relatórios

A importância de manter seus investimentos mesmo em momentos de grandes incertezas

Escrito por Fillipe Colus, Guilherme Cadonhotto, Luciana Seabra em RENDA TOTAL

8 min de leitura

Neste relatório, trazemos o nosso segundo estudo comportamental referente a investimentos. Queremos avaliar qual o melhor comportamento a se tomar considerando a relação risco vs retorno em cenários de elevação do risco.

Assim, este estudo vem para completar aquele publicado no relatório passado, em que concluímos que a prática de investir sempre é a melhor estratégia para o longo prazo, e que a melhor opção para manter a relação risco vs retorno é não parar de investir em momentos de risco – obviamente, escolhendo bons investimentos e seguindo sempre os percentuais recomendados.

Para isso, vamos simular duas carteiras ao longo de 10 anos com estratégias diferentes e coletar os principais resultados, e já adiantamos que o melhor caminho é manter os investimentos que possuem risco de mercado em momentos de grandes incertezas.

Motivação

Neste estudo, queremos analisar algo que muitos assinantes sugerem para nós: trocar os investimentos de risco de nossa carteira por indexados ao CDI em momentos de incerteza mais elevada, ou seja, quando o risco atual está maior que o risco histórico.

A partir dos resultados obtidos, esperamos trazer um pouco de tranquilidade para o coração das pessoas que estão inquietas com a piora de mercado do ano de 2021 e reforçar que o ideal em momentos de risco alto, como o atual, por exemplo, não é trocar os investimentos com tais características por ativos de menor risco.

Medida de incertezas EMBI+Br: origem e cálculo

Novamente vamos utilizar o EMBI+Br (Emerging Markets Bond Index Plus) para aferir a percepção de incertezas e risco do país. O índice é calculado e divulgado diariamente pela equipe de economistas responsáveis do J.P. Morgan. As medidas de risco usadas são comparativas entre o país avaliado com os países desenvolvidos, sendo que a referência normalmente são os Estados Unidos.

O principal indicador é o chamado “spread soberano”, que nada mais é que o diferencial de retorno em relação a um título público de prazo equivalente emitido pelo Tesouro dos EUA. Ou seja, é o valor que uma cesta de títulos públicos brasileiros paga a mais que uma cesta de títulos norte-americanos de mesmo vencimento.

Assim, se essa diferença aumentar, por exemplo, quer dizer que a percepção de risco do país também cresce.

Esse indicador data de 2004. Desde então, o Brasil passou por muitas crises, e, para diluirmos os efeitos desses eventos pontuais, que são momentâneos, vamos utilizar a média móvel do EMBI+Br de 3 anos, ou seja, a ideia é comparar a percepção do risco atual com a média de 3 anos.

Fonte: Ipeadata – Elaboração: Spiti

Montando o estudo: metodologia e carteiras

Para medirmos a eficiência da estratégia de retirar investimentos considerados arriscados e aplicar em indexados ao CDI, vamos simular duas carteiras:

  • Despreocupada: é a carteira que vai permanecer investida em ativos de risco durante todo o período analisado. Esses ativos de risco da carteira serão igualmente divididos entre Bolsa, fundos imobiliários, títulos indexados à inflação, prefixados de longo prazo e indexados ao CDI.
  • Conservadora: essa carteira também vai investir em ativos que possuem risco, assim como a despreocupada, porém quando o nível de incerteza do país, medido pelo EMBI+Br, ultrapassar a média histórica, os investimentos serão retirados dessa carteira de risco e alocados 100% em indexados ao CDI. Quando o risco do país voltar a ficar baixo, a carteira conservadora volta a aplicar em Bolsa, fundos imobiliários, títulos indexados à inflação, prefixados de longo prazo e indexados ao CDI.

Assim, a carteira despreocupada vai permanecer investida o tempo todo, então não vai sofrer alteração em sua alocação durante o período. Já a conservadora vai fazer realocações dos investimentos ao longo do caminho. Para exemplificar os momentos de alto e baixo riscos, em que a conservadora vai alterar os investimentos, fizemos o seguinte gráfico em que podemos notar tais situações:

Fonte: Ipeadata – Elaboração: Spiti

Resultado: manter os investimentos ainda é a melhor opção

Num primeiro olhar, ficamos tentados a imaginar que a carteira conservadora tem a estratégia mais eficiente, uma vez que aparentemente se beneficia do melhor dos dois mundos: a estabilidade do CDI em momentos de risco e o retorno dos índices nos momentos de menor risco:

Fonte: Quantum – Elaboração: Spiti

Mas os resultados nos mostraram outro fim para a carteira conservadora, que performou pior que a carteira despreocupada:

Fonte: Quantum – Elaboração: Spiti

Já vimos que a estratégia que mais compensou foi a de manter o investimento o tempo todo.

Mas sabe o que é mais impressionante ainda? Descobrir que fazer essa troca constante de investimentos da carteira conservadora é pior que manter o investimento no CDI pelo período todo:

Retorno a.a (%)Volatilidade a.a (%)
CDI8,66%0,2%
Despreocupada9,37%6,7%
Conservadora7,90%4,7%

Fonte: Quantum – Elaboração: Spiti

Ou seja, a pessoa que tenta fugir de períodos de risco tem uma rentabilidade menor e volatilidade muito maior que do CDI.

Agora resta a pergunta: por que isso aconteceu?

Impostos e risco: as duas palavras-chave

O primeiro fator é o pagamento de impostos. Nessa simulação, consideramos também o seu impacto ao trocar de posição, e esse é um dos fatores pelo qual a carteira conservadora performa negativamente. No caso, nos 11 anos analisados, houve nada menos que 65 movimentações, ou seja, o pagamento de impostos foi feito 64 VEZES, ao passo que a despreocupada pagará apenas uma vez no momento do resgate.

Entender como se dá o pagamento de impostos é um ponto muito importante para quem investe. A Receita Federal vai atrás do seu dinheiro de investimento em renda fixa de duas formas: o Imposto de Renda (IR) e o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).

No mercado de renda fixa, o IR vai incidir sobre seus rendimentos obtidos seguindo a tabela regressiva de alíquotas, e o IOF vai incidir sobre o rendimento se sacar seus investimentos até 30 dias após sua compra.

Importante lembrar que os rendimentos que você obtiver através de títulos públicos estarão suscetíveis à cobrança de IR e IOF. A taxa cobrada (alíquota) é decrescente, conforme o prazo durante o qual seu dinheiro fica aplicado.

As tabelas deixam isso mais claro:

Alíquota do IR

Fonte: Receita Federal

Alíquota do IOF

Fonte: Receita Federal

Já para o caso de renda variável, a tributação é mais complexa – até fizemos um relatório exclusivamente sobre isso. Ao realizar as movimentações de troca de investimento, existe o pagamento de imposto sobre os rendimentos, feito através de Darf (o Documento de Arrecadação de Receitas Federais).

No entanto, seja na renda fixa (cujo pagamento é feito de forma automática), seja na variável, as movimentações penalizam a rentabilidade final da carteira.

Um segundo fator pelo qual a carteira conservadora performa abaixo da sua concorrente é pela perda dos bons momentos de retorno, que acontecem justamente perto dos momentos de elevação de risco.

Um exemplo disso aconteceu na crise provocada pelas incertezas geradas pela pandemia, que em pouco tempo os ativos tiveram uma forte recuperação. Note no gráfico a seguir que a diferença aumenta drasticamente após o ápice da crise para a carteira conservadora. Isso porque períodos de elevadas incertezas são ótimos momentos de entrada em ativos de risco, e a carteira conservadora comprova isso.

Nesses períodos de frenesi e aumento de risco, como o que vimos em 2020 e ao longo de 2021, em especial depois de julho deste ano, investidores começam a vender suas posições abaixo do valor de mercado para se desfazer da posição o quanto antes.

Quando muitas pessoas querem vender e poucas querem comprar, o preço naturalmente cai. Para exemplificar isso e demonstrar a relação entre o preço de um ativo e a elevação de risco, veja por exemplo a evolução do múltiplo P/L (preço sobre lucro) do índice da Bolsa de Valores, o Ibovespa. Esse múltiplo dá uma ideia do quão cara ou barata a Bolsa se encontra, e, quanto menor seu valor, mais barata está:

Fonte: Itaú BBA

Veja que, a partir de janeiro de 2021, esse indicador estava abaixo da média histórica de 10 anos (11,6x) e desde então só diminuiu, atingindo 7,28x atualmente, de acordo com dados da Bloomberg, ou seja, mais barato que sua média histórica.

Esse movimento de barateamento aconteceu justamente em um momento de elevação de risco, que esteve acima da média móvel em boa parte do ano:

Fonte: Ipeadata – Elaboração: Spiti

Ao colocarmos os dois gráficos sobrepostos, conseguimos visualizar uma relação inversamente proporcional no período entre o preço de ativos e o risco: quanto maior o risco, mais baratos os ativos tendem a ficar (no caso, tomamos como base o Ibovespa):

Fontes: Bloomberg e Ipeadata – Elaboração: Spiti

Ou seja, a pessoa que tenta fugir do risco tem chances de comprar os ativos nos momentos em que estão caros e vendê-los nos que estão baratos.

Esses dois motivos (impostos e o preço dos ativos em momentos de alto risco) fizeram com que a carteira conservadora tivesse um retorno pior que a carteira despreocupada e até mesmo que aquela investida totalmente em CDI, sem reduzir de forma considerável a volatilidade no período.

O estudo aplicado à carteira Renda Total

O estudo trazido neste relatório vem para mostrar que, em momentos de alto risco, o ideal não é fazer trocas para investir em ativos com pouco risco de mercado. E, quando pensamos em uma carteira de renda, como a Renda Total, existe um problema adicional: a redução dos dividendos.

A única forma de garantir o pagamento de proventos de ativos é possuir o ativo em carteira na data limite imposta pelo fundo ou empresa. No caso da nossa análise, a carteira conservadora ficou aplicada em CDI em 30% do período.

Ou seja, durante esse período, que no caso do estudo seria de aproximadamente 3 anos, a pessoa que optou por sacar seus investimentos e realocá-los em CDI ficará sem o pagamento de dividendos, que no caso da nossa carteira se encontra atualmente em 8,67% a.a. após as últimas alterações.

Como mostramos no relatório, os momentos atuais são desafiadores para o país, e isso é refletido no aumento da percepção de risco. Porém, esse estudo deixa claro que não é hora de diminuirmos o risco de nossa carteira – inclusive, ele marca um bom momento de compra ou de correção de percentual na carteira se esse for o seu caso.

Conclusão

O relatório de hoje finaliza a nossa série de estudos comportamentais sobre quais as atitudes mais prudentes que investidoras e investidores devem ter em mente. No estudo trazido no relatório passado, concluímos que a melhor atitude quando o assunto é estratégia de investimentos é a de não parar de investir seguindo boas recomendações e manter a alocação percentual nos momentos de baixa ou alta incerteza.

Obtivemos aqui ainda uma segunda conclusão tão importante quanto a anterior: em momentos de elevadas incertezas, o ideal é manter os seus investimentos de risco, e não substituí-los por investimentos de menor risco. Essa prática não melhora o seu retorno no longo prazo, tampouco diminui a volatilidade dos seus investimentos.

E os fatores que pioram o retorno da carteira que tem essa prática são o pagamento de impostos na movimentação e a desvalorização de ativos em momentos de elevação de risco.

Com isso, esperamos trazer um pouco de calma para as pessoas que estão preocupadas e ansiosas com os seus investimentos. Ao analisarmos períodos em que as incertezas estavam elevadas, a melhor prática é, de fato, manter os investimentos, sem sacá-los nem trocá-los por investimentos de baixo risco.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Luciana Seabra

Fundadora

Fundadora da Spiti, uma das maiores casas de análise do Brasil, Luciana Seabra é reconhecida por sua abordagem clara e acessível para explicar assuntos complexos relacionados ao mundo financeiro para o público em geral.