Você sabia que Isaac Newton, o pai da física moderna, era também um investidor de grande calibre?
Porém, talvez você desconheça que, apesar de ser um gênio em sua área de atuação, ele cometeu uma gafe nos seus investimentos que comprometeu todas suas economias quando chegou aos 80 anos de idade.
Isso aconteceu há quase 300 anos, mas, como vamos mostrar, poderia muito bem ter se passado atualmente. Vamos aproveitar essa história para ilustrar a importância do nosso relatório, que vai avaliar qual o número ideal de ações a se ter em uma carteira dessa classe de ativos para maximizar a relação risco vs retorno, além de analisar como podemos mensurá-la.
Vamos lá?
O gênio que quase se perdeu nos investimentos
Considerado o pai da física moderna, Isaac Newton foi responsável por inúmeros avanços no campo da matemática e revolucionou áreas como mecânica clássica, física ótica e gravitação. Ainda em vida, foi considerado um gênio sem igual no seu ramo de atuação, e até hoje seus estudos possuem forte influência sobre a humanidade.
Devido ao seu desempenho no mundo acadêmico e tendo atuado posteriormente por 27 anos como mestre na Casa da Moeda da Inglaterra, Newton possuía uma remuneração alta e era considerado rico para os padrões da época – tinha uma carruagem puxada por cavalos e vários empregados em sua casa, por exemplo.
A propriedade de terras era o marcador tradicional da riqueza e do status social britânicos. Newton, no entanto, nunca adquiriu nenhum imóvel significativo. Ele foi um dos primeiros a colocar seu dinheiro principalmente em instrumentos financeiros, uma possibilidade relativamente nova na época. Seus investimentos se concentraram em títulos do governo e em ações.
Ele também se tornou, em 1710, um dos primeiros investidores da South Sea Company, uma empresa estatal com capital aberto que cuidava de dívidas não pagas a credores do exército britânico. Ou seja, o governo britânico, que não conseguia quitar todas suas dívidas, cedia algo equivalente a ações da companhia, com a promessa de pagamento de dividendos recorrentes.
Com o fim de grandes guerras da época, e a visão de horizonte próspero para o governo britânico, os ativos dessa empresa começaram a apresentar uma forte volatilidade positiva no ano de 1720.
Newton já era investidor da companhia, mas, segundo relatos históricos, ao ver seus amigos enriquecendo com investimentos feitos na South Sea Company, decidiu alocar todas as economias de uma vida inteira em uma única empresa para perder quase todo seu dinheiro em menos de seis meses.
Fonte: CNBC
Para entender o gráfico:
- Newton investe um pouco na empresa.
- Newton realiza vendas, feliz com seus ganhos.
- Amigos de Newton reportam terem ficados ricos com o investimento na empresa.
- Newton entra novamente na South Sea Company com grande parte de seu capital.
- Newton desinveste, perdendo quase todo sem dinheiro
A despeito do que pode parecer, a empresa em questão, mesmo apresentando essa altíssima volatilidade no ano de 1720 e um colapso de seu valor de mercado, continuou existindo até a metade do século XIX.
Após a crise daquele ano, a companhia fez a reestruturação de capital, mas continuou atuando normalmente, repassando os pagamentos do governo britânico aos credores por muitos anos.
Inclusive, investidores que compraram as ações antes de 1719 e apenas seguraram os seus investimentos por alguns anos receberam bons retornos de capital, em torno de 50%, em cima de generosos dividendos.
A volatilidade pode ser muito tentadora no curto prazo, mas, se não dosarmos a quantidade de investimentos feitos, calcular o montante a ser aportado e ter bem definido o horizonte de investimento, podemos sofrer duras perdas, assim como Isaac Newton e outras milhares de pessoas que seguiram o frenesi do momento.
Existem relatos de que milhares de pessoas perderam muito dinheiro nesse fatídico ano por não aguentarem a volatilidade da ação e por não terem ajustado seu portfólio de forma adequada, já que concentraram todo o dinheiro em uma única opção.
Agora, veja que interessante. Como bem dizemos, se olharmos para um horizonte de tempo maior, os investidores que aguentaram a volatilidade das ações da South Sea Company tiveram retornos expressivos em seu portfólio. O ponto é que a volatilidade não deve ser vista como inimiga, ela pode ser uma aliada do seu retorno, desde que dosada da maneira certa.
De forma simplificada, as pessoas que possuíam em sua carteira uma exposição de apenas 5% à empresa South Sea Company antes de 1719 tiveram performance de mais de 10%, levando em consideração o retorno dos anos seguintes.
E não tem nenhum problema em acreditar em uma tese de investimentos e querer aumentar a posição nela, porém é importante se preparar para as possíveis oscilações, algo nem todo mundo aguenta!
Assim como diz o ditado, a diferença entre o remédio e o veneno é a dose, e com a volatilidade não é diferente! Se abusarmos muito dela e concentrarmos de forma excessiva nossos investimentos, ela pode nos levar a tomar decisões que vão prejudicar a performance da nossa carteira. Mas, se soubermos dosar e limitar essa oscilação, ela pode ser um aliada imprescindível na nossa busca por liberdade financeira.
Agora que já vimos com a história de Isaac Newton que concentrar demais pode ser perigoso, resta a dúvida: existe um número de ativos que maximiza a minha relação risco vs retorno? E como quantificar isso?
Diversificação: até quando basta?
O nosso primeiro escudo para nos protegermos contra a volatilidade é a diversificação, mas você já parou para pensar o porquê disso? Em uma explicação simplificada, isso acontece porque, ao misturar ativos que “balançam” de forma diferente em um mesmo momento, o risco total da carteira é reduzido.
Em termos mais técnicos (ou “economês”, como gostamos de dizer), o risco de uma carteira é formado por duas partes. Uma delas é chamada de não sistemática, que é intrínseca a cada investimento, ou seja, leva em conta natureza e características próprias. Um exemplo são as ações de uma empresa de mineração, que vão estar expostas aos riscos específicos desse segmento (um deles pode ser a queda no preço do minério de ferro no mercado global). A outra, a sistemática, é a parte comum a todas elas. Pense na crise gerada pela pandemia atual, que afetou todas as empresas, independentemente do setor a que pertencem.
Quando diversificamos, nós reduzimos justamente os riscos não sistemáticos, e o gráfico abaixo mostra como isso acontece:
Repare que, seguindo a teoria, sempre vai sobrar uma parcela de risco mesmo que a gente diversifique ao extremo. Mas, como vamos mostrar mais adiante, encontrar esse ponto de diversificação não é trivial!
Para ilustrar que diversificar uma carteira não é uma tarefa simples, fizemos uma simulação com base nas 37 melhores ações dos últimos três anos. Criamos carteiras aumentando o número de ativos começando dos melhores ativos para os piores.
Como base para os exemplos, vamos usar um aporte inicial de R$ 100 mil. A primeira carteira começa com todo esse dinheiro investido exclusivamente na ação com melhor desempenho nos últimos três anos; para a segunda, investimos R$ 50 mil nas duas melhores ações cada; a terceira, R$ 33.333 em cada uma das três melhores, e assim por diante, até chegarmos a 37 ativos.
Na tabela a seguir, temos três colunas com os dados de retorno total de cada carteira, volatilidade e índice de Sharpe, indicador a que dedicamos um relatório exclusivo – de forma breve, ele ajuda a avaliar o retorno de um investimento comparado ao seu risco.
Existem alguns cuidados na hora de usar o índice de Sharpe na análise, porém, via de regra, quanto maior o número, melhor a relação risco vs retorno (a exceção se dá quando obtemos um número negativo). Agora vamos aos resultados:
Fonte: Spiti
Conforme adicionamos ativos nas carteiras, o nosso retorno diminui. Isso faz sentido, afinal começamos com os ativos que tiveram o melhor desempenho e colocamos aqueles com retornos menores. Nenhuma surpresa até aí.
Porém, a carteira com as três melhores ações da Bolsa nos últimos três anos, ou seja, aquela que investiu R$ 33.333 em cada ativo, apresentou tanto redução do retorno quanto aumento da volatilidade. E mais, o índice de Sharpe dessa carteira é menor que o do portfólio com um ativo só!
Viu que, mesmo diversificando, nossa relação risco vs retorno não foi tão boa? Mas como também não gostamos da estratégia de concentrar nossa carteira em poucos ativos, vamos continuar a análise, agora com dez ações.
Em relação a todas as carteiras avaliadas, esta foi a que teve o maior índice de Sharpe, ou seja, a melhor relação risco vs retorno. E mais, aumentar o número de ativos (vide as carteiras com 18 e 37 ações) reduziu essa relação e registrou índice menor que a carteira com dez ativos.
Ou seja, a partir de certo ponto não existe mais um benefício claro de se diversificar, e quem investe começa tomar o mesmo risco sem angariar mais retorno. Detalhe: aqui estamos usando para simulação as melhores ações dos últimos três anos, ou seja, tomando como referência o melhor cenário possível do período. E, mesmo assim, vemos que comprar apenas os melhores não garante a melhor relação risco vs retorno.
Com isso em mente, aumentamos o escopo de tempo de nosso estudo, utilizando as melhores ações dos últimos dez anos para entender como a relação entre risco e retorno varia com o aumento da diversificação.
Assim como fizemos com a tabela anterior, vamos tomar como base o montante de R$ 100 mil, começando com uma carteira 100% alocada no melhor ativo dos dez últimos anos, depois uma em que se investiu em duas ações R$ 50 mil cada, até chegarmos na carteira com todos os ativos.
O primeiro gráfico mostra o retorno total das carteiras (eixo vertical) contra o número de ativos (eixo horizontal). Novamente, assim como vimos na nossa primeira análise, nenhuma surpresa, pois a cada carteira adicionamos ativos com rentabilidades menores, então reduzimos o nosso retorno total.
Fonte: Spiti
O gráfico abaixo mostra o retorno total junto com o risco de cada carteira. Observe como a volatilidade ao ano da carteira cai drasticamente ao adicionarmos ativos. Porém, isso se estabiliza até certo ponto e volta a subir levemente nas carteiras com mais ativos.
Fonte: Spiti
E, no gráfico a seguir, trazemos o risco da carteira em relação ao índice de Sharpe. Lembre-se de que, numa carteira, sempre buscamos o maior valor possível para otimizar nossa relação risco vs retorno.
Fonte: Spiti
Veja que existe um intervalo em que o Sharpe tem um pico e depois começa a cair, sendo esta a região mais interessante de se estabelecer a fim de maximizar a relação entre risco e retorno. Lembrando que esse estudo foi feito utilizando os dados do Ibovespa, ou seja, a base foi o mercado de ações brasileiro, e é apenas uma sugestão para quem investe, não uma regra.
A lição que tiramos é o cuidado que se deve ter em relação à pulverização dos investimentos. Se a intenção é tomar uma certa parcela de volatilidade, deve-se tentar pelo menos otimizar o retorno sem diversificar ao extremo.
Da mesma forma, outro ponto importante é que não se deve investir em apenas uma ou duas ações, pois a volatilidade gerada por essa alta concentração no curto prazo pode nos levar a tomar decisões duras para a nossa carteira.
Sendo assim, o ideal é utilizar a expor nossa carteira de forma inteligente em bons ativos e de maneira comedida, a fim de utilizar a volatilidade a nosso favor.
E como anda a volatilidade no mercado atualmente?
Análise da volatilidade no cenário atual
As notícias mais recentes relacionadas ao mercado financeiro têm chamado atenção até de pessoas que não investem, e o destaque dado ao difícil cenário atual nas manchetes ajudam nisso. Mas vamos mostrar que esse é apenas um lado da história.
Em apenas uma pesquisa rápida, encontramos as seguintes chamadas:
Fontes: ADVFN e Valor
Não, não queremos negar fatos. Realmente, quando olhamos os acontecimentos das últimas semanas, como a elevação dos juros nos países desenvolvidos, o receio em relação à atividade econômica da China para os próximos meses e a inflação persistente e difusa, tudo isso mantém o componente de risco nos mercados em alta e adiciona volatilidade em âmbitos local e internacional, tanto na renda variável quanto na fixa.
Porém, ao nosso ver, isso é apenas uma face da história, pois quem possui uma carteira de investimento bem alocada não precisa se preocupar de forma estrutural com todos esses riscos – inclusive, pode até se beneficiar desse cenário.
Como mencionamos, quando dosada de forma correta, a volatilidade pode ser nossa aliada. Aqui na série Renda Total, temos mecanismos que mitigam os efeitos dos riscos e da volatilidade que as manchetes de jornais tanto frisaram, com destaque para diversificação setorial e exposição ao dólar. Só na nossa carteira original temos 17 FIIs, sete ações, quatro títulos públicos com vencimentos distintos, um fundo cambial, dois fundos de debêntures incentivadas, uma debênture perpétua e uma LCA, uma composição equilibrada de setores e investimentos diversos.
Falando especificamente das ações, atualmente a nossa carteira possui sete, que pertencem a seis setores distintos de atuação e totalizam 30% do portfólio total. E a nossa seleção apresenta uma performance melhor em relação ao Ibovespa, principal benchmark da Bolsa, de 38,9% desde o início da série.
Fonte: Spiti
E, nesse período, quando analisamos o P/L (preço sobre lucro), indicador que mostra se as ações estão caras ou descontadas, vemos que elas trabalham em um patamar abaixo da média, ou seja, com desconto. Essa avaliação mostra que o momento é bom para começar a investir nas ações selecionadas na série Renda Total.
Fonte: Spiti
Conclusão
Como mostramos, concentrar nossos investimentos em um único ou pouquíssimos ativos pode adicionar muita volatilidade à carteira e nos levar a tomar decisões das quais podemos nos arrepender depois.
Por outro lado, a volatilidade pode ser nossa aliada se soubermos utilizá-la a nosso favor, dosando-a em uma carteira bem estruturada e diversificada, e o relatório de hoje trouxe exemplos positivos disso.
Também mostramos que existem alguns perigos na diversificação extrema dos nossos investimentos. Isso faz com que a relação risco vs retorno diminua com o aumento excessivo de ativos.
E, como vimos, isso pode acontecer com qualquer pessoa, até mesmo com o maior gênio da física moderna, Isaac Newton. Assim, fica a lição para todos nós: precisamos saber até que ponto aguentamos volatilidade para não ultrapassar o nosso limite e penalizar os nossos investimentos por não aguentar as oscilações no curto prazo.
Com isso em mente, e pensando em evitar a angústia que a volatilidade nos investimentos pode trazer, reforçamos uma das principais recomendações nesse universo: não concentre a sua carteira de investimentos em pouquíssimos ativos. Como os resultados dos estudos feitos aqui nos mostraram, a diversificação traz benefícios tanto na redução do risco quanto na melhoria da relação risco vs retorno, observado no índice de Sharpe.
Um abraço,
Fê Colus e Gui Cadonhotto