Relatórios

A performance das carteiras do Spiti One em fevereiro de 2023 e desde o início

Escrito por Rodrigo Xavier, Felipe Arrais, Guilherme Cadonhotto, Leandro Siqueira, Ricardo Figueiredo, Thales Inada

19 min de leitura

Olá, assinantes 

A nossa jornada de pessoa investidora é como uma longa viagem transatlântica. Se seguirmos no caminho certo, com todas as instalações do navio adequadas e tripulantes que cumpram as regras, temos tudo para chegar ao destino final em segurança – que, no nosso caso, seria atingir a estabilidade financeira.

E, convenhamos, os últimos meses têm sido difíceis de serem navegados. Os mares (ou mercados) estão nervosos, e o nosso navio (ou a nossa carteira de investimentos) vem chacoalhando bastante.

Por isso, manter o plano de longo prazo e se manter fiel à estratégia é o mais importante neste momento. Parafraseando o exemplo da viagem de navio, seria como se manter na “rota planejada”, pois nossas “instalações” são robustas, visto que temos uma filosofia de alocação eficiente e o acompanhando de analistas muito capacitados.

No Spiti One, as carteiras são construídas para serem vencedoras no médio e longo prazos, mas isso não impede que passemos momentos difíceis no curto prazo. Lembremos sempre que eles são normais dentro da nossa jornada e, por vezes, é daí que surgem algumas oportunidades. Estamos sempre atentos ao mercado para compartilhar com vocês o que tiver de melhor à disposição.

Nessa toada, o mês de fevereiro foi bastante desafiador para ativos de risco no Brasil. Para se ter uma ideia, o Ibovespa caiu 7,49% (pior queda mensal desde julho/2022), e isso prejudicou um pouco o desempenho das carteiras do Spiti One, como veremos ao longo do relatório.

As declarações do novo governo brasileiro têm preocupado investidores e investidoras, como uma possível interferência na independência do Banco Central, a ampliação da base de gastos, entre outros, desestimularam o mercado, e isso se refletiu nas quedas dos preços dos ativos e dos índices de confiança.

No decorrer do mês de março/2023, é provável que o governo apresente o novo arcabouço fiscal, o qual está sendo visto com bastante desconfiança por gestores de fundos e especialistas de mercado, por não acreditarem que será suficiente para compensar os gastos previstos para os próximos anos. Segundo o Boletim Focus de 6/3/2023, o déficit potencial para 2023 será de aproximadamente 1% do PIB, ou R$ 107,4 bilhões.    

No cenário internacional, o mês também foi complicado, já que o rumo nas expectativas das taxas de juros se altera a todo tempo, trazendo muita incerteza. Em fevereiro, os dados de atividade dos Estados Unidos vieram muito acima das expectativas, o que, segundo Jerome Powell (presidente do Fed, o banco central de lá), possibilitaria uma política mais dura no combate à inflação via aumento das taxas de juros.

E já na primeira quinzena de março, a quebra de alguns bancos, em especial do SVB (Silicon Valley Bank, que era o 16º maior dos Estados Unidos), trouxe tensões relacionadas a riscos sistêmicos, que com certeza serão considerados pelo Fed na hora de decidir o rumo da política monetária norte-americana, talvez menos intensa como se pensava em fevereiro.

Relembrando detalhes de como calculamos as carteiras

Antes de partir para os resultados, vamos lembrar algumas premissas importantes que consideramos nos cálculos:

- Para todos os ativos que recebem dividendos ou juros sobre capital próprio (JCP), nossas contas vão considerar os reinvestimentos desses valores no mesmo ativo que originou o pagamento, para melhor refletir a vida real nos números. Importante lembrar que os principais índices de referência do mercado, como o Ibovespa e o Ifix, também são calculados dessa maneira;

- Os gestores de fundos de investimentos tradicionais e ETFs recomendados já fazem os reinvestimentos automaticamente dentro do fundo;

- O cálculo supõe que o rebalanceamento é diário, ou seja, consideramos que todos os dias as carteiras estão exatamente nos percentuais indicados. Sabemos que isso não é idêntico à realidade, mas como cada investidor ou investidora tem suas particularidades na periodicidade dos aportes, timing de construção do portfólio, entre outros fatores, optamos por seguir dessa forma, que também é como grande parte dos índices de mercado são calculados e não deixa de ser uma ótima proxy.

- Caso tenha interesse em entender mais detalhes sobre como são calculadas nossas carteiras, bem como os motivos que nos fez decidir pelas premissas e cálculos, sugerimos que leia o relatório de 22/2/2023, “A performance das carteiras do Spiti One: nossa primeira divulgação de resultados”.

Considerações iniciais sobre os resultados

Vamos ressaltar alguns pontos fundamentais para a compreensão dos resultados:

1) Na apresentação de resultados, serão exibidas tabelas com foco no mês de fevereiro/2023 e no acumulado desde o início do Spiti One (período entre 7/11/2022 e 28/2/2023).

2) Neste momento, temos 52 opções de ativos compondo as sete carteiras de ativo e, por coincidência, também são 52 alternativas para executar via fundos.

3) No relatório deste mês, aproveitamos para fazer uma melhoria no nosso benchmark da filosofia do Spiti One, dividindo a parcela do USDB11, que detinha peso de 6,8%, para repartir em 4,75 pontos percentuais em USDB11 e 2,05 pontos percentuais em BNDX11 (ou 70% e 30%). Essa combinação deixa a renda fixa global mais equilibrada, visto que o USDB11 considera renda fixa de alta qualidade nos Estados Unidos, e o BNDX11, ao redor do mundo, exceto Estados Unidos, refletindo o tamanho dos mercados globalmente. O restante continuaria igual.

Abaixo, listamos como ficou:

- 15% de CDI;

- 20% de IMA-B (cesta de títulos públicos indexados à inflação);

- 15% de Ifix (composto pelos fundos imobiliários listados na B3, mediante metodologia própria);

- 15% de Ibovespa (composto pelas ações listados na B3, mediante metodologia própria);

- 12% de IHFA (índice de hedge funds Anbima, uma média dos multimercados mais arrojados);

- 10,2% de WRLD11 (ETF com a média das ações mundo afora, já ponderado pelos tamanhos dos mercados);

- 4,75% de USDB11 (ETF que investe em bonds de alta qualidade norte-americanos);

- 2,05% de BNDX11 (ETF que investe em bonds de alta qualidade exceto nos Estados Unidos);

- 3% de ouro;

- 3% de Bitcoin.

Passados todos os pontos pertinentes, vamos aos números!

Retorno total das carteiras

Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Spiti

Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Spiti

Para facilitar sua compreensão dos resultados, também deixamos abaixo uma lista com a rentabilidade de todos os ativos e fundos pertencentes às 14 carteiras, lembrando que os ativos que recebem dividendos já foram contabilizados com estes reinvestidos. 

O mês de fevereiro foi muito duro para as carteiras do Spiti One. Das 14 alternativas que disponibilizamos, apenas uma terminou o mês positiva, que foi a de fundos para patrimônio de R$ 5 mil.

No que diz respeito aos resultados desde o início, somente as carteiras montadas via ativos com patrimônio de R$ 500 mil e R$ 1 milhão estão abaixo no nosso benchmark de referência composto pelos índices.

O tempo é muito curto para uma análise qualificada, mas pedimos que se lembrem do plano e tenham paciência. No caso das carteiras de maior valor, por serem mais sofisticadas também podem estar mais expostas aos riscos no curto prazo para atingir maiores retornos a médio e longo prazos.

Atribuição de performance

A atribuição de performance diz respeito ao quanto cada classe de ativo contribuiu para o resultado total da carteira, já considerando suas performances e representatividade. O total da carteira será o somatório do que foi contribuído por cada classe.

- Desde o Início

Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Spiti

Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Spiti

Desde o início, em 7/11/2022, os maiores detratores das carteiras foram os FIIs e ações. Mesmo que ambos representem apenas 15% da alocação estrutural, foram responsáveis por derrubar o retorno total médio das carteiras em 1,30% (no caso de FIIs) e 2,33% (no caso das ações) para portfólios construídos por ativos, e 1,80% daqueles constituídos por fundos, acompanhando as dificuldades de seus mercados refletidas pelos desempenhos do Ifix e Ibovespa, que caíram 6,17 e 11,19%, respectivamente.

De todos os ativos e fundos selecionados em FIIs e ações, apenas o KNCR11 (+2,25%) e a Gerdau/GGBR4 (14,36%) tiveram retorno positivo no período, o que faz parte do jogo, dado o cenário atual.

Uma parte relevante dessas quedas foram compensadas pelo desempenho satisfatório na fatia global, que, no fim de 2022, apresentou ótimo desempenho e contribui com +2,2% em média nas carteiras.

Aqui, imagine que se os 20% da fatia global tivessem rendido zero, as carteiras em média teriam -2,22% de retorno – por isso, a importância da diversificação.

Outra classe que se destacou foi a de alternativos, mas, por representar apenas 3% da alocação, contribuiu com apenas 0,36% no resultado médio.

As demais classes não apresentaram grandes destaques e as explicações mais detalhadas serão explanadas na seção adiante.

- Fevereiro/2023

Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Spiti

Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Spiti

O mês de fevereiro foi bastante conturbado por questões políticas e econômicas. Diante disso, a classe que mais machucou nossas carteiras foi a de ações, que acompanhou a queda do Ibovespa de 7,49% e fez diminuir o retorno médio das carteiras em 1,66% por ativos e 0,80% por fundos.

Pelo lado positivo, a renda fixa dinâmica, que detém 20% da alocação, proporcionou em média +0,19% nas carteiras via ativos e +0,17% via fundos. Esse resultado se explica em parte pelo patamar da Selic ainda alto e do retorno do IMA-B de +1,28%.

Outra classe que foi muito forte foi a de alternativos, que mesmo representando apenas 3% da alocação estrutural, somou em média +0,12% à performance atribuída das carteiras.

Retorno por classe de ativo

Nesta seção, vamos trazer os retornos das carteiras de forma individualizada. Por exemplo, se sua carteira inteira fosse composta apenas por uma das classes, qual seria o resultado?

A coluna Benchmark das tabelas traz o índice de referência de cada classe, que são:

- Renda fixa pós: CDI

- Renda fixa dinâmica: IMA-B

- FII: Ifix

- Ações: Ibovespa

- Fundos multimercado: IHFA

- Internacional: composição de 51% WRLD11, 23,75% USDB11, 10,25% BNDX11 e 15% ouro

- Alternativos: Bitcoin

- Total: considera os índices acima na nossa filosofia de alocação conforme gráfico abaixo.

Elaboração: Spiti

Agora vamos aos resultados por classe!

- Desde o Início

Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Spiti

Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Spiti

Em relação aos destaques, as explicações são similares ao que vimos acima, com cenário mais desafiador para FIIs e ações e resultados mais atrativos em investimentos internacionais e alternativos.

Na comparação com benchmarks, as carteiras de ações e FIIs ficam um pouco abaixo de seus benchmarks, já que têm natureza mais arriscada e, em momentos difíceis, podem performar pior, mas as teses são construídas para serem vencedoras num horizonte de investimento maior.

A renda fixa pós mostrou desempenho pouco acima do CDI na construção por ativos, com a diferença advinda do CDB 110% do Daycoval, que está presente nas carteiras a partir de R$ 30 mil. Entretanto, as carteiras de fundos ficam abaixo por conta dos eventos de crédito que ocorreram com Americanas e Light, que impactaram negativamente o retorno dos fundos de crédito mais convencionais da carteira.

Na renda fixa dinâmica, o que se viu foi o contrário do que ocorreu na renda fixa pós. A construção por ativos ficou abaixo do IMA-B por conta do desempenho ruim do Tesouro IPCA+ 2045, que caiu 8,9%, e via fundos ficou acima com a ótima contribuição do fundo Western Asset IMA-B 5 Ativo, que faz gestão ativa de alta aderência aos títulos do Tesouro IPCA de até cinco anos e rendeu 2,08% ante 0,52% do IMA-B.

Os fundos multimercados estão superando o IHFA (índice de Hedge Funds Anbima), com resultado médio de +1,36% contra -0,55% do referencial. Além disso, todas as carteiras superaram o benchmark, e das sete opções de fundos que se mostram presentes, cinco estão com resultados acima do IHFA. Destaque para os fundos Gávea Macro e Gavea Macro Plus, com retornos de 5,78 e 6,87%, respectivamente.

Nos investimentos globais, todas as carteiras estão próximas do benchmark, mas vale lembrar que, por terem uma natureza de seguir alocações mais passivas nas versões até R$ 500 mil, tendem a descolar menos do benchmark.

Fechando com os alternativos que, apesar de terem atingido bons resultados no relativo contra outras classes, viram seu principal benchmark (que é o próprio Bitcoin) acima da carteira, uma vez que que a Chainlink (LINK) caiu 14,9%, Polkadot (DOT) perdeu 7,1%, e o Ethereum (ETH) subiu apenas 0,95%, enquanto o BTC subiu 12,8%.

- Fevereiro/2023

Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Spiti

Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Spiti

Na renda fixa pós, os desempenhos de fevereiro seguiram na mesma linha do que aconteceu desde o início. As carteiras de ativos ficaram um pouco acima do CDI, impulsionadas pelo CDB 110% do Daycoval, enquanto via fundos performaram pouco abaixo por conta das dificuldades relacionadas aos eventos de crédito recentes.

Na renda fixa dinâmica, tanto os portfólios de ativos quanto de fundos desempenharam um pouco abaixo do IMA-B. Isso se explica porque todas as opções de ativo recomendados ficaram pouco abaixo do índice, exceto o Western Asset IMA-B5 ativo, que rendeu +1,40% contra +1,28% do principal referencial analisado.

As carteiras de FIIs reverteram a tendência dos últimos meses e superaram o Ifix em fevereiro. Um fator que contribuiu para esse resultado foram os desempenhos de KFOF11, com +2,84% (presente em todas as carteiras), XPML11, com +2,99% (presente nas carteiras de R$ 30 mil ou mais), e JSRE11, com +5,67% (presente nas carteiras de R$ 100 mil ou mais).

Em ações, a parte de ativos perde do Ibovespa: -10,64% na média contra -7,49% do Ibovespa. Dos 13 ativos selecionados por nossa equipe, oito estão abaixo do Ibovespa, sendo o pior retorno de PRIO3, com -20%. Já a parte de fundos ficou um pouco acima, -5,25% na média, sendo que, das oito opções, apenas duas estão abaixo do Ibovespa.

Os multimercados, assim como desde o início, também ficaram acima do benchmark no mês, com retorno médio de +0,69% contra -0,19% do IHFA. Entre as sete opções, temos cinco que superam o IHFA – destaque para o Kinea Atlas, com retorno de +2,26%.

Nos investimentos internacionais, o desempenho ficou um pouco abaixo na média, com perda de 0,59% contra -0,37% no benchmark composto para a classe. Parte do descasamento vem das quedas de ALUG11 e GOLD11 (ouro), que caíram 3,18% e 2,41%, respectivamente.

Dos quatro criptoativos da carteira, três ficaram um pouco acima do Bitcoin (benchmark), por isso, o retorno médio das carteiras ficou um pouco acima também.

A analise dos especialistas

Renda fixa pós (carteiras de ativos), por Gui Cadonhotto

Mesmo com a surpresa positiva da inflação, ou seja, dados mostrando oscilações abaixo das expectativas, e pressão de membros do governo atual em relação à redução da taxa de juros no país, o CDI e a Selic se mantiveram inalterados e sem expectativa de mudança no curto prazo.

As alterações quanto à expectativa de juros começaram a sofrer mudanças em março, conforme economistas e membros importantes do mercado financeiro passaram a enxergar espaço para cortes de juros no curto prazo.

Ou seja, o nível excelente de juros em pós-fixados pode começar a cair antes do esperado.

- Renda fixa pós (carteiras de fundos), por Felipe Arrais

A classe continua sofrendo com os problemas decorrentes dos eventos vistos desde o início do ano. O caso Americanas foi o mais emblemático, mas tivemos outros episódios – como Light – que preocuparam o mercado e foram responsáveis por aumentar o prêmio de risco da indústria.

De fato, o aumento das taxas (ou spread de crédito, como costumamos dizer no mercado) acarreta a desvalorização dos papéis na carteira dos fundos no curto prazo. No entanto, vale reforçar que o momento abre oportunidades para os gestores comprarem bons papéis a preços atrativos e que vão trazer bons retornos adiante.

Dentre nossas recomendações, apenas os FoFs de FIDC Valora Guardian (+1,02%) e o Solis Antares (+0,99%) performaram acima do CDI de 0,92%, mas pertencem apenas à carteira de R$ 1 milhão. Embora trabalhem com crédito, os FIDCs têm pouca negociação no mercado secundário, e os preços dos ativos não são afetados pela marcação a mercado da mesma maneira que ocorre com ativos mais tradicionais de crédito.

Nossa expectativa daqui para a frente é que os fundos voltem a performar dentro de suas médias em relação ao CDI, pois a pior parte das correções já passou – claro, caso nenhum outro evento de mesma magnitude de Americanas e Light surja.

- Renda fixa dinâmica (carteiras de ativos), por Gui Cadonhotto

Suponha que você olhe para as taxas dos títulos de renda fixa em dois momentos no mês, no primeiro e no último dia útil. Sendo assim, você compararia as taxas dos títulos prefixados e indexados à inflação nos dias 1º e 28 de fevereiro.

Tanto nos títulos prefixados quanto nos indexados à inflação, você observaria uma inanição tremenda, com pouca diferença entre as taxas de início e final de mês em quase 30 dias. Acontece que fevereiro apresentou um pouco mais de turbulência do que as taxas de início e fechamento do mês mostraram.

Foi intensificado nesse período o ataque ao nível de juros feito pelo Banco Central, com membros do governo lançando campanha a favor do corte da taxa. Mas o tiro saiu pela culatra: nos dias subsequentes, a expectativa de juros subiu, e de maneira acelerada, diga-se de passagem.

O movimento de estabilidade pode ser considerado positivo se compararmos as oscilações das taxas por aqui com o apresentado no mercado norte-americano, que apresentou elevação de taxas muito relevante ao longo de fevereiro.

O que contribuiu para essa estabilidade foram os dados de inflação, que apresentaram oscilações abaixo das expectativas, e a promessa do nosso Ministério da Fazenda de um arcabouço fiscal que estabilizaria nossa dívida pública em um horizonte de poucos anos.

Agora, o mês de março promete ser intenso por dois fatores: crise financeira nos EUA e crescimento da visão de que o Brasil pode vir a cortar os juros em breve.

Mas isso são cenas do próximo capítulo.

- Renda fixa dinâmica (carteiras de fundos), por Felipe Arrais

Os dados de inflação em fevereiro vieram dentro do esperado ou pouco abaixo das expectativas de mercado. Por isso, os efeitos práticos na curva de juros foram mais comedidos do que se esperava no início do mês, algo que favoreceu o desempenho dos ativos prefixados e indexados à inflação, principalmente.

Percebemos que foi a primeira vez desde março/2022 que as três derivações de índices atrelados ao Tesouro IPCA + da Anbima tiveram uma rentabilidade mensal superior ao CDI (que foi de 0,92%), com retornos de +1,41% no IMA-B 5 (com vencimentos de até cinco anos), + 1,17% no IMA-B 5+ (com vencimentos acima de cinco anos) e 1,28% no IMA-B (que contempla todos os vencimentos).

Vendo o copo meio vazio, três das nossas quatro opções de fundos não superaram o CDI, e o único que esteve acima foi o Western Asset IMA-B 5 Ativo. No caso do Icatu Vanguarda Inflação, que atua tanto no risco de mercado quanto no de crédito, a dificuldade maior ainda decorre dos recentes eventos de crédito.

Já os fundos de infra listados (KDIF11 e IFRA11), presentes nas carteiras igual ou maiores de R$ 500 mil, mesmo composições muito mais conectadas aos riscos de mercado (indexados à inflação) tiveram alguma piora na sua parte de spreads de crédito, também ligada aos eventos de Americanas e Light.

O cenário é incerto para prospectar futuro. Além das questões locais, a crise financeira nos Estados Unidos também pode afetar a dinâmica nas taxas de juros por aqui. Sem dúvidas, março será um mês muito intenso para os nossos gestores.  

- Fundos Imobiliários (idêntica para as carteiras de fundos e ativos), por Ricardo Figueiredo

Fevereiro foi uma extensão do clima vivido pelos FIIs em janeiro. O Banco Central abriu o mês mantendo a taxa Selic em 13,75% a.a., e com isso ampliou o ritmo de manifestações de membros do governo federal descontentes com o nível de taxa de juros.

Aventou-se inclusive a possibilidade de alteração para cima da meta de inflação, e o resultado foi aumento das expectativas de inflação por parte do mercado para os anos de 2023 e 2024. Além disso, a curva de juros também foi impactada, especialmente nos vértices (vencimentos) mais longos, encerrando fevereiro em patamar superior ao fechamento de janeiro.

Lembro que FIIs e juros possuem relação inversa – por isso, disse que fevereiro foi extensão de janeiro. Novamente, o Ifix desvalorizou-se diante do comportamento de abertura da curva de juros. O índice caiu 0,45% no mês e alguns FIIs de tijolos tiveram quedas relevantes, casos de VILG11 (-6,33%), após anunciar ação de despejo por atraso de pagamento da locatária Tok & Stok, que representa 14% da receita do FII, e PATL11 (-7,33%), que segue sem apresentar novidade quanto à ocupação do galpão refrigerado locado pela Pif Paf que se tornará vacância financeira no segundo semestre de 2023.

A boa notícia vem da continuidade do processo de recuperação dos rendimentos dos FIIs de CRI, especialmente os high grade, ou seja, aqueles de maior qualidade de risco de crédito.

Em relação ao processo de recuperação judicial da Americanas que causou alvoroço no mercado em janeiro, tivemos alguns FIIs que sofreram inadimplência parcial desta locatária, uma vez que a varejista considerou os valores dos aluguéis competência janeiro, até o dia 19 (data de ajuizamento de sua recuperação judicial), como sendo valores devidos a serem tratados no âmbito do processo.

Importante destacar que os aluguéis vencidos na primeira quinzena de março, competência fevereiro, foram pagos na integralidade pela locatária, conforme comunicação ao mercado de FIIs por GGRC11 e XPLG11.

Na primeira quinzena de março, vimos alguns FII de papel high yield, ou seja, aqueles que tomam mais risco em busca de um DY potencialmente acima da média do mercado, caírem bastante por conta de notícias de inadimplência e/ou dificuldades vividas por alguns dos devedores do CRIs de tais carteiras.

São casos isolados e, a depender do FII, de impacto limitado, mas evidenciam o momento delicado para crédito corporativo e a prudência de maior seletividade na alocação dos recursos. Por isso, preferimos FIIs com maior qualidade de risco de crédito, seja nos tijolos através dos locatários, seja nos FII de papel, através dos devedores dos CRIs.

- Ações (carteiras de ativos), por Leandro Siqueira

O mês de fevereiro foi especialmente ruim para a Bolsa, levando o Ibovespa a cair 7,49%. Os principais motivos por trás dessa queda foram a inflação ainda persistente no Brasil e no mundo e discursos do governo em contraposição à independência do Banco Central, que fizeram a curva de juros se elevar quando olhamos para a taxa no médio e no longo prazos.

Na Bolsa, juros e ações são como pessoas sentadas em lados opostos de uma gangorra: quando o primeiro sobe, o segundo cai. Por conta disso, a despeito de cada empresa ter sua tese peculiar, é inegável que o grande gatilho de alta para as ações como um todo é a eventual queda dos juros. Por mais que pareça que o destino seja esse, não só no Brasil, como em todo o mundo, o caminho é tortuoso.

Caminhamos em direção a isso, mas vez ou outra pegamos curvas desnecessárias que tornam a chegada um pouco mais demorada.

- Ações (carteiras de fundos), por Felipe Arrais

É inevitável que os fundos de ações e long biased sigam na direção do Ibovespa, que caiu 7,49% em fevereiro, mês em que de fato o ambiente político-econômico prejudicou os ativos de risco no Brasil.  

As ameaças do governo atual à independência do BC e a desconfiança de gestores e especialistas de mercado em relação à capacidade do novo arcabouço fiscal prometido pelo Ministério da Fazenda para março ser autossuficiente para estabilizar as contas públicas trouxeram tensões que se refletiram na queda dos preços dos ativos.

As carteiras de ativos da maioria dos fundos recomendados são compostas por ações de alta qualidade, avaliadas por algumas das mentes mais brilhantes do mercado e, apesar do momento turbulento, alguns gestores nos reportam que existem TIRs (taxa interna de retorno) de 30% a.a. para destravar valor quando o cenário melhorar.

Mesmo sem saber quando o jogo vai virar positivamente para esses fundos, o recado que deixo é para mantermos o plano de longo prazo, e a fatia destinada para ações deve estar sempre próxima de 15%, que é o nosso plano central aqui no Spiti One.

- Internacionais (idêntica para as carteiras de fundos e ativos), por Felipe Arrais

Todos os ativos globais tiveram performance negativa em fevereiro, mesmo que isso não seja totalmente perceptível pelo fato de o dólar ter se valorizado 2,82% no mês. Na verdade, o movimento não é uma coincidência, uma vez que a expectativa de juros maiores fortalece o dólar e enfraquece ativos de risco.

Fevereiro foi um mês em que o fantasma da política monetária volta a pairar no ar com uma leitura de inflação que foi revisada para cima e um mercado de trabalho que permaneceu forte, o que corrobora com essa ideia de que os juros continuarão subindo.

A pior performance do mês ficou por conta de ativos imobiliários nos EUA, que, em média, levantaram capital por meio de dívida ao longo do mês num momento em que taxas de juros estão mais elevadas. Além disso, grandes empresas passam por apertos, e os dados apontam para um início do ano em que falências de empresas de varejo nos portfólios dos REITs (os equivalentes norte-americanos dos FIIs) têm aumentado e o sentimento permanece negativo, o que pode ser percebido pelo fato de que a maior parte da indústria de REITs ainda está sendo negociada com um desconto sobre a cota patrimonial.

Por fim, o ouro sofre em um mês de dólar forte, em que a meta de crescimento da China foi divulgada no patamar inferior da expectativa de mercado, em 5%. 

- Fundos multimercados (idêntica para as carteiras de fundos e ativos), por Felipe Arrais

O somatório da reversão do ambiente externo com as idiossincrasias locais transformou fevereiro em um mês difícil para todas as classes de ativo e, consequentemente, para nossos multimercados recomendados. Apesar disso, a classe defendeu bem os investidores no período.

Dos sete fundos recomendados por aqui, cinco estiveram acima do CDI, mas quando olhamos para o agregado da classe, o resultado ficou pouco abaixo por conta da queda de -0,54% no Absolute Vertex, que tem certa relevância nas composições de carteira. 

Um dos destaques de rentabilidade no mês foi o Kinea Atlas, que rendeu +2,26% contra apenas 0,92% do CDI, pois se beneficiou de aposta na continuidade de aperto monetário nos Estados Unidos e posição vendia em moeda chinesa, o reminbi, contra o dólar.

Depois de um ano de 2022 com desempenhos excelentes, os fundos multimercados que recomendamos devem continuar atrativos e desempenhando bem por conta do seu posicionamento mais tático, que facilita navegar melhor nesse ambiente de aversão ao risco e mudanças constantes de cenários.

- Alternativos (idêntica para as carteiras de fundos e ativos), por Thales Inada

Depois da forte alta de mais de 33% do BTC em janeiro, o ativo se estabilizou em volta dos US$ 23 mil até o final de fevereiro, fechando o mês próximo do zero. Mas, apesar do desempenho neutro, tivemos, sim, algumas sacudidas no mercado durante esse período.

Primeiro, tivemos o caso da Kraken, segunda maior exchange dos Estados Unidos, que foi pressionada pela SEC (a Comissão de Valores Mobiliários do país) a parar de oferecer o serviço de staking de criptoativos.

Consequentemente, até outras exchanges se anteciparam à abordagem da SEC e interromperam seus serviços no território norte-americano. Logo em seguida, a comissão também acusou o sétimo maior criptoativo, a stablecoin BUSD, de ser um valor mobiliário não autorizado por eles. O ativo leva o nome da Binance, maior exchange do mundo, mas é a empresa Paxos (que o emite e o administra) que precisa se resolver com o regulador. O BUSD já perdeu 50% da sua capitalização.

Outro fator que prejudicou o desempenho dos criptoativos em fevereiro foi a expectativa da retomada na alta de juros mais forte, que chegou a ter elevadas chances de subir 0,5 p.p. na próxima reunião do FOMC, o comitê de política monetária dos EUA, em março. Mas agora, com a recente quebra de três bancos norte-americanos, esse cenário mudou, e o Fed deve desacelerar a alta dos juros – inclusive, é um assunto que precisaremos acompanhar de perto em março.

Ficamos por aqui

A vida de investidores e investidoras realmente não anda nada fácil. Vivemos atualmente um momento ímpar da história dos mercados e da humanidade: os impactos econômicos por conta da pandemia do coronavírus ainda causam instabilidade, temos uma guerra em curso entre Rússia e Ucrânia, forte tensão política no Brasil, entre outros fatores.

Mesmo diante de tudo isso, temos a convicção de que a melhor escolha que podemos fazer é nos mantermos fiéis ao nosso plano de longo prazo, perseguindo nossa alocação estrutural, fazendo aportes recorrentes, ficando de olho nas dicas dos analistas da Spiti e, em hipótese nenhuma, desistir no meio do caminho.

A maior razão do nosso trabalho aqui na Spiti é justamente ajudar pessoas físicas a organizar sua vida financeira, e isso sem dúvidas pode ser transformador na vida pessoal de cada assinante.

Por hoje, ficamos por aqui. Caso tenha alguma opinião ou crítica construtiva a contribuir conosco, sintam-se à vontade para nos enviar um e-mail:

spitione@invistaspiti.com.br

Um grande abraço,

Equipe de analistas da Spiti

Sobre os analistas

Rodrigo Xavier

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de Estrategista da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como um grande especialista em Renda Fixa. Bacharel em Economia pela FGV e pela Nova School of Business and Economics, além de ter mais de 10 anos na gestão de fundos de investimento de Renda Fixa, Crédito Privado e Multimercado, hoje ele ensina seus alunos e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Leandro Siqueira

Fundador

É especialista em ações da Varos e bacharel em Economia pela UFRJ. Atuou na gestão de clube de investimentos e no banco de investimento Modal antes de fundar a plataforma de educação financeira Varos. Hoje, lidera um time de sete analistas CNPI e é apaixonado por mergulhar no dia a dia de negócios das empresas, buscando encontrar oportunidades de crescimento e geração de caixa a preços que sejam uma verdadeira barganha.

Ricardo Figueiredo

Sócio

É analista CNPI, especialista em fundos imobiliários da Finclass. Bacharel em Economia com especialização em Mercados Financeiros e MBA em Gestão Financeira e Atuarial, começou a carreira como professor na área de tecnologia. Migrou para mercado financeiro, no qual atua há quase 20 anos. Entre 2003 e 2021, passou pela área de investimentos da Vivest, maior fundo de pensão de capital privado do país. Realizou análise e gestão de investimentos em imóveis e carteira de fundos imobiliários, que totalizavam mais de R$ 1,2 bilhão. Acredita que todo e qualquer conhecimento não disseminado perde sua utilidade e, por isso, quer levar conteúdo de finanças para todos, com linguagem leve e de forma responsável.

Thales Inada

Especialista em Criptoativos

Especialista em criptoativos e investimentos alternativos da Finclass. Engenheiro, com MBA em investimentos e Asset Allocation. Iniciou no mercado de criptoativos em 2017, com passagem por importantes exchanges como Binance (a maior do mundo), Mercado Bitcoin (a maior da América Latina) e XDEX, a antiga exchange da XP Inc. Agora, deixou as instituições para ficar do lado de investidoras e investidores, com missão de democratizar o universo dos criptoativos e investimentos alternativos por meio de uma linguagem simples e direta, a fim de tornar esse mercado visionário acessível a todas as pessoas.