Relatórios

Ações-Brasil: Real Investor

Escrito por Vinicius Kenjiro, Felipe Arrais, Alessandra Bellotto, Rodrigo Xavier em AÇÕES

6 min de leitura

O gestor do nosso fundo recomendado de hoje: Real Investor FIA

A história da Real Investor, que se soma às nossas gestoras recomendadas com seu fundo de ações, confunde-se com a do gestor, César Paiva.

A essa altura você já conhece o experimento do marshmallow, de Walter Mischel, né? Uma criança é colocada em uma sala encarando um marshmallow e é informada de que, se conseguir esperar sem comer, vai ganhar outro. As crianças são acompanhadas durante 50 anos de suas vidas. As que conseguiram esperar pelo segundo doce têm vidas financeiras, profissionais e pessoais melhores.

“Eu era a criança que aguardava o próximo marshmallow”, disse pra nós o César. Ele conta que era daquelas crianças que guardava o dinheiro que os pais davam para o lanche da escola. Na adolescência, o guardar virou investir em ações. Até que isso virou brincadeira de gente grande.

O primeiro trabalho de César foi no Bradesco, “resolvendo qualquer tipo de pepino”. Isso até que surgiu a vaga de caixa no banco. Ele olhou para aquelas metas atreladas a objetivos que não eram os seus – como venda de consórcio e capitalização –, mirou também sua carteira de ações ganhando corpo e gerando renda maior do que ao trabalho e decidiu: pediu demissão.

A próxima fase foi como estagiário de uma corretora em São Paulo. Durante seis meses, ele passou por todas as áreas da empresa. E acabou descobrindo um hobby pouco usual: participar das reuniões da Apimec (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais). Algumas aconteciam de manhã cedo, começavam com um café da manhã e evoluíam para uma empresa falando sobre suas operações. Outras, tinham um coquetel à noite, com mais discussões sobre empresas listadas. Era uma verdadeira balada para o jovem que cresceu em Londrina.

Foram seis meses, até que César retornou à cidade natal para se tornar assessor de investimentos. Para seus clientes deve ter sido ótimo – adepto da filosofia de longo prazo em Bolsa, César girava pouco as carteiras, gerando pouca receita de corretagem para a operação.

E daí veio o movimento que fazia mais sentido para sua carreira, que desemboca no fundo que recomendamos hoje. O jovem resolveu criar um clube de investimentos. Início semelhante a de outras casas famosas do mercado, como da Bogari e da HIX. Antigamente, as regras de clubes eram mais frouxas e muitas gestoras nasceram assim.

Para montar o clube, eram necessárias pelo menos três pessoas. César convidou seu pai e sua mãe. Aos poucos, os relacionamentos dos tempos de assessor, como médicos e advogados da cidade, ajudaram a dar corpo ao projeto.

O momento que escolheu para abrir o clube tem tudo a ver com a filosofia de investimento de César: em meio à crise, em dezembro de 2008, com os preços em Bolsa bastante deprimidos. E isso, obviamente, favoreceu os retornos.

A evolução foi natural. Em fevereiro de 2010, César criou a gestora de recursos Real Investor, que passou a fazer a gestão do clube de investimentos, agora remunerada, transformando o hobby do jovem de Londrina em profissão de verdade.

Quando as regras da CVM (o xerife do mercado de capitais) para clubes ficaram mais duras, com restrição de 50 pessoas neles, a carteira de ações de César virou um fundo de investimento de verdade, em 2012.

Warren Buffett e a filosofia de investimento da Real Investor

O Real Investor FIA BDR Nível I, principal fundo da gestora de Londrina, tem uma filosofia de investimento bastante conhecida, porém que poucos conseguem colocar em prática de verdade: o value investing, ou investimento de valor.

A proposta é dar um mergulho profundo nas empresas em que se quer investir, conhecendo cada detalhe de sua operação, estimar um valor para elas e comprá-las quando o preço em Bolsa não refletir essa projeção. Em suma: pagar barato por boas empresas.

César e seu time beberam da água de seu grande ídolo, o megainvestidor americano Warren Buffett, que, por sua vez, inspirou-se nos ensinamentos de Benjamin Graham. Até no seu apego às origens, o gestor se parece com seu mestre: Buffett vive até hoje em Omaha, nunca quis se mudar para os grandes centros financeiros americanos.

Em Londrina, a Real Investor tem uma equipe de 39 pessoas, divididas entre gestão de recursos e gestão de patrimônio. César nos contou que tem trabalhado para construir uma meritocracia, em que pessoas dedicadas aos poucos se tornam sócias dele.

Hoje o gestor é menos purista e vai além das ações compradas em cenários de estresse, montando posições vendidas em Ibovespa Futuro, por exemplo, para defender a carteira. A posição ganha dinheiro à medida que o principal índice da Bolsa brasileira se desvaloriza.

Desde 2011, César investe também em ações no exterior com sua família, via uma empresa offshore. Ele até colocou BDRs (recibos de empresas estrangeiras listadas na Bolsa brasileira) no nome do fundo para garantir a possibilidade de aplicar também neles. O Brasil, entretanto, ainda é o maior foco.

O histórico da Real Investor com as pequenas da Bolsa

A história da Real Investor veio acompanhada de um desempenho bastante interessante. Desde que foi criado, o fundo garante um excesso de retorno sobre o Ibovespa de 279,62 pontos percentuais. Nos últimos três anos, o ganho é de 35,78% contra 8,08% do principal índice da Bolsa brasileira. E, nos últimos cinco, de 129,03% ante 53,87%.

O destaque histórico em relação ao Ibovespa é ajudado pelas small e mid caps, as empresas de menor liquidez, em geral com maior potencial de retorno por estarem fora do radar.

César conta, entretanto, que aos poucos foi sendo mais cuidadoso com o segmento. Especialmente a crise do período Dilma deixou aprendizados. Em 2014, por exemplo, o fundo teve um descolamento expressivo em relação ao Ibovespa. O fundo caiu 19,04% em um ano em que o Ibovespa recuou bem menos, 2,91%.

Foi uma fase difícil para as pequenas da Bolsa, em que vários fundos relevantes dedicados a elas, como os da Victoire e da Fama, tiveram problemas. Ao sofrerem saques, foram obrigados a vender as ações a preço de banana, afetando todos os fundos que tinham esse tipo de papel.

Daí veio um aprendizado importante para o gestor da Real Investor, que também nos atraiu para recomendar a casa: conhecer em detalhes o passivo das ações em que investe. Ou seja, saber exatamente quem tem posição relevante, acompanhar os saques desses fundos e sair da posição compartilhada rapidamente caso alguma luz amarela se acenda.

O cuidado com a concentração em empresas de pouca liquidez também se tornou importante. Posições de baixíssima liquidez, como Grazziotin, que já entrou no portfólio, não entram mais. A liquidez média precisa ser acima de R$ 5 milhões.

“Aprendi com os erros, não quero mais fazer preço quando compro e vendo. Quero poder mudar de ideia e sair da posição rápido”, disse pra nós César.

Isso não significa que a casa tenha deixado as pequenas para trás – apenas o faz com cautela, o que nos faz considerar o fundo um bom ingrediente para o seu portfólio que já tem outros gestores de ações.

Outro aprendizado foi prestar atenção também ao macro, dada a instabilidade político-econômica brasileira, ainda que o foco seja no dia a dia das empresas.

Nunca é demais lembrar: recomendamos que você tenha uma carteira de fundo de ações diversificada, em que o produto da Real Investor pode ser um deles, sem concentrar demais em nenhum dos produtos. E sugerimos fundos de ações para horizontes, de preferência, de mais de cinco anos.

Um olhar relativo

Você sabe que a análise quantitativa está longe de ser suficiente para batermos o martelo em uma recomendação, certo? E que os números não contam a história inteira de um fundo. É sempre mais fácil, entretanto, entender o desempenho de um fundo no relativo.

Por isso, vamos trazer nesta seção um olhar do Real Investor em relação a outros fundos de ações recomendados por nós – a melhor forma de você estudá-las, nunca é demais lembrar.

Para o fundo, foram considerados os dados a partir de 2012, ano em que o fundo de investimento foi criado e suas cotas ficaram públicas. Ou seja, o histórico de clube não é incluído, inclusive como manda a regulação.

Nossa análise quantitativa favorita é a de janelas móveis, que diz quanto ganhou um investidor que entrou em qualquer momento do histórico do fundo e permaneceu por cinco anos. O ganho nesse caso foi de, em média, 181,87% contra 76,11% do Ibovespa.

Observando outras de nossas recomendações de fundos de ações na maior janela disponível para todos eles – começando em 22 de julho de 2017 –, vemos abaixo a relação entre retorno acumulado e volatilidade, aqui usada como medida de risco.

No período, o retorno acumulado do fundo da Real Investor é o maior de nossa amostra, sem que isso o torne o de maior volatilidade, o que é um ótimo resultado.

Fonte: Quantum Axis e Spiti

Um abraço,

Felipe Arrais, Alessandra Bellotto, Rodrigo Xavier e Vinícius Kenjiro

Sobre os analistas

Vinicius Kenjiro

Fund Research Analyst

É especialista de fundos da Spiti. Bacharel em Administração pela USP, com passagem pela Erasmus University Rotterdam, Vinícius atuou na análise financeira e social de um fundo de impacto social, nas áreas de agricultura e inclusão financeira. Fascinado pelo mercado financeiro, traz na bagagem a experiência de ter estado do outro lado da indústria e a vontade de impactar a vida das pessoas por meio da educação financeira e dos investimentos.

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.

Alessandra Bellotto

É gerente executiva de análise de fundos de investimentos na Spiti. Jornalista com pós-graduação em informações econômicas e mercados de capitais, traz na bagagem a experiência e o relacionamento de mercado de quem passou mais de duas décadas nas redações da Gazeta Mercantil e do Valor Econômico, de onde saiu após 13 anos para se juntar ao time da Spiti. Sempre atuou com foco na cobertura e edição de finanças e investimentos para pessoas físicas, em especial fundos. Foi premiada por duas vezes pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por seu trabalho de educação ao investidor, e uma vez pela BM&FBolvespa, atual B3.

Rodrigo Xavier

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.