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Ações Internacionais: O Cenário Atual e a Importância da Diversificação.

Escrito por Felipe Arrais em INTERNACIONAL

8 min de leitura

Neste relatório, você encontrará:

  • A incerteza nos mercados aumentou após a administração de Donald Trump. No início, seu governo foi recebido com um certo otimismo, um movimento conhecido como Trump Bump, mas agora há apreensão sobre o impacto de suas políticas, que potencialmente são inflacionárias.

  • O Federal Reserve (Fed) enfrenta desafios consideráveis, já que há múltiplas incertezas afetando tanto a inflação quanto a atividade econômica dos EUA.

  • O mercado acionário americano começou o ano de forma mais desafiadora. Diferente dos períodos de valorização contínua, o desempenho tem sido mais contido, levantando questionamentos sobre a sustentabilidade dos valuations elevados. 

  • Diante desse cenário, uma carteira bem diversificada se torna ainda mais relevante. O WRLD11 (VT, no exterior) permitindo o acesso a um portfólio globalmente distribuído, reduzindo a dependência de uma economia específica e aumentando a exposição aos melhores retornos ao redor do mundo.

O mercado financeiro global de 2025 encontra-se diante de profundas incertezas quanto ao seu futuro. Desde o expressivo ciclo de elevação dos juros no período pós-pandemia, passamos a analisar com mais profundidade a situação econômica norte-americana, acompanhando atentamente indicadores como inflação, emprego e atividade econômica.

Neste contexto, uma mudança de governo tende a intensificar ainda mais essa incerteza, especialmente diante da postura rigorosa adotada pelo presidente eleito nos Estados Unidos, Donald Trump.

Inicialmente, a vitória do presidente gerou um otimismo generalizado, fenômeno conhecido como "Trump Bump", com expectativas de expansão fiscal e contínuos estímulos econômicos para concretizar seu slogan de campanha, "Make America Great Again". Apesar dessa visão positiva por parte dos mercados, as políticas propostas durante a campanha eleitoral já começavam a ser percebidas como potencialmente inflacionárias.

Desde o início de 2025, diversos indicadores econômicos passaram a evidenciar sinais de desaceleração e uma possível reversão do cenário otimista no início de sua vitória. As taxas de juros futuras de 10 anos nos EUA, as famosas treasuries, reagiram a essa expectativa de maior inflação, atingindo o pico anual de 4,6%.

A implementação de políticas tarifárias agressivas pela administração Trump, com o objetivo de proteger setores industriais norte-americanos, trouxe significativas incertezas e elevou o risco de uma contração econômica no curto prazo. 

Abaixo, pode-se observar o índice de incerteza da política econômica e comercial no país, cuja leitura está substancialmente acima da média histórica, chegando a quase o dobro do patamar alcançado no primeiro mandato de Trump - período em que também ocorreram intensos debates tarifários.

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Fonte: Bloomberg

Em paralelo, a política monetária do Federal Reserve (Fed) passou por um momento de inflexão, interrompendo o ciclo de cortes nas taxas de juros devido a preocupações persistentes com a inflação.

Esses fatores intensificaram a volatilidade dos mercados acionários dos EUA, levando a correções significativas, que transformaram o entusiasmo inicial (Trump Bump) em apreensão (Trump Slump). 

Neste relatório, buscamos contextualizar o desempenho recente dos mercados e sua relação com nossa abordagem de investimentos, que dispensa a necessidade de prever com exatidão quais regiões geográficas terão melhor desempenho no futuro.

Boa leitura!

Desaceleração à frente?

O cenário econômico global atual apresenta um crescimento modesto, marcado por desacelerações em grandes economias, especialmente nos Estados Unidos. Os principais indicadores econômicos norte-americanos divulgados até agora, em 2025, confirmam essas expectativas, com leituras preliminares do Produto Interno Bruto (PIB) apontando para uma contração significativa.

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Fontes: Bloomberg e Fed de Atlanta (GDPNow)

Em contraste, o mercado de trabalho permanece sólido, com uma taxa de desemprego estável em 4,13%, superior ao patamar de 3,7% registrado antes da pandemia.

Diante disso, o Banco Central Americano (Fed) enfrenta um desafio considerável, devido ao seu duplo mandato de buscar o pleno emprego e manter a inflação próxima à meta de 2%, atualmente medida pelo Índice de Preços das Despesas de Consumo Pessoal (PCE) em 2,65%. 

Os juros elevados devem seguir pressionando a economia, como já indicam alguns sinais recentes, enquanto as políticas adotadas por Trump podem intensificar as pressões inflacionárias, tornando ainda mais desafiador o retorno dos cortes nas taxas de juros.

No dia 19 de março, ocorreu a reunião de política monetária do Fed, que, conforme amplamente esperado pelos agentes econômicos, decidiu manter a taxa básica de juros inalterada e ajustar o ritmo de redução de ativos em seu balanço.

No comunicado do FOMC (Federal Open Market Committee), destacaram-se as seguintes alterações:

  • Maior atenção dos membros da instituição ao aumento das incertezas econômicas, ampliando os riscos tanto para a inflação quanto para o crescimento.
  • Redução no ritmo de Quantitative Tightening (QT), diminuindo o volume de ativos no balanço do Fed em $ 5 bilhões mensais, contra $ 25 bilhões anteriores, sinalizando uma postura mais cautelosa frente às condições econômicas.
  • Revisões significativas nas projeções econômicas, com redução da expectativa de crescimento do PIB para 1,7% em 2025, em comparação à projeção anterior de 2,1%.
  • Revisão para cima da projeção inflacionária (core PCE), agora estimada em 2,8% para 2025; quando comparada à previsão anterior de 2,5%, evidencia persistentes pressões inflacionárias.
  • Manutenção das expectativas de dois cortes nas taxas de juros em 2025, indicando espaço limitado para uma flexibilização monetária significativa no curto prazo.

Essas decisões refletem uma preocupação crescente com o desempenho econômico futuro e uma maior tolerância a uma inflação acima da meta no curto prazo, influenciando diretamente os mercados financeiros globais. 

Apesar de reconhecer as incertezas atuais, o Fed pareceu não dar grande peso ao aumento das expectativas inflacionárias. A sinalização apresentada no gráfico de pontos, indicando a possibilidade de dois cortes de juros ainda este ano, foi interpretada pelo mercado como uma postura ligeiramente dovish (estimulativa).

Desempenho dos mercados acionários no ano até agora

Em relação à performance do mercado acionário, o ano de 2025 inicia-se com um cenário bastante diferente do que vimos nas últimas décadas, nas quais os EUA frequentemente figuravam entre os mercados com maiores valorizações anuais. Esses anos de bonança, iniciados principalmente após a crise financeira de 2007, beneficiaram-se de um ambiente prolongado de juros baixos, favorecendo fortemente o crescimento das empresas norte-americanas e tornando seu mercado relativamente caro.

Atualmente, pela métrica clássica de Preço/Lucro (P/L), o mercado norte-americano encontra-se bastante elevado, não apenas em comparação à sua média histórica, mas também em relação a outros mercados.

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Fonte: Wellington Management

Este fato, somado às incertezas atuais, agrava as correções observadas, à medida que investidores retiram recursos dos EUA e buscam locais que possam oferecer melhores oportunidades, como ações europeias e mercados emergentes.

Abaixo, você verá uma tabela e um gráfico apresentando o retorno dos principais mercados globais no ano:

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Fonte: Bloomberg e Finclass

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Os Estados Unidos enfrentam tensão entre uma inflação elevada e uma desaceleração econômica. Setores cíclicos, como tecnologia e indústria, sofrem maior volatilidade, enquanto setores defensivos demonstram maior resiliência. Como discutido anteriormente, a incerteza atual mantém elevados os juros futuros, fazendo com que os títulos do Tesouro ainda ofereçam rendimentos atraentes, entre 4,2% e 4,8%.

Na Europa, observa-se um crescimento modesto, com ações defensivas e bancos mostrando relativa estabilidade. A economia europeia revela alguns sinais de fraqueza, mantendo a inflação controlada e abrindo espaço para que o Banco Central Europeu continue seu ciclo de cortes nas taxas de juros. Apesar das constantes ameaças tarifárias por parte de Donald Trump ao bloco europeu, as Bolsas têm demonstrado força em meio à volatilidade, com o índice Stoxx 600 alcançando novas máximas históricas em 2025. Cresce também a expectativa por um “cessar-fogo” no conflito entre Ucrânia e Rússia, que ainda gera incertezas significativas para o bloco.

China e demais mercados emergentes oferecem oportunidades seletivas, especialmente em setores tecnológicos e títulos soberanos, atraindo investidores devido ao diferencial de juros e à estabilidade monetária. Muitos desses mercados estavam depreciados e negligenciados, fazendo com que pequenas mudanças nos fluxos financeiros provoquem movimentos significativos, como observado na reação positiva da Bolsa de Hong Kong e do IBOVESPA neste ano.

A Importância da Diversificação Internacional

Sabemos que o noticiário recente tem aumentado a angústia de muitos dos nossos assinantes. Perguntas relacionadas ao tema têm sido frequentes em nossas lives de sexta-feira, indo desde preocupações como “Devo continuar investindo nos EUA com toda essa incerteza?” até questionamentos mais otimistas, como “Essa correção representa uma oportunidade para aumentar a posição em ações americanas?”.

A resposta para ambas as perguntas é não.

Nossa abordagem, frequentemente reforçada por nossa equipe, baseia-se na alocação passiva de base neutra, na qual investimos conforme a relevância de cada mercado (fizemos um relatório completo discutindo a maneira como nossa carteira foi pensada; clique aqui para conferir). 

Essa estratégia nos exime da difícil tarefa de tentar prever qual será “a bola da vez”, evitando apostas direcionadas aos mercados ou setores que tendem a performar melhor no curto prazo. 

Estatísticas mostram que prever esses movimentos é extremamente difícil, enquanto temos convicção de que uma alocação passiva diversificada globalmente é suficiente para alcançar nosso objetivo principal: preservar e aumentar nosso poder aquisitivo em moedas fortes.

Ao adotarmos essa abordagem, sempre estaremos “pegando carona” nas grandes tendências globais. Abaixo, você verá um gráfico mostrando como variou a relevância de diferentes mercados ao longo do tempo:

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Fonte: MSCI

Isso significa que, caso o ETF WRLD11 (ou VT, no exterior) existisse no final da década de 1980, sua maior posição seria no mercado japonês. Com o passar do tempo, a composição do ETF naturalmente mudaria, refletindo grandes tendências transformacionais.

Assim, você não precisaria ter previsto, por exemplo, a ascensão das grandes empresas de tecnologia nos EUA, pois naturalmente elas passaram a ocupar as maiores posições dentro dos índices.

Confira abaixo a composição atual do ETF VT. Caso queira consultar esta e outras informações diretamente no site oficial do ETF, basta clicar aqui.

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Fonte: Vanguard

Observamos atualmente uma grande concentração na América do Norte, incluindo EUA e Canadá. Para uma visão mais detalhada da participação de cada país individualmente, veja a tabela abaixo:

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Fonte: Vanguard

Os Estados Unidos representam cerca de 64% do ETF, o que significa que um desempenho negativo do mercado norte-americano, certamente, afetaria nossa carteira. Entretanto, graças à nossa exposição diversificada a outras regiões, temos a possibilidade de “amortecer” eventuais quedas, capturando ganhos provenientes de outros mercados.

Neste ano, mesmo com os três principais índices de ações norte-americanos apresentando desempenho negativo, o ETF VT ainda entregou retornos positivos (alta de 0,6%, em comparação à queda de 3,5% do IVV).

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Além disso, estudos recentes indicam que, atualmente, a escolha correta de temas de investimento é muito mais relevante do que a seleção específica de geografias, como pode ser observado no estudo abaixo, realizado pela Wellington Management:

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Fonte: Wellington Management. Adaptação: Finclass.

Conclusão: seguimos com o plano

Reafirmamos nosso compromisso com uma estratégia diversificada globalmente, reduzindo a exposição exclusiva aos Estados Unidos, sem eliminá-la completamente - ainda que o cenário se torne mais preocupante.

Naturalmente, caso nossa equipe identifique uma tendência clara de deterioração que exija intervenção ou ajustes estratégicos, prontamente tomaremos as medidas necessárias. Como frequentemente ressaltamos, nossa carteira não foi elaborada com o intuito de evitar crises, mas para enfrentá-las com o menor impacto possível, garantindo condições favoráveis para capturar bons retornos, quando o horizonte voltar a clarear.

Vale reforçar que, embora o foco desta conversa tenha sido o mercado acionário, nossa carteira é significativamente mais diversificada, contando com investimentos em REITs e Bonds.

A fatia destinada aos Bonds, inclusive, foi recentemente ajustada, após a publicação de um relatório este ano; nele, aumentamos a concentração em títulos públicos e encerramos as teses relacionadas a títulos corporativos high yield (HYG) e investment grade (LQD). Nossa visão atual é de que, apesar das incertezas, os títulos públicos (especialmente os norte-americanos) seguirão atuando como “portos seguros” durante momentos de maior aversão ao risco, considerando sua correlação histórica negativa com o mercado acionário.

Além disso, nossa carteira conta com uma pequena exposição ao ouro, ativo que há algum tempo tem demonstrado bom desempenho em ambientes de incerteza global - conforme já abordado em um relatório anterior, publicado este ano; clique aqui para acessá-lo.

Ficamos por aqui...

Reagir de maneira intensa às notícias recentes pode ser prejudicial quando falamos de investimentos, especialmente porque as melhores oportunidades costumam surgir justamente quando o noticiário está desfavorável.

Talvez você já tenha ouvido o ditado: “Compre ao som dos canhões e venda ao som dos violinos.” Embora não queiramos incentivar decisões impulsivas de compra apenas por conta das quedas recentes, essa frase carrega uma mensagem valiosa, pois  nosso instinto geralmente nos leva a vender no pior momento, quando as oportunidades são maiores.

Nossa abordagem, predominantemente passiva e diversificada globalmente, para além dos Estados Unidos, deverá continuar auxiliando a carteira de valorização da Finclass no longo prazo, contribuindo diretamente para sua construção patrimonial.

Seguiremos atentos às mudanças globais e faremos ajustes, sempre que necessário. No entanto, vale reforçar que essas alterações poderão ocorrer com menor frequência do que inicialmente esperado, o que não significa passividade ou negligência. Pelo contrário, estamos continuamente monitorando o mercado para agir no momento mais oportuno.

Um grande abraço,

Felipe Arrais, Ana Flávia Farias e Rodrigo Xavier.

Ativos Internacionais Aprovados

Disponibilizamos, ao final de cada relatório internacional, diversas opções de ativos aprovados, voltados para investidores experientes, que desejam uma exposição mais específica a determinados setores ou mercados.

Considere essas alternativas como um verdadeiro “cardápio”, cuidadosamente selecionado, permitindo que você personalize sua estratégia, enquanto mantém ativos com a cobertura da Finclass.

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Fundos Internacionais – Onde encontrar

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Sobre os analistas

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.