Imagine-se na seguinte situação.
Você está comandando um navio em alto mar, olhando para qualquer direção você só enxerga uma imensidão azul. Qualquer terra firme está a centenas de quilômetros de distância.
De repente, alguns sinais começam a surgir: queda na pressão atmosférica de maneira repentina, mudança na coloração da água em que está navegando, que acaba assumindo um tom mais escuro, mudanças repentinas na direção dos ventos e, obviamente, a formação de nuvens podem indicar que sua embarcação será atingida por uma tempestade.
O que fazer?
A maior parte dos navegantes de primeira viagem tenta sair da tempestade o mais rápido possível. Acontece que, na grande maioria das vezes, a direção da saída é cruzada com a direção do vento. Ou seja, a sua embarcação, nesse cenário, será atingida lateralmente por ventos e ondas muito grandes, o que pode danificá-la e, no pior dos casos, virá-la.
Como proceder nessa situação?
Aquartele a sua embarcação.
Nesse cenário dramático, onde já está em meio à tempestade, você precisa “aquartelar o barco”, ou seja, colocar a sua frente contra a direção do vento. Pode parecer contraintuitivo, mas a frente do barco é a parte mais aerodinâmica e isso fará com que o impacto do vento e das ondas seja reduzido ao máximo.
Solte uma âncora especial em alto mar, que serve justamente para reduzir o movimento da embarcação em mares agitados.
A partir de então, você deve esperar.
Se seguir as regras acima, passará da melhor maneira possível pelo momento turbulento.
Hoje, ao redor do mundo, as coisas parecem estar bem turbulentas.
Em meio ao ainda vigente conflito entre Rússia e Ucrânia, que saiu completamente dos holofotes mas ainda segue, observamos o surgimento de mais um conflito, dessa vez no Oriente Médio, que coloca em xeque a oferta de petróleo no mundo como um todo.
Faço uma ressalva de que o meu objetivo aqui é falar especificamente sobre o caráter financeiro do confronto, afinal, foi para isso que você contratou os serviços da Spiti. Do ponto de vista humanitário, sem dúvidas o conflito nos causa um sentimento de profunda tristeza.
Dito isso, muitas pessoas se perguntam:
- O que deve acontecer com a nossa inflação nesse cenário?
- Para onde vão os nossos juros?
- Será que a economia global e a brasileira serão impactas?
E no fim das contas:
- Como isso deve impactar os nossos ativos?
Antes de mais nada, é importante que você entenda o que de fato hoje está sendo relevante para o movimento dos preços dos ativos no Brasil e no mundo.
O que estamos notando ultimamente é que o impacto está sendo limitado no preço do petróleo e em outros ativos dado o conflito recente entre Hamas e Israel. Além disso, a participação de Israel nas balanças comerciais de seus parceiros é muito pequena, o que teria impacto também muito reduzido em termos de atividade econômica nos países parceiros e também no Brasil.
Sendo assim, por que os ativos de risco estão apresentando uma piora nas últimas semanas?
Resposta: elevação dos juros nos EUA
Os juros de médio e longo prazo nos EUA subiram de maneira relevante nas últimas semanas e meses dada a perspectiva de que os juros na terra do Tio Sam devem ficar em patamares elevados por mais tempo. A elevação no juro futuro de 10 anos pode ser observada no gráfico abaixo:
Veja que, desde março deste ano, o juro de 10 anos nos Estados Unidos entrou em ascensão, tendo acelerado o movimento em julho.
Um dos motivos que continuou levando a essa elevação foi a surpresa positiva com os dados de atividade, principalmente com aqueles relacionados à criação de emprego nos EUA.
Uma criação de empregos mais forte significa que provavelmente a missão de trazer a inflação para a meta do Fed, o banco central americano, ficará mais difícil. Nesse contexto, os juros continuaram a subir.
O movimento ocorrido a partir de julho pelo juro americano foi seguido pelos juros de 10 anos no Brasil:
Quais as consequências desse movimento para os nossos ativos?
Para a renda fixa, já sabemos, uma elevação nos juros futuros vai levar a uma queda no preço dos ativos prefixados e indexados à inflação. Os pós-fixados, aqueles atrelados à Selic ou ao CDI, continuam intactos, apresentando correções diárias devido à permanência da Selic e do CDI onde estão.
Na Bolsa e nos fundos imobiliários, o cenário também é complexo. Uma queda relevante nos principais índices de ações e FIIs é um pouco mais difícil de se observar já que a precificação desses ativos no país está estagnada há quatro anos. Isso significa que as maiores e melhores empresas e imóveis comerciais estão todo esse tempo sem ao menos observarem uma correção da inflação em seus respectivos preços. Se considerar que esses ativos, em boa parte dos casos, estão entregando resultados ainda melhores do que quatro anos atrás, nós conseguimos entender o porquê da dificuldade em observar maiores quedas nesses índices.
Dito isso, podemos afirmar que a tempestade que atravessamos hoje no mercado não é causada pelos conflitos ao redor do mundo ou pela iminência da “falta de petróleo”, nem pelo temor quanto a nosso nível de dívida pública.
Esses fatores podem até gerar pequenos movimentos pontuais no preço dos ativos, mas não são eles que estão ditando o “mar turbulento” que atravessamos hoje, e sim a volatilidade dos juros nos Estados Unidos.
Muitas pessoas perguntam: mas por que hoje os juros americanos estão afetando com ainda mais força o mercado brasileiro?
A resposta é esta: o diferencial de juros.
A diferença de juros entre o Brasil e os Estados Unidos está abaixo da média histórica. Com essa diferença pequena em termos relativos, é normal que os nossos juros e ativos fiquem mais sensibilizados conforme as movimentações nos juros por lá.
Eu tenho uma boa analogia para isso: quartos de hotéis.
Imagine que um hotel luxuoso na beira da praia, com spa, banheira no quarto, piscina aquecida e café da manhã completo em três diferentes edifícios dentro do complexo esteja com uma diária de R$ 1.000.
Já uma pousada em uma localização próxima ofereça apenas uma cama e uma televisão em seu quarto com um pequeno guarda-roupa ao lado. Não há comodidades, apenas um café da manhã simples com pão, frutas e leite. Esse mesmo hotel fica distante da praia e do centro da cidade e você precisa pegar o carro ou andar por um bom tempo para chegar a qualquer um dos dois. Mas tem um porém: a diária custa apenas R$ 200.
Obviamente a conclusão lógica é a de que as pessoas que têm recursos vão para o hotel de luxo enquanto as demais irão para a pousada mais simples, ou seja, eles não são concorrentes, certo?
As pessoas que buscam pelo hotel de luxo não serão afetadas pela oferta da pousada e vice-versa.
Mas vamos imaginar que em uma promoção a diária do hotel de luxo caia para R$ 400. O que aconteceria?
A diferença de preços que era de R$ 800 por diária passou para R$ 200, e se aproximou tanto do preço da diária que muitos clientes da pousada pensam agora em fazer um esforço um pouco maior ou ficar um período menor de tempo na praia para usufruir de todo o conforto e comodidade que o hotel de luxo pode oferecer.
Nesse caso, o fluxo de pessoas da pousada irá sofrer, assim como o seu preço caso queira continuar competitiva frente à outra opção.
O que acontece com Brasil e Estados Unidos agora é semelhante.
A diferença entre o preço da “pousada” (Brasil) e do “hotel” (Estados Unidos) está relativamente baixa, o que faz com que várias pessoas decidam ir para os Estados Unidos frente à opção de vir para o Brasil.
No caso, a nossa comparação não é de preço, e sim de juros.
Veja no gráfico abaixo a diferença entre o juro brasileiro e o juro americano de curto prazo, ou seja, a Selic e o juro de curto prazo por lá:
A linha vermelha mostra a diferença média das últimas décadas entre o juro brasileiro e o juro americano, e a área preenchida em azul mostra o nível atual dessa diferença. Se desconsiderarmos o período da pandemia vamos ver que essa diferença de juros de curto prazo entre Brasil e Estados Unidos esteve abaixo do patamar atual pouquíssimas vezes, e se esteve, permaneceu assim por pouco tempo.
Isso não acontece somente com os juros de curto prazo, mas também com os de longo prazo:
Temos aqui o mesmo cenário, a diferença dos juros de longo prazo está nos menores patamares das últimas décadas, o que aumenta a sensibilidade das taxas dos ativos brasileiros frente às oscilações do juro americano.
Isso abre alguma oportunidade?
Sim, uma que esperamos há algum tempo.
Com uma inflação relativamente controlada e com uma regra fiscal definida, os principais fatores que poderiam afetar o mercado brasileiro abrindo oportunidades de compra para ativos de risco viriam de outros lugares ou de algum aspecto inesperado. A piora da vez veio de fora.
Veja o que aconteceu com o juro do Tesouro IPCA+ 2045:
A taxa do Tesouro IPCA+ 2045, ativo importante em nossa carteira de investimentos, que chegou a tocar o patamar de IPCA+ 5,40% ao ano, voltou a superar o nível de IPCA+ 6% em um curto espaço de tempo.
Vale lembrar que esse movimento de taxa é equivalente a uma desvalorização de aproximadamente 10% no preço do ativo, o que é quase 1 ano do CDI atual.
É importante ressaltar que esse movimento de piora ocorreu com os dados de inflação surpreendendo positivamente as expectativas aqui no Brasil, sem pioras relevantes do ponto de vista fiscal frente à aprovação do arcabouço fiscal, e sem que observássemos um aumento nas expectativas de inflação para os próximos anos.
Essa piora ocorrendo com um cenário interno mais tranquilo do ponto de vista econômico me faz acreditar que esse é um bom momento para aumentarmos levemente a nossa exposição ao Tesouro IPCA+ 2045.
E como ficam as nossas carteiras recomendadas?
Com base na explicação que desenvolvemos ao longo do relatório, decidimos aumentar o nível de risco de nossa carteira. Para alcançar esse objetivo, planejamos aumentar nossa exposição ao tesouro IPCA 2045 de 5% para 7,5%. Simultaneamente, reduziremos nossa exposição a títulos indexados à inflação de curto prazo, diminuindo a participação no fundo Western Asset IMA-B 5 Ativos em 2,5%.
Esse ajuste afeta todas as carteiras construídas por ativos financeiros para carteiras com patrimônio igual ao superior à R$ 10 mil.
Veja, essa redução em indexados à inflação de curto prazo não ocorre por conta de uma piora de expectativas para essa classe, mas sim por conta de um momento mais propício para os indexados à inflação de longo prazo adiante.
Veja abaixo como ficam as nossas carteiras:
Ficamos por aqui!
Para finalizar, volto a te lembrar que é justamente nesses períodos de turbulência e incertezas que surgem boas oportunidades de ganhos.
Abraços,
Guilherme Cadonhotto