Relatórios

Alan Turing e a difícil decisão de não fazer nada (por enquanto)

Escrito por Fillipe Colus, Guilherme Cadonhotto em RENDA TOTAL

6 min de leitura

Alan Turing foi um matemático e cientista da computação nascido em Londres, capital da Inglaterra. Talvez você não o conheça por nome, mas com certeza se beneficia de suas criações, já que ele é considerado por muitos como o pai da computação moderna.

E a sua trajetória, que considero fascinante e até mesmo inspiradora, foi retratada no filme “O Jogo da Imitação”, de 2015 – Turing foi interpretado pelo ator britânico Benedict Cumberbatch.

O filme retrata o esforço de um grupo de cientistas reunidos pelo governo do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial para decifrar os códigos do Enigma, uma máquina de criptografia utilizada pelos oficiais alemães para enviar mensagens aos seus submarinos.

O fato de ser sido indecifrável por tanto tempo é apontado como uma das razões pela qual a Alemanha conseguiu avançar sobre o território europeu de maneira tão consistente. Afinal, a cada dia, os códigos eram alterados para evitar justamente que alguém os decifrasse. Ou seja, a equipe de Turing tinha pouco tempo para isso, ou precisaria começar do zero no dia seguinte.

E a obra destaca a importância da quebra do código para o triunfo dos aliados contra a expansão do exército alemão pela Europa.

Entre tantas coisas que o filme abordou, uma delas me chamou atenção, e vou compartilhar aqui com você.

Logo quando Turing e sua equipe finalmente desvendam os códigos do Enigma, descobrem que um submarino alemão está prestes a atacar um navio britânico repleto de civis.

Para não comprometer anos de intenso trabalho visando derrubar uma das maiores vantagens do exército alemão, a equipe toma uma decisão controversa: não avisar o navio sobre o ataque a fim de não correr o risco de que os alemães pudessem descobrir que o código foi decifrado.

O problema é que uma decisão dessa envergadura colocaria centenas de vidas em risco – até mesmo a do irmão de um dos membros da equipe que estava no navio.

Por outro lado, isso geraria uma alteração em todos os códigos e, consequentemente, a perda de todo o trabalho dos cientistas. Afinal, eles finalmente obtiveram uma grande vantagem estratégia na guerra: saber onde estavam localizados todos os submarinos alemães e identificar onde seriam os próximos ataques às tropas aliadas.

Esse é um exemplo que nos mostra que, em algumas situações, a decisão mais sensata pode ser não fazer nada. Isso não significa que a simples ausência de ação não terá consequências – a guerra mostrou o risco que isso implica. Estamos falando de evitar movimentos que podem ter implicações ainda maiores.

Como assim não fazer nada, Gui?

Em um dos meus primeiros dias como estagiário, o meu primeiro chefe em uma mesa de operações me disse algo muito parecido com isso: não fazer nada no mercado já é fazer alguma coisa, e exige um amplo grau de estudo e leitura.

Muitas vezes comprar um ativo sem uma convicção pode te fazer perder um bom dinheiro, da mesma maneira que vender um ativo antecipadamente, além de fazer você pagar o Imposto de Renda antes da hora, pode ainda fazer com que perca um bom movimento de alta.

Momentos de grandes incertezas e espaço para ganhos x perdas equilibrados são os típicos momentos que fazem investidores pensar que o melhor a se fazer é não fazer nada. Mantenha o que tem na carteira e não adicione grandes novas posições ao seu portfólio.

Nessas semanas, acredito que estejamos passando por situação muito semelhante. E esse posicionamento se dá para evitar exposição ou riscos desnecessários.

Desde o começo do ano, ao contrário do que outros países vêm experimentando, o Brasil tem observado uma piora em seus fundamentos e, por tabela, uma piora no preço de seus ativos.

Grande parte disso é gerada por um único motivo: a nossa desconfiança quanto à sustentabilidade fiscal brasileira.

Isso significa que investidores começaram a ficar mais céticos quanto à capacidade do Brasil em conseguir pagar suas dívidas de longo prazo. E, quando isso acontece, as taxas de juros, que refletem a remuneração que investidores recebem ao emprestar dinheiro para seu governo, sobem.

O déficit fiscal brasileiro deve superar os 10% do PIB, ou seja, o governo vai ter um gasto público superior às suas receitas maior que R$ 800 bilhões.

Soma-se a isso o fato de que, nos últimos dias, com o avanço do número de casos da Covid-19 no território nacional e o atraso no processo de vacinação, o investidor ou a investidora começa a acreditar com força que mais um ano de gastos bem mais altos do que nossa arrecadação vem por aí.

O ponto é que o Brasil é um dos países que mais está gastando dinheiro para enfrentar a crise econômica causada pela pandemia, mas não partimos de uma situação muito confortável. Nossa dívida já era uma das maiores entre os países emergentes em relação ao PIB no momento pré-pandemia; agora, ficamos atrás apenas da Angola. E a perspectiva segue piorando.

Isso porque o aumento da percepção de risco em nosso nível de endividamento fez com que as taxas de juros de longo prazo no Brasil subissem consideravelmente, representadas no gráfico abaixo pela linha preta. Apesar de ter havido também uma piora no risco em outros países emergentes, podemos notar que os juros nessas nações, representados pela linha azul abaixo, não sofreram tanto quanto aqui.

Fonte: Bloomberg

Mas não é apenas nos juros que essa piora das perspectivas e fundamentos brasileiros tem impacto. Ela aparece também na Bolsa, como podemos ver no gráfico abaixo.

A linha preta mostra a performance dos últimos seis meses do principal índice de ações no Brasil, o Ibovespa, em comparação à performance de um índice composto pelas principais Bolsas dos países emergentes.

Fonte: Bloomberg

Observe que, enquanto os países emergentes seguem a tendência de melhora neste início de 2021, o Brasil aponta para uma correção considerável em seus preços.

E o câmbio também não escapou de tais efeitos. No atual mês, o dólar subiu mais de 6% em relação ao real, enquanto as moedas de países emergentes permanecem estáveis frente à moeda norte-americana.

Fonte: Bloomberg

Governo mudando de lado?

O governo Bolsonaro foi marcado desde o início por uma equipe técnica muito competente no time de economia, comandada por Paulo Guedes. Além de Guedes, os comandos de grandes estatais, como Banco do Brasil e Eletrobras, lideradas respectivamente por André Brandão e Wilson Ferreira Júnior, indicavam que o governo focaria em trazer eficiência para empresas públicas.

A suposta demissão de Brandão da chefia do Banco do Brasil pelo presidente Jair Bolsonaro após o anúncio de uma reestruturação com PDV (pedido de demissão voluntária) e fechamento de agências incomodou o presidente brasileiro, que demonstrou preocupação em demitir pessoas em um momento frágil da nossa economia.

Porém, o mercado se questiona: o foco não era na eficiência das empresas estatais e possíveis privatizações?

A situação foi contornada pela equipe econômica, que conseguiu manter Brandão no cargo, mas outro episódio (mais preocupante, eu diria) se abateu sobre o Planalto: Ferreira Júnior pediu demissão de seu cargo na última terça-feira.

Apesar de sair do comando da estatal de energia elétrica e ir para a BR Distribuidora, ele alegou dificuldade em aprovar a privatização, que já era esperada há algum tempo pelo mercado.

É importante dizer que uma privatização de grande porte ajudaria o país em uma situação fiscal delicada como a que estamos vivenciando. Agora ela fica muito, muito distante.

As duas notícias acima, combinadas com uma defesa ampla no Congresso Nacional em favor da prorrogação do auxílio emergencial e outros benefícios para a população ainda em 2021, devem continuar pesando nos ativos brasileiros já na próxima semana, pois coloca em dúvida as orientações liberais do governo atual defendidas no início de mandato.

Enquanto a pressão por mais gastos aumenta, já se discute até mesmo uma alteração na regra do teto de gastos, mecanismo implementado nos últimos anos que impede que a despesa brasileira cresça a cada ano acima da taxa de inflação.

Vamos lembrar que esse é um ponto crucial para a nossa credibilidade fiscal, e alterá-lo em plena crise pode trazer mais malefícios do que benefícios, principalmente no longo prazo.

A dúvida que se segue para o futuro é como a equipe econômica irá conduzir esses assuntos nas próximas semanas, pois isso deve pesar nos ativos brasileiros, ou ao menos trazer volatilidade para os preços. Ou seja, ela vai manter um grau razoável de confiança do investidor?

Não é a primeira vez que o time econômico sofre baixas, e a cada semestre que passa elas parecem se tornar uma constante.

E isso traz outros questionamentos. Até que ponto Guedes estaria comprometido com um governo que vai abandonando aos poucos a sua agenda econômica?

Quanto mais essa pergunta estiver rondando as mesas de operações e as conversas nas tesourarias de bancos, e quanto mais os economistas de renome questionarem tal postura, mais devemos ver um balanço no preço dos ativos brasileiros.

Por isso, nada de novo hoje!

A ideia inicial era trazer uma nova recomendação – ela já estava quase pronta, aliás. Porém, achamos melhor esperar o desenrolar dos próximos acontecimentos, pois muita água pode rolar nas semanas que virão, como as eleições para presidência da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

O fato é que em muitos casos precisamos agir como Alan Turing , seja “decifrando” certos códigos do cenário nacional e internacional, seja não fazendo nada (por enquanto, pelo menos). Por isso, diante da incerteza de para qual caminho tudo isso vai apontar, vamos esperar.

Da mesma forma, oportunidades podem surgir em caso de solavancos relevantes, e aumentar a exposição em ativos de risco agora pode não ser uma boa opção.

Abraços,

Gui Cadonhotto e Filipe Colus

Sobre os analistas

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.