Quem tem alguma familiaridade com a série Renda Total já deve ter uma ideia de que a melhor maneira de investir em imóveis no Brasil é através dos fundos imobiliários. Se chegou recentemente, explico.
Isenção de Imposto de Renda (IR) nos dividendos, diversificação dos riscos de locatários, participação em grandes empreendimentos e grandes inquilinos como locatários são algumas das vantagens de ser investir por meio dos FIIs, mas hoje o meu foco não é fazer você revisitar esses pontos.
Estou aqui para te apresentar uma possibilidade de ter uma rentabilidade extra com suas ações sem se expor a riscos adicionais.
Essa forma de trazer uma rentabilidade adicional a nossa carteira pode ser obtida através da operação chamada “aluguel de ações”.
O aluguel de ações é uma estratégia que pode ser comparada ao investimento de imóvel antes dos fundos imobiliários.
Para te ajudar a entender como funciona o processo de aluguel de ações, vamos primeiro te explicar como nossos pais ou avós costumavam investir em imóveis há algumas décadas – e como algumas pessoas, talvez por não estarem familiarizadas com as possibilidades que se têm hoje, ainda investem em imóveis atualmente.
Investimento tradicional em imóveis
O investimento tradicional em imóveis tem como objetivo dois tipos de ganhos, que já são comuns para você que nos acompanha aqui: renda recorrente e ganho de capital.
Nesse tipo de investimento, a forma de renda recorrente se traduz no recebimento de aluguel mensal de um imóvel. O inquilino adquire temporariamente o direito de uso do imóvel em questão e te paga mensalmente um valor por isso. Ao fim do contrato de locação, o direito de uso volta para o proprietário do imóvel, o qual deve ser desocupado pelo inquilino.
A outra forma de se obter ganhos com o investimento tradicional em imóveis é via ganho de capital, que é quando o valor de mercado do seu imóvel está acima do valor pago pelo bem, considerando obviamente todas as despesas da transação, como ITBI e comissão dos corretores.
Em alguns casos, a remuneração do ganho de capital pode ser bem atrativa. Isso porque a valorização do imóvel pode se dar pela valorização da região em que ele se situa, que se dá com a construção de centros comerciais, vias de acesso e transportes públicos ao redor, além, claro, da melhora da segurança e de processos de revitalização do bairro. Esse tipo de ganho é mais comum, em se tratando de imóveis, no médio e longo prazos, já que mudanças nesse sentido demoram um tempo para ocorrer.
Mas o que tudo isso tem a ver com o aluguel de ações?
Compare o investimento em ações com o investimento em imóveis realizado da maneira tradicional.
Você tem duas formas de ganhar dinheiro: a primeira é pela renda recorrente, ou seja, a distribuição de lucros, dividendos e outros proventos pagos pela empresa a acionistas – no caso, você que possui a ação. A segunda forma é pelo ganho de capital, ou seja, ao vender a ação a um preço mais alto do que você comprou – e isso considerando também os custos de transação, como corretagem, e o Imposto de Renda.
Onde se encaixa a estratégia do aluguel de ações?
O aluguel de ações serve para potencializar o rendimento obtido da primeira forma relatada, que é a renda recorrente. Ao alugar uma ação, você cederá o “direito de uso” dela para um “inquilino”.
Nessa relação, os nomes não serão semelhantes aos que usamos nas operações com imóveis.
No caso, o proprietário da ação – acionista – receberá o nome de doador, e quem aluga a ação receberá o nome de tomador.
Fácil de lembrar, quem tem o papel, doador, “doa” o direito de uso da ação, enquanto quem “toma” esse direito é o tomador.
O doador é remunerado por isso?
Sim, quem doa o direito de uso da ação recebe uma remuneração que dependerá da demanda pelo aluguel daquela ação, ou seja, por quanto os investidores estão querendo alugar aquele ativo.
Exemplo: hoje o acionista da Vale, ou seja, proprietário da ação com ticker VALE3, receberá ao ano uma remuneração próxima de 0,03% para ceder o direito de propriedade da ação para um terceiro.
Essa remuneração média pode ser consultada no site da B3. A tabela de todas as ações segue este mesmo padrão:
Fonte: B3
Essa remuneração baixíssima de 0,03% mostra que a demanda por aluguel das ações da Vale está muito baixa. Para efeito de comparação, vamos observar a tabela de outra ação de nossa carteira de recomendados, a Minerva (BEEF3):
Fonte: B3
A remuneração é significativamente maior do que na ação da Vale, porém, ainda assim, uma remuneração anual de 1,22% não indica uma alta demanda pelo aluguel.
Se compararmos a remuneração pelo aluguel de ambos os ativos com a da ação da empresa de telefonia Oi S.A., veremos que a demanda por aluguel dos ativos na nossa carteira de recomendados é relativamente bem pequena – em Oi (OIBR3 e OIBR4), a rentabilidade anual média recebida pelo doador é em média de 4% ao ano, enquanto a taxa máxima recebida foi de 10%.
Fonte: B3
Mas quais são as vantagens de cada uma das partes ao realizar um acordo do aluguel de ações, seja a parte tomadora, seja a parte doadora (quem tem a ação)?
Vantagens do doador
O acionista (ou proprietário do ativo em questão), se deseja manter a ação por um longo período na sua carteira e quer aumentar o rendimento de seu investimento, pode doar a ação por uma taxa combinada.
Ao doar a ação para aluguel, os dividendos, juros sobre capital próprio e outros proventos que forem pagos ao acionista serão repassados a ele mesmo enquanto o contrato de aluguel ainda estiver vigente.
Mas cuidado: os papéis não podem ser vendidos enquanto o contrato de aluguel estiver vigente. Então, se o acionista, o doador, quiser realizar alguma venda rápida ou mesmo uma redução na exposição nesse ativo, ele ficará travado e não conseguirá realizar essa operação, a não ser que o contrato seja realizado com reversibilidade ao doador.
O modo de reversibilidade ao doador permite que o acionista liquide o contrato antecipadamente a qualquer momento, reavendo, assim, o direito de uso da ação.
Vantagens do tomador
O tomador é a contraparte que assume o maior risco da operação, ou seja, ele assume o risco de mercado da ação.
O processo de alugar uma ação serve para apostar na queda de seu valor.
Como assim?
Suponha que você seja acionista de uma ação da VALE3 que hoje vale R$ 100. Firmamos um contrato de locação pelo prazo de um ano, no qual eu te garanto que devolverei a sua ação e ainda uma taxa de remuneração de 5% ao ano sobre o valor total da operação.
Nesse caso, como fechamos o aluguel de apenas uma ação, o valor da operação será de R$ 100. Isso significa que, dentro de um ano, eu tenho o compromisso de te devolver uma ação VALE3 e mais R$ 5, que é a remuneração que eu acordei em te pagar por me emprestar sua ação pelo prazo de 12 meses (R$ 100 x 5% = R$ 5).
Como eu, a parte tomadora, acredito na queda do valor da ação da VALE3, assim que você me empresta a ação, eu a vendo ao preço de mercado de R$ 100, esperando que o valor dela caia para que eu a compre mais barato e a devolva para você por R$ 100, como estipulado no contrato. Depois de dois meses, o valor da ação cai para R$ 80, e eu a recompro no mercado com a garantia de que vou te devolver aquele papel a R$ 100, ganhando assim R$ 20 nessa operação – desconsiderando a taxa do aluguel de 5%, que dá R$ 5, o resultado bruto da operação, sem a cobrança do Imposto de Renda, seria de R$ 15.
Veja o exemplo nas imagens abaixo com a simulação de dois possíveis cenários:
Fonte: Spiti
Fonte: Spiti
Fonte: Spiti
Resumindo...
Quando somos acionistas, nosso risco incorrido ao alugar nossos ativos é muito baixo, para não falar ínfimo. O risco de verdade está com o tomador do aluguel; este, sim, pode perder um bom dinheiro ao realizar o processo descrito nas imagens acima, conhecido como “venda a descoberto”.
Sendo assim, posso colocar sempre minhas ações para alugar?
Não. Primeiramente, se a opção de aluguel não for a “reversível ao doador”, você não poderá liquidar a operação e forçar o tomador a te devolver o ativo a qualquer momento, podendo ficar assim travado com o papel em carteira sem a possibilidade de vendê-lo.
Em segundo lugar, as remunerações em alguns momentos podem ser tão baixas que, desconsiderando os custos de transação e o Imposto de Renda sobre os rendimentos, a operação pode trazer resultados pífios à sua carteira, não compensando o esforço para realizá-la.
Um exemplo é o aluguel da VALE3 a uma remuneração anual de 0,02% ao ano, taxa praticada atualmente no mercado.
É importante lembrar que a cobrança de IR, nesse caso, segue a tabela regressiva da renda fixa:
Fonte: B3
Corro o risco de não receber minhas ações de volta no vencimento do contrato ou quando solicito o vencimento antecipado?
A B3 atua como a contraparte central nas operações de aluguel e ela garante a liquidação dos contratos mesmo quando uma das contrapartes não honra o combinado. Por isso, ao realizar operações de aluguel, a B3 exige garantias que possam ser transformadas em dinheiro às partes envolvidas na operação, principalmente, claro, pelo lado do tomador.
Quando “doar” nossas ações em uma operação de aluguel?
O aluguel de ações se torna atrativo para quando a remuneração recebida para emprestar o papel é atrativa e quando não há, em nosso horizonte de investimento, grandes chances de alteração no cenário base para a empresa no médio e longo prazos. Assim, podemos embolsar uma remuneração maior por manter os papéis em carteira sem abrir mão da expectativa de lucro no médio e longo prazos.
Quando não doar as ações em operação de aluguel?
Não doar as ações em contratos que não sejam reversíveis ao doador, ou seja, que não possam ser liquidados a qualquer momento. Estratégias que não se enquadram nessa categoria apresentam risco maior, dado que o acionista, no caso o doador, não consegue antecipar a sua liquidação e pode se ver obrigado a manter um papel na carteira que está em “queda livre” e com mudanças em suas perspectivas futuras de resultado.
Quais as taxas vigentes para alugar as ações presentes na carteira Renda Total hoje?
Atualmente, as taxas médias praticadas para alugar as ações presentes na carteira Renda Total estão descritas na tabela abaixo:
Fonte: B3
A ação que começa a apresentar uma remuneração atrativa para alugarmos é a TAEE11, uma de nossas favoritas quando o assunto é dividendo e que pretendemos manter por um bom tempo em nossa carteira.
Conclusão
Apesar de não implicar grandes riscos ao doador, em alguns momentos não há grandes vantagens em alugar nossas ações, como é o caso agora.
Seguimos monitorando as taxas médias anuais cobradas para eventualmente recomendarmos o aluguel de ações visando maximizar a rentabilidade de nosso portfólio. Enquanto isso não acontece, basta aproveitarmos os dividendos e proventos de nossas ações recomendadas, que até agora têm se mostrado bastante vantajosos.
Vale lembrar que a operação de aluguel também é permitida para os fundos imobiliários. Mas esse é um assunto para um outro relatório.
Abraços,
Gui Cadonhotto e Filipe Colus