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Análise do cenário internacional em 2022 e seus principais desdobramentos na economia

Escrito por Felipe Arrais, Fillipe Colus, Guilherme Cadonhotto em RENDA TOTAL

10 min de leitura

Todos nós praticamente já passamos por momentos difíceis em nossas vidas, seja em nossas relações pessoais, no trabalho, seja nas finanças. Nessas horas, é importante ter paciência e lembrar que tudo passa. Além disso, manter a tranquilidade também pode ajudar a nos manter focados e avaliar se há algo muito errado com nossas escolhas – e o que fazer para corrigir.

Nesse contexto, as finanças e os investimentos também demonstram ser fontes de preocupação e estresse. Em um momento difícil, pode ser tentador desistir de nossos objetivos financeiros ou tomar decisões impulsivas que venham a prejudicar nosso futuro. No entanto, mantendo a calma e avaliando cuidadosamente nossas opções, temos a condição de ainda alcançar nossas metas a partir de escolhas sólidas.

Dessa forma, uma carteira de investimentos pode ser afetada por diversos fatores, incluindo acontecimentos globais e nacionais. Os eventos fora do nosso país, como guerras, crises econômicas, pandemias e mudanças climáticas, tendem a ter um impacto significativo na economia e, por conseguinte, nas empresas e ativos financeiros.

Por exemplo, durante o pico da pandemia de Covid-19, muitas empresas tiveram suas operações interrompidas ou reduzidas, o que levou a uma queda nos lucros e no valor de suas ações.

Além disso, a incerteza econômica gerada pela pandemia pode ter levado a uma diminuição da demanda por investimentos de risco, como ações, o que também gera uma propensão a afetar negativamente a performance de uma carteira.

E o cenário internacional de 2022 proporcionou diversos panoramas complexos, com destaque para o momento em que a economia global ensaiava uma retomada após o pico da pandemia, em 2020, e vimos o início de uma guerra entre Rússia e Ucrânia, cujos efeitos não ficaram contidos na região e se desdobraram pela cadeia de suprimentos de alimentos e de energia, principalmente na Europa.

Por outro lado, os eventos nacionais também podem afetar o desempenho de uma carteira de investimentos. Por exemplo, as políticas econômicas adotadas pelo governo, como mudanças nas taxas de juros ou oscilações cambiais, geralmente provocam um impacto na economia e, consequentemente, nas empresas e ativos financeiros.

Além disso, eventos políticos, como eleições ou mudanças na estrutura do governo, também podem mexer na performance da carteira de investimentos, já que alteram as expectativas dos investidores sobre o futuro econômico do país.

Em resumo, o desempenho da carteira de investimentos pode ser afetada por uma variedade de eventos globais e nacionais. Esses eventos costumam ter um impacto na economia e, por tabela, nas empresas e ativos financeiros, alterando assim o seu rendimento. Por isso, é importante prestar atenção nesses eventos e avaliar como eles afetam suas alocações.

Com isso em mente, vamos trazer os principais acontecimentos de 2022 em dois relatórios: o de hoje vai analisar os desdobramentos internacionais, enquanto o próximo, que será entregue na semana seguinte, vai abordar o cenário nacional, bem como a performance da nossa carteira de investimentos no ano que passou.

Isso nos permitirá fornecer uma visão abrangente dos principais acontecimentos e tendências que permearam o ano, tanto a nível global quanto nacional, e avaliar como afetaram a performance da nossa carteira.

No âmbito internacional, destacaremos três pontos: a guerra entre Rússia e Ucrânia, que teve início no começo do ano passado; os impactos que a inflação persistente trouxe ao longo de 2022; e como esse cenário evoluiu para criar os receios de uma recessão econômica global.

A guerra entre Rússia e Ucrânia

Fonte: Shutterstock

Além de todas as perdas humanas e sociais, uma guerra pode ter uma série de efeitos negativos na economia de um país ou região. No caso do conflito entre Rússia e Ucrânia, as implicações foram sentidas pelos dois lados e, como vamos mostrar, foram além dessas fronteiras.

Um dos primeiros efeitos da guerra foi a queda dos investimentos estrangeiros na região. As incertezas política e militar geradas pelo conflito desencorajaram os investidores a investir em qualquer um dos países, o que leva a diminuições da atividade econômica e do crescimento.

Vimos após o início da guerra grandes provedores de índices descontinuarem indexadores russo, que seguia a performance do mercado de capitais do país. Uma delas foi a MSCI, uma das maiores empresas de índices de ações, que entendeu que a Rússia se tornou “impossível de se investir”, segundo comentário de um alto executivo da companhia. Na época, o índice referenciado tinha um peso relevante de 3,24% no índice de países emergentes, o MSCIEF.

Fonte: Reuters

Outro desdobramento da guerra foi o aumento dos gastos militares. Fora os impactos sociais, os efeitos de um conflito armado envolvem principalmente uma expansão dos orçamentos militares dos países em questão para financiar o combate, o que pode elevar a dívida pública e, por conseguinte, ainda mais a incerteza em relação à economia dessas nações.

Com esse aumento das incertezas, vimos grandes empresas provedores de avaliação de crédito, como Fitch, Moody’s e S&P, rebaixarem a Rússia para categoria de “Non-Investment Grades”. Ela se refere a títulos considerados mais arriscados do que os de investimento, pois há uma maior chance de o emissor não conseguir honrar os seus compromissos de pagamento.

A seguir, em verde é possível verificar a classificação da Rússia no início de 2022 e, em vermelho, a avaliação depois do início da guerra, feita pela Moody’s. Países que compartilham o mesmo nível de rating atualmente são, entre outras, Argentina, Cuba e Costa Rica.

Fonte: Moody’s

O conflito também afetou negativamente o comércio dos dois países, já que as sanções econômicas impostas pelo governo russo ao ucraniano dificultaram a exportação de seus produtos e serviços, como é possível verificar nas expectativas da balança comercial tanto da Rússia quanto da Ucrânia.

Fonte: Fall 2022 Europe and Central Asia Economic Update – World Bank Group

Além disso, o conflito afetou a produção de alguns setores industriais, como as de petróleo e gás e de escoamento de grãos, já que a Ucrânia é um importante produtor de energia e fornecedora de grãos da região segundo o USDA, o Departamento de Agricultura dos EUA.

A significância da economia ucraniana não pode ser ignorada. Em 2021, o país teve como principais destinos de suas commodities EUA, China e Índia, de acordo com USDA, e exportou US$ 13,1 bilhões em ferro e aço, o que representou 19,9% de todas as suas saídas. As exportações de cerais também foram importantes, com um valor de US$ 11,8 bilhões, o que representou 18% das saídas totais do país.

Outros produtos importantes nas exportações ucranianas foram demais minérios e escórias, com um valor de US$ 7 bilhões (10,7% das exportações), óleos naturais, gorduras e ceras, com US$ 6,9 bilhões (10,5% das exportações) e equipamentos elétricos, máquinas e equipamentos, com US$ 3,2 bilhões (4,8% das exportações).

Já a Rússia é um importante exportador de petróleo bruto (cerca de 5 milhões de barris por dia) e de produtos refinados de petróleo, como gasolina e diesel (cerca de 3 milhões de barris por dia), que representam cerca de 40% das suas receitas de exportação totais.

A guerra na Ucrânia tem interrompido o escoamento das commodities de ambos os países e tem dificultado seriamente sua capacidade de exportar, enquanto as sanções impostas à Rússia têm reduzido os compradores dispostos para suas commodities.

Isso influenciou de forma intensa nos mercados de trigo, milho e óleo vegetal, e, junto com a retomada das atividades econômicas, afetou o preço das commodities de forma disseminada ao longo do ano. Veja a seguir o índice BCOM da Bloomberg, que acompanha o preço de uma cesta diversificada de commodities.

Fonte: Bloomberg

O índice começou o ano de 2022 em US$ 99,17 e atingiu seu pico em 10 de junho, em US$ 135,43.

No entanto, a partir da metade do ano, o principal tópico de discussão foi a possibilidade de uma recessão global, o que afetou o preço das commodities mesmo com o cenário desfavorável de quebra de cadeias de suprimentos.

Como resultado, o preço das commodities fechou o ano em US$ 112,81, uma queda de 16,7% em relação ao seu máximo. O que contribuiu para essa mudança de humor foi a inflação persistente nos países desenvolvidos e a elevação dos juros globais.

Inflação nos países desenvolvidos

A inflação é um aumento geral e persistente nos preços de bens e serviços em uma economia. Quando está alta, os consumidores e as empresas precisam gastar mais dinheiro para comprar os mesmos bens e serviços, o que pode levar a uma diminuição da atividade econômica.

Alguns dos efeitos deletérios da inflação para a atividade econômica global incluem:

  • Redução do poder de compra: quando os preços aumentam, o dinheiro que as pessoas têm em mãos perdem poder de compra. Isso tende a levar a uma diminuição do consumo, o que afeta a produção e o emprego em uma economia.
  • Incerteza econômica: a inflação elevada e persistente pode criar incerteza econômica, pois as pessoas e as empresas não sabem se os preços continuarão aumentando no futuro, principalmente quando vemos grandes oscilações de ano em ano, o que pode levar a uma diminuição da confiança dos consumidores e dos investidores, e, por tabela, afetar negativamente a atividade econômica.
  • Desestabilização dos mercados financeiros: a inflação também gera uma propensão a afetar negativamente os mercados financeiros, já que tende a levar a uma desvalorização da moeda e a um aumento dos juros, e tornar mais caro para as empresas e pessoas tomarem empréstimos.
  • Efeitos distributivos: a inflação também pode ter efeitos distributivos desiguais ao afetar diferentes grupos de pessoas de maneiras distintas. Por exemplo, trabalhadores com salários fixos correm o risco de ver seu poder de compra diminuir à medida que os preços aumentam, enquanto aqueles com salários corrigidos pela inflação tendem a se beneficiar. Isso levaria a uma redistribuição de renda e riqueza entre os trabalhadores.

Sendo assim, a inflação pode ter uma série de efeitos negativos para a atividade econômica, porque há o risco de levar a uma diminuição da atividade, prejudicar a confiança na economia e afetar negativamente o poder de compra das pessoas e das empresas.

E, como mencionamos, a inflação é uma variação de preços calculada pelo aumento de uma série de produtos e serviços das mais diversas naturezas, como fica mais claro no gráfico a seguir.

Fonte: European Central Bank

A inflação em países desenvolvidos historicamente é representada por uma parcela significante dos preços de energia (em laranja, no gráfico), seguida de alimentos (em amarelo), que foram dois dos mais afetados pela quebra da cadeia de suprimentos em 2022 e viram seus preços escalarem. Os outros são chamados de núcleo (ou core) da inflação, representado na cor azul clara.

Como era de se esperar, isso propiciou a uma escalada da inflação tanto nos Estados Unidos quanto na zona do euro, que vêm enfrentando uma elevação de preços persistente e sem precedentes nos últimos meses.

Fonte: Trading Economics

A inflação tem sido impulsionada por uma combinação de fatores, incluindo o aumento dos preços dos produtos básicos, como alimentos e energia, bem com pelos pacotes de estímulo fiscal e monetário adotados pelos governos para enfrentar os efeitos da pandemia de Covid-19. Veja a seguir os fatores componentes da inflação na zona do euro, suas mudanças, além da alteração dos valores dos alimentos (em amarelo) e energia (em vermelho):

Fonte: Eurostat

Além disso, é possível argumentar que a inflação também tem sido agravada pelo aumento da demanda por produtos e serviços, limitada pela falta de produtos ou força de trabalho e pelos obstáculos na cadeia de suprimentos, conforme já mostramos. E a sua persistência sem precedentes tem sido uma fonte de preocupação para consumidores e empresas, devido aos efeitos deletérios sobre a economia, criando o receio sobre uma recessão global.

A possibilidade de recessão global

Fonte: Shutterstock

A persistência da inflação pode criar o medo de uma recessão por várias razões.

A principal delas é devido à forma de controlar a inflação, que tradicionalmente é feita através da elevação das taxas de juros, o que tende a ser um indicador de uma possível recessão.

Afinal, quando as taxas de juros estão caindo, é uma indicação de que as instituições financeiras estão procurando estimular o crescimento econômico, pois, com a redução dessas taxas, há um natural aumento de liquidez (dinheiro disponível) que pode ser emprestado ou investido por conta dos juros mais baixos.

Portanto, quando as taxas de juros estão subindo, pode ser entendido como um sinal inverso, ou seja, o crescimento econômico está prestes a desacelerar ou já se encontra em queda por reduzir a quantidade de dinheiro disponível.

Com a redução da liquidez e possível desaceleração de negócios, é esperado que a inflação corrente ceda na margem como resultado. Note como o aumento das taxas de juros do Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) após o início do ciclo de alta foi a mais abrupta quando comparada com outros momentos de elevação:

Fonte: Statista

Além disso, a elevação das taxas de juros gera um efeito negativo aos mercados de imóveis e de crédito. Quando os juros são mais altos, os empréstimos tendem a ficar mais caros, o que influencia na capacidade de pessoas e empresas de comprar imóveis ou fazer outros tipos de investimentos que necessitem de capital de terceiros. Isso pode levar a uma diminuição da demanda por produtos e serviços e, portanto, a uma diminuição da atividade econômica.

Tais fatores podem levar os participantes do mercado a ficarem preocupados com a possibilidade de uma recessão e afetar negativamente o comportamento de consumo e investimento e, portanto, contribuir para esse recrudescimento econômico.

O que fazer com seus investimentos nesses períodos difíceis?

No âmbito internacional, passamos por períodos difíceis em 2022, mas é importante lembrar que momentos desafiadores podem esconder ótimas oportunidades de investimentos.

Durante períodos de incerteza econômica, os preços de muitos ativos, como ações e imóveis, tendem a cair. Isso cria oportunidades de compra a preços mais baixos do que o normal. Por exemplo, se você acredita que determinada empresa é fundamentalmente sólida e tem um bom potencial de crescimento a longo prazo, pode ser uma boa ideia comprar suas ações quando os preços estão baixos. Vários indicadores inclusive mostram que o desconto embutido tanto em FIIs quanto ações brasileiras se encontram em patamares de desconto relevante. Veja a seguir o índice preço sobre lucro (P/L) médio do Ibovespa e note que se encontra abaixo da média histórica:

Fonte: Economatica | Desenvolvido por Spiti

Além disso, durante períodos desafiadores, as empresas podem estar mais dispostas a tomar medidas para aumentar sua eficiência e diminuir custos, e levar a melhorias na rentabilidade a longo prazo, o que pode ser positivo para os investidores. Inclusive, foi comum escutarmos relatos ao longo do ano de desligamentos e rescisões em massa de funcionários em empresas dos mais diferentes setores, em especial as voltadas ao setor de tecnologia.

Finalmente, mesmo durante períodos desafiadores e com a inflação já controlada, as instituições financeiras e governos podem tomar medidas para estimular o crescimento econômico, como reduzir as taxas de juros ou implementar pacotes de estímulo fiscal. Isso tende a ajudar a melhorar as perspectivas econômicas a longo prazo e, portanto, ser positivo para os investimentos.

E, com a possível redução de juros, existe o potencial valor a ser destravado em FIIs e ações, sem contar a marcação a mercado de títulos de renda fixa, que se beneficiam com a redução de juros.

É importante lembrar, no entanto, que os investimentos envolvem riscos e não são garantias de retorno. Por isso, sempre reforçamos nosso papel que é o de trazer uma pesquisa cuidadosa antes de tomar qualquer decisão de investimento.

Com isso em mente, para completar nosso panorama do ano de 2022, na semana que vem traremos nosso relatório de performance anual completo, junto com nossa análise dos principais acontecimentos do cenário nacional e seus efeitos sobre nossa carteira.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.