Relatórios

Análise do nível de atratividade atual das classes de ativos da carteira Renda Total – Parte 2: ações

Escrito por Fillipe Colus, Guilherme Cadonhotto, Luciana Seabra em RENDA TOTAL

8 min de leitura

Na semana passada, eu, Fê, levei o carro da minha família para a manutenção programada e pensei: “sempre bom prestar atenção nos detalhes que o veículo nos fornece mesmo sem manutenção.” Isso porque existem alguns sinais que são importantes verificar de tempos em tempos, pois normalmente nos dizem algo, como por exemplo um barulho estranho vindo do motor – que geralmente não sinaliza nada de bom!

No mundo de finanças também existem alguns sinais (no caso, os números e gráficos) que podem mostrar perigos à vista ou, como é o caso desta série de relatórios, boas oportunidades. Na semana passada, mostramos que o atual momento é bem atrativo para se investir em FIIs e renda fixa, e hoje traremos nossa análise em relação ao mercado de ações.

Panorama do mercado de ações

Nós já falamos em alguns relatórios (como este, este ou este) sobre a dinâmica da precificação de ativos de riscos e sua relação especial com as taxas de juros de longo prazo do país, e os paralelos entre esta e a Selic, a taxa básica da economia nacional.

Basicamente, os ativos de risco são mais correlacionados às taxas de juros de longo prazo. Quando estas aumentam, os preços desses ativos caem, em uma relação inversamente proporcional. E o contrário é verdade: quando as taxas de longo prazo estão em baixa, os ativos de riscos tendem a subir como um todo.

É possível utilizar uma taxa de um título público com vencimento de longo prazo (com mais de 5 anos de vencimento) como taxa de longo prazo do país. Nesse caso, vamos usar as taxas de um título de inflação de longo prazo, o IPCA+ 2035

E o que tem acontecido com as taxas de longo prazo de títulos públicos?

É o que mostramos a seguir:

Fonte: Tesouro Direto

Nós já mencionamos isto no relatório de semana passada e reiteramos: as taxas dos títulos de longo prazo estão em patamares historicamente altos.

Os ativos indexados à inflação de longo prazo são bons termômetros para o risco fiscal do país, ou seja, o nível de confiança que investidores têm no Brasil. Assim, se o risco fiscal no longo prazo diminui, as taxas desses ativos tendem a diminuir.

E o fato é que desde 2020 essas taxas têm se elevado consideravelmente. Note que antes desse período elas estavam em nível abaixo da média histórica descontado do desvio-padrão do período e agora já estão acima da média.

É claro que uma série de fatores impacta na precificação das ações, mas essa elevação também tem uma influência relevante nisso. E um dos grandes fatores que pesam nesse processo é a taxa de longo prazo, tanto que a correlação entre as performances do índice Ibovespa e da taxa prefixada média do título IPCA+ 2045 comprova isso. Para o período completo analisado a seguir, a taxa de correlação foi de -57%, o que mostra uma relação inversamente proporcional.

Fontes: Comdinheiro e Economatica. Elaborado por Spiti

Quando observamos que existe uma correlação entre esses dois pontos, a performance das ações e as taxas de juros de longo prazo (que é inversamente proporcional), e que as taxas têm subido de forma considerável, entendemos também que as ações hoje estão com preço descontado, ou seja, estão em um patamar interessante de entrada – algo que discutiremos à frente.

Além disso, o momento atual faz com que quem investe em ações tenha outra força a seu favor, a da redução da taxa de juros de longo prazo. Dado o alto grau histórico em que se encontra, uma possível redução dessa taxa é mais um fator positivo para as ações, uma vez que esse movimento trabalharia a favor da valorização dos ativos de risco graças a essa relação inversamente proporcional que mencionamos.

As taxas podem continuar a subir? Sim, porém os níveis atuais estão remontando aos níveis dos anos de 2015 e 2016, de intensa turbulência política. Além disso, vale lembrar que os títulos indexados à inflação de longo prazo se baseiam na taxa de juros reais neutros do país, que saíram de IPCA+ 4,50% para IPCA+ 3,50% desde o período.

Ou seja, além de as taxas estarem em patamares comparáveis com 2015/2016, a projeção de juros reais neutros diminuiu 1%. Para fazermos uma comparação justa, precisamos elevar em 1 p.p. a taxa em que os títulos indexados à inflação trabalham hoje.

Isso nos mostraria que os preços das ações estão mais descontados que aparentam.

Vamos analisar mais de perto e checar se isso é verdade!

Índice P/L: Bolsa descontada, oportunidade à vista

Vira e mexe recebemos perguntas relacionadas ao preço das ações, ou se determinada ação está com um preço interessante de entrada. Em nossas lives, costumamos repetir a seguinte frase:

“A oportunidade anda de mão dadas com o risco.”

Traduzindo, grandes oportunidades normalmente aparecem quando o cenário é incerto ou existem diversos riscos que são desconhecidos. Aqui na série, já demonstramos em diversos estudos que a melhor hora para investir não importa tanto, desde que seja feita em bons ativos de forma diversificada e com foco no longo prazo.

Porém, em alguns momentos de alto estresse de mercado, por conta de uma crise local ou global, os ativos de riscos podem ficar descontados por um período. E veja que em todos os anos recentes tivemos grandes acontecimentos que tomaram palco, e normalmente seguidos de boas oportunidades:

Grandes acontecimentos de anos passados

Fonte: Spiti

Alguns deles se limitaram a um determinado setor ou empresa, como o caso do desastre em Brumadinho (MG), que impactou fortemente a Vale. Outras trouxeram níveis de incerteza nunca vistos, como a crise gerada pela pandemia.

Quando olhamos para trás, vemos diversos eventos que impactaram o preço dos ativos e de forma geral abriram oportunidades de entrada.

Alguns deles aconteceram de forma rápida, questão de um dia ou uma semana, como a crise do novo coronavírus, que gerou três pregões com circuit breakers (a interrupção dos serviços causada por uma queda dos valores muito intensa em um único dia como medida de segurança) seguidos em menos de uma semana na Bolsa de Valores brasileira.

Ao passo que outras se desenrolam ao longo de semanas, como foi o caso da greve dos caminhoneiros em 2018, em que a previsão de inflação e as taxas de juros se elevaram consideravelmente no período de 30 dias.

Após essa contextualização, vamos agora falar sobre como medir isso. Para fazer isso, utilizaremos um indicador comum ao mercado para verificar se uma ação no geral está em patamar descontado ou não, o preço sobre lucro (P/L).

Já apresentamos esse conceito aqui, mas, de forma simplificada, ele indica quantos anos serão necessários para que o investimento na ação àquele preço retorne na forma de lucros (partindo da premissa que o lucro se repetirá nos próximos anos).

Ele pode ser expresso na seguinte fórmula:

Quanto menor esse indicador, mais barata uma ação se encontra. Então, a partir disso, façamos esse cálculo para o Ibovespa ao longo dos anos para mostrar a você que a Bolsa continua em um nível descontado e que não perdeu a janela de entrada em 2022.

Fontes: Economatica e Broadcast. Elaborado por Spiti

O atual nível do indicador da Bolsa mostra que as ações estão em um nível abaixo da média histórica, até mesmo considerando um desvio-padrão dessa média.

Outro ponto interessante a se comparar é o prêmio caso você carregue uma ação comparada a um título de longo prazo. Para entender esse múltiplo, é importante lembrar que uma ação deriva de uma empresa, e que esta gera lucro.

Esse indicador basicamente vai mostrar quanto uma ação paga a mais que um título de longo prazo da dívida pública. No gráfico abaixo, repare que, nos últimos dez anos, apenas em 2015 a taxa de prêmio em comparação a um título de longo prazo esteve melhor que o ano atual.

Vale ressaltar que os valores atuais estão acima da média, inclusive levando em consideração o desvio-padrão da amostra histórica do índice.

Fontes: Economatica. Elaborado por Spiti

O gráfico mostra que as empresas do Ibovespa estão pagando um retorno médio anual (na forma de lucros) na ordem de 3,7% ao ano, acima de títulos públicos indexados à inflação de longo prazo.

Um risco para o ano: aumento dos gastos e pressão dos combustíveis

O cenário atual evidencia um tom positivo para as ações. Porém, como mencionamos, existem riscos no radar para este ano que são importantes e devem ser levados em consideração – com destaque para um deles: o risco fiscal.

A percepção de risco dos investidores de médio e longo prazos para o país pode aumentar devido ao ano eleitoral. E alguns acontecimentos já tendem a isso, como a discussão, ainda no quarto mês do ano, de um aumento para todos os funcionários federais, que, mesmo com respaldo de outras fontes, pressiona o orçamento para 2022.

Outro fato é a pressão internacional do preço dos combustíveis, que já trouxe à tona discussões sobre subsidiar o preço desses produtos aqui ou reduzir a taxa da alíquota de impostos federais sem contrapartida. Isso diminuiria a arrecadação do governo federal e aumentaria o nível de endividamento.

E ainda temos as discussões por aumento de gastos no Congresso, que também pressiona as despesas com as propostas em tramitação na casa, conforme levantamento do Estadão (veja na imagem a seguir). Esse risco intensifica a pressão pelo aumento da taxa de juros de longo prazo, que está relacionada à confiança dos investidores no país.

Fonte: Estadão

Mesmo com riscos, o dinheiro estrangeiro continua a entrar

Um ponto relevante que mostra o quão interessante está a Bolsa de Valores e nossos ativos de modo geral é o ingresso de estrangeiros no país, que impulsiona a nossa moeda a ter a melhor performance comparada ao dólar dentre os países emergentes e uma das melhores quando comparadas ao resto do mundo.

Fonte: Broadcast. Elaborado por Spiti

Para colocar números, em 13/1 a taxa de câmbio estava em R$ 5,53 e em 19/4 a taxa do fechamento foi de R$ 4,67.

O ingresso de capital estrangeiro tem diminuído nas últimas semanas em comparação ao que vimos durante o ano.

Mas, analisando 2022 até agora, nota-se que a tendência de entrada desse dinheiro não parou, sendo que dois fatores contribuem para isso: o valor das commodities em alta (especialmente petróleo e minério de ferro) e a taxa Selic em alta.

Tradução livre: “Taxa de juros alimenta melhor taxa de carry trade do mundo”. Fonte: Bloomberg

Quando analisamos a Selic no meio dessa equação toda, temos que fazê-lo de forma comparativa com outros países. Em relação a outros países, o Brasil iniciou o ciclo de aumento de juros no ano passado, e nossa moeda é a melhor opção de carry trade do mundo contra o dólar norte-americano, que consiste na tomada de empréstimos em dólares por parte do investidor estrangeiro para comprar títulos públicos nas outras moedas.

Tradução: “Retorno real de ‘carry trade’ em % a.a. de títulos públicos comparado ao dólar norte-americano”. Fonte: Bloomberg

Segundo levantamento, o resultado de se realizar o carry trade de dezembro de 2021 até abril deste ano na moeda brasileira resultou em 24% a.a., o maior do mundo e mais que duas vezes quando comparado com o segundo lugar, o rand sul-africano.

Isso nos mostra que não só as nossas taxas de longo prazo, mas também as de curto prazo estão em patamares elevados, o que nos coloca na frente dos outros países na corrida para conter a inflação e atrair o dinheiro de investidores estrangeiros.

Conclusão

Aqui na série recomendamos a compra de ações de qualidade que historicamente são boas pagadoras de dividendos e estão em estágio interessante, e a análise do índice como um todo mostra as oportunidades valiosas do setor.

Reforçamos também que mesmo com a atual melhora da Bolsa em 2022, ela continua, sim, em patamares descontados, mesmo com a recente entrada de investidores estrangeiros e a valorização do Ibovespa. Isso pode ser comprovado analisando os indicadores, que nos mostram que, nos níveis atuais, mesmo depois dessa recente valorização, continuam em níveis abaixo da média histórica de preço.

Então, se acaso você ainda não possui as ações recomendadas da carteira Renda Total, o momento é propício para começar a comprá-las.

Na medição entre risco e oportunidade, a balança tende para o lado desta, mas não se esqueça de que a oportunidade anda de mãos dada com os riscos. Porém, diversos fatores que mostram o saldo de risco é positivo para as ações neste momento: o preço descontado da Bolsa versus seu histórico, o prêmio alto em comparação a um título público de longo prazo, o ingresso elevado de dinheiro estrangeiro no país em busca dos ativos brasileiros e o patamar mais alto em que os juros se encontram.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Luciana Seabra

Fundadora

Fundadora da Spiti, uma das maiores casas de análise do Brasil, Luciana Seabra é reconhecida por sua abordagem clara e acessível para explicar assuntos complexos relacionados ao mundo financeiro para o público em geral.