Relatórios

Análise dos ciclos do Bitcoin e dos indicadores de longo prazo

Escrito por Thales Inada, Rodrigo Xavier em ALTERNATIVOS

9 min de leitura

Você já leu ou ouviu a frase “a história não se repete, mas rima”?

Ela foi dita pelo escritor e jornalista norte-americano Mark Twain e pode ser aplicada ao mercado financeiro. Isso porque a economia sempre passa por ciclos, com sua época de alta, com a dinâmica global a todo vapor, seguida de períodos de baixa, marcado por crises do setor financeiro.

Os erros da humanidade são os mesmos, e os comportamentos naturais nesses momentos também são semelhantes. Pensando nessa repetição, temos um bom nível de previsibilidade, e com isso podemos tomar algumas atitudes antecipadamente, com a finalidade de amenizar o impacto das crises e quem sabe até mesmo nos beneficiar desses momentos difíceis. Em casos extremos, pequenas mudanças antes do movimento em massa podem fazer grandes diferenças.

Por já esperar esse comportamento padrão do mercado, a gente até pode se adiantar ao movimento. Um exemplo recente era o fato de não precisarmos ter esperado o corte de juros aqui do Brasil efetivamente acontecer para então lucrarmos na renda fixa com a marcação a mercado. O ideal seria termos nos adiantado alguns meses para conseguir aproveitar todo o benefício proporcionado por esse momento.

Perceba que não estou falando de um timing de mercado muito preciso, mas simplesmente nos posicionar e esperar o tempo que for necessário para o movimento acontecer, que não sabemos exatamente quando vai ocorrer.

No mercado cripto, temos momentos bem semelhantes aos do setor financeiro tradicional e diria que estamos em um ponto “ideal” no universo cripto equivalente à antecipação do corte de juros aqui do Brasil.

Caso você já invista há algum tempo no mercado cripto, sabe que estou falando do halving do BTC, que se repete a cada quatro anos e dita o ciclo do mercado cripto. 

Porém, hoje meu foco será mostrar diversos indicadores de longo prazo e como eles se comportaram durante os ciclos anteriores do BTC. Com base neles, vamos fazer uma comparação do que aconteceu no passado e o que eles estão nos indicando para os próximos meses.

Análise dos ciclos do BTC

Fazendo uma breve revisão, o halving é o corte pela metade da recompensa dos mineradores. Esse evento acontece a cada quatro anos aproximadamente a fim de aumentar a escassez do ativo com a queda brusca na oferta e o aumento natural na demanda pelo ativo.

No gráfico abaixo, indiquei pela linha vertical branca quando os halvings aconteceram. As altas se iniciam levemente antes de cada um desses cortes e ficam mais fortes logo depois de efetivamente acontecerem – período chamado de verão cripto. Depois do período de alta, vem a correção do mercado, destacado em vermelho, conhecido por inverno cripto.

Ciclo do BTC baseado no halving

Fonte: TradingView. Adptação: Spiti
Fonte: TradingView. Adptação: Spiti

Claro que ainda não podemos dizer com total certeza que o inverno cripto acabou, mas na minha opinião as chances de renovarmos o fundo de 2022 são ínfimas – inclusive, vou justificar isso com alguns indicadores neste relatório. Esse é o famoso ciclo do BTC, que podemos considerar equivalente ao ciclo do mercado financeiro tradicional.

O gráfico acima nos dá uma visão geral do que pode acontecer, que no caso seria uma leve alta antes do próximo halving, por volta de abril de 2024. Para facilitar a comparação dos movimentos, podemos dividir esse gráfico em partes.

Caso você tenha entrado recentemente no mercado cripto, não se engane, pois mesmo no período de alta temos fortes emoções. Na parte vermelha do gráfico abaixo, antes do último movimento de alta de 2013, tivemos uma correção intermediária de mais de 60%. Na alta de 2017, as correções intermediárias ficaram entre 25% e 30%. Já no crash de 2020 da crise provocada pela Covid-19, tivemos uma queda de mais de 62%.

Correções durante os períodos de alta dos ciclos 

Fonte: Glassnode
Fonte: Glassnode

Interessante observarmos que no ciclo de 2015 a 2018 (azul), tivemos uma oscilação de preços menor do que o período de 2019 a 2022 (verde). Isso porque o mercado cripto começou a ter maior relação com o setor financeiro tradicional e também sentiu bastante o impacto da pandemia. 

No ciclo atual (gráficos pretos), ainda não tivemos correções muito significativas no período de alta que acabou de se iniciar. Por isso, no curtíssimo prazo, uma correção mais marcante pode estar começando a acontecer agora com essa queda recente.

Conforme o BTC cresce sua capitalização, a ideia é que essas correções intermediárias tendam a ficar menores naturalmente. Portanto, durante o ciclo atual, sem um cenário econômico ruim, acredito que podemos ter algo semelhante ao período de 2015 e 2018, com correções intermediárias por volta de 30%.

Agora, comparando exclusivamente os períodos de baixa no gráfico abaixo, temos um comportamento mais uniforme. As pequenas altas dentro de um movimento predominantemente de baixa costumam girar por volta de 70%. 

Recuperação do mercado durante o período de baixa

Fonte: Glassnode. Adaptação: Spiti
Fonte: Glassnode. Adaptação: Spiti

Um padrão interessante é que durante o fundo do mercado, os momentos de recuperação do BTC são mínimos, indicados nos pontos mais baixo gráficos inferiores. Depois dessa volatilidade mínima, temos o início de um movimento de recuperação mais forte. Atualmente, representado no gráfico cinza, já tivemos um vale bem nítido e consolidamos uma recuperação com mais força, semelhante aos ciclos anteriores.

Na contagem do tempo, os fundos dos ciclos anteriores aconteceram por volta de um ano depois da máxima histórica daquele momento. Neste ciclo, indicado pelo gráfico preto abaixo, o fundo foi levemente adiado em cerca de cinco meses, por isso, a possibilidade de renovação do fundo a partir de agora é extremamente baixa, pois, com base no padrão de tempo, seria “tarde demais” para isso acontecer.

Comparação dos ciclos

Fonte: Glassnode. Adaptação: Spiti
Fonte: Glassnode. Adaptação: Spiti

Assim, considero agora um momento de transição, que será predominantemente lateral, bem parecido com os ciclos em azul e vermelho. Com base no tempo desses dois movimentos anteriores, esse período lateral pode durar até por volta de fevereiro de 2024, com a possibilidade de renovar a máxima histórica até o meio do ano que vem (linha verde). 

Essa transição do período de baixa para a alta também pode ser vista por outro dado: o ponto médio de cada ciclo. Considerando períodos de quatro anos, o ponto médio de cada um deles fica indicado da seguinte forma.

Comparação do ponto médio de cada ciclo

Fonte: Glassnode
Fonte: Glassnode

É interessante observarmos que o primeiro fundo mais marcante do ciclo tende a se aproximar bastante do valor médio, que atualmente gira por volta dos US$ 30 mil. Perceba que qualquer ponto de compra abaixo dessa linha historicamente sempre foi muito interessante para aumentar as posições, já que ficamos pouco tempo abaixo dela. A superação dessa linha é um dos gatilhos para o movimento de alta.

Comportamento dos indicadores em cada ciclo

Agora que entendemos o comportamento do BTC baseado nos ciclos, podemos analisar alguns dados mais específicos do mercado. 

O primeiro que me chamou bastante atenção ultimamente foi a falta de liquidez. Para isso, rastreamos as moedas que são mais negociadas, pois os HODLERs movimentam muito pouco seus ativos e, consequentemente, não interferem muito na dinâmica do mercado.

No gráfico vermelho abaixo, temos apenas as moedas movimentadas dentro de uma semana. Podemos notar que mesmo esses ativos mais negociados ficaram com seus volumes nas mínimas. A extrema falta de liquidez é uma característica que se repetiu exatamente durante o fundo de cada ciclo.

Ativos negociados no curtíssimo prazo

Fonte: Glassnode
Fonte: Glassnode

Outro motivo que reforça esse dado é a falta de interesse pelo ativo – na baixa, o BTC não chama atenção do mercado. Por isso, temos dois fatores que reforçam a falta de liquidez: a falta de compradores e o fato de que quem está segurando seus ativos se recusa a vendê-los por preços baixos.

Essa falta de movimento dos HODLERs pode ser identificada quando analisamos os investidores de longo prazo dentro de cada ciclo (holder até três anos). Quando mais de 60% do valor de mercado é representado por esse tipo de investidor, que se recusa a desfazer sua posição por preços tão baixos, a escassez aumenta até o ponto em que o mercado desiste de esperar e o movimento de compra começa a surgir. 

Capitalização dos HODLERs

Fonte: Glassnode
Fonte: Glassnode

A partir de agora, já podemos dizer que iniciamos o movimento de queda no indicador e consequente início da alta do mercado, mas precisamos estar cientes de que isso não é imediato, e sim bastante duradouro, que tende a permanecer em queda durante todo período de alta do BTC.

Essa recusa na venda do ativo é justamente por causa da baixa do mercado. Porém, agora, alguns desses investidores de longo prazo já entraram no lucro, conforme indicado pelos gráficos verde e vermelho abaixo.

Lucro e prejuízo dos investidores

Fonte: Glassnode
Fonte: Glassnode

A linha horizontal vermelha é uma referência de quando o movimento se inverteu e iniciou o lucro de alguns investidores. Ela também marca o início do período de alta do mercado, e quando o gráfico se torna verde, a expectativa de manutenção da alta é extremamente relevante. O único momento de exceção do indicador foi a correção da Covid-19 em 2020.

No outro lado, temos os investidores de curto prazo. O mais interessante nesse caso é observarmos o movimento de saída desses especuladores, que nos picos de alta dos ciclos tendem a deter uma participação de 80% do mercado, ao passo que, no fundo dos ciclos, a sua participação fica na mínima, cerca de 30%.

Valor realizado dos investidores de até seis meses

Fonte: Glassnode. Adaptação: Spiti
Fonte: Glassnode. Adaptação: Spiti

Isso acontece porque, primeiro, a liquidez nesse momento desaparece como comentamos anteriormente, e segundo, a partir de agora, os especuladores perderam seus ativos para os HODLERs. Entretanto, agora já podemos ter marcado o fundo no indicador e o mercado pode começar a esquentar novamente aos poucos conforme a valorização do BTC acontece.

A porcentagem dos investidores no prejuízo é rastreada pelo gráfico abaixo, em que o gráfico em vermelho são os investidores de curto prazo (até 90 dias), enquanto o azul representa os investidores de longo prazo.

Investidores no lucro ou no prejuízo

Fonte: Glassnode. Adaptação: Spiti
Fonte: Glassnode. Adaptação: Spiti

Mesmo com 90% dos investidores de curto prazo e 50% dos investidores de longo prazo no prejuízo, o mercado se recusou a vender o BTC a preços tão baixos, o que acaba resultando no fundo do ciclo. 

Todo esse prejuízo do mercado no momento mais extremo, seja de preço, seja de liquidez, é marcado como o fundo do ciclo. Essa perda momentânea é chamada de perda não realizada, pois não houve efetivamente a venda na desvalorização, sendo que esse valor também pode ser rastreado pelo mercado.

Prejuízo não realizado

Fonte: Glassnode
Fonte: Glassnode

No fundo do ciclo atual, tivemos um pico bem marcante de prejuízo não realizado indicado pelo gráfico vermelho. Atualmente, o prejuízo já diminuiu bastante, o que nos coloca na próxima fase, a de reacumulação, que antecede o halving. 

Esse é um período sem direção definida, que opera de forma predominantemente lateral, como marcado pelas áreas destacadas em azul. Perceba que apenas acabamos de entrar nesta fase e que ela ainda pode durar alguns meses.

Atualizações gerais

Um dado bastante curioso é o preço da última negociação de todos os BTC negociados na história. Com essa informação, é possível calcular o preço médio da última movimentação de cada moeda, indicado pelo gráfico amarelo a seguir. 

Preço médio das últimas negociações

Fonte: LookIntoBitcoin
Fonte: LookIntoBitcoin

Atualmente, o preço médio das últimas negociações fica levemente acima dos US$ 20 mil. Repare que são breves os momentos em que os preços vão para baixo desse valor, praticamente somente durante o fundo do mercado. Por isso, acredito que dificilmente voltaremos para baixo desse patamar novamente. Isso só deve acontecer em uma nova crise extremamente forte, assim como aconteceu no auge da pandemia da Covid-19.

Outro gráfico interessante para acompanharmos é a média de um período de longo prazo de 200 semanas. Ela age de forma semelhante ao gráfico anterior, mas, além de utilizá-la como referência de preço, aqui podemos acrescentar uma nova informação de cor baseada na sua variação percentual.

Média de 200 semanas

Fonte: LookIntoBitcoin
Fonte: LookIntoBitcoin

Quando temos uma oscilação pequena da média, isso indica um período de acumulação, enquanto as colorações verde e vermelha apontam um aumento na euforia do mercado, já que é necessário um movimento muito forte do BTC para mover uma média de tão longo prazo, equivalente a um ciclo inteiro.

Para finalizar, um dado que sempre gosto de acompanhar também é a principal característica da rede do BTC, o hash rate. Apesar da calmaria do mercado, a força computacional da rede está batendo sua máxima histórica, por isso, segue mais segura do que nunca.

Hash rate

Fonte: LookIntoBitcoin
Fonte: LookIntoBitcoin

Essa dinâmica, que não está acompanhando tanto os preços, indica que os mineradores já estão pensando no próximo período de alta e disputando bravamente a produção de BTC mesmo antes da sua valorização, ou seja, já estão se adiantando ao movimento. 

Conclusão

Atualmente, o BTC está seguindo o padrão dos ciclos anteriores e repetindo diversas características marcantes, como o comportamento dos preços, a volatilidade, o prejuízo momentâneo sofrido pelo mercado, a falta de liquidez extrema, a intensidade das correções, entre outras.

Esses diversos indicadores mostram que realmente marcamos o fundo do mercado. Porém, isso não significa que já começaremos a alta a partir de agora. Pelo contrário, esse movimento lateral ainda pode demorar algo entre quatro e seis meses.

Estamos passando pelo período no qual os investidores estão comprando aos poucos, suficiente para não permitir uma correção, mas também não tem pressão compradora a ponto de uma retomada de alta significativa. É um momento de paciência e de aproveitar para acumular.

Devido à falta de direção, uma correção para algo por volta de US$ 22 mil ainda é possível, mas, conforme comentei, mesmo em um caso extremo, acredito ser muito pouco provável ficarmos um longo período abaixo dos US$ 20 mil.

Apesar dessa possibilidade de correção no curtíssimo prazo, não há motivos para medo. Os dados estão extremamente positivos, e por enquanto o padrão do mercado indica sua repetição e, consequentemente, uma retomada de alta em 2024 que deve durar até 2025. 

Destaco que esse padrão não se repetirá para sempre, podendo ser até mesmo o último grande impacto positivo no mercado – então não deixe passar essa chance!

Portanto, espero que hoje eu realmente tenha conseguido mostrar que, de fato, estamos em um patamar extremamente interessante para realizar aportes. Fazendo esse movimento, estamos nos adiantando até mesmo alguns meses em relação ao início do movimento de alta. 

Não tenha medo do longo prazo!

Forte abraço,

Thales

Sobre os analistas

Thales Inada

Especialista em Criptoativos

Especialista em criptoativos e investimentos alternativos da Finclass. Engenheiro, com MBA em investimentos e Asset Allocation. Iniciou no mercado de criptoativos em 2017, com passagem por importantes exchanges como Binance (a maior do mundo), Mercado Bitcoin (a maior da América Latina) e XDEX, a antiga exchange da XP Inc. Agora, deixou as instituições para ficar do lado de investidoras e investidores, com missão de democratizar o universo dos criptoativos e investimentos alternativos por meio de uma linguagem simples e direta, a fim de tornar esse mercado visionário acessível a todas as pessoas.

Rodrigo Xavier

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.