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Análise dos juros nos Estados Unidos: até que ponto podem chegar e como isso nos afeta?

Escrito por Felipe Arrais, Guilherme Cadonhotto em RENDA TOTAL

10 min de leitura

O nível mais alto desde outubro de 2007.

A frase acima é a que mais caracteriza os juros norte-americanos no momento.

Depois de ter apresentado seis meses de certa tranquilidade, os juros nos Estados Unidos voltaram a ser destaque no noticiário depois que dados de inflação divulgados se tornaram determinantes para a retomada da alta das taxas na terra do Tio Sam.

Fonte: Shutterstock

Em outubro de 2022, os juros de 10 anos, a referência para as taxas de longo prazo, atingiram o patamar de 4,24%, até então o mais alto desde 2007.

Já entre outubro de 2022 e abril de 2023, os juros norte-americanos ficaram levemente estáveis e até apresentaram certo alívio, junto com a inflação ao consumidor nos EUA, que também apresentou um arrefecimento considerável.

No gráfico abaixo, você pode observar os juros no país entre outubro/2022 e abril/2023:

Fonte: Bloomberg

Pode parecer pouco, mas as taxas saíram de 4,24% para 3,30% em seu melhor momento.

Uma boa parte desse movimento pode ser explicado pela desinflação que observamos. Lembre-se, desinflação é o movimento de desaceleração na inflação, e não uma queda no nível de preços – isso é o que chamamos de deflação.

No próximo gráfico, podemos observar a inflação acumulada em 12 meses nos EUA desde meados de 2019:

Fonte: Investing

Se você ainda está em dúvida que esse movimento dos juros de longo prazo foi causado por uma desaceleração da inflação, observe o deslocamento dos juros de 10 anos nos EUA e a inflação acumulada nos últimos 12 meses ao longo do tempo no gráfico abaixo (a inflação acumulada nos EUA está em vermelho e os juros de 10 anos estão representados pela linha branca):

Fonte: Bloomberg

Mas por que falamos tanto dos juros e da economia dos Estados Unidos?

Isso porque tanto a economia norte-americana, a maior do mundo, quanto os seus juros têm uma influência relevante na economia e nos juros globais.

Isso significa que um desempenho econômico positivo pode impactar positivamente nossa economia, assim como uma queda dos juros futuros por lá também podem gerar um movimento positivo por aqui.

Mas como isso acontece?

A economia dos Estados Unidos tem historicamente desempenhado um papel crucial no cenário econômico global, exercendo influência sobre as economias ao redor do mundo. Sendo a maior economia do planeta, as decisões tomadas por lá têm repercussões significativas em outras nações, incluindo o Brasil.

O impacto da economia norte-americana é evidenciado por meio de diversos canais, tais como comércio, investimentos, flutuações cambiais e políticas monetárias, além dos juros.

A forte interconexão econômica entre os EUA e outras nações faz com que eventos como crises financeiras ou mudanças nas políticas econômicas norte-americanas reverberem globalmente. Quando a economia dos Estados Unidos desacelera, a demanda por produtos e commodities de outros países tende a diminuir, afetando as exportações e, consequentemente, a atividade econômica desses países.

Da mesma forma, quando os EUA adotam políticas econômicas expansionistas, como cortes de impostos ou aumento de gastos públicos, isso pode estimular a demanda global.

No caso específico do Brasil, a relação com a economia norte-americana é notável.

Primeiro, vamos dar uma olhada nos destinos das exportações brasileiras, ou seja, para quem nós vendemos mais os nossos produtos:

Fonte: OEC

De um total de US$ 288 bilhões em exportações no ano de 2021, aproximadamente US$ 30 bilhões foram diretamente para os EUA, que ocupa o segundo lugar no ranking de maiores compradores de produtos brasileiros, somente atrás de China, responsável por quase US$ 90 bilhões das exportações brasileiras.

Do lado das importações, a fotografia é semelhante:

Fonte: OEC

De um total de US$ 225 bilhões em importação, os EUA são o segundo maior parceiro comercial brasileiro – novamente somente atrás de China.

Podemos dizer que os Estados Unidos são um importantíssimo parceiro comercial do Brasil, importando uma variedade de produtos brasileiros, como alimentos, minérios e manufaturados. Assim, uma desaceleração na economia norte-americana pode impactar as exportações brasileiras e a entrada de capital estrangeiro no país, afetando o crescimento econômico e o emprego.

Outro canal de influência é o das políticas monetárias. A taxa de juros nos Estados Unidos, determinada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), tem um impacto direto nos fluxos de capital global. Quando os juros nos EUA sobem, investidores tendem a buscar maiores retornos nos mercados norte-americanos, levando a uma saída de capital de economias emergentes, como o Brasil, para os Estados Unidos. Isso pode depreciar as moedas, inclusive o real, gerando um impacto em nossa expectativa de inflação.

Um exemplo claro do impacto dos juros norte-americanos sobre a economia brasileira ocorreu em meados da década de 2010. Com o fim da política de estímulos pós-crise, os Estados Unidos começaram a elevar suas taxas de juros. Isso atraiu capital para a economia norte-americana, causando a desvalorização de moedas de países emergentes e gerando volatilidade nos mercados financeiros globais, incluindo o Brasil.

Em contrapartida, quando os juros nos Estados Unidos estão mais baixos, os investidores podem buscar retornos em economias emergentes, levando à entrada de capital e, por vezes, à valorização das moedas locais. Um exemplo recente ocorreu durante meados da pandemia da Covid-19, quando o Fed reduziu as taxas de juros para estimular a economia dos EUA. Isso contribuiu para uma entrada de capital em países como o Brasil, amenizando pressões sobre o câmbio e os mercados financeiros. No momento inicial da pandemia, a moeda brasileira se desvalorizou, porém, desde então a dólar parece ter perdido força contra o real.

Em síntese, o impacto da economia norte-americana nas economias ao redor do mundo, incluindo a brasileira, é uma realidade inegável. As decisões econômicas e políticas dos Estados Unidos têm o poder de moldar as trajetórias econômicas globais, influenciando o comércio, investimentos e as políticas monetárias de diversas nações. O monitoramento atento dessas dinâmicas é essencial para que os países possam adotar medidas adequadas de resposta e proteção em um ambiente econômico cada vez mais interligado.

No dia a dia, fica difícil entendermos a relação entre os juros de longo prazo nos EUA e no Brasil, mas se fizermos um recorte temporal maior, a tendência em prazos maiores de tempo é claramente correlacionada.

No gráfico abaixo, podemos ver os juros de longo prazo brasileiros, representado pela linha vermelha, e os norte-americanos, representados pela linha branca com a área preenchida em azul. Os dados estão em eixos diferentes, mas a ideia aqui não é analisar o patamar dos juros de cada país individualmente, mas, sim, como eles seguem a mesma tendência:

Fonte: Bloomberg

Claro que eventualmente podemos observar que os juros brasileiros caminham para uma direção diferente daqueles dos EUA.

Foi assim em 2015/2016, época de elevada incerteza fiscal e pressão da inflação por aqui, e meados de 2018, com a greve dos caminhoneiros.

Desconsiderando esses períodos atípicos, os juros de longo prazo seguiriam basicamente a mesma direção em praticamente qualquer momento.

O que você deve estar se perguntando é: qual país, afinal, determina a direção dos juros, ou seja, quem segue quem?

A referência global para os juros são os EUA. Logo, é correto dizer que os juros norte-americanos tendem a ser seguidos pelas taxas dos países ao redor do mundo, principalmente quando falamos de Brasil, uma nação emergente.

Ou seja, para entendermos se os juros de longo prazo no Brasil devem continuar caindo, devemos compreender um pouco mais o desempenho da economia norte-americana e se o seu ritmo está acelerando ou desacelerando.

Um ritmo ainda saudável da economia dos Estados Unidos pode continuar indicando inflação pressionada e dificuldade para os juros de longo prazo continuarem cedendo. Já uma atividade econômica mais fraca tende a causar um alívio no mercado de juros, que pode continuar impactando positivamente os juros por aqui.

Mas como anda a saúde da economia dos EUA e até onde os juros podem ir?

É fundamental analisarmos os últimos dados da economia dos Estados Unidos e de outros países desenvolvidos, assim conseguiremos entender se o cenário mais provável para a economia norte-americana é de uma continuidade de juros elevados ou, se em um futuro próximo (12 meses), devemos observar uma queda dos juros futuros por lá.

Vamos dar uma olhada na taxa de desemprego e no famoso PMI, ou índice dos gerentes de compras. Eles podem nos dar uma ideia de como anda a perspectiva para a atividade econômica norte-americana e, consequentemente, para as taxas de juros.

Vamos começar pelo PMI, um indicador de como anda a atividade, e depois olhamos a taxa de desemprego, referência importante para verificar para onde o nível de preço tem a maior probabilidade de caminhar.

PMI, o Índice de Gerentes de Compras

O Índice de Gerentes de Compras, também conhecido como PMI (Purchasing Managers' Index, em inglês), é um indicador econômico utilizado para medir a saúde e o desempenho de um setor ou economia específica. Ele fornece uma visão geral das condições de negócios ao analisar diversos indicadores-chaves relacionados à produção, encomendas, emprego, preços e outros aspectos relevantes.

O PMI é calculado com base em uma pesquisa realizada junto a gerentes de compras em empresas de diferentes setores. Essas referências são questionadas sobre vários aspectos das operações de suas companhias, como o volume de pedidos recebidos, a produção, o emprego e os preços dos insumos. As respostas a essas perguntas são quantificadas e agregadas para gerar um índice numérico.

O índice PMI geralmente varia de 0 a 100, com valores acima de 50 indicando uma expansão na atividade econômica, valores abaixo de 50 indicando uma contração e o valor de 50, que a atividade permaneceu estável. Quanto maior o valor acima de 50, maior é a intensidade da expansão, e quanto menor o valor abaixo de 50, maior é a intensidade da contração.

Os PMIs são frequentemente divulgados mensalmente e podem ser calculados para diferentes setores da economia, como manufatura, serviços, construção e outros. Eles fornecem informações valiosas para analistas, investidores e formuladores de políticas públicas ao avaliar a saúde e as tendências da economia, além de antecipar possíveis mudanças de direção na atividade econômica.

Dê uma olhada nos PMIs das maiores economias do mundo nos últimos meses, inclusive a dos EUA:

No gráfico acima, podemos notar que o pico do PMI global aconteceu em maio, em que todos os países e regiões econômicas citadas acima estavam observando indicadores de atividade mais fortes.

Os dados de agosto, porém, apontam para a direção oposta, em que todos os países, exceto EUA e Japão, ainda mantêm um ritmo de atividade levemente superior a 50, patamar que indica estabilidade da atividade.

Mas isso não é motivo para se comemorar, já que devemos observar uma desaceleração ainda maior nos indicadores de EUA e Japão também, conforme os juros por lá continua subindo e acabam sofrendo com o impacto de atividades mais fracas nos outros países.

Vale ressaltar que depois que os PMIs entraram em zona de contração, em setembro do ano passado, a inflação acumulada em 12 meses também passou a observar impacto negativo.

Taxa de desemprego

Uma taxa de desemprego mais elevada pode, em certas circunstâncias, contribuir para um processo de desinflação, que é a redução da taxa de inflação. Isso ocorre porque a ligação entre desemprego e inflação está associada ao conceito da "Curva de Phillips", que sugere uma relação inversa entre essas duas variáveis no curto prazo. No entanto, é importante ressaltar que essa associação não é rígida e pode ser influenciada por diversos fatores.

Quando a taxa de desemprego está alta, significa que há uma quantidade significativa de mão de obra disponível no mercado de trabalho, o que pode exercer pressão sobre os salários. Com muitas pessoas buscando emprego e poucas vagas disponíveis, os trabalhadores podem ter menos poder de barganha para exigir aumentos salariais substanciais.

Isso pode levar a um cenário em que os custos de mão de obra se mantêm relativamente baixos, já que as empresas não enfrentam tanta pressão para aumentar os salários. Com os custos de produção mais contidos, as companhias podem ser menos propensas a repassar aumentos de custos para os preços de seus produtos e serviços.

Portanto, em um contexto de alta taxa de desemprego, a pressão sobre os salários e os custos de produção tende a contribuir para limitar o crescimento dos preços. Isso pode resultar em uma redução da taxa de inflação, processo conhecido como desinflação.

No entanto, é importante ressaltar que essa relação não é linear e pode ser afetada por outros fatores econômicos e contextuais. Além disso, no longo prazo, a associação entre desemprego e inflação pode se tornar mais complexa, e outros fatores, como produtividade, expectativas de inflação e política monetária, também podem influenciar a dinâmica inflacionária.

Mas não há como negar que um mercado de trabalho mais fraco é uma das maneiras mais eficientes para se controlar uma pressão inflacionária. Inclusive, o Fed vem dizendo isso em suas últimas comunicações.

Mas como anda a taxa de desemprego nos Estados Unidos?

Fonte: Investing

A taxa de desemprego norte-americana, depois de atingir mais de 14% no auge da pandemia, voltou para os níveis mais baixos de sua história, em 3,5%.

Isso significa que, ao menos no curto prazo, vai ser difícil observarmos uma desinflação relevante causada por uma demanda de bens e serviços mais baixa.

Uma das explicações para a taxa de desemprego ter voltado para um nível extremamente baixo em um curto espaço de tempo são as políticas de migração implementadas durante a administração do presidente Donald Trump nos Estados Unidos.

Durante o governo Trump, houve um foco significativo em políticas mais rigorosas de imigração, incluindo ações como a implementação de restrições de visto, a tentativa de construção de um muro na fronteira com o México e a rescisão do programa DACA (Deferred Action for Childhood Arrivals), que protegia jovens imigrantes indocumentados que foram trazidos para os EUA quando crianças.

Essas restrições rigorosas à imigração podem ter reduzido o fluxo de imigrantes, o que pode afetar o suprimento de mão de obra disponível. Se a demanda por trabalhadores exceder a oferta, as empresas correm o risco de enfrentar dificuldades para preencher vagas, o que tende a levar a uma continua taxa de desemprego baixa e aumentos constantes nos salários para atrair trabalhadores norte-americanos.

Toda essa dinâmica poderia, em última instância, contribuir para um aumento nos custos de produção para as empresas, o que gera uma pressão nos preços, dificultando um processo de desinflação ainda maior.

Conclusão

Um período de maior queda dos juros futuros brasileiros vai necessariamente passar por um período em que os juros norte-americanos também caiam.

Analisando um indicador importante, como a taxa de desemprego por lá, parece que isso não vai acontecer no curtíssimo prazo. Mas índices antecedentes de atividade já apontam uma desaceleração da atividade econômica, o que mostra que ao menos um crescimento das pressões inflacionárias está contido por ora.

Na minha visão, é mais provável os juros norte-americanos de longo prazo caíam nos próximos 12 meses do que continuem subindo na mesma velocidade dos últimos meses.

Os juros brasileiros, depois de terem cedido de maneira relevante, dependem de um movimento de descompressão maior também nos juros nos Estados Unidos, o que, de novo, é mais provável que ocorra, em nossa visão, do que uma volta da pressão altista por lá.

Abraços,

Guilherme Cadonhotto

Sobre os analistas

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.