Começo de ano é aquele período em que muita gente elabora as metas pessoais, financeiras e profissionais para os doze meses que virão. Pois eu, Fê, também fiz as minhas, e para 2022 meu objetivo principal é manter os cuidados com minha saúde!
E, no último mês de janeiro, muitos acontecimentos abalaram algumas estruturas que pareciam bem sólidas na minha vida pessoal: peguei influenza na virada do ano – algo que não acontecia há anos – e, posteriormente, Covid. Além disso, perdi um companheiro de longa data, meu primeiro cachorro, o Billy.
Não foi um período fácil, mas tudo isso me fez lembrar da nossa fragilidade enquanto seres humanos. Assim, fiz uma bateria de exames médicos cujos pedidos já estavam empoeirando na estante, me consultei com médicos que estavam pendentes e coloquei em ação o plano para cuidar mais de mim em 2022. E, nesta semana, já recebi os primeiros resultados de exames e meu médico disse que está tudo dentro do normal!
Bons resultados são sempre motivadores, não?
E o mercado de ações também viu nesta semana a divulgação de dados muito importantes para a Bolsa de Valores brasileira e também para nossa carteira Renda Total: os resultados de produção da Vale (VALE3).
Assim, o relatório de hoje serve para confirmar ou não a visão da produção anual da empresa e dos analistas da Spiti. E, assim como os meus exames clínicos, os resultados da Vale vieram conforme as expectativas, que eram positivas.
Vamos mostrar também os pontos relevantes para o setor como um todo e para a empresa, uma vez que estamos falando da segunda maior companhia em valor de mercado do país. Além disso, analisamos alguns fatores que, na nossa visão, são positivos para 2022 na questão de produção e receita para o próximo ano, que envolve a demanda da China, país que mais consome minério de ferro, principal commodity produzida pela Vale.
Breve histórico da Vale
A Vale foi fundada como empresa estatal em 1º de junho de 1942 com o nome Companhia Vale do Rio Doce, e, posteriormente, na década de 1990, se tornou uma empresa de capital aberto. Hoje, a Vale S.A. figura entre as maiores mineradoras do mundo.
As operações da empresa superam as barreiras territoriais, já que tem operação em 30 países e empregam mais de 100 mil funcionários, um verdadeiro colosso.
Produção em 2021
No começo de 2021, as expectativas que a empresa forneceu ao mercado através do seu guidance eram que entregasse neste ano algo entre 315 milhões e 330 milhões de toneladas de minério de ferro. Durante o decorrer de 2021, essas primeiras previsões, que são entregues normalmente no último relatório de produção do ano que terminou (no caso, 2020), foram revistas e rebaixadas, e a Vale passou a prever uma produção total de 315 milhões a 320 milhões de toneladas do minério.
O resultado divulgado mostrou que a produção de minério de ferro em 2021 foi de 315,6 milhões de toneladas, muito pouco acima do piso das suas estimativas, que já tinham sido revistas. Ainda assim, isso representa um crescimento de 15 Mt quando comparado com o ano anterior, porém nada fora do esperado:
Fonte: Vale
A produção anual ainda está abaixo da capacidade total da Vale, de 340 milhões de toneladas, sendo que a companhia espera atingir o número de 370 milhões de toneladas por ano até o fim de 2022.
No ano passado, a Vale enfrentou alguns problemas, como a instabilidade nos preços e na demanda do minério, além de desafios na produção dentro e fora do país. Um deles foi a intensa temporada de chuvas que assolaram Minas Gerais no fim de 2021. No entanto, todas as operações no estado que haviam sido afetadas pelas fortes chuvas do início de 2022 já retomaram suas atividades normais assim que as condições adequadas de segurança foram restabelecidas.
No mesmo relatório, a mineradora destacou os principais fatores que tiveram impactos nos resultados de 2021: (i) as suas operações de Minas Gerais, que cresceram 17% quando comparadas com as do ano anterior; (ii) a produção da mina em Carajás (PA), que teve uma performance 11% menor com relação a 2020, e (iii) a greve de funcionários em Sudbury, no Canadá, que teve início em junho e parou as operações por 70 dias.
China e expectativas para 2022
O crescimento da produção do minério segue estável nos últimos anos, principalmente por conta das barreiras legais, com as licenças para extrair minérios, e questões financeiras, uma vez que é uma indústria que precisa de muito capital.
Porém, a representatividade da China no consumo de ferro tem aumentado de tal forma que hoje o país é responsável por utilizar 72% de todo o minério produzido no planeta.
Fonte: ONU – Review of Maritime Transport 2020
Então, fica claro que, por mais que outros países importantes também consumam o minério em grandes quantidades, qualquer acontecimento na China terá impactos bastante relevantes no preço da commodity e, por tabela, nos resultados da Vale.
Ou seja, um termômetro para medirmos a demanda de ferro global é entender o que se passa na China com relação ao consumo do minério. E alguns fatos recentes abalaram o preço do produto no mundo:
- Segundo o canal de TV norte-americano CNBC, a China em 2021 impôs limitações na quantidade de produção de gás carbônico, refreando a capacidade produtiva de aço no país e, por consequência, no consumo de ferro;
- Aumento da regulação sobre a negociação de contratos de compra e venda de ferro, com intuito de limitar a especulação de investidores e abaixar o preço da commodity.
Essas duas medidas impactaram a produção de minério no curto prazo e instauraram instabilidade no preço em 2021, que oscilou entre US$ 83 e US$ 227 por tonelada.
Fonte: Trading Economics
Dois fatores fizeram a China impor tais medidas à época. O primeiro foi o fato de que a capital Pequim está sediando os Jogos Olímpicos de Inverno, e o governo quis reduzir o nível de poluição para o evento.
O segundo se deu pelo fato de que o produto é muito importante para a economia do país (como podemos ver no aumento do consumo ao longo dos anos no gráfico a seguir). E, dada a grande necessidade de utilização do minério, o governo chinês tentou intervir no mercado de forma ativa, aumentando a regulamentação da negociação da commodity.
Vamos ver agora os desdobramentos desses dois fatores se desdobram para 2022 e quais movimentos a China está sinalizando para seu consumo:
- Fim dos Jogos Olímpicos de Inverno
Um dos motivos pelos quais a China impôs restrições à utilização de carvão e produção do minério de ferro foi a realização das Olimpíadas de Inverno em Pequim. No entanto, a competição terá seu encerramento já no próximo dia 20 de fevereiro.
Sendo assim, a atividade industrial do país deve voltar a crescer e se estabilizar, o que aumenta o sentimento positivo de que a indústria chinesa tende a tomar um ritmo mais forte já nos próximos dias.
- Estímulo econômico ao setor imobiliário
Como você deve imaginar, o minério de ferro é utilizado em diversos setores da economia. Mas um deles em especial sentiu um forte baque no ano passado com a crise da Evergrande, uma das gigantes do setor imobiliário da China.
“Como assim, Fê?”
Para quem não se lembra, a Evergrande é a empreiteira chinesa que, no ano passado, declarou que não ia conseguir arcar com pagamento de juros de suas dívidas, o que fez com que o governo interviesse para que não fosse à falência.
Para se ter uma ideia desse rombo, em 2020 a empresa possuía um valor de mercado aproximado de US$ 38,2 bilhões, e hoje ela está avaliada abaixo de US$ 3 bilhões, uma queda brutal de mais de 90%.
A situação ainda não está resolvida, sendo que a companhia propôs um modelo de reestruturação da dívida para continuar operante. Porém, o impacto no mercado imobiliário já foi dado.
Com esse imbróglio à vista e com os indicadores de atividade econômica abaixo do esperado em 2021, que não deixou o governo muito satisfeito, o Banco Central da China continua impondo medidas para manter a liquidez do mercado e estimulando a economia.
Uma das medidas adotadas pela instituição foi a redução da taxa de juros dos empréstimos bancários, especialmente nos meses de dezembro e janeiro recentes. Como você pode imaginar, isso estimula a população a tomar mais empréstimos e fomentar o consumo da segunda maior economia do mundo.
Essa medida já movimentou bastante dinheiro por lá, tanto que superou as expectativas e bateu recorde de empréstimos na China:
Fonte: Isto é
Fonte: Investing
Essas notícias trazem um tom positivo em relação, entre outros pontos, à demanda de minério de ferro por parte da China. As medidas para manter liquidez do mercado e estimular a economia (especialmente o setor imobiliário) são bons ventos que sopram a favor da Vale, que pode surfar esse momento de estímulo econômico advindo da Ásia.
Conclusão
Os resultados de produção da Vale vieram em linha com o esperado, com dados de produção condizentes com o ano difícil e volátil para o minério de ferro em 2021. Fora isso, a empresa conseguiu cumprir com o guidance do ano, sendo que, no mesmo relatório, também liberou as expectativas para o ano de 2022. Veja abaixo:
Fonte: Vale
As notícias vindas da China, maior destino das exportações de ferro do mundo, ajudam a manter o otimismo para o setor e para a Vale. Além disso, o país, segunda maior economia global, continua a fornecer estímulos a fim de fomentar a economia e o consumo, e não dá sinais de parar, como tem sido feito com a redução das taxas de juros.
Abraços,
Filipe Colus e Gui Cadonhotto