Um resumo do cenário econômico brasileiro
As 9 perguntas que você precisa se fazer antes de investir em renda fixa
Escrito por Eduardo Perez em RENDA FIXA
Neste relatório, você encontrará:
As 9 perguntas que vão te guiar para um bom investimento em renda fixa
A lista de bancos aprovados e reprovados
A lista de ETFs de renda fixa aprovados
A Selic atual é de 14% ao ano e teremos ainda mais 3 reuniões do Copom no ano:
Desde quando entrei na Finclass, em janeiro deste ano, eu tentei da melhor forma responder talvez à pergunta suprema da renda fixa: “Onde investir?”.
Na maioria das vezes, essa pergunta é feita com a melhor das intenções, mas ela acaba saindo muito reducionista, ou seja, por não trazer mais detalhes sobre a pessoa que faz a pergunta, essa mesma pessoa acaba ignorando o contexto mais amplo que precisamos ter em mente.
Atualizações de cenário
Antes de seguir com o assunto principal deste relatório, vamos fazer uma atualização de cenário econômico como temos feito nos últimos relatórios de renda fixa.
A Selic atual é de 14% ao ano e teremos ainda mais 3 reuniões do Copom no ano:
· 15 e 16 de setembro;
· 3 e 4 de novembro;
· 8 e 9 de dezembro.
O mercado já tem como consenso que em setembro teremos um corte de 0,25 ponto percentual (13,75%), em novembro há uma leve vantagem na expectativa de mais um corte de 0,25 p.p. (13,50%) por conta de dados de inflação e atividade econômica do que uma expectativa de manutenção da Selic em 13,75%, enquanto para a reunião de dezembro ainda não temos um consenso convincente.
Alguns analistas falam em manutenção em 13,75% enquanto outros arriscam falar em Selic em 13,25%, em alguns casos mais extremos até 13% no final do ano. Me parece razoável a Selic terminar o ano em 13,50% com os dados que temos hoje.
Sobre índices de preços que acompanhamos o destaque fica para o IPCA-15, que funciona como uma prévia do IPCA oficial, tivemos finalmente a deflação. Uma queda de 0,40% em agosto ficou mais forte do que a queda de 0,30% esperada, o que seria ótimo, mas quando olhamos no detalhe, tivemos fatores pontuais como o desconto na conta de energia elétrica que aconteceu em agosto e não deve se repetir em setembro, enquanto o núcleo, que é a cesta de itens menos voláteis e que funcionam como um termômetro de inflação sem “ruído”, ainda veio pressionado. Traduzindo: o núcleo tira da conta os itens que sobem ou descem por um motivo pontual, tipo uma tarifa que caiu só naquele mês, para mostrar a tendência real de preços.
De qualquer forma, o IPCA-15 acumulado em 12 meses caiu de 4,52% em julho para 4,24% em agosto, patamar abaixo do teto da meta da inflação de 4,50%.
Lembrando que mesmo com uma notícia dessas, a nossa inflação ainda depende muito do comportamento do preço do petróleo.
As 9 perguntas que você precisa se fazer antes de investir em renda fixa
Imagina que você vai à academia pela primeira vez na sua vida. Você chega no instrutor e pergunta “qual é o melhor exercício para fazer?”.
Se o instrutor não te conhecer, mas mesmo assim te responder na lata algum exercício, muito provavelmente esse exercício não terá relação com o que o seu corpo realmente precisa.
Para que isso não aconteça, você precisa passar por uma avalição, que, em um dos seus primeiros passos, tem um questionário. Ou, como é chamada pelo nome técnico, a ficha de anamnese.
Parece que estou falando grego? É porque eu estou mesmo, já que “anamnese” vem do grego “anamnésis”, que junta “ana” = trazer de novo e “mnesis” = memória.
É aquele questionário onde você declara se tem algum tipo de condição médica como asma, pressão alta, alguma cirurgia na vida, enfim, tudo que um profissional da área de saúde e exercícios precisa saber para não te recomendar um exercício que tem um potencial de te matar, então, sim, essa etapa é muito importante.
E a anamnese também precisa ser aplicada nos seus investimentos. Pensando nisso tomei a liberdade de criar as 9 perguntas essenciais para você usar como guia antes de fazer novas aplicações em renda fixa.
1. Eu entendo como esse mercado funciona?
Eu sei que muita gente começa a investir, especialmente em renda fixa, sem entender muito o que está fazendo. Eu penso que isso é válido quando se investe pela primeira vez e com um valor pequeno.
Depois disso, você precisa entender o mercado.
Você precisa saber como seus investimentos podem se comportar no dia a dia. Precisa entender não só renda fixa, mas como a economia afeta seus investimentos. Se você está no começo dessa jornada, vários cursos sobre economia e finanças estão disponíveis na área logada da Finclass, mas esses abaixo são minha sugestão pessoal para você começar:
Cenários Macroeconômicos no Brasil (Zeina Latif)
Fundamentos da Economia (Igor Mundstock)
Finanças Públicas (Fábio Giambiagi)
Guia do Tesouro (Guilherme Cadanhotto)
Renda Fixa (Marilia Fontes)
Entendendo o IPCA+: o Guia Completo da Renda Fixa Real (Walter Barauna)
Antes de investir pesado você precisa entender sobre ciclos de juros e inflação, marcação a mercado, e como a renda fixa está ligada aos assuntos em que a maioria dos brasileiros não têm interesse.
2. Qual é o meu objetivo?
Primeiro objetivo de todo investidor: fazer a reserva de emergência com um valor que cubra de 6 a 12 meses do seu custo de vida mensal. Depois de completar esse objetivo podemos pensar nos demais abaixo. E essa reserva precisa ficar em algo extremamente seguro e líquido, tipo Tesouro Selic ou CDB de banco grande com liquidez diária.
Maravilha, você montou sua reserva de emergência e agora quer investir para valer. Vamos falar dos seus objetivos.
O que você quer como resultado desse investimento? Ter um valor X para viver de renda? Simplesmente crescer patrimônio? Comprar um carro? Pagar uma pós-graduação?
Pense que você pode ter mais de um objetivo, por exemplo ter grande parte do seu patrimônio com o foco em se aposentar cedo enquanto outras partes da sua carteira podem ter objetivos mais curtos e específicos como fazer aquela viagem em família daqui a 1 ano ou trocar de moto por exemplo.
Para casos de vários objetivos, eu aconselho que trate esses com datas específicas como investimentos apartados da parte do seu patrimônio que está trabalhado sem uma data específica e, inclusive, não posso esquecer de reforçar, a reserva de emergência sempre deve ficar apartada de todos os demais objetivos, quase que em um lugar sagrado para nunca ser usada, ou pelo menos ser usada menos possível.
As carteiras da Finclass que seguem a metodologia ARCA, tanto de valorização como de renda, são feitas pensando nestes objetivos de longo prazo sem uma data específica. E não custa reforçar: essas carteiras já pressupõem que você tem a sua reserva de emergência pronta e separada, elas não substituem esse primeiro passo.
3. Qual estratégia vou usar?
Grande parte das pessoas quando vai investir faz da maneira errada. Assim como a gente não deve fazer compras no mercado com fome, não podemos fazer investimentos no geral sem estratégia.
Caso contrário, assim como no mercado, você vai acabar com mais besteiras do que você realmente precisa e a conta vai ficar cara.
Então vamos nos preparar para entrar no “mercado de renda fixa” com a lista em mãos do que precisamos.
As estratégias vão dizer como vamos atingir os objetivos e ela vai nos guiar sobre quais ativos de renda fixa vamos utilizar para chegar lá.
As principais estratégias, e que são mais fáceis de replicar:
Objetivos de longo prazo (sem data definida): se o objetivo é viver de renda ou simplesmente crescer patrimônio, sem uma data para resgatar, a estratégia mais fácil de replicar é montar uma carteira diversificada nos 3 indexadores (pós, pré e IPCA+), com vencimentos escalonados, e ir reinvestindo o que for vencendo.
Isso não significa que todo ativo dessa carteira precise ter vencimento longo: cabe perfeitamente renda fixa de curto prazo aqui também, desde que a função dela seja servir esse objetivo de longo prazo, seja para segurar uma reserva tática esperando uma oportunidade melhor de alocação, seja para reduzir a volatilidade média da carteira, seja porque naquele momento o curto prazo está pagando uma taxa boa demais para ignorar.
O que separa um objetivo de longo prazo de um objetivo com data marcada não é o prazo do papel que você compra, é o motivo por trás da escolha. Não precisa reinventar a roda aqui.
Objetivos com data definida: aqui a estratégia muda de figura. Em vez de diversificar pensando no longo prazo, o jogo é casar o vencimento do título com a data em que você vai precisar do dinheiro, de preferência com um indexador que não te deixe na mão se precisar resgatar um pouco antes (pós-fixado ou IPCA+ curto tendem a ser mais amigáveis para isso do que um prefixado longo, lembre-se da história que eu contei lá atrás).
4.Preciso de liquidez?
Muita gente erra nisso.
A definição de liquidez é a capacidade de transformar um ativo em dinheiro. Sabendo disso, é sempre importante saber que diferentes produtos, tanto de renda fixa como em outras modalidades, têm seus próprios tipos de liquidez.
Por exemplo, seu Tesouro Selic pode vencer daqui a 5 anos, mas você pode resgatar ele a qualquer dia útil, ou seja, ele tem liquidez diária e o próprio Tesouro garante essa recompra.
Já uma ação negociada na bolsa pode ter desde um volume milionário negociado em um mesmo dia como no caso de grandes empresas consolidadas, mas é possível uma ação ter baixíssima liquidez porque os investidores simplesmente não têm interesse em comprar e vender ela, então no momento em que você precisar vender essas ações, você ficar com a ordem pendente de execução ou então você vende por um preço muito baixo.
Voltando para a renda fixa, outros produtos bancários como CDBs, LCIs, LCAs e até de crédito privado como CRIs, CRAs, debêntures etc. não possuem liquidez diária com exceção de alguns CDBs de liquidez diária. Então nos demais, se precisar resgatar o valor aplicado, você precisa recorrer a uma corretora ou banco que estejam dispostos a comprar esse ativo e o preço pode variar. E esse prejuízo pode ser muito relevante dependendo do momento do mercado, inclusive ele é maior em casos de vencimentos mais longos.
Percebe como saber sobre a liquidez do produto se conecta ao objetivo?
Reserva de emergência sempre precisa ter liquidez diária, e para evitar que você perca dinheiro em ativos sem liquidez diária, a sugestão é casar bem o prazo dos objetivos sendo iguais ou maiores do que o prazo de vencimento dos ativos que tem prazo de vencimento.
Então antes de passar para o próximo passo, temos o objetivo em mente, a estratégia necessária e a liquidez decidida.
5. Qual indexador vou usar?
Na renda fixa temos 3 principais.
Pós-fixados: pagam um percentual da taxa Selic ou do CDI então você não sabe exatamente qual é a rentabilidade exata, mas tem menos volatilidade no preço do ativo. Exemplo de produto: CDB de 105% do CDI e Tesouro Reserva 100% Selic.
Prefixados: te dizem logo de cara qual é a rentabilidade no vencimento, mas têm mais volatilidade do momento que você aplica até a data do vencimento do que um pós-fixado. Exemplo de produto: Tesouro Prefixado de 15% ao ano e CDB prefixado de 15,20% ao ano.
Híbridos: também são chamados de indexados e são uma mistura dos pós-fixados com os prefixados pois uma parte do valor investido é corrigido por alguma taxa de juro ou índice, como o IPCA, e a outra parte é corrigida por uma taxa prefixada para você ter um ganho acima da inflação. A volatilidade seria um meio termo entre os pós-fixados e os prefixados, pendendo mais para o lado dos prefixados se usarmos os mesmos prazos e mesmo emissor na comparação puramente entre indexadores. Exemplo de produto: Tesouro IPCA+7% ao ano e LCA IPCA+7,05% ao ano.
Então a gente percebe que sempre vamos abrir mão de algo na escolha de um indexador. Imagina que você quer pouca volatilidade, ou seja, quer que seu ativo não tenha mudanças bruscas de preço tanto para baixo quanto para cima antes do vencimento. Então um pós-fixado faz sentido, mas você abre mão de saber a rentabilidade exata até o vencimento, como acontece em um prefixado, e não tem 100% de certeza se o seu rendimento vai ficar acima da inflação do período, como acontece com um indexado ao IPCA.
Se você, assim como muitos brasileiros, tem interesse em ficar acima da inflação pois tem receio de que o governo manipule a Selic ou então que o IPCA fique acima da meta do Banco Central por vários anos, então um título indexado a inflação é uma boa escolha, mas você abre mão de saber exatamente a rentabilidade, como acontece com prefixados, e abre mão também de ter menor volatilidade, como acontece nos pós-fixados.
Agora digamos que você quer saber logo no começo qual vai ser sua rentabilidade, então os prefixados se encaixam bem nessa proposta, porém você corre o risco de uma mudança de cenário econômico fazer seu prefixado ter rendido no vencimento menos que a inflação ou a Selic/CDI do período, cenário que você estaria protegido investindo em indexados ao IPCA e pós-fixados e você terá mais volatilidade entre os 3 indexadores. Vale lembrar que esse risco não é exclusivo do prefixado: um título indexado ao IPCA de prazo longo também pode ter uma rentabilidade negativa se você precisar do dinheiro antes do vencimento.
E você não precisa pensar em termos absolutos. Não faça loucura de colocar 100% da sua carteira em prefixados, nem 100% em indexados à inflação e nem 100% em pós-fixados, pois cada indexador tem um risco próprio. Talvez a exceção seria se você é um investidor bem conservador e prioriza previsibilidade acima de tudo, então pode fazer sentido ter uma carteira exclusivamente pós fixada de baixo risco.
Para objetivos com datas específicas não há uma regra exata, mas digamos que o bom senso diz que para planos de todos os prazos, com ou sem data específica, ativos indexados à inflação e pós-fixados são bons enquanto os prefixados se encaixam melhor em objetivos do tipo diversificação da carteira com exposição controlada do indexador, aposta na mudança de expectativa de juros (mas você precisa saber muito bem como o mercado funciona).
Para objetivos de longo prazo, diversificar com os 3 indexadores na carteira é muito bom e, claro, você pode ir ajustando qual indexador tem maior peso de acordo com o que espera para o ciclo econômico, que é um tópico que vamos tratar mais abaixo.
6. Qual é o vencimento certo?
O assunto “horizonte de investimento” ou prazo é extremamente importante e eu te digo que na maioria dos casos ele é mais importante do que olhar a taxa de rentabilidade e muita gente erra nisso.
Pense em um investidor que tem medo do resultado de uma eleição e quer se blindar da inflação do próximo governo. Ele pode buscar algum produto de renda fixa indexado ao IPCA com vencimento em 4 anos, dessa forma ele não trava o valor em um investimento de longuíssimo prazo e consegue também se proteger da inflação.
Isso é show.
Agora pense em um investidor super emocionado quando vê as taxas na corretora que ele usa e ele comete o clássico erro de filtrar os produtos por ordem de maior rentabilidade para a menor. Achando que levando vantagem escolhendo a maior taxa ele deixa de perceber, ou finge que não percebe, que o vencimento da sua aplicação é para daqui 20 anos e, para piorar a situação, ele cometeu outro erro que boa parte dos investidores fazem: ele escolhe um prefixado quando a Selic estava em um ciclo de baixa porque pensou “poxa, o prefixado longo está pagando mais do que a Selic”.
O que acontece depois? Para controlar a inflação, o Copom sobe a Selic e agora o prefixado rende menos do que a Selic e, para piorar, além de precisar resgatar esse investimento por algum imprevisto financeiro, seu vencimento é longo e ele não consegue revender esse investimento porque ninguém no mercado está disposto a pagar um preço bom, todas as ofertas são baixíssimas.
Isso é show...de horrores.
Outro ponto importante quando escolher o prazo do seu investimento é lembrar da regra de Imposto de Renda na renda fixa que incide sobre os lucros:
· 1 a 180 dias corridos: 22,5%
· 181 a 360 dias corridos: 20%
· 361 a 720 dias corridos: 17,5%
· Acima de 720 dias corridos: 15%
Então busque vencimentos levemente mais longos quando possível para entrar na faixa de Imposto de Renda menor.
Mas cuidado para não repetir o erro que acabei de te contar: essa dica vale dentro do prazo que já faz sentido para o seu objetivo, nunca é motivo para esticar o vencimento só atrás de um IR menor.
Mas existem 2 categorias de investimentos na renda fixa que são isentos de Imposto de Renda para a pessoa física: uma ligada ao imobiliário e outra ligada ao agronegócio. São elas:
· Letra de Crédito Imobiliário (LCI) e Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI), ligados ao imobiliário.
· Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) e Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA), ligados ao agronegócio.
Fora essas 2 categorias, vale mencionar também a LCD (Letra de Crédito de Desenvolvimento), um título mais novo que capta recursos para o BNDES e também é isento de IR para pessoa física.
Então, se eles não possuem tributação, os emissores desses títulos conseguem ofertar esses produtos por taxas menores do que as taxas encontradas em CDBs justamente pois os investidores comparam a rentabilidade líquida de Imposto de Renda de um CDB e a rentabilidade isenta de IR desses produtos.
Então sempre que acessar a prateleira de produtos de renda fixa e se deparar com alguma dessas opções, encontre a “taxa equivalente”, que é uma taxa normalmente informada junto com a taxa bruta que fala qual seria a taxa desse produto isento caso ele fosse um produto tributado, ou em uma explicação mais simples: te fala qual seria a rentabilidade final desse produto caso ele fosse um CDB tributado, assim você compara maçã com maçã e banana com banana.
Bem, a ideia aqui era trazer o pior cenário de um dos erros mais comuns em relação ao vencimento, mas tenho só mais uma ressalva muito mais operacional que parece simples, mas vi acontecer muitas vezes com investidores.
Planeje-se para que o investimento case com o objetivo com alguns dias de folga. Na época de atendimento ao cliente, quando entrei no mercado financeiro, atendi vários investidores que casaram o vencimento do investimento com a obrigação sem nenhuma folga.
Às vezes transferências de valores altos podem ser bloqueadas pelo banco, ou todo o processo, desde a liquidação do investimento, pagamento, transferência até o momento em que você paga de fato o seu compromisso pode levar mais de um dia útil.
Juntando tudo isso: escolha o vencimento pelo motivo certo, não pelo motivo errado que contei lá em cima, use a tributação a seu favor sem forçar a mão no prazo por causa dela, e sempre deixe uma folga entre o vencimento do investimento e o dia em que você vai precisar do dinheiro.
7. Qual nível de volatilidade eu tolero?
A volatilidade em ativos de renda fixa existe, mesmo que mascarada.
Quando você aplica em um CDB com liquidez apenas no vencimento ou produtos emitidos por bancos e instituições financeiras, apesar de o preço dele subir comportadamente de uma maneira positiva, o real preço varia todo dia no mercado secundário, que faz investidores comprarem e venderem títulos iguais ao seu.
Isso significa que o seu CDB, LCI e LCA são “marcados na curva”, ou seja, enquanto o preço deles no mercado secundário está variando conforme mudanças de expectativas econômicas e projeções da saúde financeira do emissor, você não nota isso pois na sua conta da corretora fica tudo lindo e maravilhoso e, dando tudo certo até o vencimento, você recebe aquele valor final no dia do vencimento conforme o saldo do investimento.
Mas se você tentar resgatar antes do vencimento um produto de renda fixa sem liquidez diária garantida pelo emissor, você vai receber da sua corretora ou banco uma cotação condizente com o preço do seu CDB no mercado secundário.
Não conseguimos prever exatamente qual será o percentual de perda ou ganho (podem até haver casos em que as condições do mercado secundário melhoram e você resgate mais do que o valor do investimento), mas esse sobe e desce de preços se chama volatilidade.
A volatilidade é muito maior em títulos que tenham o que a gente chama de “componente prefixado”. No seu prefixado esse componente é a taxa inteira dele, no IPCA+ o componente prefixado é a taxa que se recebe acima da inflação, e nos pós-fixados como o Tesouro Selic você tem a variação da taxa Selic e mais um pequeno acréscimo percentual, que é muito menor do que nos IPCA+ e pré.
Quanto maior esse componente prefixado no seu título, maior a volatilidade esperada. E quanto mais longo for o vencimento do seu título, maior também a volatilidade esperada. Os dois efeitos se somam: um prefixado curto ainda tem menos volatilidade do que um prefixado longo, e o mesmo vale para prazos diferentes indexados ao IPCA.
Quando juntamos um indexador com baixo componente prefixado como um Tesouro Reserva (aquele novo título do Tesouro que não tem nenhum componente prefixado), e considerando que você tem um vencimento mais curto, chegamos ao resultado do nosso laboratório de renda fixa: um título com pouca volatilidade.
E quando juntamos um componente prefixado alto e um vencimento longo, como um prefixado de longo prazo, estamos praticamente correndo o maior risco de volatilidade
| Prazo/Indexador | Pós | IPCA | Prefixado |
| Curto | Baixa Volatilidade | Média Volatilidade | Média/Alta Volatilidade |
| Médio | Baixa Volatilidade | Média/Alta Volatilidade | Alta Volatilidade |
| Longo | Baixa/média Volatilidade | Alta Volatilidade | Alta Volatilidade |
Então agora você deve se perguntar que tipo de louco iria apostar em um prefixado de longo prazo. E a resposta é que de louco todo mundo tem um pouco.
Lembra que eu falei que é saudável ter os 3 indexadores na carteira?
O ponto aqui é: o seu perfil de investidor aguenta uma volatilidade de um prefixado longo ou a volatilidade menor de um prefixado mais curto seria o mais indicado?
E o ponto final sobre volatilidade é que ela não é necessariamente sua inimiga. Um título prefixado ou indexado ao IPCA comprado no momento certo tem a capacidade de ser vendido no momento de virada de mercado e pode fazer seu investimento se valorizar em algumas vezes quando você fizer a venda no secundário.
8. Qual risco eu topo correr para ganhar mais?
Até aqui a gente falou de volatilidade, ou seja, o quanto o preço do seu investimento pode balançar antes do vencimento. Mas falta o outro risco que importa tanto quanto esse primeiro: o risco de você não receber esse dinheiro de volta.
Agora vamos conversar sobre risco de crédito e, finalmente, sobre rentabilidade.
Você quer correr o menor risco de calote no país? Então títulos do Tesouro te entregam exatamente isso, mas com o risco da variação do preço dos títulos entre o dia da aplicação e o dia do vencimento.
Mas se ele é a opção mais segura de emissor, logo ele também é a opção que paga menos.
Todo investimento em renda fixa é, de uma maneira ou de outra, um empréstimo de alguém que precisa de dinheiro e alguém com dinheiro disponível querendo uma recompensa pelo risco do empréstimo.
Isso vale para renda fixa desde títulos do Tesouro Direto até o fundo de direito creditório mais sombrio e complexo possível.
À medida que você avança na “escada de risco de crédito” nos produtos de renda fixa você entende que o risco de crédito está em 2 lugares: em quem emite a dívida e no tipo de instrumento utilizado para transformar esse empréstimo em um produto de renda fixa.
Na tabela abaixo eu destaco os principais instrumentos de renda fixa disponíveis para o investidor pessoa física começando do menor risco de crédito até o maior:
| Instrumento | Finalidade | Garantia | Risco |
| Tesouro Direto | Empresta para o governo | Governamental | Soberano |
| LCD | Empresa para o BNDES | FGC respeitando os limites | BNDES |
| Certificado de Depósito Bancário (CDB); Recibo de Depósito Bancário (RDB); Letra de Crédito do Agronegócio (LCA);Letra de Crédito Imobiliário (LCI);Depósito a Prazo com Garantia Especial (DPGE) | Empresta para bancos | FGC respeitando os limites | Bancário |
| Recibo de Depósito Cooperativo (RDC) | Empresa para cooperativas de crédito | FGCoop respeitando os limites | Bancário/Cooperativa de Crédito |
| Letra Financeira (LF) | Investe em bancos | Sem garantia do FGC | Bancário |
| Debênture | Empresta para empresas | Pode variar de acordo com a oferta, desde sem garantias até garantias consideradas reais | Crédito Privado (empresa) |
| Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI);Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) | Antecipação de recebíveis | Pode variar de acordo com a oferta, desde sem garantias até garantias consideradas reais | Crédito Privado (fluxo de recebíveis) |
Vale reforçar que eu coloquei em ordem de risco de crédito pensando em cada instrumento, mas precisamos ter em mente que o emissor desse instrumento conta muito. E faz sentido pois, em tese, um CDB emitido por um banco quase em falência tem um risco de crédito muito maior do que uma debênture de uma grande empresa consolidada como a Petrobras ou Vale, então não esqueça de levar esses 2 fatores na conta do risco de crédito.
Outra coisa super importante que o investidor pessoa física não sabe: o mercado de crédito privado não é feito para a pessoa física entender. Em sua maior parte, ele foi estruturado pensando em operações com gestores de fundos e bancões’, então fazer uma análise de crédito privado bem feita requer entender de contabilidade, economia, administração, análise de projeções entre outras habilidades.
Mas isso não significa que o crédito privado não seja para você. Eu recomendo fortemente que você dedique seu tempo a escolher bons fundos de crédito privado, seja um fundo aberto ou fundo fechado, pois você consegue comprar uma parte de uma carteira diversificada e com uma gestão profissional por trás.
Por isso na tabela acima eu não coloquei FIIs de papel, FI Infra, Fiagro, FIDCs e ETFs, pois o risco real deles vai depender dos tipos de ativos que cada fundo se propõe a investir e dos emissores de cada ativo, mas todos são meios válidos para alocação.
9. E se as coisas não saírem como o imaginado?
Errar faz parte.
Você não vai acertar todas as suas projeções de inflação, juros, câmbio, campeonato paulista, ou se vai chover no próximo domingo.
Isso reforça a importância de diversificar em vários vencimentos, indexadores e tudo mais como conversamos pensando em investidores que evoluem o perfil de investimento além do conservador, mas também é importante saber que é normal isso acontecer, e claro que o ideal é você sempre buscar melhorar essa capacidade de fazer projeções. Essa regra vale para maioria dos perfis, mas não é dogma: quem tem um objetivo bem específico e de curto prazo pode preferir concentrar em vez de diversificar.
Mas você precisar saber também quando abandonar o barco por perda de fundamento.
Imagine a pessoa que comprou um Tesouro prefixado em 2020, antes da pandemia, quando a Selic estava em 2%. Ela precisava ter um plano B que mostrasse que, com a Selic extremamente baixa, são grandes as chances de a inflação subir e o Copom precisar elevar a Selic, então é preciso ter um parâmetro para te avisar que é hora de zerar sua posição, lidar com possíveis perdas, e partir para um ajuste de rota.
E o que diferencia o bom investidor do investidor mediano é a capacidade de diferenciar quando a carteira dele está performando mal por conta de ciclos econômicos de quando a carteira está performando mal por conta da deterioração de fundamentos.
Para isso, existe a Finclass e todo o apoio da equipe de análise, cursos e interação entre assinantes no FinClub.
Perguntas respondidas - hora de partir para a ação
Não tem segredo, agora que respondemos a nossa ficha de anamnese de renda fixa, já podemos ir ao mercado com a lista do que queremos.
Essa é a hora de aplicar os filtros de prazo, indexador, produto e tudo mais que vimos de acordo com as nossas respostas.
Se você entendeu como usar a anamnese em renda fixa a seu favor, mas não se sente seguro determinando qual o percentual para cada classe dentro da sua carteira, você pode seguir as carteiras de Valorização ou Renda que seguem a metodologia ARCA, ou então, se você quiser uma sugestão de alocação 100% em renda fixa, temos o relatório de agosto disponível para leitura aqui para te auxiliar.
Dica extra: acompanhamento
Fazer o investimento hoje em dia é muito fácil, mas muita gente não faz ideia de como acompanhar as atualizações de mercado e o impacto na carteira.
Minha sugestão é, trimestralmente, faça uma pesquisa de relatórios dos ativos e empresas relacionados aos seus investimentos e ainda melhor: pesquise você mesmo no site de Relacionamento com Investidores dessas empresas, pode ser banco emissor do seu CDB, empresa emissora da sua debênture ou de ações que você tenha e crie o hábito de entender o que está acontecendo.
Pode ser difícil no começo, mas com o tempo e consumindo materiais educativos como os que você encontra na Finclass, você vai dominar o assunto.
Agora vamos para os bancos e ETFs aprovados.
Bancos aprovados
Bancos Reprovados
ETFs de Renda Fixa aprovados
Ficamos por aqui
Vimos o checklist que os investidores precisam ter em mente antes de fazerem investimentos em renda fixa.
Atualizamos também a base de bancos aprovados e reprovados e dos ETFs de renda fixa que também foram aprovados.
Um grande abraço e bons investimentos!
Eduardo Perez | CNPI 7393
Sobre os analistas
Eduardo Perez
Especialista em Renda Fixa
Eduardo Perez é analista CNPI-P, com certificações CGA e CGE da Anbima, e especialista em renda fixa na Finclass. Formado em Economia e Gestão Financeira, construiu sua trajetória no mercado financeiro passando por diferentes áreas, desde o atendimento ao cliente na Easynvest até o research de renda fixa e análise macroeconômica no Nubank, onde também contribuiu com recomendações e conteúdos para o portal InvestNews. Posteriormente, atuou na mesa de operações de renda fixa, integrando a equipe de gestão do book proprietário. Acredita que o mercado de capitais brasileiro ainda tem um amplo espaço para crescimento e amadurecimento, especialmente do ponto de vista do investidor pessoa física, e vê a educação financeira como o principal caminho para transformar esse potencial em decisões de investimento mais conscientes e eficientes.