Quando eu trabalhava na mesa de operações, local onde se faz a gestão de fundos de investimento, era comum que possuíssemos dois tipos de posições:
Posições de médio prazo, aquelas que o fundo monta para carregar por alguns meses.
Posições de curto prazo, ou seja, operações elaboradas para se beneficiar de pequenas distorções semanais - e até diárias - de preços.
Trabalhei na gestão profissional de recursos por quase 10 anos e quando comecei a trabalhar com pessoa física, acreditei que os dois tipos de posições - tão comuns nos fundos de investimento - poderiam ser replicadas em uma carteira de pessoas comuns, assim como eu e você, e não apenas em fundos de investimento.
Ledo engano.
O que eu não me dei conta no início é que as pessoas que nos pagam para receber nossas recomendações e orientações de investimento têm seus respectivos trabalhos, famílias e prazeres. Pouquíssimas, ou quase nenhuma delas, estaria disposta ou atenta para realizar operações de curtíssimo prazo.
Você pode até estar pensando: “Guilherme, eu tenho tempo e acompanharia cada recomendação instantaneamente, será que não faria sentido para mim?”.
Na verdade, não.
Diferentemente de um fundo de investimento, nós arcaremos com alguns custos que não incidem nas operações realizadas por fundos, ou se incidem, em uma proporção muito menor:
- Imposto sobre os ganhos.
- Corretagem.
- Spreads.
- Acesso.
Impostos
Exceto por títulos isentos, toda vez que você vende um ativo de renda fixa com lucro, deve pagar imposto de renda. Até aqui não há surpresa, certo? Afinal, isso acontece com grande parte dos ativos.
O problema é que se hoje eu tiver um resultado negativo com um título público e amanhã eu obtiver lucro, o meu imposto desconsiderará meu prejuízo com o ativo vendido ontem, ou seja, quando eu tenho lucro eu divido com o governo uma parte, e quando tenho prejuízo fica tudo comigo.
Em ações e fundos imobiliários é possível compensar prejuízos com um resultado positivo futuro.
Em fundos de investimento funciona da mesma maneira. Se hoje em uma operação eu apresentar resultado negativo de R$ 10 milhões e amanhã um resultado positivo de R$ 10 milhões , o fundo não paga imposto algum. Se fizesse a mesma operação diretamente na minha conta na pessoa física, eu pagaria imposto sobre o lucro de R$ 10 milhões no dia seguinte.
Corretagem
Além disso, as taxas de corretagem são infinitamente menores quando se opera para um fundo de investimento. Como o montante das operações chega a ser abissal, na casa das centenas de milhões de reais, as corretagens são mais baixas proporcionalmente ao valor, fazendo com que a corretagem não prejudique o resultado das operações.
Não podemos dizer o mesmo quando estamos falando de investir através das nossas corretoras, as corretagens são maiores proporcionalmente aos valores investidos, o que tira potencial de retorno para operações de curto prazo.
Spreads
Os spreads talvez sejam o grande fator prejudicial.
Ao comprar ativos de renda fixa na sua corretora de investimentos, exceto pelos títulos públicos comercializados na parte do Tesouro Direto, a grande maioria vai apresentar o que chamamos de spreads.
Spread é a diferença entre o valor de um ativo e o seu preço justo.
Para exemplificar, vou trazer um caso real. No dia 3 de junho, minha assessora de investimentos me ofereceu um Tesouro IPCA+ de longo prazo pela plataforma da corretora. O discurso de venda dela era de que ao investir diretamente pela corretora, e não pelo Tesouro Direto, eu ficaria livre da taxa de custódia cobrada pela plataforma, que é de 0,20% ao ano.
Parecia uma oferta tentadora, mas logo em seguida, conforme já esperado, veio a pegadinha.
A taxa do título estava 0,34% abaixo da taxa justa que eu encontraria pela plataforma do Tesouro Direto. Detalhe, no mesmo título.
Como o ativo vence em aproximadamente 20 anos, a assessora, junto à corretora, estava retirando de mim 0,34% de remuneração ao ano por um período de 20 anos, e tudo de uma vez, “cobrado” logo no preço de compra que estava me oferecendo.
A assessora me ofertou um título público a um preço 6% mais caro do que eu poderia encontrar na plataforma do Tesouro Direto, e detalhe, o mesmo título.
Pense que esse spread na compra também incidiria, em maior ou menor proporção, na hora da venda.
Estamos falando que o spread tiraria aproximadamente 10% do espaço de ganhos que você poderia ter com uma operação na corretora.
Sim, é verdade, você pode fazer as operações através do Tesouro Direto, o que tornaria esse spread muitíssimo menor, mas ainda assim mais alto do que o investidor institucional encontra.
Além disso, existem oportunidades também em títulos de crédito privado que investidores institucionais conseguem aproveitar e que nós não conseguimos através de nossas contas, seja pela falta de liquidez nesses ativos, ou pela falta de oportunidade que nossas corretoras nos apresentam.
Acesso
Uma pessoa física não terá acesso aos mesmos instrumentos que um investidor institucional, e aqui o ponto não é somente a opção de ativos à disposição, mas também a quantia necessária de recursos para acessá-los.
Existem ativos de crédito cujo preço mínimo ultrapassa a casa dos R$ 100 mil, ou derivativos que só poderão ser acessados por pessoas que possuem alguns milhões em conta, ou seja, são basicamente inacessíveis.
Somando o impacto desses fatores e entendendo como eles afetam a expectativa de rentabilidade, aliado à dificuldade da pessoa física em acompanhar operações de curtíssimo prazo, entendi que essa seria uma opção inviável para o investidor pessoa física. Quem consegue obter algum retorno com operações de curtíssimo prazo são investidores institucionais.
Recentemente tenho observado outro aspecto interessante na vida do investidor pessoa física: o equilíbrio entre rentabilidade e comodidade, o que tem chamado minha atenção.
Existem dois tipos de investidores: os que priorizam a comodidade em vez da rentabilidade e os que colocam a rentabilidade acima da comodidade.
1 – Comodidade acima da rentabilidade
Prefere ter seus investimentos em um único lugar ou em poucos lugares. Entende que pode não conseguir aproveitar as melhores opções de ativos de crédito privado e fundos de investimento, que pode estar espalhado em corretoras diferentes, mas não perde a paz por conta disso, sabe que a diferença não gerará grandes impactos no futuro, apesar de fazer alguma diferença.
Prefere esse cenário também pela facilidade de controlar seus investimentos e, claro, a temida declaração do Imposto de Renda.
2 – Rentabilidade acima da comodidade
Esses investidores não se incomodam em ter conta em diversas plataformas diferentes. Para isso, entendem que o controle de suas carteiras fica um pouco mais complexo e aceitam que precisam de outras ferramentas, como o Excel, para controlar seus ativos e entender se estão na proporção certa.
Buscam sempre as melhores opções, independentemente de onde estejam listadas.
Precisam abrir mais uma conta em uma nova plataforma para ter a melhor opção em determinado ativo ou fundo? Essas pessoas estarão lá.
Após cinco anos de experiência com investidores pessoa física, percebi que a distribuição entre os dois tipos de investidores é semelhante. Muitas pessoas não se importam com a quantidade de contas e nem com a dificuldade em controlar seu patrimônio, elas simplesmente buscam maximizar seu retorno. Esse tipo de pessoa é ainda mais comum entre casais, afinal, normalmente um é responsável por controlar o dinheiro da família e dedica todo o esforço possível para maximizar o retorno e o futuro bem-estar de seus familiares.
Mas qual é o objetivo deste relatório?
Analisar as opções de ativos pós-fixados com liquidez diária.
Até o momento, a classe de pós-fixados carece de outras opções de ativos para sua composição. Atualmente, temos apenas duas opções: o Tesouro Selic e o CDB 110% do CDI do Banco Daycoval, com liquidez diária.
Para o investidor do tipo “rentabilidade acima de comodidade”, não há nenhum problema, afinal, ele abrirá conta na plataforma do Banco Daycoval para aproveitar a oportunidade do ativo com liquidez diária que atualmente oferece a melhor relação risco x retorno aos seus investidores.
Porém, tenho sentido um pequeno desconforto.
Muitas pessoas são do tipo “comodidade acima de rentabilidade”, e, portanto, não desejam abrir conta na plataforma do Banco Daycoval para aproveitar essa oportunidade. Elas sabem que suas carteiras podem apresentar uma rentabilidade levemente menor do que se tivessem essa parcela no Tesouro Selic e estão relativamente tranquilas com isso.
Seria muito arriscado investir em um CDB com liquidez diária de uma instituição não recomendada?
Algumas pessoas me enviam constantemente essa pergunta, e eu preciso lembrar que um CDB é basicamente um empréstimo, ou seja, você está emprestando o seu dinheiro para uma instituição financeira.
Embora estejamos falando de um ativo com liquidez diária, caso a saúde financeira da instituição em questão fique frágil, ela pode sofrer intervenção pelo Banco Central, ou seja, quebrar.
Portanto, se você investe em um ativo com liquidez diária de uma instituição não aprovada ou com saúde financeira ainda frágil, mantenha a vigilância constante nas informações financeiras e resultados do banco. Embora pareça pouco provável a falência de uma instituição financeira no Brasil, acontece.
Em 2023, a BRK Financeira e a Portocred faliram, fazendo com que 54 mil pessoas precisassem recorrer ao FGC para reaver seu dinheiro.
Até o momento, essas falências atingiram pequenas financeiras e instituições menores, mas sempre se lembre da Usina nuclear de Fukushima no Japão, que havia sido projetada para aguentar o maior tremor observado na história, até que um terremoto de maior magnitude atingiu a região e causou o desastre nuclear em 2011.
O futuro pode apresentar solavancos piores do que os que já observamos.
Sendo assim, entendo que há demanda por CDBs listados em outras plataformas.
CDB BTG Pactual Liquidez diária – A partir de 100,50% do CDI
Dentre as instituições aprovadas, apenas o BTG apresenta uma opção com liquidez diária com uma taxa levemente superior a 100,50% do CDI, o que pode ser uma opção caso você queira preencher a parcela de pós-fixados com um ativo que apresenta um retorno levemente superior a 100% do CDI.
Veja, a opção não é tão atrativa quando comparada com o CDB de liquidez diária do Daycoval, que paga até 110% do CDI, porém é uma alternativa dentro da segunda maior plataforma de investimentos do Brasil - o que pode agradar aquelas pessoas que priorizam a comodidade, mas também buscam uma rentabilidade superior à taxa de 100% do CDI.
Um ponto importante é que as taxas desse CDB com liquidez diária podem se alterar, apresentando um nível de taxa maior em determinado momento.
Essa taxa se altera devido à necessidade maior/menor de um banco captar recursos ou à sua vontade de atrair novos clientes para sua plataforma. Quanto maior for a necessidade de captar recursos ou o desejo de atrair clientes, maior será a taxa oferecida pelo BTG. Por isso, colocamos a observação de que você encontrará esse ativo com uma taxa a partir de 100,50% do CDI.
Outras instituições oferecem ativos com liquidez diária entre suas opções e, embora não estejam recomendados, decidi trazer quais as taxas disponíveis e quanto renderiam caso você investisse R$ 5 mil em cada uma dessas opções.
Primeiro, vamos às opções com liquidez diária que monitoramos:
Figura 1Fonte: Finclass Research
O fato de termos monitorado e fornecido essa informação para você não significa que os recomendamos.
Na tabela abaixo, os ativos em verde são recomendados, os em amarelo são ativos que já recomendamos, mas devido a resultados recentes ruins, optamos por suspender novas compras e em vermelho são ativos que não recomendamos até o momento.
Mas quanto cada um deles renderia caso o CDI ficasse em 10,40% nos próximos anos se investíssemos R$ 5 mil em cada?
Para mostrar a diferença de retorno que cada um proporcionaria, veja a lista abaixo. Começamos com o exemplo de um CDB que paga 100% do CDI, também podendo ser entendido como uma conta remunerada que paga esse nível de taxa, proporcionando assim uma base de comparação com os demais produtos:
CDB 100% do CDI:
CDB BTG 100,50% do CDI:
CDB PicPay 102% do CDI:
CDB Banco Pan 103% do CDI:
CDB C6 104% do CDI:
CDB BMG 110% do CDI:
CDB Sofisa 110% do CDI:
CDB Daycoval 110% do CDI:
Resumo:
No quadro abaixo, fornecemos um resumo do resultado líquido das aplicações citadas acima. Nessa tabela, as cores diferenciam as opções mais rentáveis das menos rentáveis.
2Fonte: Finclass
Conclusão:
Por ora, como opção para a parcela pós-fixada de nossa carteira com liquidez diária, temos as opções do Tesouro Selic, CDB com liquidez diária do BTG e também CDB com liquidez diária do Banco Daycoval.
Não vemos a necessidade de incluir opções de bancos com os quais não nos sentimos confortáveis por um motivo que pode ter ficado óbvio para você ao olhar a tabela acima:
Para correr um risco muito maior em um CDB de uma instituição financeira menor e menos confiável do que as recomendadas, o acréscimo de retorno é pequeno.
Se você deseja aplicar R$ 5 mil reais em um CDB do Sofisa ao invés do CDB do BTG, veja que a diferença em termos financeiros depois de um ano será de apenas R$ 43.
Essa diferença subiria para R$ 340 em um período de cinco anos.
Portanto, sempre ressalto que se você quer ganhar dinheiro de verdade com seus investimentos, correr mais risco de crédito não é a melhor opção. A relação entre possíveis ganhos e possíveis perdas é completamente desfavorável para o (a) investidor (a).
Quer ganhar dinheiro de verdade na renda fixa? Corra risco de mercado, isto é, busque boas taxas em ativos indexados à inflação e prefixados em momentos oportunos.
Abraços,
Guilherme Cadonhotto