Hoje, queremos discutir um assunto que está fazendo bastante barulho nos noticiários sobre economia global: o teto da dívida norte-americana.
Imagine que você tem um cartão de crédito com um limite específico, e ele está perto de atingir tal valor, mas você ainda tem muitas despesas pela frente e precisa convencer a empresa emissora ou banco a aumentar seu limite.
Essa é basicamente a situação em que os EUA se encontram. O governo Joe Biden precisa convencer o Congresso a aumentar o teto da dívida, que atualmente é de US$ 31,3 trilhões, para evitar um "default" – palavra chique pra calote.
Abordaremos neste relatório a importância do teto da dívida, suas implicações para a economia dos EUA e, mais importante, para as economias global e brasileira. Também exploraremos possíveis cenários, analisaremos um caso passado – o impasse de 2011 – para ajudar a entender o que pode acontecer e, finalmente, apresentaremos medidas que o Brasil e os investidores podem tomar para se protegerem diante dessa incerteza.
Prontos para embarcar nessa viagem conosco? Vamos lá!
O teto da dívida norte-americana
O teto da dívida norte-americana é um limite legal imposto sobre a quantidade total de dinheiro que o governo dos Estados Unidos pode tomar emprestado, que hoje é de US$ 31,3 trilhões.
A importância desse limite se deve ao fato de que o governo dos EUA financia suas operações e programas parcialmente por meio do endividamento. Portanto, um impasse sobre o aumento do teto da dívida pode ter graves consequências para a economia do país e para a confiança dos investidores nos mercados financeiros.
Tomar decisões rápidas e assertivas é crucial nessa questão. Atrasos na resolução do impasse, devido à politização e à tática de "brinkmanship" (um jogo de negociações arriscadas), podem aumentar significativamente a percepção de risco. Isso é reconhecido não só por pequenos investidores, mas também por grandes instituições bancárias.
A Moody's Analytics, ao analisar o cenário, sugere que um impasse prolongado sobre o teto da dívida poderia, potencialmente, resultar em repercussões econômicas significativas. Entre as possibilidades consideradas, está a perda de até 7,8 milhões de empregos, com o decorrente aumento na taxa de desemprego para cerca de 9% (atualmente, é de 5,2%).
A desaceleração econômica subsequente poderia ser comparável à sofrida durante a crise financeira global de 2008. Isso significaria que o PIB real do EUA poderia começar a declinar na segunda metade deste ano e perdurar até 2024, com uma queda de 4,6%. Isso também poderia levar a uma diminuição de aproximadamente um terço do valor do mercado de ações, o que corresponderia a uma redução estimada em US$ 15 trilhões na economia doméstica.
Até agora, os Estados Unidos nunca deram o calote em sua dívida, ou seja, seria um território inexplorado. A suspensão de todos os programas governamentais previamente aprovados, juntamente com os consequentes choques econômicos, seria algo sem precedentes.
Estudos recentes tanto do Congressional Budget Office quanto do Departamento do Tesouro dos EUA sugerem que os Estados Unidos estão se aproximando rapidamente da data na qual o governo não poderá mais pagar suas contas, também conhecida como a “data-X”.
Como vamos mostrar, a história já provou: mesmo uma aproximação de uma violação do teto da dívida dos EUA pode causar grandes perturbações nos mercados financeiros, prejudicando as condições econômicas enfrentadas por famílias e empresas.
Esses riscos se refletem nos mercados financeiros. Dados em tempo real indicam que os mercados já estão precificando o impasse político relacionado ao default do governo federal, através de prêmios de risco mais altos.
Um default na dívida do governo poderia reverter os ganhos econômicos históricos alcançados desde que o presidente atual, Joe Biden, assumiu o cargo, que incluem uma taxa de desemprego que está nas mínimas em 50 anos, graças à criação de 12,6 milhões de empregos, e um forte consumo que tem impulsionado um sólido e confiável motor de crescimento no país, apoiado por salários do forte mercado de trabalho e reservas saudáveis das famílias.
Uma violação real do teto da dívida dos EUA provavelmente causaria sérios danos à economia do país. Análises do Council of Economic Advisers (CEA) e de pesquisadores externos ilustram que, se o governo norte-americano não cumprir suas obrigações (para com credores, contratados ou cidadãos), a economia rapidamente entraria em retrocesso, com a profundidade das perdas dependendo de quanto tempo a violação durasse.
Um default prolongado provavelmente causaria danos severos à economia, com o crescimento do emprego mudando de um ritmo atual de ganhos robustos para perdas na casa dos milhões.
Efeitos econômicos estimados do impasse do teto da dívida: 3Q23
| Brinkmanship (resolução com alongamento das discussões) | Default da dívida Leve (resolução rápida mas com Default) | Default da dívida Duro (resolução demorada após Default) | |
| Empregos (milhões) | -0,2 | -0,5 | -8,3 |
| PIB Real (% cresc.) | -0,3 | -0,6 | -6,1 |
| Aumento na taxa de desemprego (em pontos percentuais) | 0,10 | 0,30 | 5,00 |
Fonte: Council of Economic Advisers (CEA)
Um cenário nada positivo para os mercados de capitais. Então, dadas as possibilidades, vale estudarmos eventos passados, uma vez que, assim como disse o escritor Mark Twain, “a história não se repete, mas rima por vezes”. E, olhando para trás, os Estados Unidos enfrentaram o mesmo impasse em 2011 e esse evento pode fornecer informações valiosas para entendermos o atual momento.
Temos um 2011 em 2023?
Ao nosso ver, um fator crucial para a resolução do impasse é a consciência política sobre a gravidade da situação e lembrar que eventos passados sem um acordo rápido tiveram um fim amargo. E, a despeito do aumento da dívida, tudo vai se resumir ao timing das resoluções.
Para ilustrar a importância de uma resolução rápida, podemos olhar o caso de 2011, que teve impactos significativos nos mercados financeiros.
Naquele ano, os Estados Unidos atingiram o limite da dívida nacional, o que desencadeou uma série de eventos e preocupações sobre a capacidade do país de cumprir suas obrigações financeiras, muito similares com as atuais. O governo alcançou o limite legal de sua dívida nacional em 16 de maio de 2011, o que significava que não podia mais emitir novos títulos da dívida para financiar suas despesas e teve que recorrer a medidas extraordinárias para evitar um default.
Nessa situação, republicanos e democratas entraram em uma discussão sobre como lidar com o limite da dívida. Os primeiros, que controlavam a Câmara na época, queriam condições fiscais mais rigorosas e redução do déficit antes de aprovar um aumento no limite da dívida. Por outro lado, os seus opositores argumentavam que o teto deveria ser elevado sem condições adicionais.
Essa queda de braço política causou alvoroço nos mercados financeiros, com oscilações consideráveis nos preços das ações e queda nos rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano. Até que em 5 de agosto de 2011, um evento sem precedentes tomou a capa dos jornais: a agência de classificação de risco Standard & Poor's rebaixou a classificação de crédito dos Estados Unidos de AAA para AA+, evento que gerou ainda mais preocupações nos mercados financeiros.
Durante esse período de incerteza, os investidores buscaram refúgio em ativos considerados seguros, como ouro e dólar. O preço do metal subiu significativamente, enquanto a moeda norte-americana teve um comportamento variado, apresentando uma alta inicial seguida de reversão.
Esse impasse também teve repercussões nos mercados financeiros globais. A possibilidade de um default dos EUA abalou a confiança dos investidores em todo o mundo, gerando volatilidade e preocupações sobre a estabilidade financeira global.
A lição que podemos extrair dessa experiência é que, embora um calote seja uma situação sem precedentes, o impacto de um impasse prolongado em relação ao teto da dívida pode ser significativo, tanto a curto quanto a longo prazo.
No curto prazo, pode resultar em volatilidade nos mercados e afetar a confiança dos investidores; no longo, existe a chance de uma possível alteração nas regras para elevar esse teto, ou até mesmo uma repetição do cenário de 2011, com uma mudança no rating – mas achamos que isso é pouco provável. Vale ressaltar que, das principais agências de classificação de crédito, apenas a S&P alterou o rating dos Estados Unidos e até hoje mantém a sua decisão.
E, mesmo em eventos passados, o desenrolar foi o mesmo. Além do de 2011, sempre que a dívida se aproxima do limite, o Congresso aumentou o limite. Não vemos argumentos suficientemente fortes para que agora isso deixe de acontecer desta vez. Na nossa visão, o cenário aponta para a resolução forçada desse impasse a fim de evitar mais turbulências.
E quais os possíveis impactos no Brasil?
O atual imbróglio em torno do teto da dívida norte-americana pode ter algumas repercussões no Brasil, considerando que estamos falando da maior economia, um dos pontos de referência como porto seguro de investimentos da economia global e com presença de investimentos internacionais no país.
No passado, como em 2011, um dos principais desdobramentos foi a da aversão ao investimento em risco, particularmente em mercados emergentes como o Brasil. Isso pode levar a um impacto imediato no aumento dos juros e na desvalorização dos ativos brasileiros.
A aversão ao risco tende a resultar na fuga de investidores para ativos mais seguros, conhecidos como "safe havens" ou “portos seguros”. Isso, por sua vez, pode causar uma desvalorização das ações e outros ativos de risco, prejudicando o mercado de ações mundo afora no curto prazo.
A situação se agravaria ainda mais com a queda na cotação do câmbio, tornando o real mais fraco em relação a outras moedas, o que impactaria negativamente as importações e os investimentos estrangeiros.
Como mencionado nos estudos do CEA no pior cenário, podemos ver ainda uma possível desaceleração econômica global, resultando em uma redução na demanda por produtos nacionais. Sendo assim, o impacto também seria sentido no mercado brasileiro de commodities e no setor de exportações.
Porque isso levaria a uma queda nos preços das commodities, afetando alicerces centrais para a economia brasileira como petróleo, minério de ferro, soja e café, e prejudicaria significativamente a economia nacional, que é um dos principais produtores e exportadores desses produtos.
Mas, novamente, esse é um território inexplorado e que nunca aconteceu, pois o cenário mais provável é que democratas e republicanos continuem com essa queda de braço e que entrem em acordo sobre o aumento da dívida dos Estados Unidos em algum momento.
Agora resta a pergunta: o que o Brasil poderia fazer para mitigar possíveis desdobramentos desse cenário mais plausível, de uma queda de braço entre políticos e um cenário mais brando até que uma decisão seja efetivamente tomada?
O que o Brasil pode fazer?
Para se proteger desses possíveis impactos, o Brasil pode adotar uma série de políticas para mitigar os possíveis desdobramentos dos impactos internacionais e, na nossa visão, elas se resumem em fazer a nossa lição de casa, ou seja, manter uma política econômica estável, evitando mudanças abruptas que possam causar instabilidade e catalisar ainda mais a aversão ao risco.
Além disso, é crucial mostrar aos investidores internacionais que o Brasil está gerenciando sua economia de forma eficiente, tornando-o uma opção de investimento menos arriscada em meio à aversão global ao risco, algo como “dentro das opções existentes, podemos ser uma das menos piores”, que foi o caso após o início do conflito entre Rússia e Ucrânia, por exemplo.
E quanto aos investidores?
Para os investidores, na nossa visão, a recomendação é manter controle sobre seu perfil de risco adequado e manter uma carteira de qualidade com visão de longo prazo. Isso inclui a diversificação do portfólio, investindo em uma variedade de ativos de qualidade para diluir o risco.
Por fim, é importante lembrar que, apesar dos possíveis impactos no curto prazo, investir a longo prazo geralmente produz melhores retornos e reduz a probabilidade de perdas.
Além disso, os investidores podem optar por investir em ativos considerados mais resilientes e previsíveis da economia, tanto locais quanto globais, se forem aderentes ao perfil individual.
Segundo um estudo do JP Morgan, investimentos de longo prazo em ações e títulos de renda fixa em uma carteira mista tendem a apresentar melhor desempenho, independentemente das flutuações do mercado. Portanto, os investidores devem considerar suas estratégias de investimento à luz desses fatores, bem como suas metas e tolerância ao risco.
Retorno anualizado de três portfólios ao longo do tempo (% a.a.)
Desempenho de Investimentos: Ações (Cinza), Renda Fixa (Azul) e 50/50 (Verde)Fonte: JP Morgan
No gráfico acima, fica claro que, quanto mais tempo seguramos um portfólio de qualidade, melhor fica a relação risco versus retorno, uma vez que, ao passar dos anos, é menor a perspectiva anual de retornos negativos (barras abaixo do zero), a ponto de que, em 15 anos, nenhum dos retornos anualizados foi negativo.
Conclusão
Um default da dívida norte-americana poderia prejudicar a confiança dos investidores ao redor do mundo. A dívida do governo dos EUA é vista como um dos investimentos mais seguros, sendo frequentemente chamada de "risco zero", e algo dessa magnitude desafiaria essa noção e poderia levar a uma fuga de capitais e a uma reavaliação global do risco.
No entanto, é importante ressaltar que, apesar das tensões, o cenário mais provável é que democratas e republicanos entrem em acordo para aumentar o teto da dívida. A queda de braço política é comum em torno desse assunto, mas a história sugere que o calote é evitado. Por exemplo, em 2011, houve um impasse semelhante, em que as negociações foram levadas até o último minuto, mas um acordo foi alcançado.
No que concerne aos investidores, em momentos desafiadores já mostramos anteriormente que o melhor é a paciência! No mais, recomendamos a manutenção de um perfil de risco adequado, e uma carteira de investimentos de alta qualidade com perspectiva de longo prazo é a estratégia mais aconselhável.
A diversificação do portfólio, por meio de investimentos em uma diversidade de ativos de qualidade e resilientes, é fundamental para a mitigação de riscos e pode oferecer maior segurança.
Abraços,
Filipe Colus e Gui Cadonhotto