Aproximadamente 50 km separam minha casa de nosso escritório na Spiti.
Essa é a distância entre a cidade de São Caetano do Sul e Alphaville.
Como você deve imaginar, passo uma boa parte dos meus dias de trabalho presencial dentro do carro. Sim, muitas vezes é ruim, mas corriqueiramente me recordo de quando passava quatro horas por dia no transporte público e um sentimento tranquilizante acaba assumindo o lugar do desconforto.
Você pode ser o maior fã do mundo de uma banda, mas duvido que aguentaria ouvir as mesmas músicas por aproximadamente duas ou três horas todos os dias, e eu também não.
Por isso, durante o trajeto busco ouvir aulas — de preferência as da Finclass —, palestras e principalmente podcasts.
Não sou fã de podcast tradicional apesar de apresentar um, Os Economistas.
Para a maioria das pessoas, uma conversa descontraída sobre determinado tema facilita o entendimento e a compreensão de tópicos que podem parecer complicados. Para mim, não.
Eu não gosto de ouvir podcast com piadas, reflexões pessoais, histórias de vida que não agregam em termos de conteúdo para o ouvinte — por exemplo, explicando a origem do nome de uma empresa.
Veja, essa é a minha opinião pessoal. Nada contra quem gosta, mas, para mim, isso mais atrapalha do que ajuda. Afinal, se estou escutando um podcast, eu quero focar em aprender.
É por isso que dou preferência a podcasts de uma única pessoa.
Ela simplesmente abre o microfone e começa a falar sobre um tema específico — e, claro, o meu assunto preferido é dinheiro.
Fonte: Universo HQ
Não como ganhar mais dinheiro, mas, sim, como lidar melhor com o dinheiro e com a busca pelo enriquecimento. O equilíbrio entre trabalho e felicidade ou a correlação entre dinheiro e felicidade são temas pelos quais eu tenho muito interesse.
E é justamente por isso que há dias ouço, por vezes repetidamente, o podcast do Morgan Housel, autor de A Psicologia Financeira.
Fonte: The Morgan House Podcast (Spotify)
Se você ainda não leu o livro, eu o recomendo fortemente. Se você é assinante da Spiti, muito provavelmente está em busca das melhores opções de investimento, que é um dos pilares da busca pela independência financeira. Diria que um outro extremamente importante é aprender a lidar, da melhor maneira possível, com o dinheiro.
Em um dos episódios do podcast, que infelizmente só está disponível em inglês, Morgan Housel lista as 30 regras mais importantes do dinheiro.
O tópico parece simples, mas acredito que seja muito importante, mesmo para você que já investe com sabedoria.
Vamos falar no relatório de hoje das principais regras do dinheiro segundo a visão do autor e, é claro, com uma pequena contribuição minha considerando a realidade de investidores e investidoras do Brasil.
Não vou abordar todos os tópicos nem me comprometerei a apresentá-los em ordem. O que trago aqui é fruto de observações e reflexões pessoais sobre as principais regras do dinheiro definidas por uma das autoridades mundiais quando o assunto é psicologia financeira.
Para mim essa é a regra mais importante das citadas por Morgan Housel, apesar de não ser a regra número 1 listada por ele.
É importante citar que a dependência financeira não é algo linear ou binário, ou seja, ou você é financeiramente independente ou não.
Existe uma escala, um espectro, de independência financeira, que vai desde o mais drástico, que é o grau onde você depende literalmente de esmolas de pessoas desconhecidas, passando pelo grau onde você depende de pessoas próximas a você, depois que você depende de um salário de sua empresa para cobrir todas as suas despesas mensais.
Essa dependência irá se reduzindo até o ponto em que seus recursos poupados e investidos serão suficientes para cobrir todas as suas despesas fixas mensais e de sua família.
Morgan Housel destaca que o maior benefício do dinheiro não está apenas em comprar coisas melhores, mas sim na capacidade de controlar o próprio tempo e ter autonomia. Ter dinheiro oferece a liberdade de fazer o que se deseja, quando se deseja, com quem se deseja, o que muitas vezes é subestimado em uma sociedade onde o dinheiro é frequentemente associado a possuir mais coisas materiais.
O autor sugere que cada dólar economizado é uma parte do seu futuro que você agora controla, enquanto cada dólar de dívida é uma parte do seu futuro que pertence a outra pessoa. Essa é a ideia que muitas vezes utilizo para separar você em 2 pessoas diferentes; o você de hoje e o você do futuro.
Poupar e investir um percentual relevante de sua renda irão fazer com que o encontro entre você e o seu Eu do futuro seja muito mais tranquilo.
Housel ainda afirma que a independência e a capacidade de controlar o próprio tempo são componentes fundamentais da felicidade na vida, muitas vezes esquecidos. Ter a capacidade de fazer o que se deseja, quando se deseja, é um investimento em si mesmo que não pode ser quantificado em uma planilha, mas que proporciona uma satisfação duradoura e permanente.
Em outro episódio do mesmo podcast Housel ainda conta de sua experiência com uma profissão que foi o seu sonho desse muito novo; Investiment Banker.
Em um estágio que durou pouco tempo Housel percebeu que nessa carreira as probabilidades de possuir uma renda muito alta eram extremamente elevadas, mas que o tempo, e sua liberdade, estariam completamente sacrificadas por muito tempo.
Existem pessoas que estão dispostas a abrir mão de praticamente todo o seu tempo para acumular mais recursos, mas Housel não era uma dessas.
Não se limite aqui a experiência pessoal de Morgan Housel, eu trago apenas um exemplo do próprio criador do podcast para falar sobre como por vezes o aumento da sua renda pode limitar a sua independência.
Morgan Housel argumenta que a única maneira de acumular riqueza é criar um espaço entre o seu ego e a sua renda. Embora compreenda que, especialmente para os mais jovens, pode ser tentador exibir riqueza para o mundo, ele destaca que, à medida que se envelhece, a capacidade de acumular riqueza depende principalmente da capacidade de suprimir o ego e não usar o dinheiro para aparecer ou impressionar os outros. Em vez disso, ele sugere que o dinheiro deve ser usado para conquistar independência e autonomia.
O autor compartilha um conselho prático que o ajudou em sua própria vida: lembrar que ninguém está pensando em você tanto quanto você mesmo. Ele enfatiza que ninguém presta tanta atenção às suas coisas ou fica tão impressionado quanto você. Portanto, ao internalizar essa ideia, você pode suprimir o desejo de se mostrar ou impressionar os outros, o que não afetará sua felicidade.
O exemplo mais claro para o nosso dia a dia é quando observamos um carro de luxo que ainda não temos condições de adquirir.
Você nunca olha para o carro e pensa em quão incrível e magnífico é o dono do carro, mas, sim, pensa no próprio carro e no quanto você ficaria incrível e magnífico sentado no banco do motorista.
Quando olhamos para algo que desejamos, na maior parte das vezes estamos imaginando o quão impressionante ficaremos utilizando aquela roupa, aquele sapato, aquele carro ou aquela casa. Estamos impressionados com o objeto em si, e não com a pessoa que o está utilizando. Funcionará exatamente da mesma maneira quando você estiver no carro, sapato ou casa.
Preocupe-se menos com o que os outros pensam de você. Na maioria das vezes, as pessoas estão pensando bem menos do que você imagina.
Morgan Housel ressalta que muitos debates financeiros são, na verdade, pessoas com diferentes horizontes de tempo discutindo umas com as outras.
Ele observa que, no mundo dos investimentos, existem diversas estratégias e abordagens, desde o day trading e ações de baixo valor até endowments que investem no longuíssimo prazo. Cada uma dessas estratégias é adequada para objetivos, tolerâncias de risco e horizontes temporais diferentes.
É importante mencionar, como sempre digo, que não existe uma única estratégia de investimento vencedora.
Ele sugere que as pessoas geralmente não estão realmente discordando umas das outras, mas, sim, jogando jogos diferentes com diferentes regras e objetivos. Para ilustrar esse ponto, ele compartilha uma história sobre um pai que brinca com seu filho, oferecendo-lhe a escolha entre uma moeda de dez centavos e uma moeda de cinco centavos a cada semana. O filho sempre escolhe a moeda de cinco centavos, embora a de dez centavos seja mais valiosa. O autor destaca que, na verdade, o filho está jogando um jogo diferente, e percebeu que, quando escolher a moeda de dez centavos em vez da de cinco, o pai vai parar de brincar com ele.
Assim, o autor argumenta que é importante reconhecer as diferentes perspectivas e estratégias de investimento e concentrar-se naqueles que estão jogando um jogo semelhante ao seu próprio, em vez de discordar daqueles que têm abordagens diferentes.
Aplicada ao mundo real, essa diferença pode ser facilmente reconhecida entre as diferentes estratégias de investimento de pessoas físicas e gestores de fundos.
Um gestor de fundo de investimento, na maioria das vezes, possui uma desvantagem que a pessoa física não tem: ele dificilmente pode ficar atrás de seu benchmark, ou índice de referência, sem sofrer resgates.
Sofrer resgates para um fundo de investimento significa menor receita e, consequentemente, menor renda. Ou seja, ficar abaixo do benchmark em um semestre pode significar para o futuro uma queda de salário para toda a equipe. É compreensível portanto que gestores de fundos se preocupem tanto com superar os respectivos benchmarks em horizontes de tempo menores do que uma pessoa física.
Além disso, há um incentivo fiscal e em termos de custo de fazer isso quando se é um gestor de fundos frente a uma pessoa física.
O imposto a pagar por uma operação lucrativa hoje em um fundo de investimento pode ser compensado por um erro da mesma proporção amanhã. Isso acontece porque o imposto em fundos de investimento só é recolhido trimestralmente, enquanto nas operações de renda fixa é recolhido a cada operação com lucro.
“Gui, mas não há a compensação de prejuízo acumulado em ações e fundos imobiliários?”
Sim, ela existe, mas se você inicia com um lucro ou não tem prejuízos acumulados nessa classe, vai pagar Imposto de Renda; se tiver um prejuízo no futuro, isso só servirá para abater imposto a pagar de futuras operações lucrativas. No fundo uma operação negativa apaga o imposto a se pagar de um acerto no passado também.
Além disso, os famosos custos de transação precisam ser levados em consideração.
A corretagem e os spreads para os mais diferentes ativos do mercado financeiro brasileiro são muito menores para os fundos de investimento do que para a pessoa física.
Juntos, esses fatores pesam muito mais para o curto prazo para os gestores de fundos do que para você que investe diretamente pela sua conta de pessoa física.
A regra acima busca dar peso relevante a um fator subestimado pelas pessoas físicas, que é o nível de poupança que ela mantém ao longo do tempo.
Grande parte dos investidores, e isso é mais comum aos de primeira viagem, busca grandes retornos, mas não entende que metade do trabalho é ligado diretamente ao seu esforço de poupança. Se poupar e investir pouco, pode até conseguir um excelente retorno, mas dificilmente garantirá uma condição financeira atrativa no futuro.
Com relação ao investimento otimista, Housel ressalta que a diversificação em diferentes classes de ativos visando ao longo prazo é ainda a estratégia com a maior eficiência do mercado. Ou seja, é a que trouxe sucesso financeiro relevante à maior parte dos investidores na história, e isso provavelmente vai continuar acontecendo independentemente do quão turbulento o cenário atual possa parecer.
Esse ponto inclusive tem uma correlação interessante com uma regra que não vou destacar como uma das mais importantes, mas que é interessante que você conheça: nada é tão bom ou tão ruim para durar indefinidamente.
Se o cenário é muito desafiador, provavelmente uma hora deixará de ser, assim como um cenário extremamente positivo também terá um final bem definido.
Para a última regra do relatório de hoje, vou destacar uma que ouvi no primeiro dia em que comecei a trabalhar no mercado financeiro, mais de 10 anos atrás.
Quem a proferiu foi o meu primeiro chefe na mesa de operações. Ele disse: “Sempre viva um degrau abaixo da sua capacidade financeira. Além disso, quando a sua capacidade financeira subir, evite que os seus gastos acompanhem”.
Para manter essa atitude ao longo da vida, precisei aprender a controlar minhas expectativas.
Morgan Housel destaca a importância de manter as expectativas financeiras em equilíbrio com o crescimento da renda e do patrimônio líquido. Ele argumenta que muitas pessoas concentram-se demais em aumentar sua riqueza, negligenciando a moderação das expectativas em relação a esse dinheiro.
Housel adverte que, se as expectativas financeiras crescerem mais rapidamente do que a renda, você nunca ficará satisfeito com sua situação financeira, independentemente de quanta riqueza acumular. Isso pode levar as pessoas a assumir mais riscos e trabalhar mais horas em busca incessante de mais dinheiro, o que pode acabar levando a consequências negativas.
Uma delas é a perda da independência. Você pode ficar dependente da busca constante por mais recursos financeiros, algo que no início da sua jornada era uma ferramenta para alcançar a liberdade, e não o objetivo em si.
A outra consequência negativa pode surgir conforme se assume mais risco e esse risco acaba se transformando em prejuízo.
É extremamente importante destacar que ter uma ideia realista do que é suficiente não significa que você não deve ter ambições de ganhar mais dinheiro ou aumentar seu patrimônio líquido. O conceito de "suficiente" implica que você reconhece a importância de manter suas expectativas sob controle em relação ao crescimento de sua renda.
Para exemplificar esse caso, cito a história de Charlie Munger, que, quando questionado sobre sua trajetória até se tornar um bilionário, apenas respondeu: “O que eu queria era de fato atingir minha independência financeira”.
Buscar o “suficiente” não significa que você não possa ter aspirações de aumento do seu patrimônio.
Em resumo, o autor enfatiza a importância de equilibrar o crescimento financeiro com a moderação das expectativas para alcançar a satisfação financeira no longo prazo e evitar uma busca interminável por mais dinheiro que pode resultar em consequências negativas.
Há outras regras que acredito serem importantes na trajetória financeira, mas abordá-las transformaria este relatório em um texto muito extenso.
Se você gostou do tema e gostaria de ver uma “parte 2”, pode me mandar uma mensagem no Instagram ou enviar um e-mail para spitione@invistaspiti.com.br que gostaria de um segundo relatório abordando outras regras do dinheiro.
Abraços,
Guilherme Cadonhotto