Relatórios

Até onde o BTC pode chegar nos próximos anos?

Escrito por Thales Inada, Rodrigo Xavier em ALTERNATIVOS

10 min de leitura

Fala, assinante do Spiti One!

Hoje vou me arriscar em um assunto delicado.

Você já sabe que aqui na Spiti temos uma visão extremamente realista do mercado financeiro. Evitamos frustrar suas expectativas de retorno e por isso tomamos uma posição bem pé no chão.

Meu objetivo hoje é: fazer você segurar o BTC para o longo prazo.

Atualmente temos diversos temas que podem beneficiar, e muito, o mercado cripto nos próximos anos. Por exemplo, a alta expectativa de 90% de aprovação do ETF de BTC à vista em janeiro e, com isso, a entrada de um grande capital institucional, o que levaria o BTC a performar de forma semelhante ao que ocorreu com o ouro no lançamento do seu primeiro ETF. 

Também teremos o halving do BTC em abril, o provável corte de juros dos Estados Unidos a partir do segundo semestre de 2024 e, por fim, podemos citar a possível entrada da grande massa populacional do mundo no mercado cripto.

Então hoje vamos nos aprofundar nesses temas e estimar algumas potenciais valorizações baseadas nessas características.

Antes de iniciarmos nossa análise, eu gostaria de alertar sobre um ponto de extrema importância. Embora o Bitcoin (BTC) apresente um considerável potencial de valorização para o próximo ciclo, é crucial reconhecer que esse potencial vem acompanhado de significativa volatilidade e, por consequência, riscos inerentes às oscilações de preços no dia-dia. Não há garantias de que os retornos esperados se concretizarão efetivamente. Portanto, é importantíssimo se manter fiel à alocação estrutural do Spiti One, que atualmente destina 3% da carteira para investimentos alternativos.

Halving do BTC

Apesar de o halving aumentar a escassez do ativo drasticamente por derrubar sua produção pela metade, a expectativa é que ele faça cada vez menos efeito com o passar dos anos. Isso porque, no primeiro halving, tivemos uma queda de 50 para 25 BTC produzidos por bloco, ou seja, uma redução de 25 BTC. No halving do ano que vem, a produção de BTC vai diminuir de 6,25 BTC para 3,125 BTC por bloco, uma redução de apenas 3,125 BTC.

Halvings passados e futuros do BTC

Fonte: ByteTree

Quando o próximo halving acontecer, já vamos ter em circulação 93,8% de todo o BTC que será produzido. No dia do halving de 2028, teremos 96,9% do total de BTC em circulação. Isso significa que de 2024 a 2028, o BTC terá uma inflação mínima de 3,1%.

Inflação do BTC (vermelho) e moedas em circulação (azul)

Fonte: nakamotoinstitute.org

Por isso, a inflação do BTC tende a diminuir com o tempo. Isso acaba fazendo com que o halving seja cada vez menos significativo com o passar dos anos, pois a redução na produção de ativos é cada vez menor. A partir do halving de 2032 essa diferença na inflação já é quase insignificante dentro de quatro anos.

Esse é um dos principais fatores que indicam que essa temporada de alta pode ser a última ou no máximo a penúltima forte alta da história do ativo. Depois disso, os preços devem sofrer impacto mínimo com o halving, também terão uma volatilidade muito menor por ser um mercado robusto, e os preços devem flutuar mais com base no mercado financeiro tradicional.

Voltando para o halving do ano que vem, como o impacto tende a ser menor do que no último halving, que rendeu uma valorização de 700%, diria que uma valorização viável para a próxima temporada de alta seria algo entre 200% e 300% até o fim de 2025.

Histórico do BTC

Fonte: TradingView. Adaptação: Spiti

Considerando que o halving vá acontecer em um patamar semelhante ao atual, na casa dos US$ 37 mil, essa valorização levaria o BTC para algo entre US$ 110 mil e US$ 150 mil. Um patamar que acredito ser, sim, bem viável para o ativo.

Mas, claro, existem outros fatores que podem reforçar esse movimento de alta, como a entrada de um grande capital institucional com a aprovação do BTC à vista.

ETF de BTC à vista

O lançamento do ETF de BTC à vista pode ser considerado equivalente ao lançamento de uma ação na Bolsa (IPO). Claro que nem todos são bem-sucedidos, mas quem não gostaria de ter comprado uma Amazon ou Google na abertura de capital quando essas empresas estavam valendo poucos dólares, não é mesmo?

Porém o BTC não é uma empresa, e por isso não faz sentido ter ações na Bolsa. Podemos equiparar o ativo com uma commodity, e nesse caso o IPO de uma ação seria equivalente ao lançamento de um ETF.

Esse formato é interessante pois, além de proporcionar mais um caminho para o investidor, é um formato mais tradicional e regulado. Isso facilita a entrada do investidor institucional e aumenta a sua segurança regulatória para investir no mercado.

Outra vantagem mais técnica é que os ETFs atuais dos Estados Unidos são de contratos futuros de BTC, que demandam operações frequentes de rolagem de contratos e maior custo operacional. Além disso, esse tipo de ativo geralmente apresenta um preço superior em relação ao preço à vista, prejudicando o desempenho do ETF. Por meio de um ETF de BTC à vista, todas essas dificuldades são removidas.

Agenda dos ETF solicitados para a SEC

Fonte: Bloomberg

No total são dez ETFs de BTC na fila de aprovação da SEC, sendo que nove deles podem ser aprovados em janeiro. Inclusive, o mercado espera que sejam aprovados diversos ETFs no mesmo dia, e por isso a expectativa é alta para que a aprovação ocorra até o dia 10 de janeiro, último dia disponível para o regulador se pronunciar sobre o ETF da ARK.

De acordo com o ex-diretor da BlackRock, Steven Schoenfield, a aprovação do ETF de BTC à vista deve atrair cerca de US$ 200 bilhões nos próximos três anos somente da gestora BlackRock, isso seria equivalente a 2% do total de ativos custodiados por eles. 

Agora, considerando as gestoras que podem ter seus ETFs aprovados, se todas elas colocarem 1% do total de ativos que possuem em custódia, isso seria o equivalente a US$ 155 bilhões, ou seguindo o raciocínio da BlackRock de 2%, seria um fluxo de mais US$ 310 bilhões nos próximos três anos.

Mas conforme uma pesquisa do site de análise CryptoQuant, o ETF de BTC à vista tem o potencial de captar mais de US$ 1 trilhão dos diversos mercados nos Estados Unidos. Sendo que atualmente o BTC tem uma capitalização de US$ 735 bilhões, isso seria o equivalente a uma valorização de 135% em relação ao patamar atual, levando o BTC de US$ 37 mil para US$ 87 mil.

Acontece, que a conta não é diretamente essa. Pois o mercado não consegue absorver US$ 1 trilhão sem ter interferência no seu preço. Conforme a própria CryptoQuant, a estimativa é que a cada dólar que entra, a capitalização do BTC varie pelo menos US$ 3 e por isso US$ 3 trilhões fariam o BTC se valorizar cerca de quatro vezes o patamar atual, podendo chegar na mesmo projeção das análises anteriores de US$ 150 mil.

Esse fluxo de capital nos primeiros anos do ETF de BTC à vista é esperado, pois o mercado tem a expectativa de que o seu lançamento se comporte semelhante ao que aconteceu com o lançamento do primeiro ETF de ouro.

Comparação com o ETF do ouro

Quando o ouro começou a ser negociado, os bancos tinham elevados custos operacionais com sua logística e custódia por precisarem lidar com o ativo fisicamente. Toda essa preocupação foi eliminada com a criação do ETF de ouro, o que aumentou sua negociação e sua percepção de valor no mercado.

Basicamente é isso que o investidor institucional quer evitar com o mercado cripto. Eles não querem ficar se preocupando com custódia própria, pois sabem que serão frequentemente alvos de ataques hackers, nem se preocupar com modelos complexos de carteiras multiassinaturas das wallets. Por isso, o ETF de BTC à vista é interessante, pois ajuda o mercado financeiro tradicional a ter fácil acesso ao ativo.

Além disso, as instituições financeiras poderão utilizar o ETF como colateral para outras operações, o que seria muito difícil de ser feito com o criptoativo de verdade.

Veja no gráfico abaixo como antes do lançamento do ETF de ouro o metal se manteve estável entre 1980 e 2004. Quando foi lançado o primeiro ETF, no final de 2004, o ativo saiu da casa dos US$ 400 e foi rapidamente para mais de US$ 1.600, uma valorização de quatro vezes.

Histórico do ouro

Fonte: Bloomberg

Portanto, com o BTC na casa dos US$ 37 mil, temos mais uma projeção para a casa dos US$ 150 mil, caso o BTC se valorize cerca de quatro vezes alguns anos depois da aprovação do ETF. Mas repare que o primeiro ETF do ouro foi aprovado em novembro de 2004, porém atingiu os US$ 1.600 somente em agosto de 2011. Um progresso constante, mas que durou quase sete anos. Esse período de tempo pode ser compatível com a alta proporcionada pelo halving de 2028.

Recentemente, o estrategista-chefe de commodities da Bloomberg, Mike McGlone, até mesmo falou que o ouro já começou a perder mercado para o BTC. Inclusive essa narrativa vem ganhando bastante força nos últimos anos.

Narrativas do mercado

O mercado cripto ainda não tem sua rota completamente definida. Inicialmente foi criado para ser utilizado como transferência de valor de pessoa para pessoa sem depender de uma instituição financeira, mas já foi utilizado como meio de pagamento na deep web, foi considerado uma transação barata, pois suas taxas independem do valor, mas, mais recentemente, a narrativa principal é realmente a de ser um ouro digital — apesar de ainda estar muito longe da baixa volatilidade para ser considerado uma reserva de valor.

É fato que, hoje em dia, o mercado cripto está causando uma revolução no sistema financeiro, com o mercado de finanças descentralizadas (DeFi), transações e pagamentos globais, ao mesmo tempo que está gerando uma revolução na internet e nos dados dos usuários com a Web3. 

Por isso, é difícil dizer qual usabilidade vai realmente prevalecer. O mercado está testando de tudo e provavelmente isso não vai ser definido nessa próxima temporada de alta. Quem sabe depois do halving de 2028.

Portanto, pensando também nas perspectivas de mais longo prazo, conforme a gestora ARK Invest, o mercado cripto deve captar cerca de US$ 20 trilhões como meios de pagamento e US$ 5 trilhões no setor de contratos inteligentes. Se isso se concretizar, pode até mesmo passar a capitalização do ouro até 2030.

 Fonte: ARK

Agora, falando especificamente do BTC, ele pode ser considerado um ativo global, descentralizado, um dinheiro que não sofre interferência de bancos e governos, é desinflacionário e ainda totalmente transparente.

Então a ARK estimou que o Bitcoin poderia captar um pouco de diversos mercados, como caixa corporativo, ativo de remessa global, podendo servir como parte do tesouro de Estado, capaz de captar parte do dinheiro líquido em circulação, atrair investimento institucional e claro, capturar uma parcela relevante da capitalização do ouro.

Fonte: ARK

Deste modo, considerando um cenário pessimista, sendo o BTC utilizado principalmente para remessas internacionais (5%) e reserva de valor (20%), o ativo poderia alcançar os US$ 258.500 até o final de 2030.

Na expectativa base da gestora, o BTC ganharia certa relevância nos diversos mercados. Assim, o ativo pode alcançar US$ 682.800 no período. Já na visão mais otimista, com o BTC capturando metade da importância do ouro e grande parte dos demais mercados, poderia alcançar o patamar incrível de US$ 1,48 milhão até 2030.

No meu ponto de vista, o BTC capturar de 40% a 50% do mercado do ouro até 2030 é realmente muito otimista. Mas mesmo que não cheguemos lá nessa década, é possível usarmos essa estimativa de adoção como referência do que pode acontecer no futuro. Por isso, não importa quando isso vai acontecer, na minha opinião, mais cedo ou mais tarde, chegaremos lá.

Adoção do mercado

O último fator que ainda pode estar muito cedo para considerarmos é a adoção dos criptoativos pela grande massa da população. Conforme a Global X, uma grande gestora de ETFs focada em produtos temáticos de crescimento, no final de 2022, o blockchain ainda estava na sua fase inicial de adoção, pois era adotada apenas pelos “inovadores”.

A adoção passa a crescer de forma mais acelerada nos “early adopters”, ou seja, quando a tecnologia começa a ter seus primeiros usuários frequentes e na minha opinião isso já deve acontecer nos próximos anos.

Curva de adoção de diversos setores

Fonte: Global X

Só para termos uma referência de como é o sentimento do mercado na etapa de early adopters, podemos usar como exemplo a inteligência artificial, que vem ganhando força nos mais diversos mercados atualmente, seja na escrita, arquitetura, design, programação, entre outros. E do mesmo jeito que a IA está tendo sucesso em diversos setores, isso também pode acontecer com o mercado cripto.

Nessa etapa inicial de adoção dos primeiros usuários frequentes, a tendência é que os investidores cripto tenham uma pequena exposição aos criptoativos. Mas em seguida, além da grande adoção em massa da população (early majority), conforme o mercado evolui, a tendência é os investidores confiarem mais no mercado, a volatilidade dos ativos diminuir e, consequentemente, aumentarem a fatia de criptoativos na carteira.

Claro que ainda é muito cedo para dizermos que nos próximos dois anos o mercado cripto já vai entrar na fase de adoção em massa, mas eu diria que esse movimento vem a partir do halving de 2028.

Conclusão

Ainda que a oportunidade no ativo se mostre evidente, reiteramos o nosso discurso de que uma alocação estrutural bem definida é o que nos garante firme ao nosso propósito de longo prazo, portanto, recomendamos sempre que evite sair muito da alocação percentual pré-estabelecida por nós.

Apesar do otimismo do cenário macro com o corte de juros, da entrada de capital institucional com a possível aprovação do ETF de BTC à vista e da possibilidade de acompanharmos o ritmo do primeiro ETF de ouro, dificilmente o BTC vai bater uma valorização de 10 vezes até 2025. Quem sabe depois do halving de 2028.

Por isso, precisamos ter pés no chão. Ao contrário do que vemos pela internet, não espere ganhos rápidos no mercado cripto. Além disso, mesmo que a gente tenha um excelente desempenho nos dois próximos anos, não foque seu retorno nessa atual temporada de alta, isso é pensar no curto prazo. Foque na próxima temporada de alta, em um prazo de aproximadamente seis anos.

Conforme vimos, até lá, todas essas características do BTC podem ganhar relevância e valorizar o ativo de forma contínua. E com isso, podemos seguir em busca das expectativas da ARK Invest, em que teremos absorvido uma fatia relevante de cada um dos setores do mercado financeiro. 

Não se sabe quando o Bitcoin chegará no patamar de US$ 1,48 milhão indicado pela ARK, mas acredito, sim, que esse dia vai chegar.

Forte abraço,

Thales

Sobre os analistas

Thales Inada

Especialista em Criptoativos

Especialista em criptoativos e investimentos alternativos da Finclass. Engenheiro, com MBA em investimentos e Asset Allocation. Iniciou no mercado de criptoativos em 2017, com passagem por importantes exchanges como Binance (a maior do mundo), Mercado Bitcoin (a maior da América Latina) e XDEX, a antiga exchange da XP Inc. Agora, deixou as instituições para ficar do lado de investidoras e investidores, com missão de democratizar o universo dos criptoativos e investimentos alternativos por meio de uma linguagem simples e direta, a fim de tornar esse mercado visionário acessível a todas as pessoas.

Rodrigo Xavier

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.