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Atualização de Forpus e Kinea: o que aconteceu com os fundos este ano?

Escrito por Felipe Arrais, Vinicius Kenjiro, Rodrigo Xavier em FUNDOS

8 min de leitura

Olá, assinante do Spiti One!

Vamos combinar que o ano não tem sido fácil para quem investe. Se você for analisar até vemos classes que estão conseguindo performar a despeito de todo o ambiente macroeconômico complicado, como é o caso das ações, contudo, tal resultado não foi sem volatilidade.

O ano de 2023 se revelou uma trilha sinuosa, testando nossa resiliência e a capacidade de adaptação dos nossos gestores. As flutuações imprevisíveis dos mercados globais, juntamente com eventos econômicos inesperados – quebra do Silicon Valley Bank, conflitos geopolíticos e taxas de juros em patamares só observados 15 anos atrás –, invariavelmente, criaram um ambiente desafiador para as estratégias de investimento.

Embora tenhamos enfrentado momentos difíceis, é essencial ressaltar que a persistência é a essência de qualquer jornada bem-sucedida. Os gestores permanecem dedicados, aprendendo com cada revés e refinando as suas estratégias. Como nos ensina a história dos mercados financeiros, a trajetória para o sucesso muitas vezes é pavimentada por desafios inesperados e nem sempre é uma linha reta.

Assim como na vida, os gestores também têm seus altos e baixos. É claro que nossa missão como analistas de fundos é separar e buscar gestores que são consistentes e têm mais altos do que baixos, porém precisamos ter calma nesses momentos. Da mesma forma que não devemos endeusar gestores depois de um ótimo desempenho no curto prazo, não deveríamos crucificá-los por um período ruim.

Lembre-se de que períodos desafiadores surgem como boas oportunidades para refletir sobre a sua alocação, tanto em relação ao risco como na sua escolha das peças. É nestes períodos que surgem as dúvidas, mas se a sua carteira está de acordo com o seu perfil de risco e você de fato confia nos gestores, isso não deveria ser um problema.

Dito isso, este relatório não é apenas um registro das dificuldades, mas uma narrativa de persistência e compromisso. A seguir você encontra um relato sobre os fundos da Forpus e Kinea com uma breve retrospectiva para explicar o desempenho no ano e apresentamos as perspectivas das casas daqui para a frente.

Vamos lá!

Forpus, começo de ano difícil

Perguntas sobre o desempenho do Forpus Ações têm sido muito comuns e não é para menos, afinal, o fundo tocado por Francisco Andrade e Michel Shirozono passa por um momento bastante difícil de performance. Só este ano o Forpão, como é conhecido no mercado, acumula queda de -10,6% enquanto o Ibovespa se valoriza praticamente 10%.

Sempre reforçamos que, de fato, a estratégia deveria ser uma pimentinha dentro da sua alocação. Para quem não se lembra, o produto é mais arriscado do que a média da indústria por buscar o duplo alfa. Em outras palavras, a gestora se posiciona para tentar ganhar nas duas pontas, apostando tanto na valorização como na queda das ações.

E lembrar disso é importantíssimo porque, como disse Arthur Rizzo, responsável pela área de relações com investidores da Forpus, não há dúvidas de que o fundo está passando por um momento complicado, mas, é nestes períodos que eles descobrem quem conhece e acredita de verdade na estratégia.

Em conversa com a Forpus, a equipe explicou que o resultado ruim é fruto especialmente dos primeiros meses do ano. A tese e o cenário desenhados pelos gestores não só acabou não se concretizando como foi contra o posicionamento do fundo.

A gestora entrou o ano negativa e preocupada com o ambiente doméstico. Ruídos políticos vindos de Brasília e os diversos pronunciamentos do governo sobre a política fiscal que seria implementada preocuparam os gestores logo na virada do ano e os fizeram tomar posições menos otimistas.

Na visão da gestora, o ambiente seria difícil principalmente para empresas muito ligadas à economia local e dependentes do nível de atividade do país. E ao mesmo tempo, o cenário poderia beneficiar empresas que pudessem aproveitar a apreciação do dólar frente à moeda brasileira dado o aumento dos riscos fiscais e políticos.

Para completar a tese, a Forpus via com certo otimismo a retomada da economia chinesa. Tal percepção levava em conta a reabertura econômica depois do período de restrições que o país enfrentou por conta da crise da Covid. A expectativa da gestora era uma nova onda de crescimento e, portanto, uma demanda maior por commodities.

Dado o cenário, os gestores montaram posições otimistas em empresas exportadoras e fizeram uma aposta na queda das ações de companhias mais atuantes no mercado doméstico e aquelas mais endividadas. Figuravam na parte comprada, por exemplo, empresas como Vale, Suzano, Klabin e alguns nomes menores que atuam no setor petroleiro como PetroRio e 3R.

Passaram-se quatro meses e a tese não andava. Na verdade o que foi observado foi o ruído político menor, o governo aprovando projetos importantes no Congresso, a demanda chinesa ainda lenta e a moeda brasileira ao invés de perder valor se apreciou em relação ao dólar.

Como era de se esperar, diante do ambiente a casa decidiu fazer ajustes na carteira no mês de maio. A proximidade com o corte na taxa de juros mudou a visão da gestora que passou a reduzir exportadoras e aumentar empresas domésticas em setores como imobiliário, bancos e de utilidade públicas.

A virada de mão deu certo. A gestora aproveitou o rali da Bolsa entre maio e julho, o que ajudou a diminuir a diferença para o Ibovespa, porém, o estrago já havia sido feito. Ainda que não tenha recuperado as perdas dos primeiros meses, durante esse período relativamente positivo, a casa conseguiu acompanhar o índice.

Recentemente, a casa mudou novamente o plano. Analisando o cenário econômico global e os últimos acontecimentos no mercado local, a estratégia voltou para a tese do início do ano. Segundo explicaram, há um problema fiscal no mundo inteiro e muito provavelmente teremos uma inflação mais alta por mais tempo.

Na visão da gestora, tais fatores corroboram uma redução dos cíclicos domésticos, um posicionamento em exportadoras, exposição a empresas com maior liquidez e que sejam mais defensivas e somente uma pequena posição em empresas expostas ao mercado local.

A carteira comprada conta com Vale, Suzano, Klabin, PetroRio, 3R, Itaú, Banco do Brasil, Rumo, Track&Field, Hypera, Vittia e 3Tentos. E a parcela vendida se concentra em companhias com pouca visibilidade de lucro para os próximos trimestres. Entre elas podemos citar Hapvida, Grupo Soma, Eneva e Smartfit.

Por ser uma estratégia que além de ganhar nas duas pontas procura ainda se proteger, vale dizer que atualmente os gestores estão vendidos em empresas de crescimento via o índice norte-americano Russel 1000 Growth e os bancos. Ao longo do ano, o fundo até carregou opções de venda da Bolsa americana para se proteger, contudo, não funcionou tão bem.

Kinea, apostando na fortaleza do dólar

Em um ano difícil para os multimercados a Kinea conseguiu manter a sua consistência. É verdade que o fundo está abaixo do CDI em 2023, mas, diferente de outras gestoras, eles não estão tão atrás do seu benchmark. Enquanto o índice sobe cerca de 11,4%, a principal estratégia da Kinea se valoriza aproximadamente 10,5%.

A grande incerteza do cenário macroeconômico ao longo do ano tornou o ambiente extremamente difícil para os gestores e não foi diferente para a Kinea. Em suma, o resultado é fruto dos altos e baixos até aqui que reúnem desde crises de crédito no mercado local, quebra de um banco e talvez a principal responsável pelo desempenho abaixo da classe, que foi a incerteza em relação à taxa de juros dos Estados Unidos.

Dito isso, o fundo teve meses bons e meses ruins em 2023. O destaque negativo foi março, que foi marcado pela quebra do Silicon Valley Bank e uma aversão a risco generalizada nos mercados ao redor do mundo. E pelo lado positivo podemos apontar fevereiro, maio e setembro, que ajudaram o fundo a se aproximar do índice.

Olhando pra frente, para a gestora tudo indica uma leve acomodação do cenário adiante. A visão principal é de que o juro deve permanecer estruturalmente elevado dado que a atividade continua resiliente e a inflação segue pressionada. Outro fator importante dentro desse balanço de riscos é a deterioração fiscal norte-americana que corrobora taxas mais elevadas.

Diante da tese, a principal alocação da gestora e onde vê maior upside é via moeda norte-americana. O portfólio até contava com posições diretamente no juro apostando em uma nova elevação pelo Federal Reserve, mas com os acontecimentos recentes e até comentários de membros da autoridade monetária, a gestora decidiu concentrar suas apostas no câmbio.

Hoje a carteira conta com posições no dólar contra uma cesta de moedas sendo a principal o euro. A tese é de que o aperto monetário na região da Zona do Euro terminou enquanto os Estados Unidos deve manter a taxa elevada por mais tempo gerando um diferencial de juros que é positivo para o dólar.

Em conversa com a gestora, outro posicionamento que chama atenção é na bolsa tanto aqui como lá fora. A equipe está se aproveitando de posições relativas, ou seja, exposta ao mercado, porém, com proteções. Isso quer dizer que a casa está comprada naquilo que acredita e vendida em setores que na visão deles não devem performar tão bem.

Lá fora os principais temas que devem se valorizar na opinião da casa serão companhias envolvidas com inteligência artificial, urânio, biotecnologia e reshoring. Agora, a gestora vê com receio e já tomou posições vendidas em áreas mais cíclicas, como consumo discricionário, bancos, pequenas empresas e mineradoras.

Vale ressaltar que no mercado local a Kinea tem posições direcionais pequenas com uma exposição maior via posições relativas. Atualmente a carteira conta com mais ou menos 30 pares de ações e algumas apostas compradas nos setores elétricos, shoppings, saneamento e infraestrutura. 

Por fim, diante dos desenvolvimentos recentes no mercado local, vale ressaltar que a casa voltou a aplicar o juro brasileiro. As taxas haviam caído de maneira mais forte na metade do ano, mas voltaram a subir com o aumento dos riscos externos e os ruídos políticos em relação ao déficit fiscal.

Na visão da gestora o juro subiu muito nos últimos meses e voltou a ter uma assimetria positiva para a posição aplicada, ou seja, apostar em sua queda. Ao mesmo tempo em que a inflação continua surpreendendo para baixo, o PIB deve vir mais fraco e o dólar segue relativamente comportado, o que dá maior conforto de uma acomodação das taxas em níveis mais baixos do que está sendo precificado atualmente.

Ficamos por aqui...

Ter que enfrentar janelas ruins de desempenho nunca é uma tarefa fácil, porém elas são comuns e precisamos nos acostumar. Como você sabe, sempre enfatizamos que nossa preocupação está no resultado de longo prazo e isso acontece porque no curto prazo o posicionamento de um gestor é afetado por eventos incontroláveis do ponto de vista de gestão.

Agora, vale dizer que de forma alguma queremos normalizar tais acontecimentos. Nós estamos aqui para reavaliar constantemente os gestores e não justificar os períodos ruins. Assim como você, ficamos preocupados e, por isso, sempre estamos próximos dos gestores para entender cada detalhe.

Quando nos sentimos confortáveis, trazemos uma atualização para também deixarmos vocês menos ansiosos. E, por outro lado, quando nos sentimos menos confiantes em relação a uma estratégia recomendada é nosso dever trazer as informações e eventualmente retirar um fundo da nossa lista como já fizemos outras vezes.

Nesse sentido o que queremos reforçar é que estamos atentos. Como ressaltamos anteriormente, um resultado ruim não é um atestado para um gestor assim como um ótimo número de curto prazo não nos diz muita coisa. Além dos resultados de curto prazo, pontos qualitativos pesam em nossa análise.

Dito isso, queremos reforçar nosso compromisso de que estamos próximos dos gestores recomendados e sempre traremos atualizações das casas. Continuaremos nossa missão de acompanhar a indústria de fundos a fim de reforçar a cada dia que temos, de fato, uma excelente seleção de fundos.

Um grande abraço,

Felipe Arrais, Vinicius Yoshida e Rodrigo Xavier

Sobre os analistas

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.

Vinicius Kenjiro

Fund Research Analyst

É especialista de fundos da Spiti. Bacharel em Administração pela USP, com passagem pela Erasmus University Rotterdam, Vinícius atuou na análise financeira e social de um fundo de impacto social, nas áreas de agricultura e inclusão financeira. Fascinado pelo mercado financeiro, traz na bagagem a experiência de ter estado do outro lado da indústria e a vontade de impactar a vida das pessoas por meio da educação financeira e dos investimentos.

Rodrigo Xavier

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.