Relatórios

Atualização sobre o ano da Verde e grandes mudanças à vista para a Garde

Escrito por Felipe Arrais, Rodrigo Xavier em FUNDOS

20 min de leitura

Olá, assinante da Finclass! 

Hoje traremos uma atualização sobre uma das gestoras mais icônicas do mercado brasileiro (e do mundo), a Verde. Nosso intuito é contar um pouco sobre como os fundos recomendados da casa (Verde e Verde Previdência) navegaram ao longo deste difícil ano de 2023.

Ainda que o fundo não faça parte da alocação base das carteiras, este é um fundo aprovado pela nossa equipe e, portanto, estaremos sempre fazendo o monitoramento de perto.

Embora a casa tenha um alinhamento interno em termos de discussões macroeconômicas, existem produtos de mandatos distintos, e que são tocados por pessoas diferentes. O fundo principal da casa é notadamente conhecido por ter como principal tomador de decisões Luis Stuhlberger com grande colaboração de seu braço direito, Luiz Parreiras. Agora, na previdência recomendada por nós, Parreiras é o homem-forte na tomada de decisão e tem espaço para imprimir uma visão ligeiramente diferente da Stuhlberger.

Além da diferença no comando das estratégias, vale relembrar que uma previdência possui limitações regulatórias maiores, o que muitas vezes faz com que os fundos se diferenciem, não por uma não concordância entre Parreiras e Stuhlberger, mas por limitações de até onde a previdência pode ir.

De maneira geral, o resultado para ambos os fundos no ano é muito parecido no agregado, embora a previdência tenha performado melhor até o final de setembro, momento em que ganhava do CDI. O resultado pós-setembro foi marcado por uma maior recuperação do fundo principal e uma piora dos resultados na previdência, o que aproximou o resultado das duas estratégias. Até o dia 5 de dezembro, a previdência tinha acumulado 10,91% contra 10,65% do fundo principal. Apesar de positiva, a performance no ano fica abaixo do CDI acumulado em 12,20% no mesmo período.

Contaremos a história em detalhes mais adiante.

Antes de continuarmos, é preciso detalhar o outro tema que será abordado neste relatório, a grande mudança na gestora Garde, que será desconstituída para se juntar à equipe multimesas do Itaú. Há alguns fatores importantes como a não continuidade de um dos principais gestores, Carlos Calabresi, e do economista chefe Daniel Weeks.

Tudo isso e mais um pouco você conferirá em detalhes ao longo das próximas páginas.

Verde: um ano de desafios e maturação de novos projetos

Cerca de um ano atrás, a Verde tomou a difícil decisão de desligar Pedro Sales, que era sócio e responsável pela mesa de ações da casa desde o início de 2015, ano em que a Verde passou a existir como gestora independente. A decisão foi tomada em um contexto em que os resultados obtidos não estavam sendo tão satisfatórios, principalmente em questão de processos e controle de riscos que pudessem entregar resultados sem contaminar o fundo com muita volatilidade.

A reposição veio rapidamente com a chegada de Elmer Ferraz, que fazia a gestão dos fundos da família Dunamis na Itaú Asset Management. Elmer chegou trazendo membros do antigo time e, segundo a Verde, o trabalho plantado neste período de um ano de trabalho foi extremamente positivo, principalmente pela grande reestruturação de processos de gerenciamento de risco e pesquisa.

Outro assunto que vale a pena comentar é a compra de uma fatia da Verde pela gestora Lumina Capital. Para contarmos melhor essa história, traremos um breve contexto histórico.

Após se formar em engenharia na Escola Politécnica da USP, Luis Stuhlberger se especializou em administração na GV e em 1980 passou a trabalhar na corretora Hedging-Griffo, onde começou a se destacar na gestão de commodities. Daí se tornou um grande operador de ouro e alçou seu caminho até diretor da corretora em 1985 e passou a lidar com fundos de investimento.

O fundo Verde nasce em 1997 e passou a ter destaque desde o início e a trajetória de performance acumulada desde lá é realmente impressionante, fazendo com que Stuhlberger seja conhecido como um dos maiores gestores brasileiros de todos os tempos.

Em 2006 a Hedging-Griffo foi adquirida pelo banco suíço Credit Suisse que ajudou a alavancar os negócios em termos de captação de recursos e investimentos. O fundo original da casa carrega até hoje as iniciais CSHG (Credit Suisse Hedging-Griffo) como legado deste passado.

Em 2015 Luis decide seguir seu próprio caminho tocando uma gestora de recursos que veio a se chamar Verde Asset Management, mesmo nome do fundo iniciado em 1997 e que foi trazido para a nova casa, deixando de ser gerido pela CSHG. A partir daí, a contribuição do banco suíço para o negócio passa a ser cada vez menos relevante até que a relação se resuma praticamente a “enviar um cheque a cada seis meses”, como brincou o sócio e gestor da verde Luiz Parreiras em conversa com nosso time.

Começa-se a pensar em uma alternativa para a fatia de quase 25% de que o Credit Suisse era dono. Paralelamente, o time de gestão passa a se aproximar muito de Daniel Goldberg, ex-presidente do Morgan Stanley no Brasil e, posteriormente, gestor de um instituição norte-americana extremamente respeitada, a Farallon.

O time de gestão da Verde nutria grande admiração pelo trabalho de Goldberg e sempre o mantivera próximo de sua rede de relacionamentos, inclusive tentando convencer Daniel a montar seu projeto de gestora dentro da Verde depois que ele deixou a Farallon.

Daniel, entretanto, queria ter sua própria empresa de maneira independente, o que veio a se tornar a Lumina Capital. Naturalmente a possibilidade de vender a fatia do Credit Suisse para a Lumina passa a ser ventilada e, depois de trancos e barrancos com a derrocada do Credit Suisse que foi incorporado ao concorrente UBS, finalmente fecharam o acordo na sexta-feira retrasada (1º de dezembro).

Na prática nada muda no curto prazo, as empresas continuam independentes tocando seus negócios, mas intensificando cada vez mais as discussões de investimento que já aconteciam antes mesmo do fechamento do acordo.

Pelo lado do Credit Suisse/UBS, o relacionamento ainda continua, assim como o investimento nos fundos (hoje o banco suíço é um dos três maiores investidores da Verde e o time de gestão acredita que deve continuar a ser).

Retrospectiva do ano

Para o time de gestão da Verde, 2023 foi um ano que seguiu um roteiro totalmente diferente do que estava no script. Se sentássemos doze meses atrás e conversássemos sobre o que era projetado pela maior parte do mercado e o que de fato se concretizou, veríamos que quase todo mundo errou suas projeções.

Além dessa diferença entre a perspectiva traçada e a concretizada, o caminho ao longo do ano foi marcado por diversas reversões de tendência que fizeram com que 2023 fosse muito difícil de se navegar.

Um ano muito ruim para quem faz projeção de longo prazo e tenta manter uma alocação estrutural, mas também muito difícil para quem tenta fazer leituras mais táticas em cima de movimentos de curto prazo.

Esperava-se uma grande desaceleração da economia global pelo tamanho do aperto monetário feito pelos bancos centrais do mundo. Isso corroborava um portfólio mais aplicado em juros, vendido em dólar e possivelmente comprado em Bolsas mais atrativas em termos de preço, como a brasileira.

Um primeiro ponto a destacar é que o cenário de recessão esperado não se materializou em quase nenhum lugar do mundo. Os juros em geral, que já estavam altos, tiveram que subir ainda mais especialmente até o terceiro trimestre de 2023 e o dólar se fortaleceu contra quase todas as moedas.

Nesse contexto, ao contrário do que era amplamente esperado, tivemos uma forte performance de índices de ações, especialmente entre as ligadas a crescimento, tecnologia e à “novidade” da inteligência artificial.

Em março, ainda tivemos a surpresa da quebra do Silicon Valley Bank (SVB), que fez com que o mercado passasse a mudar o cenário base. Até o acontecimento tínhamos dados econômicos que já estavam surpreendendo para o lado positivo e houve uma expectativa de que esse estresse no setor financeiro pudesse ajudar a desacelerar a atividade econômica e até mesmo acelerar um processo de recessão, o que não aconteceu.

SVB, First Republic Bank e outros bancos médios afetados se tornaram casos mais isolados que foram contidos rapidamente sem grandes consequências macroeconômicas mais profundas.

A partir disso tivemos um movimento de grande recuperação econômica no terceiro trimestre, o que forçou as taxas de juros a subirem ainda mais causando uma reversão intensa em diversos mercados. Parreiras brinca que o nível de juros futuros que passou a ser praticado se tornou tão elevado que começava a fazer “as rodinhas do velotrol se desmontarem”.

De uma discussão do primeiro para o segundo trimestre, em que a pauta era a profundidade da recessão que viria e uma possível antecipação de cortes de juros por parte do Fed, passamos a discutir a pujança econômica dos Estados Unidos e o quanto ainda seria necessário subir os juros para desacelerar a economia de forma a trazer a inflação para a meta.

Ao final de outubro, entrando em novembro, uma nova reversão aconteceu quando o mercado passou a perceber que essa pujança econômica era exagerada e não sustentável e a concordar que o atual nível de juros é suficientemente restritivo e que, portanto, chegamos ao pico do ciclo de alta.

Agora a discussão passa a ser quanto tempo esses juros vão permanecer neste patamar elevado antes de o Fed começar o ciclo de cortes.

E o Brasil nesta história?

O contexto internacional é extremamente determinante para o que acontece internamente, entretanto há de se destacar o papel do ruído político na volatilidade observada. Iniciamos o ano com o presidente eleito tecendo discursos duros que desagradaram o mercado ao passo que a escolha para a pasta da Economia não foi exatamente a mais desejada por economistas mais liberais e analistas de investimentos.

Embates entre governo e Banco Central foram frequentes e logo em fevereiro iniciou-se a construção do que viria a ser o novo arcabouço fiscal. Inicialmente o mercado estava mais cético quanto à proposta, mas passou a entender que o projeto não era tão ruim como se esperava e que poderia trazer algum tipo de estabilidade fiscal. O ministro Haddad, antes contestado, passou sistematicamente a tecer opiniões razoáveis e mais ortodoxas do ponto de vista econômico, atuando como um apaziguador da guerra entre o Banco Central e o presidente.

Esse contexto em que o Brasil se colocou tem um nível muito alto de ruído e esse tipo de postura do governo, na opinião da Verde, de fato não ajuda, mas ao olhar o filme realizado até aqui podemos dizer que o saldo é positivo. Os mercados brasileiros foram no geral bem, a moeda se fortaleceu bastante, os juros fecharam de maneira importante e a Bolsa, apesar da volatilidade, se aproveita de uma recuperação recente para apresentar uma fotografia positiva em termos de retorno acumulado no ano vigente.

Parreiras faz questão de destacar que, internamente, optaram por se desprender um pouco do ruído e olhar mais o fundamento, que parecia bom dado o processo de desinflação que foi continuado desde o ano passado e que abriu espaço para nossos juros continuarem caindo.

A economia não apresenta resultados extraordinários, mas segue sistematicamente, trimestre após trimestre, surpreendendo o mercado em termos de crescimento, o que dá condições para a continuidade dos cortes de juros.

Entrando em 2023 o time julgava que o que seria necessário para o Brasil performar bem seria ter um cenário político que não atrapalhasse, o que acabou acontecendo. Apesar do discurso mais duro e combativo, o governo teve uma capacidade limitada de tomar atitudes ruins no âmbito econômico dada a força conquistada pela Câmara e Senado que manteve o caminho de pautas reformistas.

Em novembro ficou mais claro algo que já tinham como cenário base há algum tempo, a atratividade do Brasil entre outros países emergentes. Em termos relativos, o Brasil se torna um destino para investimentos uma vez que outros países emergentes apresentam problemas particulares.

Para o Brasil, a expectativa é positiva para o ano que vem. O time tem um cenário base de continuidade da queda de juros, o que destravaria um pouco o ciclo de crescimento, principalmente pelo lado do crédito, e com condições externas que podem dar suporte a essa continuidade, mesmo com a permanência do ruído político.

Posicionamento ao longo do ano

Moedas

Ao longo do ano a casa ganhou bastante dinheiro em moedas (mais em previdência do que no fundo carro-chefe). Surfou o fortalecimento do real brasileiro e do peso mexicano, evitando uma posição contra o dólar.

Como viam regiões como China e Europa com maior fragilidade econômica, preferiram fazer trades comprados em peso mexicano e real contra euro e outras moedas europeias e a moeda chinesa.

Carregaram esse trade ao longo do ano inteiro calibrando taticamente o tamanho desta exposição e permanecem com esse case nos fundos acreditando na continuidade do movimento.

O fato de não apostar contra o dólar ajudou os fundos a não sofrerem tanto com as reversões observadas ao longo do ano, que tenderam a fortalecer o dólar.

Juros e Bolsa

Os fundos de previdência passaram o ano inteiro comprados em títulos indexados à inflação, o que se mostrou uma operação acertada, mas não incrível, já que a inflação desacelerou mais do que imaginavam. Recentemente, antes do rali observado em novembro, passaram a fazer apostas aplicadas em prefixados de vencimento intermediário (2024) surfando essa valorização mais intensa ao longo do mês, o que ajudou bastante o resultado do fundo, que se distanciava bastante do CDI até então.

No fundo carro-chefe da casa, o posicionamento em juros foi ligeiramente diferente. O fundo de previdência tinha mais exposição a juros e, portanto, não tomou tanto risco em Bolsa enquanto o fundo principal, por ter mais Bolsa, não carregou posições relevantes em juros. Desse modo, para contrabalançar o risco maior em Bolsa, o fundo montou hedges comprados na inflação longa do Brasil, pois se o governo tivesse iniciativas piores isso deterioraria as expectativas de inflação no futuro e isso ajudaria a proteger a posição comprada em Bolsa.

Essa posição ficou de lado no primeiro semestre e, quando a curva de juros prefixados começou a subir, esse hedge comprado em inflação começou a ganhar dinheiro levando o time a desmontá-lo e trocá-lo por uma posição aplicada em títulos públicos indexados à inflação.

Resumindo, um portfólio que tinha muita Bolsa com um hedge em inflação foi ajustado depois do rali de novembro para uma posição um pouco menor em Bolsa ao lado de uma posição aplicada em indexados à inflação.

Ao longo do ano a exposição do fundo Verde ficou em 17%-18% net long (direcional líquido comprado) para os atuais 12% e os fundos de previdência passaram o ano inteiro com cerca de 6% e, após o rali de novembro, reduzidos para cerca de 3%.

Bolsa global

Passaram boa parte do ano sem exposição ou com alguns hedges que deixavam os fundos levemente vendidos, afinal, tinham um viés de que o mercado parecia caro para o nível de juros que estava sendo praticado. Na virada de outubro para novembro eles encerraram a maior parte dos hedges e passaram a comprar Bolsa no fundo principal, surfando o rali do mês.

Depois do forte movimento de novembro, voltam a desmontar a posição comprada e remontar os hedges que tinham anteriormente, pois acham o mercado norte-americano caro nos níveis atuais.

No agregado, não surfaram bem os movimentos altistas ao longo do ano, especialmente da Nasdaq. Ficaram muito mais focados no cenário macroeconômico e menos na dinâmica micro de Bolsa, que foi muito mais forte em alguns setores, como tecnologia. Mas por outro lado, o fato de não terem ficado com posições relevantes vendidas os beneficiou frente ao mercado, uma vez que diversos outros gestores apostavam na queda do mercado norte-americano desde o início do ano, o que machucou muito o resultado.

Para o futuro o questionamento é se a recente desaceleração, observada principalmente com os dados divulgados em novembro, vai ser maior ou vai ser apenas um arrefecimento do exagero que tivemos no terceiro trimestre. Sendo o segundo caso, o S&P 500 pode voltar a ser um tema interessante para o ano que vem. Se for um arrefecimento mais intenso, teríamos espaço para uma correção no mercado.

Como não há tanta certeza do cenário, preferem ficar mais neutros no momento.

Juros internacionais

Juros internacionais foi a classe que operaram com o viés mais tático ao longo de todo o ano, com diversas idas e vindas, principalmente no fundo principal da casa.

Entraram no ano com posições muito menores e, quando aconteceu o choque do SVB em março, passaram a vender volatilidade de juros (posição que oferece ganhos quando um determinado ativo permanece lateralizado entre um intervalo mais estreito de preços) e acabaram ganhando um bom dinheiro neste trade.

Depois, mais ou menos em agosto, começaram a montar posições aplicadas nos juros reais norte-americanos com vencimento em cinco anos, quando os níveis estavam em 1,8%. Este movimento iniciou cedo demais, mas continuaram aplicando até quando os juros reais bateram marcas superiores a 2,5%.

Também aplicaram em juros nominais quando os juros de 10 anos nos Estados Unidos encostaram no patamar de 5% em outubro e, desse modo, conseguiram surfar todo o forte movimento de fechamento em novembro, desmontando a posição recentemente para colocar o lucro no bolso.

Agora continuam com a posição comprada em juros reais norte-americanos, atualmente próximos do patamar de 2,10% e com espaço para continuar diminuindo (lembre-se de que, quando os juros diminuem, você ganha dinheiro ao estar aplicado).

Commodities

Passaram quase o ano inteiro comprados em petróleo nos fundos de previdência até terminarem a aposta no início de novembro. No ano a posição foi detratora de performance embora tenha sido uma posição vencedora no ano passado.

No fundo principal conseguiram trabalhar de maneira mais tática a posição de petróleo, vendendo volatilidade. No momento atual, a posição na commodity energética é bem pequena, mesmo tendo entregado um ganho modesto até aqui.  

O fundo principal ainda teve uma posição em ouro, uma das convicções de Luis Stuhlberger que não estava presente no fundo previdenciário capitaneado por Parreiras. Carregaram a posição comprada no metal ao longo de todo o ano e a encerraram no começo de outubro quando notaram que o preço estava mais elevado do que o que os modelos internos apontavam que deveria ser o preço justo. Infelizmente esse desmonte da posição de ouro aconteceu em um timing ruim, alguns dias antes do início do conflito no Oriente Médio, que impulsionou o valor do metal precioso em mais de 7% em uma única semana.

Para resumir, a previdência não investiu em ouro e perdeu levemente em petróleo enquanto o fundo principal teve um ganho em petróleo e uma perda em ouro que, no resultado agregado das duas posições, ainda apresentou saldo positivo.

Crédito

Um ano extremamente difícil para a classe começando pelo caso Americanas em que os dois fundos tinham exposição às debêntures da empresa. Na previdência essa posição era um pouco maior e custou algo como 0,3 ponto percentual de perda para o fundo. Já o fundo principal, por poder carregar uma carteira mais diversificada, foi prejudicado em cerca de 0,12 ponto percentual.

Os fundos continuam com os papéis em carteira e o time está acompanhando a aprovação a votação do novo plano nesta semana. Dado o atual patamar de preço, acreditam que ainda há um espaço para alguma recuperação.

Outros eventos de crédito atrapalharam a gestão da classe ao longo do ano, mas escaparam de cases como Light e tinham exposições muito pequenas aos bonds de Unigel, Credz e Subway (que é um adendo do case SouthRock que culminou no pedido de recuperação judicial de marcas controladas pela empresa, como Starbucks e Eataly).

O resultado agregado do book de crédito no ano não foi bom, pois ficaram abaixo do CDI, mas guardadas as devidas proporções dos acontecimentos em 2023, o resultado não foi ruim.

Em nossa conversa com o time de gestão da Verde, comentamos que 2023 era um ano para esquecer do ponto de vista de crédito. Ao ouvir o comentário, Parreiras faz questão de destacar que, na verdade, foi um ano para aprender.

Segundo ele, apesar da senioridade do time de crédito, em mais de 200 operações de crédito já feitas ao longo da história só tinham lidado com um único evento de falência e que ainda conseguiram recuperar quase todo o investimento.

Portanto, esses eventos todos acontecendo em um único ano trouxeram uma oportunidade de o time reforçar ainda mais os critérios de diligência do crédito analisado. Os processos foram revisados e melhorados e isso, somado a toda a experiência do time da Lumina Capital que se aproxima ainda mais, deixa o time da Verde confiante para a continuidade do trabalho, tanto que está previsto o lançamento de um fundo de crédito no ano que vem.

Continuamos acreditando e acompanhando os resultados do time de gestão da Verde, tanto na previdência quanto no fundo principal da casa.

Garde: uma grande mudança institucional

A gestora Garde figura entre nossas recomendações com o fundo macro mais volátil da casa, chamado de Garde Porthos. A estratégia nasce de um fundo bastante antigo na indústria e que já foi recomendado por nós, o Garde Dartagnan.

A tradicional gestora teve altos e baixos desde sua fundação em 2013, principalmente em 2018, quando o time teve uma performance aquém das expectativas e os fundos se encontravam fechados para captação ao passo que a gestora havia falhado em iniciar relacionamentos com corretoras independentes (que à época estavam começando a captar bastante em plataformas de varejo).

O resultado foi o início de uma intensa redução de patrimônio fazendo com que a casa tenha saído de um pico de patrimônio líquido de mais de R$ 8 bilhões para o atual patamar de R$ 1,5 bilhão.

Claro que esse movimento de diminuição de patrimônio não é uma exclusividade da Garde. Na verdade, a indústria brasileira de multimercados vem sofrendo grandes resgates desde o ano passado por diversos fatores.

O fator mais óbvio é a competitividade relativa frente a classes de renda fixa em um cenário de juros altos. Ativos incentivados como LCIs, LCAs e fundos de infraestrutura têm atraído a atenção de investidores que preferem garantir retornos na renda fixa a arriscar em fundos multimercados.

Fontes: Garde, Itaú Asset e Anbima
Fontes: Garde, Itaú Asset e Anbima

Essa onda de resgates recentes, em uma gestora que já encontrava dificuldades de estabilizar seu patrimônio, foi a cereja do bolo para que a mudança que estamos detalhando acontecesse.

A Garde vinha tendo dificuldades de encontrar reforços no mercado e de reter os talentos que já estavam integrados ao time.

Esse momento de maior fragilidade para gestoras tem propiciado um movimento de grande consolidação. Em 2023 estamos observando diversas gestoras sendo compradas por players maiores ou até mesmo gestoras encerrando suas atividades e essa oportunidade de consolidar para sobreviver bateu à porta da Garde.

A gestora do Itaú (Itaú Asset) viu uma oportunidade de adquirir e internalizar um time experiente de gestão e fez uma proposta para incorporar a Garde a sua estrutura.

A ideia é oferecer todo arcabouço operacional, de pesquisa e distribuição para dar conforto ao time de gestão da Garde no sentido de poder focar na gestão de ativos.

Neste processo a maior parte do time de gestão da Garde será migrada para o Itaú, principalmente os maiores geradores de alfa. E um dos principais gestores da estratégia, Marcio Georgetti passa a ser o rosto principal do fundo, posto antes ocupado por Carlos Calabresi, que não acompanhará o time neste novo projeto.

Calabresi é um nome muito respeitado no mercado e sempre foi tido como um dos principais gestores da Garde. No entanto, por ser mais experiente com seus cabelos brancos (como ele próprio brinca em conversa com nosso time), não se sentiu confortável de migrar para uma estrutura de banco, uma vez que estava acostumado com a liberdade de tocar o próprio negócio.

Agora, vale dizer que Calabresi já não era o principal tomador de decisões de mercado nem o principal contribuidor de performance. A própria Garde elaborou um gráfico mostrando o nível de geração de alfa do time que seguirá para o novo projeto contra o time que será desligado.

Fonte: Garde e Itaú Asset

Note que a geração de alfa do time que fica para trás sempre foi historicamente mais modesta se comparada à do time que seguirá adiante. Além disso, Daniel Weeks, economista chefe da casa, não acompanhará o time, pois, do outro lado, a Garde terá à disposição o time econômico da Itaú Asset, capitaneado pelo experiente Thomas Wu, que já conta com diversos economistas de alta senioridade.

O próprio Weeks nos conta que é amigo de Thomas e que entendeu que haveria uma sobreposição de papéis e que ele pouco poderia agregar a essa estrutura mais robusta que melhorará o processo de tomada de decisão do time oriundo da Garde.

O organograma a seguir detalha como o time será redimensionado na nova estrutura.

Fonte: Garde e Itaú Asset
Fonte: Garde e Itaú Asset

Podemos observar que a maior parte do time de gestão seguirá adiante e os sócios atuais da Garde garantem que o DNA da gestora será mantido, uma vez que as estratégias hoje existentes continuarão existindo em separado.

Abaixo segue um maior detalhamento dos profissionais que seguirão para o novo projeto:

Fonte: Garde e Itaú Asset

Os sócios da Garde contam que o Pelinha, apelido carinhoso dado ao gestor Marcio Georgetti, sempre foi um gestor mais de bastidores, uma vez que havia outros sócios para fazer o papel de “homem-forte”. Antes essa figura era Marcelo Giufridda, ex-CEO da gestora que passou o bastão a Carlos Calabresi depois de sua saída. Agora este papel ficará com o gestor que tem o maior orçamento de risco e nível de geração de alfa.

Além disso, para dar o voto de confiança e mais tração às estratégias, o Itaú fará um aporte de R$ 3 bilhões nos fundos da Garde, que serão distribuídos entre as estratégias existentes. Isso garantirá um conforto do time atual para permanecer engajado e motivado no processo.

Vale dizer que o Itaú sempre foi o maior cliente da Garde e, portanto, conhece profundamente o processo de gestão e DNA da casa e, uma vez que o time esteja integrado à nova gestora, a ideia é potencializar ainda mais a captação de recursos.

O que vai acontecer com os fundos da Garde?

O Itaú não trouxe o time para fortalecer diretamente o processo de gestão de fundos já existentes na gestora do banco, mas sim para dar conforto e estrutura para que o time continue tocando seus produtos individuais.

Portanto, os fundos da Garde continuarão a existir em separado.

Agora, o nome Garde será desconstituído no processo de transferência de gestão formal para a Itaú Asset. Portanto, oficialmente a Itaú Asset será gestora do fundo, mas os CPFs responsáveis pela gestão seguirão sendo os profissionais oriundos da Garde.

Em breve teremos uma convocação de assembleia para deliberar sobre a transferência de gestão e a ideia é que até 1º de fevereiro de 2024 a integração operacional entre Garde e Itaú tenha sido concluída.

Durante este processo de transição a gestão segue normalmente sem interrupções.

A recomendação muda com esta mudança?

Esse movimento de consolidação é normal e no exterior é muito comum que uma grande casa “encube” gestoras menores que tenham grande potencial de gestão para dar conforto para o time focar nas atividades essenciais.

Um exemplo disso que acompanhamos de perto foi o processo em que a gigante britânica Man Group internalizou a boutique de investimentos GLG, criando a marca Man GLG, que hoje é bastante reconhecida.

Estar dentro da robusta estrutura do Itaú pode trazer melhorias fundamentais para o processo de gestão, mesmo que durante a transição tenha ocorrido perdas de profissionais conhecidos da Garde, como Calabresi e Weeks.

A Itaú Asset tem feito um belíssimo trabalho de gestão independente e tem investido pesado para se tornar referência no mercado de assets independentes. Inclusive, nós temos nos aproximado bastante para conhecer os fundos e temos encontrado peças interessantes que parecem ter muito valor e que podem pintar como recomendação em um futuro próximo.

A gestora do maior banco privado da América Latina, como você pode imaginar, não gosta de perder dinheiro e esse grande investimento está sendo feito por identificarem que existe muito valor no time de gestão e nos fundos adquiridos. Novamente, vale lembrar que o Itaú sempre foi o maior cliente da casa e conhece todos os meandros da gestora.

Por isso, iremos acompanhar o processo de transição mantendo a recomendação. Se identificarmos uma quebra no DNA ou uma má adaptação do time à nova estrutura poderemos rever a recomendação.

Nosso time tem uma reunião marcada para o ano que vem já dentro do contexto da Itaú Asset. Traremos informações para vocês muito em breve.

Ficamos por aqui...

Ano difícil por diversas óticas, desde reversões de tendência de mercado, crise no crédito e sangria no patrimônio de gestoras independentes promovendo grandes consolidações no mercado brasileiro.

Trouxemos um detalhamento de como o time da Verde navegou por este ano incerto e como pretendem navegar no ano de 2024, que promete ser melhor.

Com a queda dos juros no mundo, poderemos voltar a um período de maior otimismo para ativos de risco e, quando a maré baixar, os sobreviventes deverão seguir ainda mais fortes.

Isso vale também para o novo time da Garde, que, embora com a mudança ocorrida por uma fragilidade no negócio, terá capacidade de se reinventar dentro de uma estrutura robusta provida pela Itaú Asset.

Nosso compromisso com você é de continuar acompanhando de perto as recomendações atuais, além de vasculhar o mercado à procura de estratégias diferenciadas que possam agregar valor à sua carteira.

Por hora, ficamos por aqui.

Um grande abraço,

Felipe Arrais e Rodrigo Xavier

Sobre os analistas

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e investimentos globais da Spiti. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.

Rodrigo Xavier

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.