Que eu adoro viajar não é novidade para minha família, porém ninguém entendeu quando eu disse que eu fiz uma viagem exclusivamente para ver um lago congelado no Canadá. Foi uma experiência única na vida e valeu cada centavo no momento em que pulamos naquele maciço bloco de gelo flutuando no meio do lago. Ficamos maravilhados com como algo como aquilo podia existir na natureza.
A época do ano era perfeita. Estava começando o degelo e as bordas do lago estavam soltas, fazendo com que ele girasse de acordo com correnteza. O mais lindo era a sintonia que toda a visão nos proporcionava. Distante de nós podíamos notar que diversos animais cruzavam o lago livremente agora que estava congelado. Vimos desde roedores, alces, cervos e até um urso – este, vimos mais de longe, após uma corrida para aumentar a distância.
Fora a aventura, ficou também a lição de que a natureza trabalhava em grande sintonia, juntando “as pontas” do lago uma vez por ano para criar uma verdadeira ponte. Fiquei pensando por muito tempo em como o fato de o lago congelar e se transformar numa ponte serviu a nossos ancestrais como inspiração para criar as suas próprias pontes.
A nossa recomendação de hoje é também uma criadora de pontes, mas se engana quem pensa que ela é uma construtora ou uma mineradora. Estou falando de pontes que conectam o mercado financeiro brasileiro...
Sem mais delongas, vamos à nossa recomendação de hoje: a B3 S.A. – Brasil, Bolsa, Balcão.
Nem todos sabem, mas a B3 S.A. – Brasil, Bolsa, Balcão (B3SA3) – é uma empresa na qual podemos investir, e hoje ela passa a fazer parte da nossa carteira. A nossa Bolsa de Valores é uma verdadeira criadora de pontes no mercado financeiro, responsável por conectar muitas pontas do sistema financeiro nacional.
A B3 é responsável por todas as transações no mercado de renda variável, alguns produtos de renda fixa e financiamentos de veículos.
E, como bem sabemos, é importante entender a história e o modelo de negócio das empresas antes de investirmos nela. Então vamos a ela:
A B3 foi constituída a partir da junção de três grandes empresas: a Bovespa, a Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) e a Cetip. Cada uma das três tinham papéis diferentes no mercado financeiro e, em sua forma final, a B3 consolida todas elas, sendo divididas em quatro grandes linhas de negócios:
- Produtos listados: essa frente reúne toda a receita que envolve renda variável; toda compra e venda de um produto gera uma pequena receita para a B3. Nessa linha de receita entra toda compra, venda e aluguel de ações. Além disso, qualquer operação com derivativos, instrumentos de proteção e de especulação e índices de ações também gera receita para a B3.
- Produtos de balcão: instrumentosde renda fixa que antes eram processados pela Cetip agora são operados pela B3. A receita dessa linha de negócios provém de taxas de custódia (aquela taxa do Tesouro Selic que sempre mencionamos), registro de operações de instrumentos bancários e títulos de renda fixa corporativos. Fora isso, aqui também existem os derivativos de renda fixa.
- Infraestrutura para financiamentos: a B3 também interliga o sistema de financiamento de automóveis entre as instituições que oferecem crédito e os órgãos regulatórios estaduais.
- Tecnologia e dados: a terceira maior linha de receita e a que mais cresceu de 2019 para 2020 pode ser subdividida em três grandes pilares: Tecnologia e acesso, Dados e analytics e Banco. Essa frente é responsável por promover toda a infraestrutura de tecnologia para a B3 conectar e alimentar o sistema financeiro de dados das transações, bem como de informações e relatórios analíticos de mercado.
Agora que estamos devidamente instruídos sobre as formas de negócios da B3, quero explorar três motivos pelos quais gostamos das ações da B3:
- Cenário da renda fixa brasileira;
- Investimentos em tecnologia;
- Monopólio e competição – Seus competidores são as outras Bolsas de Valores do mundo. Um exemplo de quem fugiu da B3 foi a PagSeguro, a Stone e a XP, todas empresas que foram para abrir capital em Bolsas estrangeiras.
Cenário brasileiro
O cenário de investimentos no Brasil tem mudado gradualmente nos últimos anos. Para obter o mesmo retorno que a renda fixa pagava nos gloriosos anos 2000, o investidor ou a investidora precisa tomar mais risco e o faz através da Bolsa de Valores. E não sou apenas eu dizendo isso, veja por si só os dados:
Fonte: B3 e Quantum elaborado por Spiti
Quando analisamos o número de pessoas físicas na Bolsa contra a rentabilidade anual da renda fixa (CDI), obtemos uma correlação extremamente forte e negativa, ou seja, quanto menos a renda fixa pagar mais pessoas entram na Bolsa, acreditamos que a renda fixa tem muito potencial, porém não temos ilusão de que o CDI vai retornar aos patamares dos anos 2000. Fora a entrada de novos investidores, temos que uma queda na taxa de juros também influencia no número de IPOs que notadamente aumentou vertiginosamente nos últimos anos.
Fonte: Estadão
Além disso, esse fato junto com o aumento expressivo de projetos de educação financeira nos últimos anos nos traz segurança que cada vez mais o número de usuários da Bolsa de Valores vai aumentar como uma forma de investimento alternativo.
E, assim, com o fluxo de investimentos aumentando na B3, também aumenta a sua receita. Mas existem mais dois fatores que auxiliam a B3 a manter suas perspectivas para o futuro.
Investimento em tecnologia
Bem como o relatório da série O Melhor da Bolsa pontuou, a B3 tem tomado decisões estratégicas que a colocam como grande referência mundial: as suas estratégicas fusões e aquisições entre a Cetip, Bovespa e BM&F e seu forte investimento em tecnologia:
Fonte: B3
Por manterem o nível de investimento ao longo dos anos, a B3 consegue se consolidar como grande referência e detentora do capital intelectual de todas transações em seus sistemas. Sua estratégia é eficaz a ponto de, ao comparar com outras Bolsas do mundo, a B3 é a oitava maior em valor de mercado:
Fonte: Spiti
Competição
A Bolsa brasileira tem como competidora as outras Bolsas do mundo; no entanto, no mercado brasileiro, a única instituição presente atualmente é a B3. Há alguns anos já existe a menção de uma criação de uma nova Bolsa por parte da Americas Trading Group (ATG); no entanto, a entrada de um novo participante no mercado brasileiro significa mais receita para a B3.
Por mais estranho que possa parecer, os anos em que a B3 foi a monopolista do mercado brasileiro confirmou a posição da empresa como grande detentora de conhecimento e sistema de tecnologia já existente. Em outras palavras, outros entrantes necessitariam contratar sistemas da B3 para atuar no território brasileiro. Foi isso que aconteceu com a ATG, tanto que o caso foi parar no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), pois, segundo a ATG, a B3 estaria cobrando preços abusivos dos seus sistemas. A ATG saiu do imbróglio vitoriosa, porém ainda não existe previsão para a criação dessa nova Bolsa no curto prazo, dando ainda margem para a B3 absorver mais participação.
Esses três fatores alinhados são confirmados pelos resultados dos últimos anos da B3:
Os três fatores demostrados no gráfico a seguir – Ebitda, margem Ebitda e lucro líquido – mostram que sua estratégia está performando bem, o Ebitda que é o lucro antes das deduções e o lucro líquido têm aumentado junto com a margem Ebitda O que significa que a B3 está obtendo mais receita e de forma mais eficiente.
Fonte: B3 e elaborado por Spiti
Boa pagadora de dividendos
Por lei, a B3, assim como todas as empresas listadas na Bolsa, deve distribuir pelo menos 25% do lucro líquido ajustado, porém a decisão final sobre a quantidade de dividendos distribuída é da empresa – essa decisão envolve principalmente políticas de crescimento e reinvestimento.
E o que é a política de reinvestimento e crescimento de uma empresa? Basicamente se uma empresa consegue reinvestir e crescer, ela o faz; caso contrário, existe o pagamento de dividendos. Como vimos anteriormente, a existência de um monopólio e o aumento de receita da B3 nos últimos anos permitem que ela faça o pagamento de dividendos enquanto reinveste em projetos internos. Veja a seguir a taxa de pagamento de dividendos da B3 ao longo dos anos:
Fonte: Spiti
Mesmo a taxa de dividendos tendo se mantido relativamente constante vemos que os dividendos por ação aumentaram desde 2017. Para quem leu o relatório de semana passada, vimos que isso acontece por conta da função de taxa de dividendos: um aumento dos dividendos acompanhado de um aumento do valor da ação faz com que a taxa de dividendos permaneça constante. No caso da B3, tivemos um aumento da taxa de dividendos, ou seja, o aumento do pagamento de dividendos foi superior ao aumento do valor da ação.
Menções honrosas
Fora o extenso gabarito da B3 em ser a líder de mercado e entrar na nossa carteira, existe um último fator que demonstra forte estabilidade da B3 como empresa consolidada: a sua dívida. Quando analisamos a sua dívida líquida, que é resultado de uma versão mais complexa da equação a seguir, obtemos um histórico de cuidado na gestão da dívida:
DÍVIDA LÍQUIDA = DÍVIDA DE CURTO + DÍVIDA DE LONGO PRAZO – DISPONIBILIDADES
Disponibilidades, assim como seu nome diz, são recursos disponíveis pela empresa para pagar as dívidas. Normalmente são constituídas de seu caixa e aplicações financeiras com alta liquidez. Mas o importante é o resultado – a dívida líquida negativa é algo bom para a empresa do ponto de vista de crédito, significa que ela está com mais recursos disponíveis do que dívidas a pagar. E a B3 tem se mantido assim a um bom tempo:
Fonte: B3
Para nos guiarmos com relação a 2021, segue também o valor que foi calculado através da análise de método de fluxo de caixa descontado na série O Melhor da Bolsa para seu preço-alvo no valor de R$ 66,80.
Conclusão
Depois da nossa análise, não tivemos dúvidas de que seria interessante reservarmos um espaço para a B3 na nossa carteira. E, para resumir nossa análise, aqui estão listados os cinco pontos mais importantes que nos motivaram a adicionar a B3 à nossa carteira:
- Mercado de renda variável tem aumentado o número de participantes exponencialmente nos últimos anos, sem previsões de diminuir;
- Monopólio tecnológico, processual e legislatório em sua área de atuação;
- Investimento e fusões estratégicas;
- Bom histórico de indicadores financeiros e operacionais;
- Bom histórico de pagamento de dividendos aos acionistas.
Com esses pontos, fechamos nosso relatório. E, neste momento, vemos que B3 tem um espaço de até 5% na nossa carteira. Lembrando que para atingir o percentual deve-se diminuir a participação na nossa reserva de oportunidades.
Um abraço,
Filipe Colus e Guilherme Cadonhotto