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Banco do Brasil (BBAS3): estudo de volatilidade de uma empresa estatal de capital aberto em períodos pré-eleitorais

Escrito por Fillipe Colus, Felipe Arrais, Guilherme Cadonhotto em RENDA TOTAL

10 min de leitura

Fonte: Shutterstock

Por definição, fofocar é ato casual de conversar ou reportar sem restrições acontecimentos sobre situações ou outras pessoas, podendo envolver fatos não confirmados e opiniões. No seu livro Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, o professor israelense Yuval Noah Harari aponta em uma de suas teorias que a fofoca teve papel intrínseco na evolução do ser humano como espécie.

Segundo ele, a capacidade de fofocar envolve pensar em um terceiro elemento que não está presente no recinto durante o ato da conversa. Isso pode parecer trivial para nós hoje, mas essa habilidade linguística foi adquirida apenas recentemente na linha evolucionária, como relata Harari em seu livro.

O professor explica que, por sermos seres sociais, essa capacidade de conversar sobre os acontecimentos fora de nossa vida se tornou cada vez mais importante para sobrevivermos às incertezas e navegarmos entre os meios sociais com mais destreza e perspicácia. O que vemos hoje como negativo e chamamos de fofoca pode, na verdade, segundo teorias evolucionistas, ter sido um dos pilares da evolução da nossa espécie.

E uma das “fofocas quentes” que eu, Fê, mais tenho visto no mercado financeiro atualmente, e que você pode ter visto em vídeos ou notícias, é a de que, em períodos eleitorais, empresas estatais de capital aberto podem ter mais volatilidade e que não devem ser investidas nessas épocas.

Mas será que os dados corroboram essa afirmação?

Neste relatório, vamos trazer um estudo e a revisão das perspectivas para o Banco do Brasil (BBAS3), que é a nossa única empresa estatal recomendada.

Levantamos alguns dados que apontam que tal afirmação não se sustenta a ponto de ser tomada como verdade – tal qual muitas fofocas que ouvimos por aí! Vamos então analisar um pouco mais o assunto e entrar nos detalhes dos dados para entender que isso não tem base histórica.

Prerrogativas da análise

Ao observar os dados históricos de todas as eleições após o ano 2000, vemos que as ações do Banco do Brasil têm uma forte correlação com o comportamento do Ibovespa, principal índice da Bolsa, e com o excedente de volatilidade quando comparamos a janela de dois meses anteriores ao término do segundo turno dos pleitos em relação à volatilidade no mesmo ano analisado.

Ou seja, se as ações do Ibovespa tenderam a ficar mais voláteis durante o período pré-eleitoral, o Banco do Brasil também seguiu a mesma linha, e o contrário também é verdade: nos anos que o Ibovespa ficou menos volátil, o banco se comportou de maneira parecida.

Porém, quando analisamos friamente se o período eleitoral representa uma maior volatilidade para as ações BBAS3, os dados não apontam em uma única direção. Enquanto a média aumenta de forma comedida, no mesmo período, a mediana (que divide a amostra na metade) apresenta redução. Isso indica que existem anos em que a oscilação foi elevada a ponto de deturpar o resultado da média.

Antes de apresentar em detalhes o resultado dos estudos, vamos contextualizar o cenário das empresas estatais brasileiras.

As empresas estatais no Brasil

Quem tem ou teve uma empresa sabe que só consegue permanecer operante se cumprir certos requisitos, como pagar impostos, financiamentos e funcionários em dia, realizar investimentos de mantenimentos da operação ou de aumento de capacidade produtiva, e distribuir lucros para seus acionistas.

Muito se discute o papel de uma empresa estatal, principalmente no que tange gestão, eficiência e o retorno efetivo para a sociedade. A criação de estatais normalmente recai no argumento da dificuldade que o setor privado tem em administrar ou interesse em investir em alguns setores da sociedade, seja por barreiras de entradas, seja pelo baixo interesse no investimento.

E na própria literatura não foi difícil de encontrar relatos de economistas que corroboram a importância de estatais durante a história desenvolvimentista das nações, e não só no Brasil. A South Sea Company, uma empresa estatal britânica com capital aberto já no século XVII que cuidava de dívidas não pagas a credores do exército do país, é um desses casos, pois foi fundamental para o desenvolvimento não somente da Inglaterra, mas também da Europa. Inclusive, já abordamos a relação curiosa entre a companhia e Isaac Newton, um dos maiores gênios da humanidade, neste relatório sobre o acontecido.

A própria história da industrialização brasileira mostra o importante alicerce que foi a presença de estatais para o desenvolvimento do país. Especificamente, ao final da década de 1930, tornou-se muito popular a ideia da criação de empresas públicas para atuar em áreas visando explorar monopólios naturais ou segmentos nos quais o setor privado não desejava investir da forma que o governo considerava necessário. Alguns exemplos são os setores de mineração, siderurgia, petróleo e eletricidade.

Em 2019, segundo levantamento feito pela FGV, no Brasil havia 138 estatais federais. Se incluirmos empresas pertencentes aos estados e municípios, esse número passava de 400. Porém, esse número era maior ainda, já que desde 1990 foram privatizadas 119 estatais, desde bancos, como o Banespa, até mineradoras, como a Vale.

Fonte: BBC

É inegável o papel de tais empresas no desenvolvimento histórico do país, e veja que elas não são exclusividade do Brasil.

Uma das principais críticas feitas às estatais de capital aberto é o efeito da participação do Estado no bloco controlador, que acaba tendo a palavra final nas decisões, e não os acionistas minoritários e investidores. Isso pode, em alguns casos, como o período eleitoral, aumentar a percepção de risco dessas empresas.

Um dos últimos episódios de desestatização de uma grande empresa no Brasil foi a da Eletrobras, ocorrida neste ano.

Após quase cinco anos de negociações, aprovações, muitos imbróglios no meio do caminho e atrasos dos julgamentos no Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o processo de capitalização da estatal de energia, finalmente a operação aconteceu.

Aqui, cabe explicar que existe uma série de formas de privatizar uma empresa. No caso da Eletrobras, o processo utilizado foi de redução da participação do Estado no capital votante, assim, o poder público não é mais o controlador de empresa, justamente o ponto que pode aumentar a percepção de risco associada a investir em estatais.

Dada a participação e o interesse do governo presente no controle das estatais, é normal que existam períodos em que aumente a percepção de risco sobre tais empresas, e um deles é justamente o de eleições, momento em que essas empresas podem ser utilizadas em campanhas eleitorais.

Sendo assim, vamos agora explorar um pouco mais o conceito de volatilidade e aplicá-la à nossa carteira com foco no Banco do Brasil (BBAS3), a única estatal recomendada da série Renda Total.

Histórico de volatilidade do Banco do Brasil e Ibovespa em época de eleições

A volatilidade é uma métrica estatística utilizada para medir a variação de um ativo.

Podemos defini-la como uma medida de risco inerente ao investimento que possui risco de mercado, e que informa a variação do seu valor em relação ao seu valor médio em um certo período. Como já mostramos em relatório passado, ela não deve ser confundida como algo negativo para quem investe, desde que dosada na quantidade correta.

E se você pensou que, em meses ou anos que temos acontecimentos fora do comum, essa métrica pode sofrer distorções acima do normal, acertou! Veja, por exemplo, a volatilidade do Ibovespa no mês em que a pandemia tomou mais força, em março de 2020. A métrica para o período atingiu mais de 120%!

Fonte: Quantum. Elaboração: Spiti

A partir disso, investigamos se o período eleitoral é de fato uma época em que as ações de empresas estatais tendem a ficar mais voláteis por conta da participação do Estado como controlador da empresa.

Estudo de caso: Banco do Brasil (BBAS3)

Nesse estudo, focamos em BBAS3, nossa ação recomendada. Inicialmente, vamos explicar como fizemos o nosso estudo antes de analisar os resultados.

O primeiro passo foi estudar a fundo as ações do Banco do Brasil durante o período eleitoral de todas as eleições em que tivemos acesso à cotação do banco, ou seja, a partir do ano 2000.

No segundo, realizamos o estudo considerando duas janelas temporais: a primeira considera o período de um mês antes da finalização do segundo turno, e a segunda, dois meses antes – considerando quando houve o turno adicional. Isso foi feito para entender se existiu alteração no cenário de volatilidade.

Com isso, vamos aos resultados!

Quando avaliamos os dados da volatilidade, vemos que, nos meses que antecederam a eleição, não temos um consenso sobre aumento da oscilação das ações, já que os dados trazem conclusões mistas.

Tabela 1 – Volatilidade de BBAS3 e Ibovespa

Fonte: Quantum. Elaboração: Spiti

Na média, podemos afirmar que o valor da volatilidade das ações do Banco do Brasil aumentou durante os meses antecedentes as eleições, de 46,6% a.a. para 47,4% a.a. Contudo, ao analisarmos a mediana, número que divide a amostra na metade, vemos uma redução, de 46,1% para 36,8%. Isso indica uma redução da oscilação no período, e também que, no cálculo da média, existiram valores grandes que deturbaram o seu valor final.

Vale salientar que também observamos esses comportamentos na análise do Ibovespa. Porém, no caso do Banco do Brasil, os dados mostram uma variação mais elevada entre a média e mediana dos períodos.

Mas decidimos ir mais a fundo e comparar agora quanto BBAS3 e Ibovespa é mais ou menos volátil durante a época eleitoral. Para isso, usamos o seguinte cálculo:

Calculamos o percentual excedente de volatilidade tanto para o Banco do Brasil quanto para o Ibovespa e comparamos os dois. Veja os resultados a seguir:

Tabela 2 – Percentual excedente de volatilidade de BBAS3 e Ibovespa

Fonte: Spiti

Veja que interessante, pois nesse caso as informações ficam mais tangíveis. Podemos confirmar o que afirmamos antes, que o percentual excedente de volatilidade das ações do Banco do Brasil tem um comportamento similar ao do Ibovespa nos períodos eleitorais.

Ao quebrar essa informação em partes menores, conseguimos verificar que, com base nas amostras coletadas de eleições passadas, na média, a volatilidade das ações BBAS3 tende a se alterar na mesma proporção que a do Ibovespa quando comparada com a volatilidade do ano analisado.

Ou seja, se as ações do Ibovespa tendem a ficar menos voláteis em período pré-eleitoral, como visto em 2020 e 2016, por exemplo, o Banco do Brasil também seguiu a mesma tendência, e tal afirmação pode ser confirmada também na tabela 1.

Por que não venderemos nossa posição em BBAS3?

O primeiro motivo passa por uma ressalva, pois a participação do Estado no bloco controlador não é desconsiderada quando calculamos o preço justo de uma empresa estatal, e o caso do Banco do Brasil não é diferente. Ele entra na conta e é contabilizado como um risco qualitativo através de um prêmio de risco.

E, de fato, ele é incorporado ao preço do ativo como um prêmio de risco na taxa de desconto que vai calcular o preço justo das ações das empresas. Isso faz com que as estatais de capital aberto possuam um desconto superior em relação aos seus pares de mercado, ponto que consideramos interessante.

O segundo motivo é o setor em que a empresa atua, que deve ser analisado antes da tomada de decisão de investir ou desinvestir. Atualmente, no Renda Total nossa participação no segmento bancário é, na nossa avaliação, comedida e diversificada, em um setor resiliente que se beneficiou com o arrefecimento da pandemia.

De acordo com levantamento feito pela Economatica, o lucro líquido dos quatro maiores bancos do Brasil (Banco do Brasil, Itaú, Bradesco e Santander) em 2021 foi o maior desde 2006. Além disso, na nossa carteira dividimos nossos investimentos entre Itaú e Banco do Brasil, sem concentrar o risco em apenas uma empresa.

A terceira justificativa é que o banco se encontra em um momento operacional muito bom. No último trimestre analisado (2T22), o Banco do Brasil conseguiu atingir o seu maior retorno sobre patrimônio líquido (ROE) anualizado da série histórica, ao alcançar o patamar de 20% pela primeira vez, muito próximo ao de seus pares privados, como Itaú, Bradesco e Santander, que também registraram ROEs nesse patamar.

Fonte: Banco do Brasil. Elaboração: Spiti

Em um ano que começou turbulento como 2022, o banco se mostrou uma surpresa positiva para a Bolsa de Valores brasileira, pois tem entregado uma combinação de crescimento de receitas e maior diluição de despesas operacionais. Isso tem se refletido em aumentos de rentabilidade e distribuição de proventos. Assim, vamos manter nossa recomendação de COMPRA de BBAS3 durante esse período.

O quarto e último motivo é que o histórico analisado em períodos pré-eleitorais não apontou em uma direção única quando o assunto é aumento de volatilidade. O dado mais relevante que encontramos foi a variação da volatilidade, que tende a seguir o movimento do Ibovespa, fato que não é negativo, desde que dosado da forma correta.

Hoje, nossa posição em BBAS3 representa apenas 2,5% da carteira original, um percentual comedido e que não compromete a sua volatilidade, nem a nossa parcela de ações. Desde a criação da Renda Total, nossa seleção de ações superou o Ibovespa em 36,6%, com 15% a menos de volatilidade anual que o índice de referência.

Fonte: Quantum

Conclusão

No relatório de hoje, trouxemos quatro pontos do porquê vamos manter nossa posição em Banco do Brasil. Mostramos que os dados históricos não corroboram a afirmação de que a ação do banco estatal fica mais volátil em períodos que antecedem eleições.

Na nossa amostragem, a volatilidade do BBAS3, na média, aumentou de forma comedida nesses períodos quando comparada à volatilidade do ano em questão. Porém, quando analisamos a métrica com base na mediana, vemos que existem dados que deturparam a média. Dessa forma, eles não apontaram para uma direção única que a volatilidade aumenta nesses períodos.

E, quando analisamos o excedente de volatilidade e quanto ele se alterou nesses períodos na comparação anual, vemos uma relação bem mais linear e que seguiu a tendência do índice de mercado, o Ibovespa. Sendo assim, como nossa posição é comedida e não compromete nossa carteira em termos de resultados (que foi uma surpresa para o ano) e de volatilidade, uma vez que nossa seleção tem 15% menos oscilação que o índice, manteremos o ativo.

Mesmo que esse estudo tenha o intuito de trazer tranquilidade com relação ao período de eleição e de mostrar que as estatais (em específico, o BBAS3) não apresentam uma correção forte e linear no que tange o aumento de sua volatilidade, não descartamos qualquer alteração no futuro, tendo em vista mudanças operacionais ou políticas que venham a mudar nossa tese para a empresa.

O ponto é que seus múltiplos estão descontados, seus resultados operacionais estão surpreendendo e não houve mudanças de médio e longo prazos que nos mostrem necessidade de alterar a nossa posição ou recomendação em relação ao ativo no momento. Dessa forma, mantemos nossa posição de 2,5% na carteira original e reafirmamos aqui nossa recomendação de COMPRA para BBAS3, com preço-alvo no valor de R$ 57,00.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.