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Carteira da Renda Total: uma análise do fechamento do mês de novembro

Escrito por Fillipe Colus, Guilherme Cadonhotto em RENDA TOTAL

8 min de leitura

Foi dada a largada...

Já faz pouco mais de um mês desde o lançamento da série Renda Total e da carteira de recomendações, e o primeiro passo, como veremos, foi dado com o pé direito.

Mas existe um ponto bem importante na hora de se montar uma carteira consistente, algo tão relevante quanto buscar novos investimentos: controlar aqueles que já fazem parte dela.

Além disso, é necessário sempre verificar se houve mudança de perspectiva desses ativos estruturais ou nas diretrizes e cenários de uma empresa que temos na carteira, ou mesmo se um dos fundos imobiliários teve algum contrato reincidido ou anunciou a compra de um novo imóvel que acreditamos não possuir boas expectativas de crescimento.

Dito isso, vamos fazer um resumo dos principais fatores políticos e econômicos divulgados ou ocorridos desde o início da série, em 26/10/2020, até o fim de novembro. Depois, passaremos para a performance da carteira, com comentários sobre os resultados de cada um dos ativos, destacando os pontos positivos e negativos em relação às perspectivas de cada um.

Vamos começar?

Fatores internacionais

Desde o lançamento da série Renda Total no fim de outubro, muita coisa aconteceu.

Ela nasceu em meio a um cenário internacional turbulento: a campanha eleitoral presidencial nos Estados Unidos. Por mais que as pesquisas apontassem Joe Biden, o candidato democrata, como o vitorioso da disputa, o mercado estava atento à postura de Donald Trump, candidato à reeleição, e seu discurso de possível fraude nas eleições – caso ele saísse derrotado, diga-se.

O posicionamento foi sustentado até o fim da apuração em todos os estados do país, o que trouxe incertezas para os investidores.

Enquanto isso, o Congresso norte-americano discutia um novo pacote de estímulos fiscais para voltar a impulsionar a economia do país. Mas a aprovação se tornou inviável em um tenso ambiente eleitoral.

No outro lado do planeta, a China, maior parceira comercial do Brasil, apresentava dados de atividade acima do esperado, o que deixava uma ponta de esperança em relação a uma maneira que mostrasse como conviver com a pandemia do novo coronavírus e fazer com que a economia voltasse a funcionar dentro de uma “nova normalidade”.

Ao mesmo tempo, havia uma enorme preocupação sobre uma segunda onda de Covid-19 na Europa e nos Estados Unidos, que se confirmou ainda no fim de novembro. Nos Estados Unidos, por exemplo, o número de novos casos e óbitos em decorrência da doença parece bater novos recordes a cada dia.

Fontes: Google e The New York Times

E o aumento do número de novos casos de Covid-19 também foi registrado em outras regiões importantes do globo, como Alemanha e Japão – vale lembrar que os dois países eram vistos como referências no controle da doença:

Fontes: Google e The New York Times

Fontes: Google e The New York Times

Quando se olha a pandemia em escala global, podemos observar que não houve sequer o fim da primeira onda.

Evolução diária global de casos confirmados de Covid-19.Fontes: Google e The New York Times

Porém, ao mesmo tempo em que crescia o número de novos casos, crescia também a esperança por uma solução.

Inicialmente, essa esperança veio com os resultados preliminares da fase 3, a última etapa de testes laboratoriais, da vacina criada pelo laboratório Pfizer, que indicaram uma eficácia de 95% do composto na imunização do vírus.

Na esteira da divulgação da Pfizer, outros resultados promissores entraram no radar, como a Sputnik V, a vacina criada pelo Instituto Gamaleya (Rússia), e a Coronavac, desenvolvida em parceria entre o laboratório chinês Sinovac e o Instituto Butantan de São Paulo – a mais promissora para o Brasil até então.

A esperança de que os países em breve comecem a vacinar a população se sobrepôs ao aumento do número de novos casos, o que trouxe otimismo para os ativos globais.

Somam-se a isso dois fatos vindos dos Estados Unidos: Donald Trump resolveu reconhecer a sua derrota e iniciar o processo de transição de governo, e o Congresso norte-americano finalmente colocou o pé no acelerador para aprovação do pacote de estímulos para a economia. Assim, o mercado entrou em um movimento mais otimista em relação aos ativos de risco.

Tanto que houve um aumento da procura por esses ativos, como pode ser observado no gráfico abaixo:

Fontes: Bloomberg e Spiti

A linha preta representa o desempenho do principal índice de ações dos Estados Unidos, o S&P 500, que subiu mais de 5% no último mês.

Já a linha azul mostra a performance das Bolsas dos países emergentes, que subiram mais de 6% no mesmo período, ou seja, a alta das ações não ocorreu somente por especificidades na economia ou política brasileira, pois entendemos que fazem parte de um movimento global.

E, assim como as Bolsas, as moedas de países emergentes também se valorizaram. Em lilás, observamos a performance ponderada das moedas desses países, como a lira turca (Turquia), o peso mexicano (México), o rand (África do Sul), o real (Brasil) e por aí vai.

O gráfico mostra também que a apreciação da moeda não é uma “exclusividade” do Brasil. Faz parte de um movimento global no qual o dólar se enfraqueceu frente a outras moedas.

Portanto, o ambiente externo tem se mostrado comprovadamente positivo para os ativos brasileiros. Mas o que será que aconteceu por aqui e que impactou o mercado diretamente?

Fatores internos

Já vou adiantar: no Brasil, os destaques foram negativos.

O nosso problema fiscal, ou seja, o nível de endividamento, não apresentou perspectiva de melhora. Isso porque a Câmara dos Deputados e o Senado Federal não davam encaminhamento a nenhuma proposta relativa ao assunto por conta das eleições municipais, que se encerraram em segundo turno no último dia 29 de novembro e estavam paralisando Brasília até então.

Além disso, o Brasil também observou um aumento significante no número de novos casos diários de Covid-19, mas com um detalhe: mal saímos da primeira onda e e já entramos na segunda.

Fonte: Google e The New York Times

Fontes: Google e The New York Times

Apesar de o número de novos casos ter apresentado alta, tal movimento não foi acompanhado na mesma proporção quando se observa o número de óbitos, o que mostra ao menos que o atendimento aos pacientes infectados se tornou mais eficiente nesse segundo momento, no qual o vírus é um pouco mais conhecido pelas comunidades científica e médica.

As outras discussões em Brasília se baseavam basicamente na possibilidade de flexibilização do teto de gastos para o ano que vem, ou seja, em afrouxar o limite de gastos do governo para o ano de 2021, o que aprofundaria ainda mais nossa crise fiscal e deixaria investidores em geral mais receosos, além de provocar uma alta recente da inflação.

Membros do Ministério da Economia e, mais recentemente, do Congresso, têm descartado de maneira veemente a possibilidade de flexibilizarmos o teto de gastos, o que é bem positivo.

Além disso, os investidores enxergam que a alta dos preços recentes no Brasil, medida pelo IPCA, ou seja, pelo aumento da inflação recente, deve ser mesmo temporária, uma vez que grande parte dos responsáveis por essa alteração no índice (aumento do preço do dólar, aumento da demanda internacional por alimentos brasileiros e aumento na demanda interna de produtos básicos por conta do auxílio emergencial) deve ser diluída ao passo que esses indicadores percam força.

O dólar, aliás, já apresenta queda relevante desde o seu ápice, com semanas consecutivas de queda. E o auxílio emergencial, que teve seu valor reduzido pela metade até dezembro e com pouca chance de prorrogação em larga escala para o ano que vem.

Tais fatores, junto com a antecipação do aumento de energia elétrica para o ano de 2020, que alivia a inflação deste ano, ajudam a reduzir as expectativas de inflação para 2021.

E tudo isso reforça o entendimento de que o choque nos últimos meses foi um movimento pontual, o que ajuda a tirar a pressão dos últimos meses nas taxas de juros, que apresentaram queda significativa e beneficiaram os títulos de renda fixa.

A carteira Renda Total

Agora, vamos direto ao assunto! Vamos verificar como a carteira da série Renda Total se comportou em novembro, de acordo com cada segmento.

1. Ações

Fontes: Spiti e Quantum

As ações recomendadas no mês de novembro para a carteira da série apresentaram um desempenho muito forte, isso sem considerar o pagamento de dividendos ocorridos no mesmo mês.

O Ibovespa, principal índice de ações do Brasil, apresentou uma alta de quase 16% no mesmo período, percentual inferior a qualquer uma das recomendações. Isso mostra que soubemos aproveitar o momento favorável na Bolsa nesse período.

As ações da mineradora Vale (VALE3) foram beneficiadas pela surpresa positiva com os dados de atividade da China, destino da maior parte de suas exportações de minério de ferro. Com a recuperação da economia chinesa, e o dólar em patamar elevado, a atratividade do minério de ferro brasileiro aumentou, e isso beneficiou o preço do papel.

A transmissora de energia Taesa (TAEE11) conseguiu emplacar os reajustes de seus contratos de transmissão com a variação do IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado), que ficou acima de 20% no acumulado de 12 meses. Além disso, a empresa anunciou o pagamento de um dividendo histórico, o que puxou o preço do papel para cima e continua a beneficiá-lo.

Já o Banco Itaú (ITUB4) anunciou um processo societário para que sua participação na XP seja precificada de maneira justa, o que impulsionou o preço da ação desde então. Aliado a isso, um bom dividendo também foi anunciado pelo banco, que apresentou performance bem superior ao Ibovespa no período.

O desempenho médio do nosso percentual em ações no mês de novembro, portanto, foi de 24,37%.

2. Fundos imobiliários

Fontes: Spiti e Quantum

O desempenho dos fundos imobiliários em novembro também foi positivo, com variações que, em sua maioria, superaram o principal índice dos fundos imobiliários, o Ifix, que registrou 1,52% no mês.

Os FIIs permanecem pagando dividendos dentro da banda esperada e não apresentaram destaques no período.

O ponto que gostaríamos de frisar é que, mesmo com o aumento no número de casos do novo coronavírus no Brasil, e com alguns estados apresentando mais medidas de relaxamento, o fundo de shoppings da nossa carteira, o HGBS11, apresentou retorno positivo no mês.

Importante comentar que as vendas nos shoppings em decorrência da Black Friday deste ano cresceram quase 50% com relação a de 2019.

O nosso desempenho médio da carteira de FIIs foi de 1,47%, contra 1,51% do Ifix, um pouco abaixo, mas ainda assim positiva.

3. Renda Fixa

Fontes: Spiti e Quantum

Conforme os juros apresentaram certo alívio nas últimas semanas, ou seja, queda, os títulos de renda fixa em sua maioria se valorizaram. Isso foi bom para nossa carteira, que conta com títulos que são beneficiados com tal movimento.

O CDI acumulado no mês de novembro foi de 0,15%, enquanto nossa carteira de renda fixa teve um resultado ponderado de 0,83%, ou seja, mais de 5 vezes o desempenho do CDI.

A continuidade da busca pelo endereçamento de nosso problema fiscal no Congresso, a divulgação de campanhas de vacinação no Brasil, os estímulos econômicos nos Estados Unidos e Europa, bem como a forte retomada da economia chinesa devem continuar a favorecer os ativos brasileiros nas próximas semanas, inclusive os nossos de renda fixa.

Conclusão

Iniciamos a carteira da série Renda Total com o pé direito, superando os benchmarks de cada segmento com boa margem (no caso de ações), ou ao menos ficando muito próximo, como foi o caso dos fundos imobiliários. Lembre-se de que os dividendos não estão nessa conta, e a remuneração total dos seus investimentos na verdade foi maior.

Quer um conselho?

Reinvista esses dividendos enquanto eles ainda não são suficientes para pagar suas despesas mensais. O poder dos juros compostos é enorme: quanto mais você conseguir reinvestir, mais rápido deve alcançar a liberdade financeira de que tanto falamos.

Abraços,

Guilherme Cadonhotto e Filipe Colus

Sobre os analistas

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.