O contexto da alocação pós-fixada na carteira
O universo de renda fixa pós-fixada no Brasil é muito grande e costuma ter um destaque na carteira dos investidores que buscam aproveitar o nível médio de juros alto no país.
Dentro desse universo estão os produtos bancários como CDBs, LCIs e LCAs, emitidos diariamente por bancos em suas plataformas ou em corretoras parceiras. Na carteira de valorização, aproveitamos essa classe de ativos com critérios específicos.
O primeiro deles é ter liquidez diária para que você consiga rebalancear a carteira sem precisar ficar com prejuízo caso seja necessário vender uma parte dos CDBs pós-fixados.
Outra característica é ser um CDB emitido por um banco de qualidade. Por isso os nomes recomendados até agora eram do Banco Daycoval e do BTG Pactual, bancos bem consolidados, reconhecidos e acompanhados pelo mercado. A partir desta edição, o BTG sai da relação de ativos recomendados, mas continua na relação de bancos aprovados pela Finclass, como explicamos mais adiante.
Bancos com alta qualidade costumam oferecer taxas menores. Afinal, quanto menor o retorno na renda fixa, menor tende a ser o risco. Com a Selic bem acima dos 10%, isso dificulta a tarefa de encontrar mais opções de CDBs de bancos extremamente confiáveis que paguem igual ou mais do que 100% do CDI.
Para termos um histórico de rentabilidade de cada produto recomendado em cada carteira, precisamos ter uma forma de medir o retorno desses produtos.
Com uma ação, basta seguir o retorno da valorização e somar aos dividendos pagos. Com FIIs, FI-Infra e ativos negociados em bolsa no geral, essa é a fórmula. Você consegue vender a ação de uma mesma empresa em corretoras diferentes com preços iguais ou muito semelhantes, já que o preço que aparece na sua tela vem do último negócio realizado na bolsa.
Na renda fixa a história é outra. Se o produto não tiver liquidez diária, você depende de quanto a sua corretora vai cobrar como pênalti de saída para antecipar o recebimento. E esse pênalti varia de corretora para corretora, mas também varia conforme o banco emissor do CDB, o indexador e o prazo que ainda falta até o vencimento.
A metodologia do cálculo de rentabilidade
Até antes desta publicação, o cálculo da rentabilidade dos CDBs pós-fixados recomendados era feito pela média das taxas oferecidas em CDBs de liquidez diária dos bancos escolhidos.
O resultado era uma média do CDB de 104% do CDI do Banco Daycoval e do CDB de 101% do BTG Pactual, ou seja, uma média de 102,50% do CDI para fins de apuração de rentabilidade.
Com a recente redução da taxa oferecida pelo BTG de 101% para níveis iguais e até abaixo de 100% do CDI, a relação de risco e retorno do produto deixou de fazer sentido dentro da carteira. Um ativo com liquidez diária e risco de crédito igual ou menor ao do BTG já entrega 100% da Selic sem custo algum: é o caso do Tesouro Reserva, que passa a substituir o CDB do BTG nas recomendações.
Isso não significa que o BTG tenha piorado como instituição. A qualidade do banco como emissor não se altera, e ele continua na relação de bancos aprovados pela Finclass.
Para quem tem o CDB do BTG na carteira: não há necessidade de resgatar pois o BTG continua na lista de emissores aprovados e se você fizesse esse resgate haveria a incidência do imposto de renda, então pode ficar tranquilo.
E a partir de junho, implementamos alguns critérios para filtrar novos emissores que podem ser considerados pela equipe como opções de renda fixa pós-fixada, mas que vale destacar: é um processo a mais do que o Score da Finclass de emissores bancários, funcionando como uma camada extra de análise:
Critérios de seleção de novos emissores
Liquidez
O CDB precisa ter liquidez diária ou imediata, com prazo de liquidação de até D+1. Ou seja: você precisa ter a liberdade de pedir o resgate em qualquer dia útil e o valor precisa ser creditado na sua conta em até 1 dia útil.
Rentabilidade do produto
A rentabilidade precisa ser igual ou superior a 100% do CDI ou da Selic. Se oferecer algo abaixo disso, vale muito mais, do ponto de vista de risco e retorno, investir em um título público que remunere 100% da Selic com o menor risco de crédito do mercado.
Patrimônio Líquido
O banco precisa ter reportado Patrimônio Líquido igual ou superior a R$ 2 bilhões para excluir bancos muito pequenos que possam oferecer taxas altas demais em CDBs de liquidez diária como forma de atrair investidores, muitas vezes desavisados do risco da instituição.
Caso o emissor de algum CDB recomendado venha a reportar queda no Patrimônio Líquido abaixo de R$ 2 bilhões, inicia-se um prazo de observação de 6 meses para que ele volte a reportar um PL acima desse nível, caso contrário é substituído.
Índice de Basileia
O Índice de Basileia é um indicador exigido pelo Banco Central e divulgado publicamente pelos bancos, que expressa a solidez da instituição por meio da relação entre seus ativos ponderados pelo risco e seu Patrimônio de Referência. Quanto maior, melhor.
O Banco Central normalmente exige um mínimo de 10,50%, mas aqui exigimos um pouco mais: 11%. Caso a Basileia do emissor caia abaixo de 11%, ele entra em um prazo de observação de 6 meses para se enquadrar novamente acima desse nível, caso contrário é substituído.
Rating igual ou melhor que A-
O rating é uma nota emitida por empresas de classificação de risco contratadas pelos bancos. A escala vai desde o AAA (melhor nota) até patamares próximos de C (pior nota). Quanto mais próxima da letra A, melhor. Quanto mais letras seguidas, melhor. E, com exceção do AAA, se a nota tiver um símbolo de mais (+), melhor.
Fonte: S&P, Moody's e Fitch e elaboração Finclass
A nota mínima exigida será A-. As agências aceitas são Moody's, Fitch e S&P, sempre respeitando a nota mais recente caso haja mais de uma agência cobrindo o banco e considerando a nota nacional de longo prazo.
Caso o banco perca a nota mínima (A-), ele entra em um prazo de observação de 6 meses para nova emissão de relatório de rating com nota igual ou maior que A- por alguma agência, caso contrário será substituído.
Valor mínimo
O valor mínimo é um o menor valor possível que você pode aportar em um produto. Nos CDBs ele pode ser um valor como R$ 1, R$ 50, R$ 100 ou R$ 1.000.
Alguns bancos emitem CDBs com melhores taxas para “valores mínimos” maiores, como R$ 100.000... Neste caso o produto não faz sentido para nossas recomendações e é muito importante nos atentarmos a esse ponto.
Pensando na acessibilidade do produto, vamos dar preferência a CDBs que sejam disponibilizados com valor mínimo de aplicação igual ou menor que R$ 100,00, mas o critério será um valor mínimo de R$ 1.000,00 ou menor que isso.
Banco BMG
A novidade entre as recomendações pós-fixadas começa com o CDB de liquidez diária do Banco BMG com rentabilidade de 107% do CDI.
O BMG é um banco múltiplo com capital aberto (tem ações com ticker BMGB4), mas conta com o controle da família Pentagna Guimarães.
Ele foi fundado em 1930, ou seja, quase 100 anos de história, quando a família Guimarães criou o Banco de Crédito Predial S.A. que mais tarde mudaria de nome para Banco de Minas Gerais S.A., atuando como banco comercial simples.
Na década de 60 a sigla BMG é criada assim como a Argento S.A. Crédito, Financiamento e Investimentos. A Argento na década de 70 se tornara a BMG Financeira S.A., dando sequencia a criação da BMG Leasing, expandindo a área de atuação do conglomerado.
Nos anos 80 a financeira obtém a licença de banco múltiplo e mudam o nome oficial para Banco BMG S.A.
Já na década de 90 começa a era de concessão de consignado a funcionários públicos e o uso de correspondentes bancários para aumentar a capilaridade da oferta de crédito.
Já no século 21 o conglomerado se sofistica criando uma subsidiária nas Olhas Cayman, estruturação de FIDICs, cessão de crédito, criação do cartão de crédito consignado próprio e abrem o Banco Itapu BMG Consignado S.A. sendo que 30% do capital fica com o BMG e 70% com o Itaú.
Entre as expansões, um dos destaques fica para a Help!, a loja de crédito que pode ser encontrada pelas cidades do país e que funciona como mais um canal de oferta de crédito.
Em 2019 acontece o IPO onde o BMG emitiu ações na bolsa de valores captando R$ 1,39 bilhão de reais.
O banco hoje tem mais de 9 milhões de clientes e foco em crédito consignado (~70% da carteira), com público-alvo nas classes C e D acima de 50 anos, um perfil de tomador com histórico de inadimplência mais controlado.
Fonte: RI BMG - 1T26
O Patrimônio Líquido reportado do conglomerado foi de R$ 4,24 bilhões. Além disso, o BMG teve homologado um aporte de R$ 214 milhões em 2026, ajudando a financiar a expansão da carteira de crédito com dinheiro dos acionistas.
Aumento do Patrimônio significa aumento do colchão de proteção do banco usando o dinheiro dos acionistas e isso traz mais estabilidade para o crescimento das operações.
Fonte: RI BMG - 1T26
O banco passa por um momento de transformação onde reduziu sua carteira de crédito em R$ 2,7 bilhões para cortar as linhas menos rentáveis e melhorar a qualidade dos ativos.
Mesmo que haja um aumento das provisões por conta do processo natural de maturidade das novas safras de clientes, já temos uma boa sinalização de que o banco antecipa esse movimento.
Fonte: RI BMG - 1T26
Essa decisão vai ajudar a melhorar a rentabilidade nos trimestres futuros trazendo mais retorno aos acionistas e, como consequência, possibilitando o pagamento dessa dívida em forma de CDB de liquidez diária.
A inadimplência com atrasos maiores que 90 dias, a famosa "Carteira Over 90", permanece controlada e é aqui que monitoramos a piora ou melhora dos empréstimos que o banco faz.
Um patamar de 3,7% ainda tem espaço para melhora, considerando que as novas safras de empréstimos vão maturando. O índice de cobertura de 177% indica que o banco tem R$ 1,77 reservados para cada R$ 1,00 de inadimplência.
Fonte: RI BMG - 1T26
Já nos estágios da carteira de crédito. Ter uma concentração no Estágio 1 significa que o banco tem concentração em empréstimos de boa qualidade e sem sinal de atraso/deterioração futuros.
No estágio 2 normalmente podemos ver se há uma piora dessa qualidade com menor probabilidade de recebimento futuro.
No estágio 3 são os empréstimos mais problemáticos e que tendem a ter a menor chance de recebimento de todos os 3 estágios.
Sobre a rentabilidade, o BMG mantém um patamar razoável de ROAE (Retorno Sobre o Patrimônio Médio), com capacidade de melhorar conforme a carteira de crédito evolui:
Fonte: RI BMG - 1T26
Com estes pontos em mente, a perspectiva para o BMG para os próximos trimestres é de uma melhora na qualidade da carteira de crédito a medida que o banco foca em operações rentáveis e aumenta sua linha de produtos enquanto mantém a liquidez e nível de governança elevado.
O fato do banco ter ações negociadas na bolsa não é um fator que traz necessariamente uma segurança a mais mas é sempre bom saber há uma multidão de investidores acompanhando os resultados o banco de perto e cobrando um nível de governança corporativa já que o BMG
CDB de 107% do CDI com liquidez diária
O CDB do BMG com essa taxa está disponível apenas para clientes com conta aberta no BMG. Esse tipo de oferta faz parte de uma estratégia de captação de novos clientes e vem sendo adotada por bancos como o BTG, o Daycoval, o C6 e o Inter, entre outros.
Caso você não tenha interesse em abrir a conta, ainda temos as opções de renda fixa pós-fixada no Daycoval (104% do CDI) e no Tesouro Reserva, como vamos detalhar a seguir. O CDB do BTG continua disponível para quem já opera na plataforma e prefere manter a praticidade.
Na prateleira - Passo 01
Fonte: App BMG
Aqui podemos ver a aplicação mínima acessível de R$ 50 e o campo de resgate destacando a liquidez diária.
Na prateleira - Passo 02
Fonte: App BMG
Nesta tela o campo de Prazo mostra 3 anos. Isso acontece porque em CDBs sempre é preciso ter um prazo de vencimento mesmo que ele tenha liquidez diária.
E o que acontece com essa aplicação depois de 3 anos?
Você recebe na conta automaticamente o valor do investimento descontado do imposto de renda.
Livre para uso ou reaplicação.
Na prateleira - Passo 03
Fonte: App BMG
Em informações adicionais o BMG destaca que a liquidez diária e que o prazo de resgate é de até D+1 (mais um dia útil a partir da solicitação). Além disso, o CDB é coberto pelo FGC no limite de até R$ 250 mil por CPF por tanto que respeite o limite de até R$ 1 milhão de cobertura a cada 4 anos.
Tesouro Reserva
A partir do primeiro semestre de 2026 foi disponibilizada a aplicação no novo título do Tesouro Direto, o Tesouro Reserva.
Mas o que é o Tesouro Direto?
É um programa de incentivo do Tesouro Nacional voltado para o público aberto para dar acesso a títulos públicos.
O Tesouro Reserva funciona como uma opção mais simples, direta e melhorada do Tesouro Selic e pode ser usado tanto como alocação em renda fixa pós-fixada de uma carteira como em reservas de emergência e oportunidade.
Fonte: Prateleira de produtos do Tesouro no App BB
O Tesouro Selic é negociado com uma pequena taxa de juros acrescida da Selic. Por exemplo, o Tesouro Selic 2031 paga Selic + 0,100%. Esse spread pequeno gera uma volatilidade leve no preço do título por conta da marcação a mercado.
O Tesouro Reserva é negociado sem essa taxa, então ele vai pagar puramente a Selic do período e não sofre com a marcação a mercado.
Fonte: Prateleira de produtos do Tesouro no App BB
Além disso, sua negociação acontece diariamente das 00:01 até 23:00, possibilitando aplicação e resgate via Pix instantâneo, o que o torna uma boa opção para quem busca praticidade, com aplicação mínima de R$ 1,00 e liquidez com baixo risco de mercado.
Fonte: FAQ do Tesouro Direto
Na primeira fase de testes, ele fica disponível apenas para clientes do Banco do Brasil, mas ao passar desta etapa, deve ficar disponível para todos os investidores.
O único ponto de atenção é a taxa de custódia de 0,20% a.a. cobrada no vencimento ou no resgate para saldos acima de R$ 10.000,00. Valores abaixo de R$ 10.000,00 são isentos desta taxa, assim como no Tesouro Selic.
E caso você não queira abrir uma conta no Banco do Brasil para investir exclusivamente no Tesouro Reserva, uma opção é continuar investindo no Tesouro Selic sem problema.
Fonte: Site Tesouro Direto
Mensuração de rentabilidade
Com a saída do CDB do BTG e a adição do Tesouro Reserva e do CDB do BMG, a parcela de renda fixa pós-fixada da carteira de valorização que segue o método ARCA terá uma rentabilidade da média entre os três produtos de 103,67% do CDI enquanto as taxas dos respectivos produtos permanecerem.
Sobre a relação de bancos aprovados, o BMG será integrado no próximo relatório. Como estamos formalizando a recomendação dele, para efeitos práticos ele já integra a relação de aprovados.
Espero ter ajudado,
Um abraço!