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Como analisar um título de crédito privado + Planilha atualizada da gestão de proventos da carteira Renda Total

Escrito por Fillipe Colus, Guilherme Cadonhotto, Luciana Seabra em RENDA TOTAL

7 min de leitura

Eu, Fê, adoro cozinhar. Sou um cozinheiro que aprendeu com os próprios erros (para não mencionar as panelas queimadas), mas também tive contato com algumas técnicas de pessoas que passaram por minha vida, como amigos, familiares e conhecidos.

Mais do que escolher bons ingredientes, dominar as técnicas utilizadas eleva o nível do prato feito a outro patamar, e uma das que considero mais importantes é o controle da temperatura. Para isso, podemos tanto contar apenas com os botões dos fornos ou fogões, quanto utilizar ferramentas, como um bom termômetro.

Com investimentos, é a mesma ideia. Ter conhecimento técnico, que vamos pegando com estudo e anos de prática, é essencial, mas também é importante contar com as ferramentas certas para as análises.

Uma delas é a curva de juros futuros, que já mencionamos diversas vezes em relatórios passados, como este e este. Entender seus conceitos e aplicações agrega mais conhecimento e coloca você num patamar diferenciado quando for avaliar títulos no mercado secundário de crédito privado e de renda fixa.

Mas vamos por partes!

Como esse assunto foi muito demandado por assinantes da série em lives, e-mails e no Instagram do Gui, resolvemos fazer um relatório dedicado aqui a fim de explicar esse conceito e sua aplicação na análise de investimentos.

Curva de juros futuros

Quando pensamos em juros nos investimentos, logo vem à mente a taxa Selic, o que não está errado. Ela é a taxa básica de juros da nossa economia, porém poucas pessoas sabem que temos também a curva de juros futuros. Mas o que é isso?

Basicamente, a curva de juros futuros é a expectativa do mercado de juros do dia de hoje até uma certa data no futuro – daí o nome juros futuros. Ela é definida pelos grandes participantes do mercado, que precisam defender suas posições de investimentos em juros utilizando um mecanismo chamado de contrato de futuro de DI, um derivativo.

Um derivativo é um mecanismo que tem prazo de vencimento e volume predefinido em reais, cuja finalidade é fazer a gestão de risco de juros da instituição financeira. É comum escutar que esses instrumentos são especulativos, e de certa forma eles são, pois os contratos firmam uma taxa futura, que é reflexo da posição da instituição financeira para determinada data – e, como tudo nessa vida, o futuro possui uma porção de incertezas associada.

Esses contratos podem ser negociados para diversas datas de vencimento, e a partir da média das taxas para cada data obtemos a curva de juros futuros do país. Dentre suas funcionalidades, a mais proeminente no mundo de renda fixa é marcar os títulos a mercado, isto é, definir o valor justo dos títulos públicos e de crédito privado, debêntures, CRIs e CRAs.

Uma segunda e também muito importante função é definir o valor de remuneração dos títulos públicos prefixados e indexados à inflação. Aqui, vale salientar que essa informação é pública e pode ser consultada no portal da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), que representa as instituições do mercado financeiro.

Acessando os dados da Anbima

Antes de acessar a plataforma da Anbima, é importante citar alguns pontos. Um deles é sobre os nomes técnicos dos títulos. Por se tratar de um órgão regulador, a associação usa a terminologia técnica. Assim, é importante saber de qual título estamos falando para evitar qualquer confusão na hora da pesquisa.

Você vai se deparar com cinco tipos de títulos:

  • Letras Financeiras do Tesouro (LFT) ou Tesouro SelicTítulos pós-fixados comumente chamados de Tesouro Selic, os de menor risco de mercado.
  • Títulos pós-fixados comumente chamados de Tesouro Selic, os de menor risco de mercado.
  • Letras do Tesouro Nacional (LTN) ou Tesouro PrefixadoTítulos prefixados mais comuns no mercado, estes não possuem pagamento de cupom de juros semestrais.
  • Títulos prefixados mais comuns no mercado, estes não possuem pagamento de cupom de juros semestrais.
  • Nota do Tesouro Nacional Série B (NTN-B) ou Tesouro IPCA+ (com e sem juros semestrais)Títulos públicos indexados à inflação, tanto com quanto sem pagamento de juros semestrais.
  • Títulos públicos indexados à inflação, tanto com quanto sem pagamento de juros semestrais.
  • Nota do Tesouro Nacional Série F (NTN-F) ou Tesouro Prefixado com juros semestraisTítulos prefixados com pagamento de cupom de juros semestrais.
  • Títulos prefixados com pagamento de cupom de juros semestrais.
  • Nota do Tesouro Nacional Série C (NTN-C)Títulos públicos indexados ao IGP-M, que já não são emitidos pelo Tesouro Nacional.
  • Títulos públicos indexados ao IGP-M, que já não são emitidos pelo Tesouro Nacional.

Para acessar os dados mais atualizados dos títulos públicos, vá até o site da Anbima e siga os seguintes passos:

  1. Clique: “Informar”;
  2. Clique: “Preços”;
  3. Clique: “Taxas de Títulos Públicos”;
  4. Clique: “Consulta às taxas médias de títulos públicos”;
  5. Clique: “Consultar”.

A partir do quinto passo, você vai se deparar com a tabela a seguir. As informações mais importantes aqui são a data de vencimento e a taxa indicativa – destacadas pelo quadro verde. Elas servirão como guias para a análise do título de crédito privado.

Fonte: Anbima
Fonte: Anbima

É fundamental lembrar também de comparar títulos de mesmo indexador, prefixado com prefixado, indexado à inflação com indexado à inflação. Para isso, vamos mostrar um exemplo de como fazer a análise de dois títulos prefixados e um indexado à inflação.

Aqui, vale frisar que estamos avaliando apenas a taxa dos títulos privados. Antes de adicionar qualquer título de crédito privado na carteira, é importantíssimo analisar também a qualidade creditícia do emissor, ou seja, se ele é um bom pagador ou não, uma análise mais complexa e individualizada que já abordamos neste relatório.

Exemplo 1 – CDB prefixado do Banco Rodobens

Aqui é importante falar que não estamos analisando a qualidade do emissor (no caso, o Banco Rodobens), mas apenas a taxa. Como vamos demonstrar neste exemplo, esse ativo vai se mostrar uma opção ruim de investimento por conta da taxa, e não será necessário entrar no detalhe de uma análise mais profunda da qualidade creditícia do emissor.

Fonte: XP Investimentos
Fonte: XP Investimentos

Vamos nos valer de um título prefixado, e marcamos em vermelho as informações mais importantes na análise, o vencimento (15/3/2023) e a taxa do ativo (12,80% a.a.). Em seguida, consultamos a tabela dos títulos prefixados da Anbima (as LTNs disponíveis na plataforma), e o primeiro ponto é que talvez não encontremos a mesma data do título. Esse é um problema bem comum, e a solução mais usual é utilizar o ponto mais próximo do vencimento para ter essa ideia comparativa – no caso, o do dia 1º/4/2023.

Fonte: Anbima
Fonte: Anbima

Ao selecionar a linha referente na tabela, a maneira adequada de interpretar as informações obtidas aqui é: um título público prefixado equivalente ao CDB do Banco Rodobens de prazo semelhante remunera o capital do investidor ou da investidora em 13,25% ao ano.

Você já deve ter notado o problema. O CDB do Banco Rodobens está pagando menos que um título público, uma remuneração de 12,80% a.a., ao passo que um título público de prazo equivalente remunera a 13,25% a.a. Sendo assim, esse título de crédito é descartado como uma opção válida de investimentos e não é necessário fazer mais nenhuma análise.

Exemplo 2 – CDB prefixado do Banco Daycoval

Friso novamente que estamos analisando apenas a taxa neste exemplo, e não a qualidade creditícia do Banco Daycoval.

Fonte: XP Investimentos
Fonte: XP Investimentos

Com base na tabela do exemplo anterior, vemos novamente que não existe uma data com esse vencimento exato. Mas, por coincidência, ao considerar o mais próximo, é a mesma linha usada para comparar o título do Banco Rodobens.

Sendo assim, neste caso temos um título mais interessante que um título público, pois ele tem uma rentabilidade superior para o mesmo prazo de vencimento, que paga segundo tabela da Anbima 13,25% ao ano.

Exemplo 3 – CDB IPCA+ do Banco XP

Como a mesma análise pode ser feita também para os títulos indexados à inflação, vamos usar o título abaixo no próximo exemplo:

Fonte: XP Investimentos
Fonte: XP Investimentos
Fonte: Anbima
Fonte: Anbima

O passo a passo para obter a tabela com os dados de títulos indexados à inflação é o mesmo, sendo que você deve escolher os ativos descritos como NTN-B na plataforma da Anbima, pois vamos analisar um título IPCA+. No caso, a maneira adequada de interpretar as informações é: um título público indexado à inflação equivalente ao CDB do Banco XP de prazo semelhante remunera o capital em IPCA+ 5,92% ao ano.

Você já deve ter notado que esse título não é interessante, pois remunera o capital investido abaixo do que paga um título público. Via de regra, para ser interessante, um título de crédito privado tem que possuir uma remuneração acima daquela de um título público de prazo semelhante, uma vez que um título de crédito privado:

  • Tem emissor com risco de calote maior do que o governo federal (“emissor” do título público);
  • Possui menor liquidez (dificuldade de se desfazer do ativo) do que um título público;
  • Não tem marcação a valor de mercado, ou seja, você não sabe o valor real do seu ativo naquele momento.

Dados esses três fatores cruciais, é imprescindível cobrar um retorno maior para emprestar dinheiro para um banco ou empresa, não é mesmo?

Planilha para auxiliar no reinvestimento dos dividendos

Antes de fechar este relatório, trouxemos a versão atualizada da planilha que vai auxiliar você a reinvestir todos os proventos recebidos na sua carteira. Por se tratar de um tema fundamental para a estratégia, tratamos disso num relatório dedicado, que pode ser acessado aqui. Resumidamente, os principais pontos de atenção são:

  • Evite rebalancear os percentuais da carteira em demasia. Recomendamos fazer a cada três ou mais meses, ou a cada alteração feita na carteira por nós;
  • A planilha pode indicar para você que o percentual de determinado ativo ou setor está acima do recomendado por nós, mas isso não indica uma ordem de venda. No caso, estamos apenas demonstrando que você deve dar prioridade para investir em outros ativos da carteira a fim de balancear os percentuais.

De qualquer forma, recomendamos a leitura na íntegra do relatório que publicamos no dia 23/06/2021 para você entender como usar a planilha.

Um diferencial da última planilha é que agora você possui um maior nível de personalização. Nesta é possível selecionar:

  • Se é ou não investidor qualificado
  • Se possui ou não a debênture CVRDA6
  • Se segue a carteira Renda Total ou a Renda Total Alternativa

Customização na Planilha

Fonte: SpitiPlanilha Auxiliar - 26/05/2022Baixar
Fonte: SpitiPlanilha Auxiliar - 26/05/2022Baixar

Conclusão

Aprender uma nova habilidade é complexa, e eu sei disso, pois já me queimei muito na cozinha. Nos investimentos eu também já “me queimei” bastante, não se engane! Mas depois que eu aprendi como consultar a taxa de um título público e como compará-la com a de um título de crédito, já evitei muitos ativos ruins na minha carteira apenas nessa etapa.

Ter acesso a essa ferramenta, cujo acesso é gratuito e os dados são abertos ao público, vai te deixar à frente de muita gente no ramo de investimentos.

E esperamos também que a versão atualizada da planilha ajude você na sua jornada de reinvestir os seus dividendos e balancear sua carteira.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Luciana Seabra

Fundadora

Fundadora da Spiti, uma das maiores casas de análise do Brasil, Luciana Seabra é reconhecida por sua abordagem clara e acessível para explicar assuntos complexos relacionados ao mundo financeiro para o público em geral.