Relatórios

Como escolher entre as duas opções de carteira da série Renda Total + Novos percentuais da carteira alternativa

Escrito por Luciana Seabra, Guilherme Cadonhotto, Fillipe Colus em RENDA TOTAL

9 min de leitura

Eu, Fê, sempre viajei muito durante minha vida, principalmente para o Centro-oeste do país. Um trajeto em específico continua guardado na minha memória, por ter feito muitas vezes, o da minha cidade natal, Ribeirão Preto, com destino à Brasília.

Durante a noite, pegávamos a estrada e, independentemente do dia, lembro que o frio sempre era um companheiro de viagem, diferente do usual calor do interior. O trajeto era longo, quase 800 km de estrada, a viagem durava 12 horas num dia bom e 11 horas se tivéssemos com muita sorte.

Isso porque eu fazia questão de viajar de ônibus, mesmo com plenas condições de pegar um avião. Inclusive, a viagem seria reduzida para 1h40 e o custo aumentaria apenas 25%.

Então, por que escolhia a alternativa mais longa?

Quem me conhece sabe que gosto muito de estar com pessoas e, durante as viagens de ônibus, eu tinha a chance de conhecer a história de gente que nunca mais ia rever. Gostava de escutar o que tinham para falar sem nenhuma razão a não ser escutar.

E, quando a noite caísse, poderia dormir vendo uma das mais lindas cenas, que é o céu estrelado do sertão brasileiro, sem nenhuma luz por perto para atrapalhar a paisagem.

A viagem era dura, o sono às vezes, perturbado, mas valia todo o esforço. Eu nunca teria a chance de escutar as histórias que ali conheci e ver céus que observei se estivesse num avião. Essa era a alternativa certa para mim e a que escolhi por muitos anos.

Assim como nas minhas viagens, que podia escolher entre viajar de ônibus ou avião, aqui na nossa série Renda Total temos duas opções de carteira: a original e a alternativa. E o mais importante é escolher a que se encaixa melhor para cada pessoa.

Ambas as carteiras possuem o mesmo objetivo: o de ser boas pagadoras de dividendos e garantir ganhos de capital no médio e longos prazos. Porém, as duas carteiras vão te entregar isso de formas diferentes – similar à escolha do meu meio de transporte para uma viagem que vai levaria ao mesmo lugar, mas, de modos diferentes. Então, é importante identificar qual é a melhor para você.

Além de ajudar você a identificar qual a melhor carteira para você, no fim deste relatório vamos propor algumas alterações na carteira alternativa Renda Total.

Hoje, vamos fazer um total de quatro movimentações na carteira alternativa:

  • Venda de 5% do MCCI11 - Mauá Capital Real Estate
  • Compra de 2,5% da LCA com juros mensais do BTG Pactual de 2 anos
  • Compra de 1,5% do RBRF11 - RBR Alpha Multiestratégia Real Estate
  • Compra de 1,0% do HGRU11 - CSHG Renda Urbana

Sobre a carteira alternativa

No semestre passado, apresentamos a opção de carteira alternativa na nossa série Renda Total. Não estamos falando de uma carteira completamente diferente; na verdade, as carteiras possuem quase os mesmos ativos, mas são diferentes em um ponto importante: a recorrência de pagamentos de dividendos. Na carteira alternativa, esse fluxo de dividendos é mais constante.

Veja como fica a divisão percentual na carteira original quando comparada com a alternativa:

Fonte: Spiti

O aumento da previsibilidade dos dividendos acontece devido ao maior peso nos ativos com maior previsibilidade no pagamento de dividendos mensais, sem deixar de lado o potencial retorno de capital no médio e longo prazos.

Independentemente de suas diferenças percentuais, as duas carteiras mantêm alguns princípios que são inegociáveis aqui na nossa série, que são: a escolha de bons ativos pagadores de dividendos, ativos que possuem potencial de ganho de capital no médio e longo prazos e otimização da relação risco vs retorno para um portfólio diversificado de renda.

Similaridades e diferenças das carteiras Renda Total

Antes de falarmos o que as duas carteiras possuem de diferente, vamos falar das similaridades. Então, o que essas carteiras possuem em comum?

As oscilações diárias é uma delas, mesmo com uma concentração maior em FIIs, ativos com menor variação diária, a oscilação da carteira alternativa continua sendo um fator a ser considerado, uma vez que ambas possuem majoritariamente ativos listados em Bolsa e ativos de longo prazo de renda fixa.

Dessa forma, são ativos que vão balançar de um dia para o outro por conta do risco de mercado, por isso que é essencial manter o foco no médios e longo prazos quando investir, independentemente da sua escolha.

Fonte: Spiti

Outro ponto importante: ambas as carteiras possuem, sim, o mesmo objetivo, que é garantir bons pagamentos de dividendos e capturar boas oportunidades de investimentos através dos ganhos de capital, investindo em ativos resilientes com forte embasamento analítico e qualitativo. Para fazer isso, contamos a ajuda de toda a equipe de analistas aqui da Spiti!

Quando vamos analisar um segmento específico, contamos com o auxílio de cada especialista da casa que contribui com sua expertise. Os investimentos em Bolsa contam com a análise da Aline Tavares, analista de ações, os FIIs, com a do Ricardo Figueiredo, os fundos de investimento, com a análise da própria Lu Seabra e equipe, e os de renda fixa ficam sob nossos cuidados, Fê e Gui Cadonhotto.

Agora, a grande diferença entre elas, e que já mencionamos antes, é a previsibilidade dos dividendos pagos. A carteira alternativa possui um foco maior nos ativos que pagam mensalmente dividendos, ao passo que a carteira original já é mais flexível quanto a esse pagamento.

Veja a seguir a diferença percentual em carteira atualmente dos ativos que pagam dividendos de forma mensal e semestral.

Fonte: Spiti

E, quanto ao investimento mínimo das carteiras, o de ambas são muito próximos, por possuírem majoritariamente ativos listados em Bolsa.

Mas então se elas são tão parecidas, como escolher entre elas, Fê?

Gostamos de simplificar a escolha de acordo com o objetivo de quem investe.

Se o seu objetivo é mais voltado para a previsibilidade de dividendos, ou seja, se você já usa parte dos seus investimentos para pagar as contas da casa ou prefere usufruir dos ganhos passivos de capital, sem ter a necessidade de reinvestir. Se você já está com o patrimônio num nível visto como ideal e os frutos da renda passiva já são suficientes para suprir alguns ou todos os seus gastos fixos ­– gastos básicos mensais como aluguel, gastos com saúde, educação dos filhos e alimentação, entre outros. Para essa pessoa a carteira Renda Total alternativa é uma melhor opção na nossa visão

Agora, se você está iniciando sua jornada no mundo de investimentos e o seu foco é no acúmulo de capital, e você pretende utilizar os dividendos como potencial forma de aumentar os seus ganhos reinvestindo-os, uma vez que isso agiliza o processo de acúmulo de capital, como já mostramos em relatório passado, indicamos a carteira Renda Total original. Essa opção é a mais indicada caso você ainda não esteja com o patrimônio no nível visto como ideal e os frutos da renda passiva ainda não são suficientes para suprir nenhum ou poucos de seus gastos fixos.

Sobre as alterações na carteira alternativa

Hoje vamos propor quatro alterações na carteira alternativa, muito em linha com a que fizemos na semana passada. Vamos retirar nossa parcela de 5% de MCCI11, pois nossa fatia em fundos de FIIs está muito carregada e atualmente compreende 36% de todos os FIIs. No momento, queremos diversificar e capturar boas oportunidades sem deixar de lado a recorrência de pagamentos, portanto, vamos às alterações:

  • Venda de 5% do MCCI11
  • Compra de 2,5% da LCA com juros mensais do BTG Pactual
  • Compra de 1,5% do RBRF11
  • Compra de 1,0% do HGRU11

O motivo da troca do nosso percentual de papel, como disse, é muito similar com o movimento que fizemos semana passada, na carteira original. A parcela de FIIs de papel é notoriamente a categoria que possui uma proteção extra contra volatilidade, beneficiou-se com os resultados extravagantes de inflação e das altas de juros que vimos em 2020 e 2021, e foi responsável por boa parte da proteção da nossa carteira.

Porém, não é sábio manter uma posição tão pesada – no nosso caso, de 36% – por muito tempo. Vemos o momento atual com bons olhos para fazer essa transição para as alterações que recomendamos acima. Vale lembrar que essas alterações são válidas para a carteira alternativa. A carteira original já teve seus percentuais ajustados no relatório de semana passada.

Sobre as novas recomendações para a carteira alternativa

Vamos trazer netsa seção as últimas atualizações sobre as recomendações de hoje. Todos os ativos que estamos recomendando já são antigos conhecidos nossos, com exceção do RBRF11, que entrou para nossa carteira na semana passada.

RBR Alpha Multiestratégia Real Estate (RBRF11)

A adição de 1,5% do RBRF11, da categoria de fundo de fundos, vem em um momento propício para aumentar nossa diversificação no setor de FoFs, que era composto até então por apenas um fundo, o BCFF11, que acompanha nossa carteira desde sua criação.

O histórico de distribuições do RBRF11 mostrou crescimento entre 2018 e 2019. No entanto, ao longo de 2020, por conta dos efeitos da pandemia, sofreu duras perdas, que se estenderam em 2021 devido ao difícil cenário para os fundos de fundos.

A recuperação esperada é outro motivo para adicioná-lo à carteira. Inclusive, o segmento de FoFs foi o que mais sofreu desde o fim da pandemia, e o balanço de risco vs retorno para esses ativos na nossa visão é positivo.

Fonte: Quantum | Elaborado por Spiti

Levando em consideração o valor da sua cota de mercado no fechamento do dia 9/4/2022, a atual distribuição anual de dividendos calculada é de 10,1%. E, se levarmos em consideração o preço da sua cota patrimonial do mês de março/2022, a taxa de dividendos é de 8,57%.

Atualmente, a cota de mercado do RBRF11 está precificada com um desconto de 14,28% perante sua cota patrimonial de março, como mostramos no relatório da semana passada. Isso implica um desconto ainda maior nos tijolos (ativos físicos) que o fundo possui em carteira, os dados mais atuais mostram que o desconto atual nos tijolos do fundo é de 25,46%.

LCA Prefixada do BTG Pactual de 2 anos com pagamento de juros mensais

Seguindo nossa lista de adições, vamos acrescentar 2,5% da carteira alternativa em um ativo bancário cujos rendimentos, que são mensais, são líquidos de IR. Quando compramos um título de renda fixa, estamos adquirindo o risco de crédito do emissor, que no caso da nossa recomendação é o BTG Pactual, o maior banco de investimentos da América Latina.

Atualmente, com 38 anos de história, o BTG Pactual acumula R$ 1,04 tri sob custódia. Possui Índice de Basileia (IB) considerado alto, no valor de 15,0% segundo as últimas informações do seu relatório de 1T22. Com lucro líquido reportado no valor de R$ 6,5 bilhões em 2021, o BTG apresenta um histórico robusto de resultados alinhado com bom controle de risco.

No último trimestre, reportou recorde de receitas e lucro no trimestre com ROAE (retorno sobre patrimônio ajustado) no maior nível dos últimos seis anos, 21,5%, acima da média dos bancos brasileiros.

Fontes: Spiti e BCB

As LCAs prefixadas com juros mensais são boas oportunidades para nossa carteira alternativa. Elas estão disponíveis apenas na plataforma do banco.

Fonte: BTG

A LCA que recomendamos hoje tem vencimento em 2 anos e paga 1,25% a.a a mais que um título público de mesmo vencimento. Conforme nossos cálculos, a cada R$ 1 mil investidos, será pago mensalmente o valor de R$ 9,27. Lembre-se que por tratar de um título de renda fixa o valor da taxa varia dia a dia, então para assegurar que está adquirindo o título corrento quando procurar esse ativo no aplicativo procure o com vencimento de 2 anos e com pagamento de juros mensais

CSHG Renda Urbana (HGRU11)

Nossa última adição é, na verdade, um incremento, uma vez que já temos o HGRU11 em carteira, na proporção de 1%.

O HGRU11 é o nosso único FII do segmento renda urbana. Ele teve início em 2018, com apenas um imóvel sob gestão, e hoje já possui mais de R$ 1,8 bi emimóveis segundo seu relatório de abril de 2022. Com uma lista de excelentes inquilinos e 431 mil m² de ABL (área bruta locável), o fundo não possui nenhum nível de vacância, um fato impressionante!

Recentemente, o HGRU11 anunciou no relatório gerencial de março que a equipe de gestão estudava a possibilidade de elevar o nível de renda recorrente do FII para este semestre por conta dos níveis do fluxo de caixa, impactado positivamente por reajustes de aluguéis por IGP-M em dezembro e fevereiro, conforme contratos, e pela geração de aluguel complementar de locatários que têm essa cláusula em seus respectivos contratos de locação.

Em seu último relatório, de abril de 2022, o fundo divulgou dois eventos extraordinários no mês que compreendem a venda de duas lojas das Pernambucanas.

A distribuição por cota subiu de R$ 0,76 em fevereiro para R$ 0,82 em março, e o fundo manteve o patamar de distribuição em abril. O atual nível de distribuição de dividendos coloca a taxa de dividendos anualizada do HGRU11 em 9,15% a.a.

Atualizações feitas, vamos agora aos novos percentuais da carteira alternativa:

Novos percentuais da carteira alternativa Renda Total

Conclusão

Sabemos que nem sempre o caminho a se seguir é fácil, principalmente quando falamos de escolhas de investimentos. E foi com esse objetivo, de auxiliar na sua decisão de qual carteira seguir, que fizemos este relatório de hoje.

Como vocês podem ter notado, essa escolha é extremamente pessoal. Já deixamos claro que o nível de risco, o quanto os ativos balançam dia a dia, não muda muito entre elas, e o valor mínimo de investimento de cada uma é muito próximo.

Vale lembrar que ambas as carteiras possuem o mesmo rigor de análise e crivo no processo de decisão quanto aos percentuais e exposição setorial, e as duas têm o mesmo objetivo central, que é receber bons dividendos e sem deixar de lado ganhos de capital no médio e longos prazos.

Então, fica a critério de vocês escolher qual é a carteira ideal de acordo com os objetivos esperados dos seus investimentos, o destino dos proventos recebidos e, principalmente, levando em conta o seu momento de vida.

Só para recapitular: indicamos a carteira alternativa para quem já usufrui da renda passiva e não reinveste mais os dividendos, e a carteira original para quem ainda está na jornada da liberdade financeira e reinveste os dividendos para potencializar os ganhos.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Luciana Seabra

Fundadora

Fundadora da Spiti, uma das maiores casas de análise do Brasil, Luciana Seabra é reconhecida por sua abordagem clara e acessível para explicar assuntos complexos relacionados ao mundo financeiro para o público em geral.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.