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Como funciona uma análise profissional de fundos

Escrito por Rodrigo Xavier em FUNDOS

18 min de leitura

Neste relatório, você encontrará:

  • O nosso checklist com os pontos que consideramos mais importantes em uma análise qualitativa, ou seja, tudo aquilo que vai além dos números;

  • Os principais indicadores que utilizamos na análise quantitativa para monitorar os fundos recomendados e prospectar novas oportunidades;

  • Uma explicação breve sobre as rotinas de trabalho de uma análise profissional de fundos, as quais garantem que tudo ocorra da melhor maneira possível.

Fala, pessoal!

Recentemente eu, Rodrigo, estava conversando com os outros analistas da Finclass sobre qual poderia ser um tema de leitura leve para dezembro. Tinha que ser algo interessante, que ajudasse a matar alguma curiosidade dos investidores e investidoras da Finclass.

O 2º semestre de 2025 foi intenso na área de fundos: muitas reuniões com gestores, ajustes na lista de fundos aprovados, prospecção de novos nomes, tratamentos de temas regulatórios, enfim, um tanto quanto agitado.

Agora, temos uma janela de oportunidade para trazer um conteúdo mais conceitual. Foi aí que me veio a ideia: e se eu explicasse como funciona o meu trabalho e do time na análise profissional de fundos?

Tenho certeza alguns de vocês já têm uma noção de como é, mas e se eu destrinchasse um pouco mais, criando uma espécie de “miniguia” do nosso dia a dia?

Com esse espírito, preparei o relatório de hoje. A ideia é mostrar, de forma simples e direta, como funciona o processo, os desafios e também as partes legais (sou suspeito para falar, porque realmente gosto muito do que faço) de uma análise profissional de fundos.

Vamos nessa?

Antes de nos aprofundar, vamos conhecer os principais vetores de análise

Segundo dados da ANBIMA, a indústria de fundos conta hoje com um patrimônio de R$ 10,6 trilhões sob gestão e 33 mil fundos ativos. Além disso, trata-se de um mercado que evolui continuamente, tanto em tamanho quanto nos aspectos regulatórios.

Recentemente passamos por uma transformação importante com a Resolução 175, a qual alterou diversas questões no modus operandi da indústria, que explicamos com mais detalhes no relatório publicado em julho deste ano (link).

Se para alguns basta avaliar a rentabilidade passada e as credenciais básicas do gestor, saiba que uma boa análise de fundos vai muito além, exigindo processos bem definidos, fortes laços de relacionamento com equipes de gestão e capacidade técnica do time de análise.

Em linhas gerais dividimos nossa análise sob duas óticas principais que são:

  • Análise qualitativa: aqui avaliamos várias questões, como a capacidade dos times de gestão de gerar bons desempenhos no futuro, como lidam com seus processos internos, se a cultura empresarial da gestora está em linha com o esperado, a reputação do time e sua diligência nos aspectos regulatórios, entre outros. Além disso, também entra a nossa capacidade como analistas de fundos de mapear os riscos não visíveis nos números e ter boa intuição na hora de investigar cada ponto.
  • Análise quantitativa: focada nos números, onde utilizamos técnicas estatísticas para monitorar retorno, riscos, aderências e outros.

Para cada uma dessas “grandes áreas” que citei, temos que cumprir diversas rotinas e o tradicional checklist do analista de fundos. Cada um dos pontos, detalharemos a seguir

Análise qualitativa

Começamos pela análise qualitativa, pois a consideramos até mais importante do que a quantitativa.

Afinal, de que adianta ter performado bem no passado se não mostra o mínimo de condições para manter uma boa performance à frente?

É claro que faz parte do nosso trabalho olhar as rentabilidades e outras métricas estatísticas voltadas aos números, das quais trataremos mais à frente, mas temos a convicção de que os números, sozinhos, não revelam tudo e por vezes podem não revelar nada.

É na análise qualitativa que distinguimos bons gestores dos medianos e amadores.

Sinais de fragilidade operacional, falta de alinhamento entre os sócios, problemas de governança, mudanças relevantes na equipe ou rupturas no processo de investimento são aspectos que só se identificam quando se possui uma estrutura de análise de fundos robusta, metodologias e acesso a ferramentas profissionais.

Como costumo dizer, no fim do dia o analista de fundos é também um analista de empresas, pois cada gestora é uma empresa com vida própria e cabe a nós investigarmos como essa “gestora/empresa” está se comportando mediante os diversos desafios impostos pelo mercado financeiro e empresarial.

As percepções intangíveis têm seu valor: conhecer os gestores e as equipes das casas, passar tempo conversando com eles, por vezes ter seus contatos no WhatsApp para esclarecer dúvidas rápidas, ler atentamente os materiais publicados dos gestores, observar como lidam com crises e até inferir, a partir de suas personalidades, como enfrentarão problemas futuros. Isso só o tempo e a experiência do time de análise de fundos permitem.

No mundo da análise de fundos, costumamos citar os 4 Ps: performance (que trataremos na seção de análise quantitativa), processos, pessoas e, mais recentemente, partnership. Embora partnership dialogue com pessoas e processos, ganhou seu próprio “P” por representar a capacidade de alinhar interesses em projetos de longo prazo em uma cultura bem definida, o que é fundamental para este tipo de negócio (gestão de fundos).

Elaboração: Finclass

A seguir, explicamos cada um deles:

>>> Processos

Processos sólidos protegem pessoas e empresas dos erros tolos e dos próprios vieses humanos.

A robustez nos processos separa as estruturas consistentes e dignas de uma recomendação da Finclass das gestoras amadoras e cheias de improviso.

Veja alguns componentes que julgamos essenciais no nosso checklist:

  • Processos de investimentos bem estruturados (ligado à forma como se dá a tomada de decisão de investimento);
  • Definição clara do objetivo de retorno e limites estabelecidos para alcançá-lo;
  • Comitês formais de investimentos como parte da rotina (isso também é exigência regulatória);
  • Mapeamento de riscos bem definidos;
  • Rotinas de monitoramento;
  • Relacionamento com reguladores;
  • Controles internos e cultura de compliance.
  • Outros.

Por vezes, nas reuniões de rotina, pedimos que nos mostrem seus painéis de controle (dashboards) e fazemos perguntas mais específicas, mediante as características do fundo em pauta, para observar como nos respondem e lidam com os diversos temas.

Somos uma espécie de auditor que questiona processos, não que façamos isso para pressioná-los, mas eles mesmos sabem que faz parte do rito e que processos bem definidos e executados são importantes para uma gestora gerar valor aos seus cotistas ao longo do tempo.

O mais importante é estar sempre atento para verificar se os processos continuam bem amarrados e avaliar, quando necessário, as mudanças que se fizerem pertinentes.

>>> Pessoas        

As pessoas são o maior ativo de qualquer empresa, então também vale para uma gestora de fundos de investimento!

Sobretudo nos momentos mais críticos, e eles são inevitáveis, quem carrega o piano são as pessoas, não os “modelos”. Em qualquer empresa, é quem faz acontecer com suas ideias, talentos, capacidades técnicas e interpessoais.

Veja alguns dos principais aspectos analisados em nosso checklist:

  • Formação acadêmica e técnica do time de gestão;
  • Histórico profissional e reputação;
  • Experiência em diferentes ciclos de mercado;
  • Tempo do time trabalhando juntos (sinergia interna);
  • Rotatividade na equipe;
  • Senioridade dos responsáveis pela área de suporte, como risco, compliance, trading etc.;
  • Entre outros.

Para além das nossas reuniões rotineiras com os times de gestão, nos bastidores contamos também com a opinião de amigos pessoais e profissionais que trabalham nas assets, participamos de grupos com alocadores e profissionais do mercado, entre outras questões que nos permitem avaliar num grau mais profundo os movimentos.

Isso também nos ajuda a avaliar situações mais estruturais relacionadas a saídas e chegadas de profissionais nas gestoras.

Há toda uma “rede de informações conectada” por meio das nossas rotinas que nos habilita entender o que está acontecendo e saber quem está por trás das coisas.

Nosso trabalho também tem um lado investigativo. Para vocês terem uma ideia, acompanhamos movimentações no LinkedIn, mantemos quadros de estrutura organizacional atualizados em nossas rotinas, entre outras práticas.

Em suma, o ponto que quisemos trazer aqui foi que as pessoas são fundamentais dentro de uma boa estrutura de gestão, e o time da Finclass é extremamente atento em se cercar de informações e processos internos para deixar escapar o mínimo possível.

>>> Partnership

Gestoras com forte cultura societária tendem a entregar resultados melhores e mais consistentes no longo prazo.

Veja alguns elementos-chave do nosso checklist:

  • Quem são os sócios com maior participação? De quanto?
  • Existe concentração excessiva a depender do negócio?
  • Há política clara de entradas, saídas e diluições na sociedade?
  • Existe modelo de sócio e associado? Quem se enquadra neles?
  • Como os sócios investem o próprio dinheiro? Eles investem nos fundos da própria gestora?
  • A remuneração fixa e variável da equipe cria incentivos de longo prazo ou apenas de curto prazo?

Para algumas dessas perguntas não existe certo nem errado, mas é importante entender como a gestora lida com suas próprias justificativas e como elas se sustentam por si só.

Gestoras fragilizadas no âmbito de partnership tem uma propensão a incorrer em mais erros, como mudar processos de maneira pior para perseguir retorno ou captar recursos, perder mais pessoas boas durante a jornada entre outras questões.

Eu, Rodrigo, estou com 37 anos de idade, sendo 19 de mercado financeiro, e posso dizer que já vivenciei muita coisa no mundo empresarial. Uma delas foi a mudança na forma de pensar dos colaboradores das empresas no geral.

Digo isso porque sinto que, hoje, as pessoas têm uma necessidade maior de pertencer efetivamente a algo; caso contrário, trocam de lugar com muita facilidade.

Não estou dizendo que isso é ruim, na verdade tem inúmeros aspectos positivos nisso, porém é um tema que deve ser levado em consideração ao desenhar sua estrutura societária.

No mundo corporativo, isso precisa ser tratado com cuidado, pois quando alguém sai, leva consigo conhecimento e uma parte da história da empresa. Portanto, quanto maior o alinhamento de cultura, mais você preserva as pessoas comprometidas no longo prazo, mantendo esse estoque intelectual e cultural ao longo do tempo.

É por isso que o “P” de partnership ganhou tanta relevância: ele se tornou um mecanismo de alinhamento financeiro e cultural dentro de uma organização.

E chegamos ao fim do tópico. Gostaria de reforçar que, na análise qualitativa, contamos com diversos checklists para avaliar cada ponto, mas também existe uma dose de intuição, percepção do “olho no olho”, confiança nas pessoas e atenção à forma como elas se comportam. Por isso, a experiência do time — tanto com fundos quanto de vida — também pesa bastante. Afinal, estamos lidando com pessoas e empresas, não apenas com números isolados.

Análise quantitativa

A análise quantitativa costuma ser o primeiro filtro para separar fundos relevantes daqueles que não justificam um aprofundamento adicional. Ela não determina a decisão final, mas delimita o universo analisável.

Com mais de 33 mil fundos ativos na indústria, trabalhar sem filtros gera ineficiência e tempo perdido.

Além disso, usamos os números para verificar se um fundo recomendado está performando conforme o esperado, sem assumir riscos que não fazem parte do seu mandato.

A seguir, vamos abordar alguns pontos dessas duas frentes: a análise quantitativa para prospectar boas opções no mercado, delimitando o universo investigado, e o monitoramento contínuo no dia a dia.

>>> Análise quantitativa para prospectar boas opções no mercado

Antes de mais nada, para uma boa análise profissional, você precisa ter acesso a ferramentas profissionais, como o Quantum Axis, Economatica, Bloomberg, entre outros, só assim será possível aplicar os filtros da maneira correta e atingir o melhor nível de prospecção, a qual envolve números e bases cadastrais dos fundos.

As ferramentas gratuitas podem ser boas para conferências mais objetivas, mas para filtrar e analisar, é imprescindível ter algo mais bem estruturado.

Sempre que pensamos em uma recomendação, já temos alguns filtros pré-estabelecidos para delimitar o nosso universo de pesquisa, com as devidas especificidades para cada classe observada.

Por exemplo, imagine que vamos prospectar as melhores opções de fundos de renda fixa pós-fixados — poderia ser outra classe, mas escolhi uma delas para facilitar o entendimento. Veja alguns filtros aplicados.

·       O fundo precisa ser acessível para pessoas físicas (nossos assinantes), ou seja, deve estar disponível nas plataformas (corretoras e bancos) que consideramos confiáveis. As plataformas pagas nos ajudam nessa missão, mas vale ressaltar que temos conta nas corretoras e bancos para validar essas informações;

·       É desejável que o fundo analisado tenha ao menos R$ 30 milhões sob gestão, para que as despesas fixas não prejudiquem a performance. Vale destacar que esse valor pode se ajustar ao longo do tempo, seja por efeito inflacionário ou mudanças nas estruturas de custo dos fundos;

·       Complementarmente, avaliamos também o número de cotistas para verificar se o fundo realmente ganhou tração na distribuição; dependendo do caso, a partir de 25 cotistas já pode fazer sentido;

·       O fundo precisa pertencer às classes Renda Fixa ou Multimercados (existem estruturas de renda fixa pós-fixada que precisam estar na “casca” de multimercado para habilitar determinadas estratégias).

·       Deve ter “CP” no nome, pois isso indica que ao menos 50% da carteira está alocada em crédito privado. Para gerar excesso de retorno em relação ao CDI, é importante que o fundo mantenha uma parcela relevante em crédito privado (CDBs, debêntures, CRIs, etc.).

·       Conferimos a classificação Anbima para delimitar melhor a parcela de crédito privado, já que algumas classificações exigem maior alocação em títulos públicos. Isso nos ajuda a evitar erros nas bases de dados e a confirmar a aderência do fundo ao perfil procurado.

·       O prazo de resgate deve ser de 30 dias ou mais, pois consideramos essencial que o gestor tenha tempo hábil para se desfazer dos ativos sem depreciá-los em momentos de maior pedido de resgates por parte dos cotistas.

·       Dependendo do contexto, pode ser importante que o fundo tenha ao menos 12 a 24 meses de atividade, para que possamos avaliar sua performance. Em alguns casos, já conhecemos o histórico do gestor por meio de outros fundos que ele geriu; nesses cenários, cruzamos o desempenho do novo fundo com o histórico anterior.

·       Para evitar duplicidades, excluímos fundos espelho — aqueles que replicam exatamente a mesma estratégia e performance de outro fundo.

·       Conferimos e avaliamos as taxas cobradas. Historicamente, nosso foco era administração e performance, mas com a evolução da Resolução 175 da CVM agora temos acesso a detalhes adicionais, como taxa de distribuição, custódia e outros encargos. Avaliamos se o conjunto de taxas está alinhado ao risco da estratégia, à complexidade envolvida e ao que consideramos justo em termos de eficiência.

·       Após filtrar muito bem observamos as rentabilidades em diversas janelas temporais, as volatilidades, consistência em janelas móveis, índice de Sharpe, máximo drawdown e outros.

·       Outro ponto importante é que, no caso dos fundos de renda fixa pós-fixados, é fundamental que o fundo tenha um grande número de ativos, diluindo o peso individual de cada um na carteira. Isso porque, quando um ativo de crédito apresenta problemas, ele pode valer zero. Para evitar que um evento isolado gere um impacto relevante na carteira como um todo, é fundamental contar com maior diversificação.

Nós nem chegamos a entrar nos detalhes específicos, senão estenderíamos neste ponto, mas deixamos claro quais são algumas das etapas que consideramos importantes para avaliar a indústria de fundos de forma ampla e dentro das possibilidades aceitáveis para uma recomendação.

Por meio desses filtros, chegamos aos nossos peer groups de análise (grupos de fundos comparáveis entre si e potencialmente recomendáveis).

Com os grupos definidos, chegamos a nossa lista de fundos aprovados (recomendados) e também a nossa “lista B”, que reúne fundos de que gostamos e monitoramos quase tão de perto quanto os recomendados, pois podem entrar na lista oficial a qualquer momento.

>>> Análise quantitativa para monitorar os resultados dos fundos elegíveis à recomendação

Um dos maiores erros na análise de quem não é especialista do tema é olhar apenas performance acumulada desde o início ou o retorno nos últimos doze meses. A análise profissional é dinâmica e contextualizada.

O objetivo não é julgar o gestor por períodos curtos, mas identificar mudanças de comportamento, avaliar aderência à estratégia, verificar se eventos específicos explicam desvios relevantes, entre outros.

Por exemplo, cada classe tem um horizonte mínimo de tempo para uma correta avaliação de performance:

  • Renda fixa pós: Pelo menos 1 ano;
  • Multimercados: Pelo menos 3 anos;
  • Ações: Pelo menos 5 anos.

Avaliar fora do horizonte adequado gera conclusões equivocadas. Além disso, quando ocorrem eventos específicos, como a pandemia de COVID-19, esse horizonte pode se estender, já que o mercado quebra padrões de comportamento por um período.

A seguir, vamos explicar brevemente os principais indicadores que utilizamos para fazer nossos monitoramentos:

·       Retorno Nominal: trata-se do rendimento absoluto fundo, que de certa forma é a métrica mais usual e utilizada pelas pessoas. No caso dos fundos convencionais, essa rentabilidade observada já inclui possíveis dividendos reinvestidos e é líquida de todas as taxas pagas aos prestadores. Só não é líquida do Imposto de Renda.

·       Retorno nominal anualizado: pressupõe qual seria o retorno anual médio caso pegue uma janela temporal diferente de um ano. Como por vezes lidamos com históricos mais longos, é possível que vejamos valores muito elevados, o suficiente para prejudicar nossa capacidade de interpretação, portanto, o retorno anualizado pode ser importante na compreensão dos dados.

(Retorno Nominal em % + 1) (1/n) – 1

Onde “n” é o número de períodos analisados.

·       Consistência em janelas móveis: esse indicador mede a frequência com que um ativo ou carteira supera uma referência (CDI, por exemplo) em determinada janela temporal móvel. Em outras palavras, avalia quantos dias, em percentual, o ativo teve desempenho superior ao seu referencial, considerando diferentes momentos de entrada no investimento. Assim, somos capazes de monitorar a estabilidade do desempenho do ativo ao longo do tempo.

Por exemplo, suponha que a carteira tenha começado em 31/12/2010 e utilizamos uma janela móvel de 3 anos para análise. Logo, o primeiro dia considerado para compor o cálculo será 31/12/2013, quando a carteira completa 3 anos. Nesse dia, comparamos o retorno acumulado com o da referência escolhida e verificamos se ele teve um desempenho superior. No próximo dia útil, o primeiro de 2014 neste exemplo, movemos a janela um dia à frente e repetimos o processo. Cada dia marcará uma perda ou vitória contra a referência, e a consistência nessa análise será o percentual de dias vencedores.

Importante: gostamos bastante dessa métrica. Ela mostra estabilidade de performance e resiliência ao longo de diferentes ciclos. Fundos que tiveram “sorte” no começo e carregam um retorno acumulado bom só por causa disso acabam facilmente expostos numa análise mais cuidadosa de consistência — afinal, de nada adianta ir bem no primeiro ano e entregar 10 anos seguintes bem “meia-boca”.

·       Volatilidade: a volatilidade é medida pelo desvio padrão e serve para avaliar o “risco” é comumente utilizada para monitorar os riscos de um fundo. Trata-se de um indicador estatístico que serve para medir a frequência e a intensidade com que o preço de um ativo se distancia da sua média e pode oscilar (o mesmo se aplica a fundos ou carteiras de investimentos).

No mercado, é comum analisar essa métrica em termos anuais. Explicando de maneira muito objetiva e sem grandes preocupações com a parte técnica, é como se identificássemos quanto nossa carteira poderia oscilar em um ano (para cima ou para baixo), de acordo com a média de suas variações de retorno diárias em um determinado período.

Onde:

ri​ = retorno do ativo no período i

r = retorno médio (ou esperado) do ativo

N = número total de períodos (por exemplo, dias, meses, etc.)

Observação: para obter o valor do desvio em termos anuais, basta multiplicar pela raiz de 252 — trata-se de uma convenção de mercado amplamente utilizada que aproxima estatisticamente a conversão ao anual.

·       Máximo Drawdown: é a maior perda que um investimento sofreu, do seu ponto mais alto até o mais baixo, antes de se recuperar. É uma medida de risco, que mostra o quanto o investimento pode cair em determinado período.

Por exemplo, se você investiu R$ 1.000 e o valor chegou a R$ 1.500 antes de cair para R$ 750 e subir novamente, o máximo drawdown seria de R$ 750 (R$ 1.500 - R$ 750), ou máximo drawdown de -50%, resultado do retorno calculado de R$ 750 / R$ 1.500 - 1. Então, quanto maior o máximo drawdown, mais volátil e arriscado é o investimento.

Na tabela abaixo resumo um pouco da relevância deste indicador.

Questão importantePor que importa?
Quanto o fundo caiu desde o topo?Mede dor psicológica e risco real.
Quanto tempo levou para recuperar?Indica resiliência e gestão de risco.

       

  ·       Índice de Sharpe: o Índice de Sharpe compara o retorno do ativo (ou carteira) com o retorno livre de risco (geralmente o caixa, que no Brasil seria o CDI), levando em consideração a volatilidade. Essa medida é muito útil para comparar investimentos ou estratégias com diferentes níveis de risco — quanto maior for o resultado melhor foi o retorno ajustado ao risco.

Onde:

Rp = retorno do ativo ou da carteira

Rf​ = retorno livre de risco (por exemplo, retorno de títulos do governo)

σp = volatilidade ou desvio padrão do retorno do ativo ou da carteira

·       Tracking error: utilizado para avaliar a aderência de fundos passivos, ou seja, aqueles que buscam apenas replicar um índice (Ibovespa por exemplo). Seu cálculo considera o desvio padrão da diferença entre o retorno do fundo e o retorno do índice, ou seja, o quanto o fundo se afasta da performance esperada do benchmark. Quanto menor for, mais aderente o fundo passivo está em relação ao seu índice de referência. Veja abaixo a fórmula:

Onde:

R f,t = retorno do fundo no período t

R i,t = retorno do índice no período t

n =  número de observações

·       Correlação: mede quanto o desempenho de um ativo, fundo ou índice se movimenta em linha com outro, é um indicador que vai de -1 até 1. Quanto mais próximo de 1, maior a aderência. Veja abaixo a fórmula:

Onde:

Rf = retorno do fundo

Ri = retorno do índice de referência

Cov (Rf, Ri) = covariância entre os retornos

σf  e σi = desvio padrão dos retornos do fundo e do índice, respectivamente

Talvez essa parte tenha ficado um pouco mais “chata” para algumas pessoas, mas achamos legal compartilhar as métricas com vocês.

Existem diversos outros indicadores que utilizamos no dia a dia, mas para o contexto deste relatório julgamos que esses tendem a ser mais importantes e objetivos em uma análise.

Aspectos da rotina de trabalho em uma análise profissional de fundos

Neste tópico, quero compartilhar um pouco da nossa rotina de trabalho. Trata-se daquelas atividades contínuas que garantem que tudo siga funcionando da melhor maneira possível para você, assinante, e para a qualidade das nossas recomendações.

• Monitoramento de notícias e documentos oficiais

Acompanhamos publicações dos reguladores, veículos de mercado especializados, documentos oficiais, mudanças de regras e notícias que possam impactar a indústria ou nossos fundos recomendados.

• Checagens de aberturas e fechamento de fundos nas corretoras

Monitoramos diversas corretoras, tanto com ferramentas próprias que pagamos para utilizar, quanto com contas ativas, para verificar quais fundos estão abertos para captação.

Como muitos fundos fecham para proteger sua estratégia e manter a capacidade de gerar retorno, precisamos acompanhar isso de perto para atualizar nossa lista de fundos aprovados com rapidez e precisão.

• Leitura crítica das cartas de gestão

É comum que gestores publiquem cartas com suas análises de mercado, visão macro, explicações de resultado e posição atual da carteira. Lemos muitas elas — especialmente as dos fundos recomendados, as quais lemos todas — e sempre que julgamos relevante, compartilhamos esses materiais na comunidade com alguma pitada de opinião.

• Publicamos um relatório mensal na área logada da Finclass

Todo mês, divulgamos um relatório completo na área logada da Finclass, sempre no dia 16. Nele, podemos trazer uma gama razoável de temas, como a atualização de status dos fundos recomendados, informamos movimentações na lista de aprovados, abordamos temas conceituais e incluímos insights relevantes sobre o mercado.

Quando necessário, também publicamos relatórios extraordinários sobre temas urgentes.

• Atualizações recorrentes na comunidade

Mantemos uma rotina de publicações no nosso espaço dentro da comunidade (No radar dos analistas > fundos de investimento), compartilhando pontos discutidos em reuniões com gestores, informações relevantes sobre os fundos recomendados, novidades da indústria, opiniões sobre temas do mercado e avisos importantes.

• Relatórios quantitativos e estatísticos (internos)

Atualizamos constantemente nossos relatórios e painéis internos de desempenho e risco dos fundos. Eles ajudam no monitoramento contínuo e garantem que entendamos se cada gestor está entregando o que esperamos dentro do mandato proposto.

• Rotinas de prospecção de novos fundos

Avaliamos rotineiramente novos fundos que podem entrar em nossa carteira ou que podem compor a lista B, que são aqueles que já consideramos bons, mas ainda estão em observação antes de uma eventual recomendação.

• Reuniões com gestoras

Raramente passamos uma semana sem conversar com algum gestor em reuniões presenciais ou por vídeo conferência. Isso vale tanto para gestores de fundos já recomendados (monitoramento) quanto para aqueles que estamos analisando para possíveis recomendações futuras. Circular pela indústria faz parte essencial do nosso trabalho.

• Participação em eventos da indústria

Participamos dos principais eventos do setor, como seminários de gestores, a XP Expert, o congresso de fundos da Anbima, entre outros. Esses encontros ajudam a manter nosso time atualizado e bem conectado.

• Qualificação do time e ativismo

Os profissionais da Finclass possuem certificação CNPI (Certificado Nacional dos Profissionais de Investimentos), que nos habilita a assinar relatórios profissionais com total autonomia e responsabilidade técnica.

Com o nível de qualificação exigido e com nossos fortes relacionamentos dentro da indústria, temos confiança para atuar de forma ativa e engajada no setor (sempre em defesa dos interesses do investidor pessoa física). Por isso, não é raro levantarmos pautas que consideramos importantes, como ampliar o acesso dos nossos assinantes aos melhores fundos, pleitear reduções de taxas, incentivar a melhoria dos materiais públicos divulgados pelos gestores e, quando necessário, participar de audiências públicas relacionadas a temas regulatórios que afetam diretamente o investidor.

Como você pode perceber, assim como em diversas outras áreas, nossa rotina de trabalho vai muito além do pseudo-glamour que às vezes se vê por aí. Ainda assim, temos a certeza de que cada tarefa, por menor que pareça, é fundamental para entregar a melhor qualidade de análise para você.

Ficamos por aqui

Analisar fundos não é uma tarefa trivial, exige método, conhecimento e dedicação. Além disso, o componente interpessoal e o acesso aos gestores fazem enorme diferença no processo.

Uma boa análise vai muito além de rankings simples que vemos na internet, e comparações superficiais costumam levar a decisões ruins.

O relatório de hoje buscou mostrar como trabalhamos e, ao mesmo tempo, te trazer insights que possam qualificar suas próprias análises, pois sabemos que muitos assinantes trabalham em áreas correlatas ou são grandes entusiastas dos fundos de investimento.

Espero que a leitura tenha sido útil e reforçamos que estamos sempre à disposição para esclarecer dúvidas por meio das nossas lives, da comunidade e dos demais canais de comunicação.

Um grande abraço e bons investimentos!

Rodrigo Xavier

Sobre os analistas

Rodrigo Xavier

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.