Explicações sobre o que é e como funcionam os produtos de previdência em nossa indústria;
Como lidar com a sua carteira de fundos previdenciários
Escrito por Rodrigo Xavier em FUNDOS
Neste relatório, você encontrará:
Um passo a passo para orientá-lo com a escolha do plano de previdência, do regime tributário e do fundo em que investir;
A exposição de duas maneiras para construir carteiras de investimento contemplando a previdência complementar;
Uma análise das aderências dos nossos fundos previdenciários em relação às estratégias originais fora da previdência.
Fala, pessoal!
No ano passado elaboramos um relatório bem legal, que funcionou como um guia para quem iniciava no mundo de previdência (link), já desta vez faremos um exercício parecido, porém de maneira um pouco mais objetiva e incorporando as atualizações devidas ao contexto atual, tanto de legislação quanto das aderências dos fundos que recomendamos.
O fundo de previdência privada é um veículo que oferece benefícios tributários importantes para quem sabe manuseá-lo, sendo útil não só para o planejamento de aposentadoria, mas também para diversas outras circunstâncias.
Antes de investir, contudo, é importante entender como esse produto funciona e avaliar se ele faz sentido para o seu momento de vida. Hoje, grande parte dos nossos fundos recomendados já conta com versões previdenciárias, ampliando o leque de opções de qualidade para acessarmos.
Por muito tempo o segmento foi marcado por produtos de baixa qualidade e taxas abusivas, algo que até hoje pode gerar desconfiança entre os investidores, porém, o mercado evoluiu bastante e atualmente isso já preocupa bem menos.
O que é uma previdência privada e seus principais benefícios
A previdência privada é um veículo voltado para investimentos de longo prazo, sendo que foi inicialmente construída para planejar a aposentadoria, mas também pode ser utilizado para diversos outros objetivos cujo desembolso acontecerá em no mínimo 10 anos.
Alguns exemplos onde a previdência também pode fazer sentido seriam o planejamento para pagar a faculdade ou o intercâmbio de um filho, a realização de um sonho de longo prazo, como uma grande viagem ou até mesmo um planejamento sucessório mais eficiente. Em todos os casos, o ponto em comum é o foco em objetivos de longo prazo.
Um produto previdenciário apresenta diversas vantagens, dentre as principais, podemos listar:
- Importante para a aposentadoria: permite que as pessoas planejem e acumulem recursos para a aposentadoria, complementando os benefícios previdenciários oferecidos pelo governo. Aliás, existe um amplo debate rolando atualmente sobre a capacidade do governo de honrar seus compromissos ligados à aposentadoria no futuro, portanto, para a atual geração é ainda mais importante ter um planejamento previdenciário pessoal, para evitar apertos desnecessários justamente naquela fase da vida em que a tendência é ter menor capacidade laboral.
- Oferece flexibilidade para trocar de produto: podemos migrar os recursos de um fundo previdenciário para outro sem que seja necessário efetuar o resgate, a famosa “portabilidade”. Isso, invariavelmente, se materializa em benefício tributário, sobretudo em se tratando de um veículo com objetivos de longo prazo, em que as chances de necessitar fazer uma troca no meio da jornada podem ser maiores.
- Diversificação de investimentos e praticidade: como um plano previdenciário precisa de um fundo de investimento, podemos considerar que as vantagens de investir por meio de fundos também valha para a previdência. Portanto, existe a possibilidade de se obter maior diversificação e comodidade ao delegar o manejo dos recursos para gestores profissionais.
- Benefícios fiscais: São diversos os benefícios ligados ao tema. O primeiro que merece destaque é o fato de não haver cobrança de come-cotas em fundos de previdência. Além disso, há a possibilidade de redução da base tributável na declaração anual do Imposto de Renda na modalidade PGBL, gerando economia tributária de curto prazo. Por fim, vale mencionar que a alíquota de imposto pode chegar a 10%, a menor existente entre os investimentos não isentos.
· Sucessão patrimonial: em caso de falecimento do titular do plano, a previdência privada torna a sucessão patrimonial mais barata, ágil e menos sujeita a burocracias. Antes, apenas alguns estados ofereciam isenção do ITCMD (Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação). No entanto, desde dezembro de 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que não se deve aplicar o ITCMD sobre valores recebidos de planos de previdência privada (PGBL e VGBL), consolidando esse benefício em todo o país.
As etapas observadas na contratação de uma previdência
Antes de usar a previdência privada como veículo de investimento, vale dividir a avaliação em três etapas:
- Escolha do plano: escolher entre VGBL ou PGBL (cada um com implicações distintas no IR e no resgate).
- Regime tributário: decidir entre as tabelas progressiva ou regressiva. Desde janeiro de 2024, a legislação permite trocar de regime progressivo para regressivo, porém não ao contrário. Portanto, você deve estar muito atento a esta questão.
- Estratégia previdenciária: selecionar o fundo alinhado ao seu perfil como investidor e a forma como deseja construir sua carteira, avaliando estratégia, risco, histórico, benchmark e custos (taxas de administração, performance e eventuais carregamentos).
Elaboração: Finclass
Mais adiante teremos instruções sobre a escolha dos fundos previdenciários pensando na sua alocação de patrimônio atual, mas antes vamos seguir um passo a passo coerente para ajudar no processo como um todo.
Etapa 1: Qual plano escolher? VGBL ou PGBL?
Apenas para não passar batido vamos citar uma terceira opção de plano previdenciário que é o FAPI (Fundos de Aposentadoria Programada Individual), que foi criado em 1997 e é bastante similar ao PGBL, porém o fato de não ser capaz de contemplar os benefícios sucessórios vem fazendo cair em desuso no mercado
O FAPI acaba por ser uma modalidade mais antiga, que está “meio” presa em legislações do passado, por isso, preferimos que utilizem o PGBL ou VGBL.
Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL)
Este é o plano com maior potencial de trazer benefício tributário quando bem utilizado. A grande vantagem do PGBL está na possibilidade de deduzir o valor investido de nossa base tributável na declaração anual do Imposto de Renda, de maneira que o imposto incida sobre um valor menor, ocasionando um menor pagamento de impostos ou uma maior restituição. Portanto, é indicado para quem faz a declaração completa do Imposto de Renda.
Como para todos os aspectos que podem ser deduzidos na declaração completa (dependentes, gastos com saúde, gastos com educação etc.), existe um limite máximo da contribuição, que no caso do PGBL é 12% da renda bruta tributável anual. Logo, se passar dos 12%, você não poderá deduzir da base tributável e a alocação no PGBL perde o sentido.
Por exemplo, suponha que você tenha recebido R$ 100 mil no ano, logo, você pode usufruir do benefício do PGBL se investir até R$ 12 mil neste tipo de plano, se passar desse valor o montante adicional não será retirado da base tributável. Neste cenário de investir R$ 12 mil em um PGBL a sua base tributável para a receita cai para R$ 88 mil, gerando um belo desconto com o leão.
* Ponto muito importante: o imposto ao final de um plano PGBL incidirá sobre o valor total dos recursos acumulados, e não apenas sobre rendimentos, portanto, tome muito cuidado com um resgate antecipado, pois pode ser extremamente nocivo para o seu patrimônio.
Pelo ponto de vista de acúmulo de capital, você “recebe” uma restituição no presente (ou deixa de pagar mais imposto no presente) para pagar o imposto apenas no futuro, em uma alíquota bem menor se ficar ao menos 10 anos investido, o que fatalmente causará um efeito positivo considerável no seu patrimônio como consequência dos efeitos dos juros compostos carregados no tempo.
Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL)
O VGBL não tem o benefício de poder ser utilizado para diminuir nossa base tributável para declaração do IR, mas, em compensação, seu imposto incidirá sobre os rendimentos do fundo ao final do plano, que é o padrão da ampla maioria dos investimentos no Brasil.
O fato de não poder gerar deduções na declaração de IR faz com que o VGBL tenha menos vantagens tributárias de longo prazo quando comparado ao PGBL, mas ainda assim permanece mais eficiente que a maioria dos produtos de investimento disponíveis no mercado.
Desta forma ele deve ser utilizado apenas por quem faz a declaração simples ou para quem já contribuiu os 12% da renda tributável em um PGBL e deseja investir mais em previdência.
A nova cobrança de imposto nos VGBLs
Nos últimos meses, o VGBL ganhou destaque nos noticiários após a inclusão do IOF sobre os valores aportados no plano. Depois de idas e vindas, a decisão considerada “final” veio do STF (Supremo Tribunal Federal), que manteve a cobrança de 5% de IOF sobre aportes que excederem os R$ 50 mil mensais, equivalente a R$ 600 mil anuais a partir de 2026. Como efeito transitório, dado que a medida foi aprovada em 1/7/25, para o ano de 2025 o limite ficaria em R$ 300 mil no ano.
Ainda que o novo imposto tire um poco da eficiência tributária do veículo, enxergamos que isso tende a afetar uma quantidade bem pequena de investidores, portanto, não nos preocupa muito.
A medida teve como objetivo “forçar” que os investidores migrem os recursos adicionais para outros produtos que tenham menos benefícios tributários para o investidor, o que significaria um aumento de arrecadação ao governo federal, o qual convive com sérios déficits fiscais e “precisa” de novas receitas para honrar seus compromissos.
Tabela resumo
Elaboração: Finclass
Etapa 2: Qual regime tributário escolher? Progressivo ou regressivo?
No Brasil, os planos de previdência privada oferecem dois regimes tributários para Imposto de Renda: o regime progressivo (tabela progressiva compensável) e o regime regressivo (tabela regressiva definitiva).
É fundamental entender as especificidades de cada regime, suas alíquotas, base de cálculo e momento de incidência do IR.
No começo do ano passado houve uma mudança relevante por meio da Lei 14.803/2024, que flexibilizou o momento de escolha do regime, onde a decisão entre progressivo ou regressivo pode ser feita no momento do primeiro resgate ou no início do benefício (não precisa mais ser na contratação).
A nova regra te habilita a trocar do regime progressivo para o regressivo se for mais vantajoso. Mas não há opção para reverter do regressivo para o progressivo.
O regime progressivo
Este regime é parecido com o modelo de cobrança do Imposto de Renda mensal de salário em empresas, onde a alíquota aumenta conforme o valor resgatado (recebido pela seguradora no momento do usufruto), logo, quanto maior o resgate, maior o IR.
Uma característica importante do regime progressivo é que no momento em que os recursos forem resgatados, haverá retenção do imposto na fonte à alíquota de 15% como antecipação do IR devido.
A partir disso, se houver uma diferença em relação à sua alíquota de IR, ela deverá ser compensada na sua declaração anual. Por isso, este regime também é conhecido como regime compensável.
Para darmos um exemplo, imagine uma pessoa que receba anualmente uma quantia superior a R$ 55.976,16 (de acordo com a tabela de IR anual para o ano de 2025) e que, portanto, está na alíquota de 27,5%. Se esta pessoa resgatar os recursos mantidos na previdência, 15% ficarão retidos na fonte e a diferença para os 27,5%, ou seja, 12,5%, deverá ser compensada na declaração de ajuste anual de IR.
Se a pessoa já estiver na alíquota de 15%, a tendência é não haver diferença relevante a compensar. Já se, após o ajuste anual, o contribuinte ficar isento, o IR de 15% retido no resgate será integralmente restituído.
Veja a tabela atualizada no ano de 2025:
O regime regressivo
O regime regressivo significa que a alíquota começa mais alta e vai caindo com o tempo investido, conforme a tabela abaixo indica:
Este regime oferece a possibilidade de termos mais benefício tributário conforme o tempo de permanência do investimento. Depois de 10 anos a alíquota será de apenas 10%, que é o menor patamar para investimentos não isentos (que no máximo vão até 15% de IR).
Agora, vale notar que a alíquota diminui a partir da contagem de tempo de cada aporte feito. Portanto, 10 anos depois de iniciar seus investimentos em previdência, apenas o primeiro aporte feito terá chegado à alíquota mínima e, se um resgate total for feito, será realizado um cálculo ponderado para cada aporte de forma a chegarmos a uma alíquota efetiva.
Uma vantagem é que mesmo que o cálculo ponderado te entregue uma alíquota superior a 10%, você não terá que compensar o excedente. Portanto, mesmo que a conta ponderada de seu investimento sugira uma alíquota agregada de 15%, ainda poderá haver vantagens em comparação com o regime regressivo, que ainda exigirá a compensação do excesso na sua declaração anual.
O regime regressivo é o que oferece maior vantagem tributária para a maioria das pessoas, desde que, é claro, elas tenham o longo prazo a seu favor. Pense neste tipo de investimento se você tiver um horizonte de pelo menos 15 anos para investir.
Tabela resumo
Elaboração: Finclass
Etapa 3: A escolha do fundo (estratégia)
Este é um ponto importante na previdência privada, mas talvez seja também um dos mais fáceis de corrigir ao longo do tempo. Isso porque o instrumento oferece a portabilidade, que permite trocar de produto sem precisar resgatar os recursos.
Na prática, se você entrou em um fundo que depois percebeu não ser o ideal, seja porque contratou sem conhecer muito ou porque simplesmente mudou de opinião, é possível migrar para outro sem arcar com os custos de um resgate antecipado, que podem ser bastante altos dependendo do tempo de permanência.
Ainda assim, a atenção à qualidade da gestão é indispensável. A seguradora estrutura o plano, mas as decisões de investimento ficam a cargo dos gestores de fundos, e avaliar quem está por trás do fundo é sempre uma boa prática.
Na nossa lista de aprovados você encontra as opções que mais nos agradam, portanto são as nossas recomendações, separadas por classes de investimento. As peças aprovadas além de terem sido prospectadas a mercado com toda a diligência de um time profissional, também contam com o monitoramento constante do nosso time.
Vale ressaltar que a previdência tem limitações legais que restringem algumas estratégias de investimento. Isso significa que, em muitos casos, os gestores não conseguem replicar na previdência exatamente o que fazem em seus fundos fora dela. As principais restrições recaem sobre investimentos internacionais, ativos atrelados ao câmbio, FIDCs e fundos imobiliários.
Por isso, entender essas barreiras é fundamental, uma vez que, a depender dessas diferenças, pode não fazer sentido investir.
Duas diferentes abordagens para investir em previdência
Existem duas principais maneiras de construir um bom portfólio de investimentos que aproveite os benefícios de longo prazo de uma previdência privada. Podemos considerar a previdência como uma carteira à parte, paralela à que você monta fora da previdência, ou podemos focar na diversificação do patrimônio como um todo e adicionar peças previdenciárias que se encaixem em uma alocação mais ampla.
Não há certo ou errado.
Algumas pessoas preferem separar as coisas e lidam melhor com a ideia de ter uma carteira focada em previdência e outra para investimentos “tradicionais”. Outras preferem olhar para uma única carteira ao longo do tempo e, portanto, precisarão saber como acomodar peças previdenciárias dentro das fatias recomendadas.
Para isso é legal listar algumas vantagens e desvantagens de cada método.
Método carteira à parte
A maior vantagem aqui é a comodidade.
Para muitas pessoas, ter um portfólio separado com propósitos previdenciários facilita a organização no dia a dia. E se vamos montar uma carteira completa em previdência, ela precisa ser diversificada, certo?
Ela precisa ter diferentes classes de ativos e seguir uma alocação de longo prazo, algo muito similar com o que você faria fora da previdência. A questão é que existem limitações regulatórias nesse caso que te impedem de ter algumas peças importantes.
Por exemplo, não existem previdências que invistam 100% no exterior, tampouco em fundos imobiliários. Portanto, logo na largada quem adotar esse método precisará fazer concessões. Possivelmente aumentando consideravelmente a parcela de multimercados (classe mais diversificada, com volatilidade similar a fundos imobiliários e que pode eventualmente investir no exterior).
Essas limitações fazem com que, com frequência, as versões previdenciárias dos nossos fundos sejam um pouco menos potentes que as originais, ainda que estas diferenças estejam cada vez menores com as flexibilizações que vêm ocorrendo com as legislações atreladas ao tema.
Um exemplo é que um investidor ou investidora que não seja considerado qualificado(a), para montar os 15% recomendados em ações com os fundos que indicamos hoje, na prática, estará se expondo a algo como 10,5% em ações. Isso porque fundos de ações para não qualificados não podem ter 100% do seu patrimônio comprado nesta classe, sendo restritos a apenas 70%. O restante costuma ficar em caixa. Teríamos, portanto, uma previdência com 70% da potência da versão original e que consumiria um pedaço da alocação em renda fixa pós.
Diante disso, haveria escolhas a serem feitas, como aceitar essa menor potência e exposição em ações ou investir uma fatia maior em ações para compensar esse menor percentual de investimento. Ao fazer isso, precisaríamos reduzir um pouco da alocação em renda fixa pós-fixada.
Resumindo, a maior desvantagem do método de “carteira previdenciária paralela” é a necessidade de fazer uma adaptação da alocação por classes e o preenchimento de peças que, eventualmente, não terão a mesma potência do mesmo fundo fora de previdência.
Por isso, para quem quer máxima conveniência, muitas vezes o caminho mais adotado é simplesmente aceitar que essas limitações existem e constituir uma carteira que se aproxime ao máximo da sua alocação ideal, levando em conta todas as restrições.
>>> Exemplo de uma carteira à parte
Já explicadas as limitações da indústria de fundos previdenciários, vamos propor uma carteira alternativa com 20% em renda fixa pós, 20% em renda fixa dinâmica, 40% em fundos multimercados e 20% em fundos de ações.
Sabemos que essa não é a nossa alocação estrutural ideal, mas fazendo concessões razoáveis poderia ser uma alternativa viável.
A ideia aqui foi criar uma carteira mais enxuta e com alguma similaridade ao que recomendamos atualmente, para que realmente possa servir de inspiração para os leitores deste relatório. Dito isso, vamos à proposta:
[ 10% ] Renda fixa pós: SPX Seahawk Prev
[ 10% ] Renda fixa pós: Solis antares Prev
[ 20% ] Renda fixa dinâmica: BTG Previdência IMA-B
[ 20% ] Fundos Multimercados: Ace Capital Prev
[ 20% ] Fundos Multimercados: Genoa Capital Cruise Prev
[ 10% ] Ações: Dahlia Total Return 70 Prev
[ 10% ] Ações: Real Investor 70 Prev (ou Real Investor 100 Prev se for qualificado)
Método por dentro de uma carteira ampla
Nesta proposta nós basicamente colocamos a previdência no mesmo “balaio” das peças não previdenciárias, porém respeitando a alocação estrutural base recomendada pela Finclass.
Um ponto de atenção neste método é que ter peças previdenciárias dentro de um portfólio mais amplo pode confundir e dificultar o dimensionamento do dinheiro que é destinado a previdência.
Pense no exemplo de alguém que contribui com 12% da renda bruta tributável para aproveitar os benefícios de um PGBL. Essa pessoa precisa dimensionar bem o valor aplicado, de modo a não ultrapassar o limite que garante a máxima eficiência tributária. Além disso, é fundamental que o recurso permaneça investido no longo prazo — caso contrário, o “tiro pode sair pela culatra”.
Agora, em termos de alocação, essa proposta faz com que sua carteira possa se tornar mais aderente ao que recomendamos para o longo prazo.
Se você não pode aplicar em uma previdência de investimentos internacionais, tudo bem; basta montar a fatia global normalmente com os outros ativos recomendados e escolher peças previdenciárias nas fatias em que existam boas opções.
Assim, investidores não considerados qualificados não precisam ser forçados a ter previdências de ações que podem investir apenas 70% na classe. Você poderia privilegiar, portanto, opções que sejam mais potentes e aderentes ao que deseja obter.
Para sumarizar, a maior vantagem desse método é nos permitir ser mais cirúrgicos nas peças que escolhemos, além de garantir que seu patrimônio como um todo está sendo distribuído conforme a alocação que você deseja, sem necessidade de adaptações.
>>> Exemplo de uma carteira ampla
Antes de montar uma proposta combinando peças previdenciárias e as ditas “normais”, você precisa definir qual percentual faria sentido você destinar para previdência, e essa é uma decisão muito pessoal.
Neste exemplo, vamos utilizar a proposta da carteira de fundos para patrimônio até R$ 50 mil e partindo do pressuposto de que 25% de sua carteira poderia estar alocada em previdência.
Veja como ficaria:
[ 7,50% ] Renda fixa pós: Solis Pioneiro
[ 5% ] Renda fixa pós: SPX Seahawk Prev
[ 2,50% ] Renda fixa pós: SPX Seahawk
[ 5% ] Renda fixa dinâmica: KDIF11
[ 5% ] Renda fixa dinâmica: IFRA11
[ 10% ] Renda Fixa dinâmica: BTG Previdência IMA-B
[ 3% ] Fundos Imobiliários: RVBI11
[ 4% ] Fundos Imobiliários: CPTS11
[ 3% ] Fundos Imobiliários: PVBI11
[ 5% ] Fundos Imobiliários: XPML11
[ 4% ] Ações: Brasil Capital 70 Prev (ou Brasil Capital 100 Prev se for qualificado)
[ 6% ] Ações: Brasil Capital
[ 5% ] Ações: Dahlia Total Return
[ 11% ] Internacional: WRLD11
[ 6% ] Internacional: USDB11
[ 3% ] Internacional: GOLD11
[ 6% ] Fundos Multimercados: Ace Capital
[ 6% ] Fundos Multimercados: Genoa Capital Cruise Prev
[ 3% ] Alternativos: Bitcoin
Perceba que, nas classes de fundos imobiliários, internacional e alternativos, não temos como incluir produtos de previdência por limitações de peças disponíveis no mercado. Por isso, exploramos as possibilidades dentro de renda fixa (pós e dinâmica), ações e fundos multimercados, as quais foram sinalizadas em negrito acima.
Essa é apenas uma proposta para ilustrar o racional, mas ela pode ser facilmente adaptada para outros fundos, percentuais e ativos recomendados, assim como para diferentes proporções entre fundos tradicionais e previdenciários.
Qual é a aderência das estratégias recomendadas?
Uma pergunta que pode ter surgido é a seguinte:
“Se vou priorizar estratégias mais aderentes às versões não previdenciárias, como saberei qual fundo de previdência é mais ou menos aderente?”
Pensando nisso, fizemos uma revisão geral de todos os nossos fundos recomendados, a qual vamos compartilhar a seguir.
Mas antes de começar, é importante esclarecer que, quando usamos a expressão “potência”, estamos nos referindo ao potencial de médio a longo prazo da proposta previdenciária em relação ao fundo fora da previdência — levando em conta a rentabilidade obtida nas janelas mais recentes e o padrão de volatilidade apresentado.
Essa informação é relevante porque, a partir dela, podem ser feitas algumas adaptações na estratégia de construção de portfólio.
Dito isto, vamos para as análises:
Renda Fixa Pós
- Augme: aproveitamos este relatório para incluir o fundo “Augme XP Seg Prev FIM CP Resp Lim” em nossa lista de fundos previdenciários aprovados. Destinado a investidores qualificados, o fundo tem o book e limites de exposição parecidos com o Augme 180, mas, devido às restrições regulatórias da previdência, sua potência de retorno está entregando algo entre o Augme 30 e o Augme 180, algo que também lhe habilita a ser recomendado por nós.
O fundo está disponível exclusivamente na XP, e mais detalhes podem ser consultados na área logada da Finclass.
Do seu início em 19/2/2024 até 13/10/2025, obteve retorno de 23,62%, enquanto o CDI foi de 21,27%, equivalente a 111% do CDI.
- Capitânia: os fundos previdenciários não entregam performances totalmente iguais ao fundo original, que é o Capitânia Premium, entretanto ficam próximos. As diferenças existem muito por conta das proporções de FIIs utilizadas nas carteiras, que vão de 0% até 10%, a depender do fundo escolhido. Não existe uma proposta que busque replicar o Capitânia Radar.
- JGP Crédito: a proposta previdenciária faz um meio de caminho entre o JGP Corporate (0% no exterior) e JGP Select (até 40% no exterior) e está performando dentro do esperado para este contexto posto.
- Solis: a versão previdenciária é 20% alocada em FIDCs e 80% em crédito privado tradicional, portanto, diverge razoavelmente do antares e do Pioneiro, mas ainda assim consideramos uma boa opção devido à experiência e histórico das pessoas que tocam o fundo.
- SPX Seahawk: a proposta previdenciária faz um meio de caminho entre o SPX Seahawk (100% local) e SPX Seahawk Plus (até 50% américa latina com hedge cambial) e está performando dentro do esperado para este contexto posto.
- Valora: não existe uma proposta previdenciária que siga o Valora Guardian.
Renda Fixa Dinâmica
Recomendações de renda fixa dinâmica na previdência são todas passivas, não existindo a preocupação sobre aderência. Em nossa área de fundos aprovados temos uma opção que segue o IMA-B 5, outra para o IMA-B e uma para o IMA-B 5+.
Observação: todos os fundos aprovados estão performando próximo dos seus respectivos referenciais.
Fundos Multimercados
- Absolute: performando totalmente aderente ao Absolute Vertex, mas disponível apenas para investidores qualificados.
- Ace: performando aderente ao Ace Capital, mas com potência rodando próximo a 95% do potencial do fundo fora da previdência nas janelas temporais mais recentes. O fundo é acessível ao público geral.
- Gávea: totalmente aderente ao Gávea Macro, mas disponível apenas para investidores qualificados. No caso do Gávea Macro Plus, não existe uma proposta previdenciária similar.
- Genoa: a versão previdenciária se chama Genoa Capital Cruise Prev e está performando totalmente aderente ao Genoa Capital Radar. Além disso, é disponível para o público geral.
- Ibiuna: temos uma proposta previdenciária para público geral com potência de 70% do Ibiuna Hedge ST e outra para investidores qualificados que roda totalmente aderente ao fundo fora da previdência.
- JGP: não existe produto previdenciário que replique o JGP Strategy atualmente.
- Kapitalo: existem propostas previdenciárias para o Kappa e Zeta, ambos performando em uma potência próxima de 95% das estratégias fora da previdência, porém estão restritas a investidores qualificados, inclusive o Kappa.
- Kinea: temos duas propostas para público geral, uma performando com potência de 60% do Kinea Atlas (XTR) e outra em 80% (Sigma). Já a proposta que performa totalmente aderente ao Atlas é disponível apenas para investidores qualificados.
- Legacy: apesar de estar com volatilidade um pouco menor que o fundo fora da previdência, vem entregando rentabilidades muito parecidas e é disponível ao público geral. No caso do Legacy Capital V10, apesar de ter um fundo que siga a proposta, ele não está disponível para pessoas físicas investirem no momento.
- SPX: as propostas que buscam seguir o Nimitz são o Lancer e o Lancer Plus, que vêm rodando muito próximos entre si e com uma potência próxima de 80% do Nimitz. Ambos são destinados para o público geral. Aqui vale uma observação: o Lancer Plus foi criado com algumas flexibilidades extras de regulamento, mas que não estão causando diferença real quando comparado ao Lancer.
- Verde: o fundo previdenciário é diferente do Verde 60, isso porque quem cuida dele é o gestor Luiz Parreiras. Apesar de não ser tocado diretamente pelo lendário Luis Stuhlberger, eles trocam muitos insights e o Parreiras também é um excelente gestor.
- Vista: a casa tem estratégias muito rebuscadas para que a legislação de previdência permitisse algo muito próximo ao real, por isso, o fundo previdenciário roda com 50% da potência do Vista Hedge, o que de certa forma significa dizer que pega cerca de 25% da potência do Vista Multiestratégia atualmente.
Ações - Long Biased
- Absolute: performando totalmente aderente ao Absolute Pace, mas disponível apenas para investidores qualificados.
- Dahlia: tem uma versão para público geral que roda com 70% da potência do Dahlia Total Return. A gestora também criou um fundo previdenciário que busca seguir a estratégia principal integralmente, porém essa versão está performando próxima do que entrega 70% e é destinada apenas para investidores qualificados, motivo que não nos animou a incluí-la nas recomendações até aqui.
- Oceana: a versão de previdência tem alta correlação com a versão fora da previdência, mas, devido ao fato de não conseguir acessar investimento no exterior, apresenta algumas diferenças pontuais, nada que nos impeça de recomendá-la, mas é algo a se pontuar. O fundo previdenciário é disponível apenas para investidores qualificados.
- SPX: a previdência performa com potência de 80% em janelas mais recentes na comparação com o SPX Falcon. A versão de previdência é disponível apenas para investidores qualificados.
- Truxt: não existe produto previdenciário que replique o Truxt long biased atualmente.
Ações - Long Only
- Alaska: tem uma versão para público geral rodando com potência de 70% do Alaska Institucional e outra para qualificados com 100% de potência. No dia a dia não está apresentando falhas na missão de replicar as estratégias.
- Atmos: não existe produto previdenciário que replique o Atmos FIA atualmente.
- Bogari: tem uma versão para público geral rodando com potência de 70% do Bogari Value Q e outra para qualificados com 100% de potência. No dia a dia não está apresentando falhas na missão de replicar as estratégias.
- Brasil Capital: tem uma versão para público geral rodando com potência de 70% do Brasil Capital e outra para qualificados com 100% de potência. No dia a dia não está apresentando falhas na missão de replicar as estratégias.
- Dynamo: não existe produto previdenciário que replique o Dynamo Cougar atualmente.
- Forpus: não existe produto previdenciário que replique o Forpus FIA atualmente. As versões de previdência da gestora apresentam alta correlação com a estratégia fora da prev, mas não podem executar posições vendidas (short) por questão regulatória, o que pode limitar o potencial da estratégia. Por esse motivo, optamos por mantê-las de fora, já que essa característica é amplamente explorada pela gestão e faz parte da essência do produto.
- HIX: performando totalmente aderente à estratégia fora da previdência, mas disponível apenas para investidores qualificados.
- Ibiuna: não existe produto previdenciário que replique o Ibiuna Equities atualmente.
- Indie: tem uma versão para público geral rodando com potência de 70% do Indie FIA e outra para qualificados com 100% de potência. No dia a dia não está apresentando falhas na missão de replicar as estratégias.
- IP Participações: não existe produto previdenciário que replique o IP IPG atualmente. A gestora até tem uma versão previdenciária, mas com muita limitação para investir no exterior, o que é fundamental para a estratégia e por isso não recomendamos.
- Real Investor: tem uma versão para público geral rodando com potência de 70% do Real Investor FIA (deixando 30% da carteira entre caixa e FIIs) e outra para qualificados com 100% de potência. No dia a dia não está apresentando falhas na missão de replicar as estratégias.
Observação geral sobre ações: os fundos de ações não podem comprar papéis do mesmo grupo econômico da seguradora que monta a estratégia (por exemplo, se a previdência é feita na SulAmérica e SULA11 estiver na carteira do fundo original, essa ação ficará de fora da versão previdenciária).
O quanto devemos investir em previdência?
Essa é uma pergunta recorrente e que vale a pena ser respondida, mesmo que não haja uma resposta absoluta. Previdência é um instrumento que oferece benefícios tributários de longo prazo, portanto já temos uma pista de que a decisão de quanto aplicar aqui tem tudo a ver com prazo disponível para investimento.
Se escolhermos uma previdência com tributação regressiva, por exemplo, sair dela antes da hora pode ser extremamente prejudicial, não só desperdiçando o benefício tributário como acarretando impostos além do necessário ao seu investimento.
Em um PGBL, esse excesso de tributação ainda incidirá sobre o patrimônio todo, e não apenas sobre os lucros. Por isso, como mencionamos anteriormente, vale o reforço aqui, muita atenção com o prazo disponível.
O dinheiro que você poupa e que tem alta convicção de não precisar para o longuíssimo prazo — em 10, 15 ou mais anos — pode ser direcionado para a previdência. Se há necessidade de usar o capital antes disso, ou se há dúvidas se você terá essa disponibilidade de longo prazo, a recomendação é investir fora de veículos previdenciários.
Já vimos pessoas fazerem resgates antes da hora na previdência com penalidades tributárias muito altas para realizar um possível sonho da casa própria, abrir um negócio, entre outros, por isso, tome muito cuidado!
Agora, outro ponto a ser considerado é a potência das estratégias. Pense comigo: se monto uma carteira em que todos os fundos têm 50% da potência de suas estratégias originais fora da previdência, muito provavelmente o benefício tributário não seria suficiente para compensar a perda de potência dos fundos escolhidos.
Quando pensamos em PGBL e restituição, esse também pode ser um parâmetro de definição do montante a ser investido, dado que o limite máximo de benefício do PGBL é 12% de sua renda bruta tributável. Se essa porcentagem é extremamente relevante diante de seu patrimônio investido, sua carteira paralela de previdência deve ser maior, ou, para quem prefere o segundo método, mais peças previdenciárias devem ser encaixadas em seu portfólio.
No geral, como demonstramos no relatório mencionado, o maior benefício tributário vem de um PGBL em que a restituição seja reinvestida. Nesse caso, se as aderências de previdência forem na ordem de 80%, o benefício tende a se manter presente.
No caso de um VGBL, que não prevê a vantagem de ampliar a restituição, mas que ainda tem benefícios tributários, exige-se uma aderência maior para que estes não sejam desperdiçados. Embora seja difícil cravar qual o percentual mínimo de potência desejado para o VGBL, estimamos que seja por volta de 90%.
Apesar dessas referências que citamos, atente-se que, às vezes, o produto em plena potência pode ter um nível de volatilidade excessivo para seu perfil de risco. Um exemplo é o Vista Multiestratégia, considerado por nós uma pimenta. Mesmo a sua versão “light”, o Vista Hedge, já é considerada um multimercado de alta volatilidade e a sua previdência, Vista Macro Prev, é mais “light” que o Vista Hedge. Portanto, a versão previdenciária poderia ser uma opção boa para quem não tem estômago para os “chacoalhões” do Vista Multiestratégia e do Vista Hedge.
Ficamos por aqui
De tempos em tempos atualizaremos este relatório com o objetivo de trazer mais transparência sobre as estratégias previdenciárias e as novidades regulatórias.
Como mencionamos ao longo do texto, os produtos de previdência podem ser excelentes ferramentas para a construção de um portfólio robusto e eficiente do ponto de vista tributário, desde que o investidor saiba exatamente o que está fazendo, pois há algumas “pegadinhas” nesse tipo de investimento.
Esperamos que esta leitura tenha sido útil para você e reforçamos que estamos sempre à disposição para esclarecer dúvidas por meio das nossas lives, comunidade e demais canais de comunicação.
Um grande abraço e bons investimentos!
Rodrigo Xavier e Ana Flavia Farias
Sobre os analistas
Rodrigo Xavier
Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.