O relatório de hoje vai mostrar algo muito importante para quem investe, mas que é pouco abordado: como uma commodity é precificada. Daremos especial destaque aqui para o minério de ferro.
Vamos mostrar como o preço é cotado mundialmente e qual a sua influência no preço da ação da Vale (VALE3), que sofreu uma queda de 11% no mês de agosto.
Além disso, vamos apresentar os resultados impressionantes da empresa no segundo trimestre de 2021 e reiterar a nossa recomendação de compra para VALE3, ação que, no atual momento, representa 5% da nossa carteira.
Sem mais delongas, vamos lá!
Como uma commodity é precificada?
É importante entender que a cotação dos preços de commoditys acontecem em tempo real, e as negociações, em nível global. A todo momento, estão em andamento operações para comprar, vender, importar e exportar esses produtos por todo o mundo.
Portanto, é preciso se organizar para que tudo funcione da melhor maneira possível, afinal, é um ativo extremamente importante para o desenvolvimento das nações.
O preço do minério de ferro não é apenas precificado pelos custos de produção, como costuma acontecer com os produtos manufaturados – um celular, por exemplo –, mas, sim, pela demanda da commodity no mercado em determinado momento.
Ou seja, ao passo que o minério de ferro está sendo extraído, a demanda e, cons`equentemente, o preço estão mudando. E a ferramenta perfeita para fazer essa conexão em tempo real são as Bolsas de Valores, uma vez que elas são capazes de conectar todo o mundo para intermediar as negociações de compra e venda da matéria-prima.
É importante ressaltar que a movimentação de preços e vendas não é realizada por meios físicos. Assim, os contratos de minério de ferro são negociados em data e preço específicos por meio de Bolsas, como por exemplo a B3.
A título de curiosidade, a maior Bolsa de commodities do mundo é a de Chicago, nos Estados Unidos. No entanto, a cotação do minério de ferro é feita no porto de Dalian, o maior canal de entrada de minério de ferro da China, que é a maior consumidora dessa commodity no planeta.
Considere o seguinte cenário: a demanda por minério de minério de ferro está alta e acima do padrão devido a uma intensa atividade industrial em todo o globo, enquanto a produção geral da commodity está abaixo do esperado. A partir do momento que esses dados de produção e demanda global se tornam públicos, é provável que em poucos segundos o custo de importação do minério aumente.
Embora estejamos falando apenas do minério de ferro, esse movimento de preço no mercado livre afeta diretamente os produtos derivados e, consequentemente, toda a cadeia produtiva. Por exemplo, se um smartphone precisa de uma liga de ferro específica para ser produzido, o seu preço pode variar de acordo com a oferta do minério de ferro naquele momento do processo.
Mercado do ferro e pressões no preço
Como citamos, a cotação do minério de ferro é obtida a partir da oferta e demanda. E é importante mencionar que aumentar a oferta da commodity não é uma tarefa simples, uma vez que a indústria extrativista do metal gira em torno de diversas barreiras de entrada, entre elas, a monetária e a legal.
Em relação à barreira monetária, para abrir uma mineradora, é necessário um investimento muito pesado, especialmente em maquinário. Sem contar o tempo que o empreendimento demanda para dar lucro e começar a dar retorno a todas as partes que investiram nela, o que aumenta a percepção de risco do investimento.
Sobre a barreira legal, para iniciar a extração, é necessário obter diversas licenças ambientais e conseguir direito de minerar a terra, o que nem sempre é trivial, pois esse processo normalmente envolve órgãos do governo e tramitações legais.
Por conta dessas duas barreiras, hoje a produção de minério de ferro é feita principalmente por algumas empresas que são verdadeiros impérios de metais, e a Vale é uma delas – outras gigantes do setor são a Rio Tinto e a BHP, ambas de origem anglo-australiana.
E isso também impacta na produção de minério de ferro, que segue em crescimento de forma estável, sem muitas mudanças ou surpresas devido à grande dificuldade de novos entrantes ou de expansão agressiva.
Produção global de minério de ferro por país (milhões de toneladas)
Fonte: Mining Technology
O outro lado: a demanda por minério de ferro
Se a produção de minério de ferro segue um ritmo estável de crescimento, como será a demanda, especialmente com a retomada da atividade global? Ela será mais forte do que o mercado espera?
Isso porque em 2020 a produção global sofreu forte impacto. Veja o desempenho do comércio e do PIB global (barras azuis) e como a produção global está relacionada com o comércio naval (linha vermelha):
Fonte: ONU – Review of Maritime Transport 2020
Mas por que trouxemos dados sobre o comércio naval? Pois essa é a forma mais comum de transportar o minério de ferro para a China, e a queda do tráfego no ano passado implicou na redução de 8,8% das exportações da Vale, que representam cerca de 210 milhões de toneladas segundo o Centro de Estudos e Pesquisas BRICS. Ou seja, com o aumento da produção global, a demanda por ferro naturalmente seguirá o mesmo caminho.
E você sabe quais são os países com maior influência no mercado de minério do ferro? Abaixo você confere quais são os maiores produtores e consumidores da commodity no mundo:
Fonte: ONU – Review of Maritime Transport 2020
Como mencionamos anteriormente, o crescimento da produção do minério segue estável nos últimos anos. Porém, a representatividade da China no consumo de ferro tem aumentado de tal forma que hoje o país é responsável pelo consumo de 72% de todo o minério produzido no planeta:
Fonte: OEC
Ou seja, um termômetro para medirmos a demanda de ferro global é entender o que se passa na China com relação ao consumo do minério. E alguns fatos recentes abalaram o preço da commodity no mundo:
- Segundo o canal norte-americano CNBC, a China recentemente impôs limitações na quantidade de produção de gás carbônico, refreando a capacidade produtiva de aço no país e, por consequência, no consumo de ferro;
- Aumento da regulação sobre a negociação de contratos de compra e venda de ferro com intuito de limitar a especulação de investidores e abaixar o preço da commodity.
Por mais que esses acontecimentos freiem a expectativa de produção de ferro, estamos falando do maior mercado consumidor do minério no mundo, responsável por 17% de todo o PIB do planeta em 2019 e que tem perspectiva de crescimento de 8,5% em 2021. E, para atingir esse índice, não há como isso acontecer sem um consumo intenso do minério de ferro.
Importante ressaltar que essas pressões na cotação do minério no curto prazo existem, sim, e estão sendo impostas pelo governo chinês como forma de frear o aumento da cotação da tonelada de ferro. Porém, o fato de vermos o país tão preocupado em manter o preço da commodity estável nos mostra que o crescimento da China depende demais do minério.
Para ilustrar isso, veja como a cotação do minério de ferro variou nas últimas semanas:
Fonte: Business Insider
Vimos uma queda intensa da sua cotação, e isso levou muitas pessoas a nos perguntar sobre o patamar do atual preço. Na nossa perspectiva, no médio e longo prazos, vemos que a pressão de demanda é maior que a atual oferta de ferro no mundo.
Assim, na nossa opinião, as pressões para manter o preço estável no médio e longo prazos são maiores que aquelas para influenciar negativamente a cotação do preço do minério de ferro. E tudo isso reforça ainda mais a nossa posição de manter a Vale em nossa carteira, que hoje representa 5% do total da alocação.
Dito isso, vamos falar sobre a mineradora e o resultado referente ao segundo trimestre de 2021, divulgado no último dia 29 de julho.
Resultado da Vale do 2T21
No dia 29 de julho, a Vale (VALE3) divulgou seu resultado referente ao segundo trimestre de 2021.
Destaques: (i) maior Ebitda trimestral da Vale, com crescimento de 32% frente ao 1T21 e de 227% vs 2T20; (ii) geração de fluxo de caixa livre no montante de US$ 6,527 bilhões, US$ 680 milhões a mais do que no 1T21; (iii) dividendos mínimos a serem pagos em setembro referentes ao primeiro semestre no montante de US$ 5,3 bilhões; e (iv) continuidade no programa de recompra de ações.
Divisão de ferrosos
O Ebitda da divisão de ferrosos alcançou US$ 10,679 bilhões, 37% maior que o 1T21, em função dos maiores preços de venda realizados de finos de minério de ferro e pelotas e maiores volumes de vendas. Esses fatores foram parcialmente compensados pelo aumento de custos e despesas, incluindo custo caixa C1 (que exclui compras de terceiros) e custos de frete.
O breakeven (ponto de inflexão) do Ebitda de finos de minério de ferro e pelotas foi de US$ 44,5/t (tonelada), ficando US$ 8,3/t acima do 1T21. O breakeven mais alto se deve principalmente a custos C1 US$ 4,7/t maiores, devido principalmente a maiores compras de terceiros, inflação e demurrage (período de armazenagem), e custos de frete US$ 1,9/t maiores.
Metais básicos
O Ebitda de metais básicos foi de US$ 866 milhões, ficando 14% abaixo do 1T21. O Ebitda das operações de níquel foi de US$ 430 milhões, ficando US$ 212 milhões abaixo do 1T21, principalmente devido às despesas de parada relacionadas à greve em Sudbury (Canadá) e menor receita de subprodutos. O Ebitda das operações de cobre foi de US$ 436 milhões, ficando US$ 67 milhões superior ao 1T21, especialmente por maiores volumes de vendas que refletiram melhorias operacionais em Salobo (PA) e embarques postergados do 1T21 para 2T21.
Carvão
O Ebitda do carvão foi US$ 164 milhões negativo, ficando US$ 5 milhões abaixo do 1T21. O efeito positivo da conclusão da manutenção, com maiores receitas e diluição de custos fixos, balanceou a ausência dos juros recebidos do Corredor Logístico Nacala no 1T21. O benefício esperado no Ebitda a partir da integração do corredor logístico deve começar a ser percebido com a consolidação completa no 3T21.
Consolidado
O Ebitda consolidado da companhia foi de US$ 11,2 bilhões, 32% de crescimento frente ao 1T21, influenciado positivamente pelo aumento da cotação do minério de ferro no período.
A geração de fluxo de caixa livre que a companhia registrou continua sólido ao atingir o montante de US$ 6,5 bilhões, US$ 680 milhões a mais do que no 1T21. Segundo a Vale, a melhora seguiu o maior Ebitda proforma, mas foi parcialmente compensado por: (i) aumento do capital de giro, principalmente por causa do aumento das contas a receber e (ii) maior Imposto de Renda, resultante de maiores resultados trimestrais.
Fonte: Vale
A dívida líquida expandida da companhia foi de US$ 11,4 bilhões (muito próximo da meta, de US$ 10 bilhões), o que significa dizer que a Vale está operando em níveis baixos de alavancagem.
Em relação ao lucro líquido, a Vale registrou US$ 7,586 bilhões no 2T21, crescimento de 37% frente ao 1T21, principalmente devido ao maior Ebitda proforma e maiores resultados financeiros. Encargos do impairment de ativos do negócio de carvão e resultados de participações menores, devido à provisão adicional relacionada à Fundação Renova, compensaram parcialmente os efeitos positivos.
Fonte: Vale
Sobre os dividendos mínimos, anunciou que deve distribuir em setembro o montante de US$ 5,3 bilhões referente ao resultado do primeiro semestre do ano. Até junho, a mineradora distribuiu o equivalente a US$ 2,2 bilhões em dividendos.
Em relação ao seu programa de recompra, informou que já concluiu cerca de 45% do programa de recompra de ações (aproximadamente US$ 2,6 bilhões).
Considerando a distribuição de US$ 3,9 bilhões em março, a Vale retornou um total de US$ 8,1 bilhões aos acionistas no primeiro semestre de 2021.
Conclusão
O preço do minério de ferro está diretamente relacionado ao preço das ações da Vale, uma vez que a commodity é sua principal fonte de receita, tanto que vimos nos últimos dias as oscilações negativas na cotação do metal provocarem uma queda no preço da empresa.
No entanto, vemos que, para o médio e longo prazos, as perspectivas da Vale continuam fortes mesmo com as instabilidades de curto prazo da cotação do minério de ferro.
Fora isso, o mercado do minério está fortemente ligado à retomada da atividade industrial no mundo. Por conta da pandemia do novo coronavírus, vimos um decréscimo intenso na produção global e que ainda tem muita margem de retomada.
Reiteramos nossa visão positiva para Vale, que continua sendo impulsionada pelo momento positivo do preço do minério de ferro (que deve se sustentar em patamares elevados por mais algum tempo) e forte geração de fluxo de caixa livre com alta probabilidade de distribuição de dividendos.
A mineradora continua sendo negociada a um preço menor que seus pares internacionais, com múltiplos EV/Ebitda para 2022 próximo de 3x, considerada “descontada” perto de seus pares internacionais, que negociam com múltiplo próximo de 4,0x.
Reiteramos nossa recomendação de compra para VALE3 e a nossa posição de 5% em carteira no ativo.
Um abraço,
Filipe Colus e Gui Cadonhotto