Principais acontecimentos que marcaram o mercado financeiro: um panorama dos eventos mais significativos e seus impactos, com uma visão clara e transparente, para te ajudar nas decisões neste ano que se inicia.
Como os nossos fundos navegaram pelo ano de 2024
Escrito por Felipe Arrais em FUNDOS
Neste relatório, você encontrará:
Desempenho consolidado de 2024 dos fundos recomendados: a comparação do resultado de cada fundo com seus respectivos benchmarks.
Análise dos destaques por categoria: a identificação dos pontos fortes e fracos de cada categoria, com explicações detalhadas, para promover um melhor entendimento e apoiar o planejamento futuro.
Conceito de carteira e seleção de gestores: os aprendizados fundamentais para levar consigo ou até mesmo para revisitar
O ano de 2024 terminou e, mais uma vez, vivenciamos momentos desafiadores para quem faz gestão profissional no mercado de capitais, principalmente no Brasil. Antes de analisarmos os resultados obtidos por nossos gestores recomendados, é importante compreender o cenário e os obstáculos que impactaram suas estratégias ao longo do ano.
Vivemos em um país em que, frequentemente, temos que conviver com uma inflação elevada, o que torna necessário manter a taxa básica de juros alta por mais tempo. Isso complica a vida dos ativos de risco, que acabam enfrentando mais dificuldades para entregar resultados consistentes (algo que também não é novidade). Para deixar o desafio ainda mais “interessante”, as incertezas sobre o rumo das contas públicas trouxeram um nível adicional de complexidade ao cenário neste ano.
Já no exterior, ainda que tivemos um bom ano para ativos internacionais, o cenário também foi repleto de surpresas e momentos de apreensão, desde conflitos geopolíticos à troca de governo na maior economia do mundo, os Estados Unidos.
Embora não seja realista esperar que nossos gestores entreguem resultados excepcionais o tempo todo, é fundamental que eles se destaquem na maior parte dos períodos e, principalmente, naveguem bem em momentos de adversidade, se sobressaindo perante a média.
Vale ressaltar que um desempenho aquém do esperado, em determinado período, não é, por si só, um motivo para desconsiderarmos ou deixarmos de recomendar uma estratégia. Isso porque compreendemos o contexto em que atuamos e acreditamos firmemente que a escolha de um fundo ou qualquer outro ativo, para compor uma carteira, deve ir além dos resultados passados.
Afinal, se o histórico de performance fosse suficiente para determinar a escolha de um fundo, nossa profissão simplesmente não seria necessária.
Vamos discutir os principais acontecimentos que se desenrolaram ao longo do ano que se encerrou.
Cenário Fiscal brasileiro e distanciamento da meta de inflação
Iniciamos 2024 com perspectivas otimistas, impulsionadas por sinais positivos tanto na economia doméstica quanto no cenário monetário global. Empresas apresentavam resultados sólidos, e a taxa básica de juros, a Selic, seguiu em trajetória de queda, refletindo o ciclo de cortes iniciado pelo Banco Central, em 2023. Esse cenário alimentou projeções otimistas de que a Selic poderia cair para até 8,5% ao ano, mas essa expectativa não se concretizou.
Ao longo do primeiro semestre, a Selic atingiu o patamar de 10,50% e foi mantida nesse nível, com uma pausa no ciclo de cortes. No segundo semestre, o cenário começou a mudar. A inflação persistente e as preocupações crescentes com o desequilíbrio fiscal levaram o Banco Central (BC) a adotar uma postura mais restritiva. Em setembro, contrariando o movimento de praticamente as demais principais economias (exceto Japão), o Brasil elevou a sua taxa básica de juros, encerrando o ciclo de cortes e marcando um retorno ao aperto monetário.
No campo fiscal, as fragilidades eram conhecidas desde o início do ano, mas não estavam no centro das discussões do mercado, já que os riscos associados pareciam amplamente precificados nos ativos. Apesar da meta de inflação fixada em 3%, o Brasil encerrou 2024 acima desse patamar.
A preocupação com as metas fiscais aumentou ao longo do ano, impulsionada por algumas medidas, como a reforma do Imposto de Renda e a renegociação das dívidas estaduais, que ampliaram as incertezas econômicas. A fragilidade fiscal, aliada a uma comunicação desorganizada, agravou a perda de confiança no mercado, intensificando dúvidas sobre a sustentabilidade das contas públicas.
Como reflexo, o real sofreu uma forte desvalorização, com o câmbio atingindo R$ 6,29 por dólar em dezembro. Esse movimento foi motivado tanto pelas preocupações internas mencionadas, quanto pela valorização global do dólar após a vitória de Donald Trump nas eleições dos EUA.
Em resposta, o BACEN intensificou o ciclo de aperto monetário, elevando as taxas de juros para enfrentar os desafios da crescente dívida pública. Contudo, essa estratégia resultou em custos de financiamento mais altos para a economia, adicionando novas pressões à já desafiadora trajetória econômica do País; além disso, a economia continua resiliente, indicando inflação elevada por mais tempo.
Decisões do Fed e Disputa Presidencial nos EUA
Adicionalmente, o mercado global mantinha suas atenções voltadas para os Estados Unidos, com altas expectativas de que o Federal Reserve (Fed), Banco Central Americano, iniciasse a redução da taxa básica de juros (Fed Funds Rate) já no primeiro trimestre, possivelmente em março.
Essa expectativa levou muitos investidores a se posicionarem antecipadamente, esperando o tão aguardado início do ciclo de cortes. Entretanto, o movimento aconteceu mais tarde do que o previsto, frustrando as expectativas iniciais.
O Fed adotou uma postura cautelosa, fundamentando suas decisões em uma análise abrangente dos dados econômicos e aguardando a consistência nos indicadores que confirmassem o controle da inflação e a desaceleração no mercado de trabalho. Em setembro, o Banco Central Americano, finalmente, encontrou as condições necessárias para iniciar o ciclo de afrouxamento monetário e realizou o primeiro corte desde 2020.
Além disso, as incertezas políticas ganharam destaque com Joe Biden e Donald Trump se preparando para uma disputa acirrada nas eleições presidenciais. No entanto, a rápida perda de apoio de Biden levou à sua desistência, abrindo caminho para Kamala Harris assumir a candidatura democrata na corrida eleitoral.
A disputa presidencial entre Donald Trump e Kamala Harris ganhou força, com ambos os candidatos apresentando propostas fiscais que poderiam impactar significativamente na economia global, especialmente nas relações comerciais com a China.
Trump, representando o Partido Republicano, defendeu cortes de impostos para estimular o mercado interno, o que poderia reduzir a arrecadação federal. Para equilibrar, sugeriu tarifas comerciais mais agressivas, principalmente contra a China, além de medidas de desregulamentação para impulsionar a produção doméstica e redução de imigração.
Kamala Harris, candidata Democrata, propôs um aumento nos gastos governamentais, o que poderia ampliar os déficits fiscais. Sua proposta manteve o compromisso com políticas, como o Inflation Reduction Act (IRA) e o Chips Act, promovendo investimentos em produção local, energias renováveis e cooperação com aliados europeus e emergentes. Harris teve uma postura mais cautelosa e estratégica em relação à China.
Neste contexto, em que ambos os candidatos parecem oferecer um cenário mais inflacionário, muitos investidores adotaram uma postura mais conservadora, reduzindo suas posições enquanto aguardavam maior clareza sobre os desdobramentos das eleições americanas e seus possíveis reflexos no cenário global.
Com o retorno de Trump à presidência, o dólar se valorizou globalmente, e muitos mercados globais, especialmente países europeus e a China, adotaram uma postura mais cautelosa diante das novas medidas anunciadas pelo presidente, que, inclusive, tomará posse na próxima segunda-feira (20).
Resultados 2024
Vamos analisar cada classe, destacando a performance das nossas estratégias aprovadas no último ano. É importante lembrar que, embora os números recentes sejam relevantes para avaliarmos o desempenho, eles não garantem retornos futuros, seja positivo ou negativo.
Além disso, vamos ver que muitos fundos não foram tão bem quanto esperávamos, mas isso faz parte do processo de investir. Nem todas as estratégias “brilharão” o tempo todo. Tomar decisões apenas com base nos resultados recentes, como resgatar de um fundo só porque ele teve um momento ruim, pode acabar prejudicando seu patrimônio aos poucos (é como um cachorro correndo atrás do próprio rabo).
Outro ponto importante é que, o fato de uma classe ter se saído melhor e outra pior não significa que devemos concentrar nossos investimentos apenas na classe vencedora. A diversificação continua sendo uma ferramenta essencial para atravessar diferentes cenários de mercado com maior segurança e resiliência.
Abaixo, apresentaremos uma discussão dividida por classes de ativos, destacando a performance de cada recomendado, dos benchmarks relevantes, além de uma média da performance de nossos recomendados. Vale destacar que a média não é simplesmente o resultado da média dos resultados, e sim o resultado de um índice cuja composição é uma posição igualitária de todos os recomendados da classe.
Renda Fixa - Pós-Fixados
A classe de pós-fixados visa entregar bons resultados com menor risco. O foco não é apenas superar o CDI, mas sim preservar o capital e trazer estabilidade para a carteira como um todo, garantindo um desempenho mais consistente no longo prazo. Essa estabilidade é como uma base sólida, que permite que outras classes de ativos assumam mais riscos, em busca de retornos maiores.
Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Finclass
Como podemos notar, entre os destaques, o fundo SPX Seahawk Global se sobressaiu, entregando um retorno de 16,40% no ano, comparado aos 10,87% do CDI, seu índice de referência. Em um ano em que o CDI apresentou um desempenho muito competitivo, o fundo não apenas o superou, mas o fez com uma margem considerável.
O SPX Seahawk Global investe boa parte do portfólio em títulos de dívida de empresas no exterior, com hedge cambial, e a outra parte se assemelha à do SPX Seahawk local, de forma que o fundo consegue mudar sua composição conforme o mercado que oferece mais oportunidades.
A estratégia se beneficiou de um cenário global favorável: enquanto o Brasil seguia aumentando os juros, as grandes economias globais começaram a reduzi-los. Esse movimento abriu excelentes oportunidades na marcação a mercado de bonds internacionais que são, em sua maioria, pré-fixados, impulsionando o desempenho do fundo.
Por outro lado, o Capitânia Radar apresentou uma rentabilidade de 8,41%, ficando abaixo do CDI. Esse fundo possui algumas peculiaridades: apesar de ser classificado como pós-fixado, é considerado mais “apimentado”, pois inclui um book de fundos imobiliários (FIIs), que enfrentou um cenário desafiador. E mesmo que a carteira de FIIs de papel tenha entregado um resultado acima do IFIX, o produto tem meta de superar o CDI; portanto, a posição acabou sendo detratora no ano.
Apesar de algumas estratégias terem nos decepcionado em relação à performance, a maior parte das recomendações atingiu seu objetivo com louvor; inclusive, a média dos recomendados também ficou acima do CDI, mostrando que uma carteira pode ser bem-sucedida, mesmo em um ano em que alguns gestores tropecem.
Renda Fixa – Dinâmica
Embora essa categoria faça parte da renda fixa, seu objetivo é buscar ganhos mais expressivos com um pouco mais de risco. Essa classe tem o IMA-B sendo seu benchmark principal, representando a combinação de títulos públicos indexados à inflação de diferentes prazos.
No entanto, como você bem sabe, diferenciamos as estratégias em três grupos: aquelas focadas em bater a inflação intermediária (IMA-B), a inflação curta (IMA-B 5) e os passivos que buscam replicar a inflação longa (IMA-B 5+). Ao contrário da categoria anterior, que é mais voltada ao risco de crédito, essa combina o risco de crédito com uma maior sensibilidade às oscilações do mercado.
O ano foi difícil e caracterizado por um ambiente de alta volatilidade e extrema sensibilidade do mercado. O cenário fiscal turbulento no País impactou, de forma significativa, as expectativas em relação aos juros futuros, afetando o desempenho, sem que isso estivesse diretamente relacionado à qualidade de crédito dos ativos.
Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Finclass
Sobre o gráfico acima, como temos três fundos passivos que apenas têm a função de acompanhar o índice IMA-B 5+ (ou seja, três fundos que fazem o mesmo), consideramos uma média de resultado dos três para incluir no índice, que representa a média da caixinha de renda fixa dinâmica.
Icatu Vanguarda foi o destaque positivo; o fundo, que visa superar o IMA-B 5, conseguiu fechar o ano com retorno de 7,71%. Vale lembrar que, uma das principais características do fundo é misturar crédito pós-fixado com risco de mercado, operando juros.
Optamos por manter opções passivas na parte da inflação longa, pois historicamente é um índice muito difícil de ser superado. Embora tenhamos analisado estratégias de gestão ativa com esse objetivo, não encontramos nenhuma que se adequasse ao nosso time de aprovados. Contudo, justamente esses passivos que replicam o IMA-B 5+ foram os três piores detratores da classe. Como são passivos, a expectativa é que sigam a performance do seu indexador, que, neste caso, teve um desempenho abaixo do esperado. A qualidade de um passivo é medida pela sua fidelidade ao índice, e, embora o resultado não tenha sido positivo, ele apenas seguiu o comportamento do indexador.
Multimercado
Os fundos multimercados podem ser vistos como um verdadeiro “coringa” entre as opções de investimento, pois o gestor tem ampla liberdade para definir suas estratégias, e atuar em diferentes mercados; mas essa flexibilidade não implica que as decisões sejam fáceis, especialmente em períodos de incerteza.
Por mais que as soluções possam parecer evidentes em uma ótica retrospectiva, no momento da decisão, escolher o melhor caminho é um desafio. Essa complexidade surge justamente da capacidade dos multimercados de atuar em diversos mercados simultaneamente, o que amplia as alternativas, mas também dificulta a escolha da direção mais adequada com tanta indefinição.
Esse é um dos fatores que leva muitos a duvidarem do potencial da classe, especialmente no que diz respeito à geração de alfa. No entanto, esse potencial só se torna claro para muitos quando os fundos estão em fases positivas. O verdadeiro ganho, porém, se revela quando se atravessa com resiliência uma fase difícil, e se é recompensado pela recuperação desde o início dela.
Para a elaboração do gráfico abaixo, nós tratamos os casos em que há duas versões de uma mesma estratégia, para evitar um peso maior dentro do índice que representa a média da classe. Portanto, para casos como Kapitalo Kappa e Zeta, Gávea Macro e Gávea Macro Plus, etc., fizemos uma média das estratégias da casa, para apenas, depois, incluir esse resultado dentro de nosso índice.
Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Finclass
Mesmo em um cenário desafiador, o SPX Raptor alcançou uma impressionante rentabilidade de 22,02% no ano passado, superando os 10,87% do CDI no mesmo período. A principal contribuição para esse desempenho veio do book de moedas, com destaque para a aposta no dólar. Vale ressaltar que, atualmente, o SPX Raptor está fechado e é restrito a investidores profissionais, ou seja, aqueles que atestam por escrito possuir mais de R$10 milhões investidos. Dado isso, vamos focar no segundo destaque positivo da classe, que é mais acessível e potencialmente presente em mais carteiras.
O fundo JGP Strategy obteve uma rentabilidade de 15,80% em 2024, também acima dos 10,87% do CDI. Esse resultado foi principalmente impulsionado pelo carrego do CDI elevado, que explicou 10,88 pontos percentuais do retorno. Além disso, a operação tática de juros, tanto no Brasil quanto no exterior, contribuiu com 4,45 pontos percentuais desse desempenho.
Na ponta oposta, o Vista Multiestratégia fechou o ano com um retorno de -14,47%. Esse fundo, que apresenta maior volatilidade entre os recomendados, não é adequado para qualquer perfil de investidor. O classificamos como um fundo “rock n´ roll”, justamente por apresentar ganhos e quedas expressivas, típicas dessa estratégia.
Eles sofreram perdas significativas com a estratégia de compra de urânio e com a posição aplicada (apostando na queda) nos juros na Europa na primeira parte do ano. Além disso, a renda variável doméstica teve um impacto negativo no desempenho, contribuindo para o resultado pouco satisfatório.
A partir do segundo semestre, os resultados começaram a se reverter; inclusive, a tese de urânio contribuiu positivamente com o fundo, entregando 5,7% no mês de setembro, contra 0,8% do CDI. No entanto, esses ganhos não foram suficientes para recuperar as perdas acumuladas.
Imobiliário
Hoje, temos apenas uma peça na fatia de imobiliários (via fundos) - mesmo que a ideia fosse ter mais opções, além da que está contida na carteira modelo. Encontrar fundos desse tipo (multimercados com propósito específico de investir em FIIs), que atendam aos nossos critérios, é uma tarefa complicada e cheia de limitações, muito por conta das regras que regulamentam fundos de investimento.
Os investidores de FIIs começaram o ano mais confiantes no cenário econômico, tanto global quanto doméstico. Esse otimismo se refletiu no mercado, que passou a enxergar o setor imobiliário de forma mais positiva. Um exemplo disso foi o desempenho do IFIX, índice que mede os fundos imobiliários listados na B3, que subiu 2,93% apenas no primeiro trimestre de 2024, indicando um começo de ano mais promissor para o segmento.
Esse sentimento foi impulsionado pela expectativa de que o ciclo de cortes de juros nos Estados Unidos começaria em breve. No entanto, como já mencionamos na abertura do relatório, essa movimentação foi adiada devido à surpreendente resiliência da economia americana e à força do mercado de trabalho, frustrando as expectativas dos agentes econômicos.
Simultaneamente, o cenário nacional enfrentou uma deterioração significativa, marcada por tensões fiscais devido ao desequilíbrio das contas públicas e pela decisão do Banco Central de iniciar um novo ciclo de alta na taxa Selic, visando conter o aquecimento da atividade econômica. Como consequência, esses fatores reduziram ainda mais o interesse dos investidores por ativos de risco, incluindo aqueles da classe imobiliária.
Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Finclass
Apesar de o mercado de FIIs ter sofrido no ano, a seleção escolhida por Caio Conca e seu time na Capitânia foi bem acertada, gerando um alfa considerável, já que o fundo subiu 3,16%, em um ano em que o IFIX caiu quase 6%.
Fundo de Ações
Quando discutimos fundos de ações, temos que lembrar que temos dois tipos diferentes de gestão para essa classe: long only e long bias.
Dividimos a publicação dos resultados em duas partes para garantir uma comparação justa, considerando que os benchmarks de cada categoria, assim como os riscos e potenciais de retorno, podem ser diferentes.
Long Only
Os fundos long only são aqueles que procuram ganhar dinheiro de maneira direcional, com uma carteira comprada em ações com grande potencial de valorização no futuro, na visão do time.
Como o IBOVESPA é o índice que representa o comportamento médio de nosso mercado acionário, ele acaba sendo o benchmark que os gestores buscam superar. No entanto, sabemos que a composição do índice pode ser um pouco traiçoeira, uma vez que é muito concentrada em poucos setores, principalmente o financeiro e o de commodities.
Esse contexto tem feito com que a indústria profissional de gestão de ações tenha entrado em modo de alerta. Em 2021, quando os juros começaram a subir no Brasil, observamos uma grande distorção no mercado. Isso ocorreu devido ao IBOVESPA, que subiu impulsionado pelas commodities, enquanto a maior parte da economia doméstica enfrentava dificuldades.
O resultado não foi muito diferente do que vimos em 2024, com a maior parte de nossos fundos recomendados, inclusive a média das recomendações, fechando o ano abaixo do IBOVESPA.
Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Finclass
O destaque positivo foi o fundo IP Participações IPG, e o motivo é muito simples: este fundo tem boa parte de sua carteira exposta ações internacionais, como Alphabet (detentora do Google), Meta, Thermo Fisher, entre diversas outras, que tiveram sucesso ao longo do ano, favorecendo a performance do fundo da IP.
O destaque negativo foi o fundo da Alaska, com uma queda intensa de quase 33%. Diversas empresas relevantes na carteira do fundo, durante a maior parte do ano, tiveram uma performance muito ruim por conta da grande deterioração dos fundamentos do Brasil.
Por mais que boa parte do portfólio tenha sofrido, a queda em algumas das principais empresas na carteira prejudicou muito o resultado do fundo. Empresas como Magazine Luiza, Cogna e Vale caíram consideravelmente mais que o IBOVESPA (-65,2%, -65,18% e -25,73%, respectivamente).
É importante lembrar que, quando o primeiro movimento acentuado de desempenho negativo dos fundos de ações no Brasil ocorreu, a partir de 2021, o fundo da Alaska foi um grande destaque positivo, graças ao bom desempenho em segmentos ligados a commodities. No entanto, em 2024, a Alaska se destacou negativamente, enfrentando um desempenho abaixo.
Este foi um exemplo de por que não podemos usar o resultado recente como principal fator na tomada de decisão ao escolher um fundo de investimento. Além disso, demonstra a importância de diversificar entre diferentes gestoras e estilos de gestão.
Long Bias
Os fundos long bias (ou long biased) são aqueles que, diferentemente dos fundos de ações tradicionais (long only), podem usar parte da carteira para operar na contramão do mercado. Isso permite que esses fundos ganhem tanto com a valorização dos ativos quanto apostando na desvalorização deles.
Essa flexibilidade geralmente resulta em níveis relativamente menores de volatilidade nesta classe de fundos, além do uso de diferentes benchmarks, como o IPCA + Yield do IMA-B. Para facilitar a apresentação dos resultados, e considerando que cada fundo pode adotar um benchmark específico, optamos por compará-los todos ao desempenho do IBOVESPA no ano de 2024.
Fonte: Quantum Axis | Elaboração: Finclass
Nesta classe mais defensiva, tivemos apenas uma das estratégias performando abaixo do IBOVESPA no ano; entretanto, apenas um único fundo de nossa amostra (que não tenha investimentos no exterior de maneira estrutural, como o IP Participações visto na classe anterior), ficou positivo no ano, o SPX Falcon.
O time estava muito pessimista com a trajetória do Brasil e uma exposição pequena direcional no mercado acionário local, que foi ainda mais diminuída ao longo do quarto trimestre do ano. A principal contribuição para o fundo veio do setor de commodities e óleo e gás.
Do lado negativo, o fundo Navi Long Bias fechou em queda de -13,14%. Alguns papéis em carteira, como Hapvida, Eletrobrás, Equatorial e Vale, tiveram quedas superiores a dois dígitos no ano. O perfil do fundo é extremamente dinâmico, de forma que as posições podem mudar com frequência. Marcamos uma atualização com o time da Navi e traremos mais informações na comunidade Circle, em breve.
Conceito de carteira e escolha de gestores
Embora seja algo compreendido por muitos, sabemos que nos momentos em que estamos perdendo dinheiro, podemos deixar a racionalidade de lado e fazer escolhas possivelmente ruins no longo prazo.
O trabalho de gestão ativa oferece ônus e bônus. O bônus é você conquistar um resultado acima da média em prazos apropriados, com o ônus de muitas vezes não conseguir.
Os gestores que desapontaram, em termos de resultado, estão recebendo toda nossa atenção para podermos reforçar nossa convicção. Se em algum momento as quedas recentes forem capazes de “sujar” um histórico vencedor ou, por algum motivo, perdermos a crença sobre a capacidade dos gestores recuperarem o resultado, retiraremos a recomendação.
Dito isso, temos que tolerar momentos de performance abaixo dos benchmarks, pois até mesmo os maiores gestores do mundo passam por momentos de performance insatisfatória.
Estudar bem os gestores e suas respectivas estratégias recomendadas para entender mais sobre o estilo de gestão é algo que convidamos você a fazer. Além, é claro, de ler o relatório oficial de quando os fundos foram recomendados.
No ano passado, fizemos uma série de relatórios chamados de mapeamento de fundos. Fizemos uma edição para cada categoria relevante de fundos que temos, o que pode te ajudar muito a entender não apenas a classe de ativos, mas as peças disponíveis para investir.
Você consegue acessá-los por aqui:
Ficamos por aqui...
Este é o primeiro relatório do ano, e ter uma visão clara do contexto é essencial para tomarmos decisões mais acertadas, especialmente quando se trata de investimentos. O ano que passou foi marcado por um mercado volátil e muito sensível, desafiando até as gestoras mais experientes. Embora nem todos os fundos tenham alcançado o desempenho excepcional esperado em 2024, é importante entender que esses momentos fazem parte do ciclo natural do mercado.
Trazer uma visão transparente e realista dos resultados nos ajuda a aprender e ajustar nossas estratégias para o futuro. Sempre tendo em mente que o importante é manter o foco na visão de longo prazo e os bons resultados virão com o tempo, à medida que aprendemos e evoluímos com cada experiência.
Não precisamos esperar por uma virada de ano para mudanças; nossos momentos de recomeço podem ocorrer a qualquer momento. No entanto, aproveite este início de ano para começar com o pé direito. Uma excelente forma de fazer isso é seguir a carteira recomendada, com a flexibilidade de adaptá-la ao seu estilo,substituindo as sugestões por outras peças que aprovamos e mantemos cobertura.
Da nossa parte, nos comprometemos a fornecer, de forma transparente, o máximo de informações possíveis, para que você possa seguir investindo, com tranquilidade e resiliência, mesmo em tempos desafiadores.
Além disso, estamos à disposição para responder suas dúvidas e discutir mais sobre os resultados e perspectivas na comunidade Circle e nas nossas lives, que acontecem todas as sextas-feiras, ao meio-dia.
Até mais!
Felipe Arrais, Ana Farias e Rodrigo Xavier
Sobre os analistas
Felipe Arrais
Sócio
Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.