Tese de investimento em Vamos (VAMO3);Valuation de VAMO3;
Compra de Vamos (VAMO3) e venda de Azzas (AZZA3) e Lojas Quero-Quero (LJQQ3)
Escrito por Evandro Medeiros em AÇÕES
Neste relatório, você encontrará:
Fundamentação para a retirada de AZZA3 e LJQQ3;
Modificações na alocação: redução em ABCB4, BBAS3 e BMGB4 e elevação de PRIO3, WIZC3 e a inclusão de VAMO3 com 2% da carteira. Substituição de KLBN11 para KLBN4 e elevação na alocação.
Na conclusão, você pode verificar as mudanças dos pesos das carteiras recomendadas.
Introdução
A Vamos Locação de Caminhões, Máquinas e Equipamentos S.A. é a líder brasileira na locação de caminhões, máquinas e equipamentos pesados, com foco em contratos de longo prazo e elevada previsibilidade de receitas.
A companhia adquire seus ativos utilizando a escala para negociar preços que podem ser 30% mais baratos que os oferecidos às pessoas físicas ou pequenas e médias empresas. Com isso, a Vamos aluga seus caminhões e equipamentos e, por volta de cinco anos depois, revende com margens atrativas, beneficiando-se do baixo custo de aquisição.
Presente em diversos setores da economia, a Vamos combina escala, capilaridade nacional e expertise nos seus segmentos de atuação, posicionando-se como uma plataforma estratégica para a terceirização de frotas no Brasil.
História
A Vamos foi fundada em 2015 como uma divisão da JSL, outra empresa do Grupo Simpar que já acumulava mais de duas décadas de experiência na locação de ativos pesados.
A origem do grupo remonta a 1956, com a fundação da Transportadora Julio Simões a partir de seu fundador de mesmo nome.
Ao longo das décadas seguintes, especialmente sob a liderança do filho do fundador, Fernando Simões, o grupo passou por um processo de expansão, ampliando sua atuação nos segmentos de terceirização de frotas, locação de veículos leves e, posteriormente, locação de ativos pesados.
Em 2021, a Vamos realizou seu IPO no Novo Mercado da B3, levantando pouco mais de R$ 1,1 bilhão, sendo cerca de R$ 890 milhões via oferta primária, destinados ao crescimento e à expansão da frota, e aproximadamente R$ 296 milhões via oferta secundária, com venda de ações pela controladora Simpar.
Desde então, a companhia tem se consolidado como líder no mercado de locação de ativos pesados, com uma frota de mais de 50 mil caminhões, máquinas e equipamentos.
Fonte: Vamos RI, “Apresentação institucional 3T25”.
Acionistas, controle e governança
A Vamos possui controle acionário concentrado na Simpar, que detém aproximadamente 61% do capital social, além da JSP Holding S.A., com participação próxima de 1%, compondo conjuntamente o bloco de controle.
Fonte: Relações com Investidores da Vamos Locação. Composição Acionária.
A Simpar é uma holding de controle familiar, liderada pela família Simões, o que confere à estrutura societária da Vamos um caráter de continuidade e alinhamento estratégico de longo prazo. A JSP Holding S.A., por sua vez, atua como holding patrimonial da família, concentrando participações societárias no bloco controlador.
A combinação entre o controle familiar, sustentado por mais de seis décadas de atuação no setor de transporte e logística, e o padrão de governança exigido pelo Novo Mercado da B3, resulta em um modelo que equilibra visão estratégica de longo prazo e alinhamento de interesses com o minoritário. Essa configuração favorece decisões consistentes de alocação de capital, com horizonte ampliado e foco na criação de valor sustentável.
Modelo de negócios
A companhia atua por meio de três frentes principais nos segmentos de Locação, Seminovos e Indústria, formando uma plataforma integrada voltada à renovação, expansão e gestão eficiente de frotas.
A companhia é líder no mercado brasileiro de locação de veículos pesados, com mais de 50.000 ativos destinados à locação, e ampla expertise em gestão de ativos. Seu portfólio diversificado permite o dimensionamento da frota conforme a demanda de cada cliente, assegurando elevada disponibilidade operacional.
Utilizando da sua escala, a empresa adquire ativos abaixo dos preços praticados pelo mercado, compartilhando parte dessas economias com os clientes e gerando retornos aos seus acionistas. Segundo o CEO Gustavo Couto, a diferença entre alugar com a Vamos e comprar a própria frota gera uma economia na ordem de 30%, o que está em linha com nossas estimativas.
Vamos Locação
É o principal motor do modelo de negócios da companhia. A empresa oferece contratos de longo prazo para locação de caminhões, máquinas agrícolas e equipamentos de linha amarela, atendendo setores como agronegócio, logística, energia, indústria, mineração, transporte, alimentos, serviços e construção.
Fonte: Vamos Locação, site institucional.
Seus contratos são corrigidos por indexadores como IPCA e IGP-M, assegurando uma receita recorrente e que é corrigida pela inflação, trazendo bastante previsibilidade ao faturamento.
O modelo de locação, além de gerar economias aos seus clientes, também reduz a necessidade de Capex destes.
Vamos Seminovos
Após cerca de cinco anos, a depender do tipo de veículo ou equipamento, a Vamos revende esses ativos que alugou, contribuindo para a rotatividade dos ativos e gerando recursos para a renovação da frota.
Fonte: Vamos Locação, “Seminovos > Sempre-novo”.
Dado que a Vamos compra por um valor mais baixo que o mercado geral, a companhia consegue revender a preços bastante atrativos em relação ao custo de aquisição.
Indústria e Customização
A companhia atua por meio da Truckvan, fabricante de implementos rodoviários na qual a Vamos adquiriu participação de 70% em 2022, e da BMB, empresa de customização automotiva integrante do Grupo Vamos. Essas operações são voltadas à adaptação de veículos e implementos às necessidades específicas dos clientes.
Mercado e ambiente competitivo
O mercado brasileiro de locação de veículos pesados ainda apresenta penetração incipiente quando comparado a economias maduras. Considerando uma frota circulante econômica de aproximadamente 2,24 milhões de caminhões no Brasil, a locação corresponde a cerca de 2% do total, evidenciando estágio ainda inicial de desenvolvimento do modelo no país. Em contraste, em mercados desenvolvidos, como os Estados Unidos, a participação da locação supera 20% da frota total de caminhões, o que reforça a assimetria estrutural entre os mercados e indica amplo espaço para crescimento estrutural no longo prazo.
Nesse contexto, a Vamos se destaca como líder absoluta no setor, detendo a maior frota de veículos pesados destinados à locação no país e operando com escala amplamente superior à de seus concorrentes. Segundo dados da ABLA, em 2024 a companhia concentrou aproximadamente 79% do market share no segmento de caminhões alugados, evidenciando um elevado grau de dominância competitiva.
Fonte: ABLA e Vamos Locação. Elaboração e estimativas: Finclass.
Essa posição reforça a Vamos como a principal beneficiária da expansão do modelo de terceirização de frotas no Brasil, em um mercado ainda pouco penetrado e com significativo potencial de crescimento ao longo dos anos.
Adicionalmente, sua escala significativa cria uma barreira de entrada relevante diante de um setor intensivo em capital, no qual o diferencial de custo e o acesso ao financiamento constituem importantes vantagens competitivas.
Economia do aluguel
Para comparar a compra versus o aluguel de um caminhão, foi feita uma conta simples do custo total ao longo do tempo, olhando tudo o que efetivamente pesa no bolso do cliente durante cinco anos de uso.
No caso da frota própria, não se considera apenas o preço de compra do veículo. Entram na conta quatro fatores principais:
- O valor pago na compra do caminhão;
- Os custos de manutenção ao longo dos anos, que tendem a crescer com o uso;
- O valor de revenda ao final do período;
- O custo do capital, ou seja, o retorno que o cliente deixa de obter ao imobilizar recursos na compra do ativo.
No cenário base, foi considerado um caminhão pesado com preço de R$ 550 mil, vida econômica de cinco anos e valor de revenda equivalente a 60% do valor inicial ajustado pela inflação. Esse percentual de valor residual foi adotado de forma conservadora e validado com base em dados históricos da Tabela FIPE.
Ao longo desses cinco anos, o caminhão também gera despesas relevantes com manutenção e impostos, além de exigir capital imobilizado, que possui um custo financeiro implícito. Quando todos esses fatores são somados, o custo econômico total de manter uma frota própria atinge aproximadamente R$ 527 mil no período.
Elaboração e projeções: Finclass.
Já no caso da locação, o custo é direto e previsível: um aluguel médio de R$ 6 mil por mês, totalizando R$ 360 mil em cinco anos, sem necessidade de desembolso inicial e com a posterior revenda.
Ao colocar as duas alternativas lado a lado, a locação apresenta uma economia estimada de cerca de 30% em relação à frota própria no cenário base analisado.
Essa diferença ajuda a explicar por que o modelo de locação tem ganhado espaço no Brasil. Ao reduzir o custo total para o cliente, aumentar a previsibilidade de gastos e eliminar a necessidade de capital imobilizado, a locação reforça a proposta de valor da Vamos e sustenta, em nossa visão, uma expansão estrutural do modelo de terceirização de frotas nos próximos anos.
Resultados consolidados
A estratégia de expansão da Vamos, apoiada na ampliação acelerada da frota e na consolidação do modelo de locação de ativos, foi determinante para a evolução de seus resultados ao longo dos últimos anos. Entre 2020 e 2024, o total de ativos destinados à locação mais que quadruplicou, impulsionado principalmente pelo aumento da frota de caminhões, principal motor do negócio.
Fonte: Vamos Locação. Elaboração e projeções: Finclass.
A composição do faturamento reforça o caráter recorrente e previsível do modelo de locação que, em 2024, constituiu 75,7% da receita consolidada.
Fonte: Vamos Locação. Elaboração e projeções: Finclass.
A receita líquida da companhia avançou de aproximadamente R$ 1,05 bilhão para cerca de R$ 4,7 bilhões. Em trajetória semelhante, o lucro operacional apresentou crescimento expressivo no período, saindo de cerca de R$ 365 milhões em 2020 para aproximadamente R$ 2,6 bilhões em 2024.
Fonte: Vamos Locação. Elaboração e projeções: Finclass.
Endividamento
O cronograma de amortização indica concentração relevante de vencimentos no médio prazo, com picos em 2027 e, sobretudo, em 2028, quando os desembolsos somam aproximadamente R$ 5,1 bilhões, seguidos por volumes decrescentes a partir de 2029. A estrutura da dívida é majoritariamente indexada ao CDI e ao IPCA, refletindo o perfil intensivo em capital da companhia.
Fonte: Vamos Locação. Elaboração e projeções: Finclass.
Considerando o custo médio nominal consolidado da dívida em torno de 16% ao ano e o benefício fiscal dos juros, o custo da dívida após impostos situa-se próximo de 11%, patamar inferior ao ROIC da companhia, que atingiu 15,6% em 2024, o que sustenta a criação de valor econômico apesar da elevada alavancagem.
Atualmente, a dívida líquida corresponde a 3,3 vezes seu EBITDA, um pouco abaixo dos 2 anos anteriores.
Fonte: Vamos Locação. Elaboração e projeções: Finclass.
Observa-se um pico de alavancagem em 2022, associado ao forte ciclo de investimentos em frota e início do ciclo de alta de juros. A partir de 2024, há sinais de início de desalavancagem operacional, refletindo maior contribuição da frota implantada à geração de EBITDA. A administração projeta redução do Capex nos próximos trimestres, o que tende a favorecer a geração de caixa e a continuidade do processo de desalavancagem, apesar de um ambiente ainda desafiador de juros elevados.
Riscos
A exposição relevante da dívida ao CDI aumenta a sensibilidade da companhia a ciclos de juros elevados e voláteis, o que tende a ampliar a volatilidade do resultado financeiro e do lucro líquido no curto prazo. Esse risco, contudo, é parcialmente mitigado pela previsibilidade da receita contratada, pela gestão ativa do passivo e pelo fato de o ROIC (15,6%) permanecer superior ao custo médio da dívida após impostos (11%).
- Aquisição de frota: como em toda locadora de veículo, a execução na aquisição de ativos é um ponto crucial para a rentabilidade do negócio;
- Apetite por crescimento: a gestão acelerou a expansão da frota que não foi correspondida com a demanda por caminhões, levando a taxa de ocupação para níveis inferiores ao desejável e aumentando a alavancagem;
- Endividamento elevado: a alavancagem da empresa é alta, o que pode ser um desafio em cenários de juros elevados;
- Exposição ao agronegócio: cerca de 27% da receita vem do agronegócio e do setor sucroalcooleiro, que são invariavelmente cíclicos e podem criar picos e fundos de demanda.
Valuation
Para precificar a Vamos, utilizamos o modelo de Fluxo de Caixa Descontado em termos reais, isto é, já descontando os efeitos da inflação. Nesse sentido, uma receita estável significaria um repasse da inflação do período.
Em virtude de sua escala, a empresa consegue negociar melhores preços com as montadoras e, após cinco anos de uso, revender a preços muito próximos do que pagou por eles, ao menos em termos nominais.
Estimamos que, após esse período, os caminhões e máquinas percam cerca de 40% do seu valor em termos reais, mas como a Vamos paga 30% mais barato que o consumidor de varejo, sua depreciação econômica na revenda se situa por volta de meros 7%.
Projeções e elaboração: Finclass.
Assumimos estabilidade na receita por caminhão e máquinas, isto é, repassando somente a inflação conforme são indexados seus contratos. No cenário traçado, a companhia reduz o apetite por crescimento em 2026 dado seu patamar atual de alavancagem e retoma o crescimento da frota a partir de 2027. Considerando a ampla avenida de crescimento em perspectiva, em nossa modelagem, a frota atinge seu pico em 2037 e passa a decrescer.
Uma das principais variáveis do modelo é a taxa de ocupação que é o percentual da frota que está alugada. Por fatores conjunturais e erros na alocação de capital, essa taxa está aquém do seu potencial normalizado. Com isso, projetamos uma lenta recuperação até 2029, quando a ocupação passa a flutuar entre 93% e 95%.
Histórico: Vamos RI. Projeções e elaboração: Finclass.
Com isto, chegamos a um preço justo por ação de R$ 6,15, um upside de 41% aos preços atuais.
Projeções e elaboração: Finclass.
Conclusão e recomendação
A Vamos (VAMO3) é, em nossa visão, um exemplo de negócio virtuoso. A empresa resolve um problema relevante para seus clientes ao reduzir a necessidade de investimentos elevados em ativos próprios (Capex) e a complexidade de administrar uma frota. Além disso, o modelo de locação gera uma economia estimada em torno de 30%, tornando a decisão economicamente mais eficiente para o cliente.
Nesse sentido, incluímos a VAMO3 em nossas recomendações e realizamos os seguintes ajustes nas carteiras:
Carteira de Valorização
Para as faixas de patrimônio de até R$ 50 mil, reduzimos 1,5 p.p. em Banco do Brasil (BBAS3) e direcionamos esse percentual para PRIO (PRIO3), uma das teses com maior potencial de valorização na carteira.
Para as demais faixas de patrimônio, removemos AZZA3 e LJQQ3 que totalizam 2 p.p. e reduzimos 0,5 p.p. em BBAS3 para distribuí-los em VAMO3 (+2 p.p.) e elevar em PRIO3 (+0,5 p.p.).
As duas varejistas não são negócios ruins, mas apresentam maior dependência do ambiente macroeconômico e, em alguns casos, de incentivos fiscais. É possível que se beneficiem de um cenário de queda de juros, mas entendemos que VAMO3 tende a capturar esse ambiente de forma ainda mais eficiente.
Carteira de Renda
Nesse portfólio, reduzimos 1 p.p. em ABCB4, 1 p.p. em BBAS3 e 1 p.p. em BMGB4. Esses recursos foram utilizados para elevar a exposição em WIZC3 em +1 p.p.
No caso da Klabin, optamos por substituir KLBN11 por KLBN4, que oferece exposição à mesma empresa, mas com uma vantagem tributária relevante: em uma eventual realização de lucros, há isenção de imposto para vendas de até R$ 20 mil por mês. Para quem já possui KLBN11, a recomendação é manter o ativo para postergar o pagamento de impostos, direcionando novos aportes para KLBN4, ao preço máximo de R$ 5,03.
Por fim, vale destacar que os bancos cuja alocação foi reduzida não estão caros. O ajuste reflete apenas uma reavaliação de risco-retorno e custo de oportunidade, diante de alternativas que, no momento, enxergamos com maior assimetria positiva.
Considerações finais
A Vamos é, em nossa visão, um pequeno colosso com potencial para se tornar ainda maior e seguir se consolidando como a líder indisputada de seu mercado.
Trata-se de um negócio intensivo em capital, mas com características que gostamos: contratos de longo prazo, receitas recorrentes e escala relevante. Desta forma, recomendamos VAMO3 ao preço máximo de R$ 5,54.
Um forte abraço,
O analista declara ter posição em VAMO3, PRIO3 e WIZC3 e declara que foram respeitadas as normas de conduta estabelecidas pela APIMEC.
Sobre os analistas
Evandro Medeiros
Especialista em Ações
Analista CNPI, economista e especialista em mercado acionário da Finclass. Iniciou sua trajetória em análise de ações em 2019, cobrindo inicialmente o mercado brasileiro e, posteriormente, ampliando seu escopo para os mercados globais, com foco especial em ativos dos Estados Unidos e da Argentina, países onde também teve a oportunidade de residir. É um apaixonado declarado pela filosofia do Value Investing e um entusiasta das empresas “pouco empolgantes”, que muitas vezes oferecem uma precificação mais atrativa do que os grandes nomes conhecidos.