Relatórios

Criptoativos como forma de pagamento

Escrito por Thales Inada, Rodrigo Xavier em ALTERNATIVOS

19 min de leitura

Neste relatório, você encontrará:

  • Atualização do cenário macro. Cenário político relativamente estável, com Trump amenizando suas polêmicas sobre taxações, bem como colocando um ponto final na guerra entre Irã e Israel. Assim, temos boas expectativas de corte de juros para setembro e um segundo corte potencialmente adiantado para outubro - e quem sabe, no melhor dos cenários, um terceiro corte em dezembro.

  • Vai e volta do IOF.  Depois do aumento do IOF por uma medida provisória, no dia 25, o congresso votou às pressas para derrubar o decreto presidencial e, assim, retornar o imposto sobre compras de moeda estrangeira de 3,5% para 1,1%.

  • Meios de pagamento com criptoativos: faz sentido? Atualmente, já existem diversas formas de realizarmos pagamento com criptoativos, como por exemplo: diretamente de pessoa para pessoa, maquininhas de cartão, plataformas de pagamento online e até mesmo cartão de débito cripto.

Você gosta de viajar? Não conheço uma pessoa que não goste.

Como bons investidores, precisamos saber otimizar nosso dinheiro também durante as viagens. Seja comprando dólar um pouco a cada mês, ou gastando algumas horas escolhendo o cartão de viagem ideal para economizar.

Esse assunto veio à tona com a polêmica do aumento do IOF de 1,1% para 3,5% para transações de câmbio. Tal aumento significativo  certamente abriu portas para outras possibilidades, como, por exemplo, cartões de criptoativos. 

Mas será que realmente já é viável utilizar criptoativos como meio de pagamento no dia a dia, seja no Brasil ou no exterior? E agora, mesmo com a volta do IOF para 1,1%, ainda faz sentido essa comparação? Como realizar esse processo? É preciso ter uma hot wallet? Qual ativo utilizar? Vamos ver tudo isso e muito mais no relatório de hoje.

Cenário macro

Como sempre, antes de entrarmos no mercado cripto efetivamente, vamos dar uma passada pelo cenário macro, focando nos Estados Unidos. 

Depois de um ápice de instabilidade com a pressão tarifária de Trump, e, recentemente, com os Estados Unidos entrando na guerra entre o Irã e Israel, finalmente temos um cenário econômico estável e predominantemente otimista.

Podemos sentir isso, com base na mudança recente da expectativa de corte de juros americanos. Atualmente, temos grandes chances do primeiro corte acontecer em setembro, boas chances de um segundo corte em outubro e, agora, inclusive, a possibilidade real de um terceiro corte este ano, em dezembro. Esse fato favorece os mercados de renda variável como ações e criptoativos.

Expectativa dos juros nos EUA para dezembro e janeiro

Fonte: CME (26/06/2025)

Mesmo com o BTC em movimento lateral desde o início de maio, o mercado financeiro tradicional já vem demonstrando maior interesse pelos criptoativos. Podemos ver esse movimento pelos ETFs de BTC e ETH à vista, que seguem com captação relativamente constante neste mês.

Fonte: Farside 26/06/25

Esse saldo diário positivo dos ETFs nas últimas semanas foi bem significativo, e a retomada da captação em ritmo mais forte torna-se nítida quando analisamos todo o histórico desses ETFs.

Capitalização dos ETFs de BTC à vista

Fonte: Glassnode

Capitalização dos ETFs de ETH à vista

Fonte: Glassnode

Esse movimento demonstra que o investidor institucional está confortável com o cenário político atual, com maior apetite ao risco, confiante de que os cortes de juros dos Estados Unidos estão cada vez mais próximos e o mercado está se preparando para a retomada da alta.

Polêmica do IOF

No dia 22 de maio, o governo publicou um decreto com uma série de alterações nas alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), com o objetivo de equilibrar as contas públicas, mas voltou atrás no mesmo dia depois das péssimas repercussões.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, realizou uma revisão e apresentou no dia 11 de junho uma medida provisória, a qual modificou os pontos mais polêmicos, mas manteve a taxação sobre transações que encarecem as viagens ao exterior, elevando de 1,1% para 3,5% sobre as operações de câmbio.

Recentemente, no último dia 25, o Congresso fez história. Depois de 33 anos, desde o governo Collor, a Câmara dos Deputados, em coordenação com o Senado, os parlamentares votaram às pressas para derrubar esse decreto presidencial. Assim, o aumento do IOF deixa de valer depois das aprovações das duas casas. 

Como esse imposto tem como objetivo simplesmente corrigir distorções no mercado de câmbio, do crédito e de transferências, ele não tem a função de gerar recursos para o Fisco; essa característica pode ser definida diretamente pelo poder executivo, sem a necessidade da sanção presidencial, entrando assim em vigor imediatamente.

Depois de tudo isso, as alíquotas de remessas para contas no exterior voltarão a ser como eram antes. Para compras de moeda estrangeira em espécie e cartões de viagem, a aliquota sai de 3,5% e volta para 1,1%. Já para operações de câmbio para contas de investimentos, a alíquota sai de 3,5% e volta para 0,38%.

Como fui muito questionado pelos nossos assinantes, se com esse aumento de 1,1% para 3,5%, valeria a pena a utilização de criptoativos como forma de pagamento internacional para burlar o IOF, resolvi escrever um relatório sobre este assunto. Mas confesso que  todo o mercado financeiro foi pego de surpresa com a volta repentina para as tarifas anteriores, realizada pelo Congresso. 

Lula ainda vai se reunir com o presidente da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, para decidir os próximos passos, mas o presidente ainda tem a chance de recorrer ao Supremo Tribunal Federal para manter o IOF. Por isso, acredito que o comparativo ainda continua válido e inclusive conseguimos abordar ambos os cenários neste relatório.

Meios de pagamento

O BTC surgiu em 2008 durante a crise do subprime, quando os bancos centrais ao redor do mundo salvaram grandes instituições financeiras e diluíram o patrimônio da população.

Com o objetivo de nos tornar independentes dessa dependência e manipulação da moeda Fiat, feita pelos governos e instituições financeiras, o BTC opera mundialmente, tem um número limitado de ativos, e é minimamente inflacionário.

Porém, desde 2017, o mercado já percebeu que o BTC talvez não sirva de fato como meio de pagamento, pois sua rede congestionou e uma simples transferência de ativo chegou a ter uma taxa maior do que US$ 50, o que inviabilizou transações pequenas. O fato se repetiu na temporada de alta de 2021 e novamente em 2024.

O BTC só é capaz de realizar cerca de sete transações por segundo. Com essa dificuldade em vista, surgiram outros ativos dispostos a superar o BTC nesta característica, como a Litecoin (LTC), criada em 2014, capaz de realizar cerca de 56 transações por segundo, o Bitcoin Cash (BCH), criado em 2009 com potencial de efetuar 60 transações por segundo, e Stellar Lumens (XLM), que é um fork da Ripple (XRP), capaz de transacionar cerca de 1.500 transações por segundo.

Comparativo do número de transações

Fonte: Howmuch

Ativos que, apesar de terem maior escalabilidade, são mais centralizados e hoje em dia podemos dizer que não passaram no teste do tempo, pois não conseguiram se sustentar somente com esta narrativa. A VISA consegue executar um grande número de transações simplesmente porque sua operação é centralizada em uma empresa.

Rede Lightning Network (LN)

Uma das possíveis soluções encontradas pela rede do BTC foi a criação da Rede da Lightning Network. Uma segunda camada focada na utilização do ativo como meio de pagamento, ou seja, uma rede com alto potencial de transações a um baixo custo.

Apesar de potencialmente interessante, a rede estagnou seu crescimento desde o final de 2022, quando atingiu o montante de 5 mil BTC depositados na rede. Desde então, o número de moedas simplesmente segue oscilando, conforme o gráfico azul abaixo. Apesar disso, o valor financeiro depositado na rede vem aumentando graças à valorização do BTC, conforme o gráfico laranja.

Capacidade da rede da Lightning network

Fonte: Bitcoinmagazine

Confesso que a queda recente no número de ativos deste ano, começa a me incomodar. Pois, mesmo com a temporada de alta atual do BTC, a rede não ganhou adoção, pelo contrário, os ativos estão saindo da rede mesmo em um período de otimismo.

Caso você se interesse em realizar transações por ela, é necessária uma carteira específica para a rede, como por exemplo a Wallet of Satoshi. Nela, você não deve armazenar seus ativos de longo prazo, devendo colocar na LN apenas o que pretende utilizar no dia a dia.

Crossborder Payments

Uma das narrativas que vem ganhando força no mercado cripto são os meios de pagamento transfronteiriços, capazes de concorrer com o sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication).

Esse sistema é capaz de realizar transações financeiras internacionais entre qualquer instituição financeira ao redor do mundo, pois segue um padrão mundial para instruções de pagamento, permitindo comunicar bancos de diferentes países de forma eficiente e segura. 

Uma remessa de SWIFT hoje fica na casa dos US$ 20, sem contar o IOF que pode variar de 0,38% a 1,1%, mais as taxas de câmbio e possíveis tarifas do seu banco. Enquanto no mercado cripto, o custo é apenas uma taxa fixa da rede para envio, independentemente do valor, e quem sabe outra taxa fixa de conversão do ativo para moeda Fiat no final do processo, se for necessário.

No final do ano passado, o ministro das finanças russo, Anton Siluanov, disse que algumas empresas russas começaram a utilizar o BTC e outras moedas digitais para pagamentos internacionais, visando combater sanções dos Estados Unidos, impostas especialmente depois de invadirem a Ucrânia. Tais sanções estavam prejudicando suas negociações com a China e a Turquia.

Este ano, a Rússia, inclusive, liberou o uso de criptomoedas no comércio exterior. Em março, algumas fontes do portal de notícias Reuters confirmaram que a Rússia estava utilizando os criptoativos no comércio de petróleo e energia com a China e a Índia, e que a utilização está em pleno crescimento. 

Também reforçaram que existem planos de expandir o modelo para o Irã e para a Venezuela. Esse processo evita o uso do dólar, contornando assim sanções comerciais que estavam causando atrasos nos pagamentos. Para aplicarem o modelo, cada um desses países precisou adaptar as operações dos seus bancos centrais para liquidar essas transações em moeda local.

Conforme o chefe de pesquisas de ativos digitais da gestora VanEck, o BTC pode ser tornar um meio de troca importante nos próximos anos, capaz de liquidar cerca de 10% do comércio internacional e 5% do comércio doméstico, o que levaria os bancos centrais do mundo a manter pelo menos 2,5% dos seu ativos em BTC para conseguir efetuar essas operações.

Em um futuro distante, o BTC pode até ser usado como a principal moeda para combater o dólar. É um sistema muito mais rápido, com transações que podem demorar no máximo uma hora e que operam 24 horas por dia - inclusive aos finais de semana.

Qual ativo utilizar como meio de pagamento?

Pegando a CoinGate como referência de gateway de pagamento online, a plataforma processou 1,67 milhão de transações em 2024, cerca de 30% a mais do que em 2023. Dessas operações, aproximadamente 21% foram feitas nos Estados Unidos, quase 6,5% na Alemanha e cerca de 5,5% no Reino Unido. 

Número de transações da CoinGate

Fonte: CoinGate

Você pode estar achando que esse crescimento ocorreu  graças à temporada de alta recente do BTC, mas não é verdade. Para você ter uma ideia, do final de 2021 até o fim de 2022, o BTC chegou a cair mais de 76% e, mesmo assim, tivemos um salto significativo nos pagamentos com criptoativos, conforme o gráfico.

Mas será que o BTC é mesmo o ativo mais utilizado para meios de pagamento?

Pensando em um cenário no qual você tenha R$ 100 em BTC disponível na sua carteira para serem utilizados como forma de pagamento no dia a dia. Se, ao tentar comprar algo de R$ 95, perceber que o BTC caiu 10% - o que é comum de um dia para o outro no ativo - agora você tem apenas R$ 90. Qual seria sua reação?

De fato, utilizar um ativo extremamente volátil como o BTC para meios de pagamentos pode gerar alguns inconvenientes. Conforme os dados do CoinGate, a utilização do BTC caiu significativamente de 35,6% para 22,8%. 

Neste momento atual do mercado, próximo do final da temporada de alta, a realização para stablecoins e utilização do lucro pode ser interessante. Além disso, dificulta o rastreamento dessa realização. Por isso, as stablecoin estão crescendo tanto nesse mercado. Em um ano, as stablecoins cresceram 26% em preferência de usabilidade como meio de pagamento.

Escolha das stablecoins como meio de pagamento

Fonte: CoinGate

As stablecoins estão colocando o sistema financeiro tradicional em alerta de disrupção, sendo o principal alvo o Swift. Os criptoativos são pagamentos instantâneos, de baixo custo, independentemente do valor transacionado; trata-se de um sistema que funciona 24h por dia, e uma alternativa de fácil acesso para países em crise política como Ucrânia, Venezuela e Argentina.

Ativos mais populares em 2024

Fonte: CoinGate

Entre as transações da CoinGate, 34,6% foram com a stablecoin USDT, que é, de longe, o ativo favorito.

Olhando agora pelo lado do lojista, apesar de aceitarem cripto como meio de pagamento, 71% preferiram liquidar o ativo e receber o pagamento em moeda local em vez de criptoativos. 

Cerca de 16,7% dos negócios aceitaram stablecoins e quase 8% aceitaram o BTC como pagamento. Esse fato demonstra que algumas empresas estão começando a considerar o BTC como ativo que vale a pena ser mantido. Mas, novamente, as stablecoins continuam a afirmar seu domínio, pois oferecem estabilidade e a confiabilidade que comerciantes e usuários buscam.

Com essa aceitação global, a utilização dos criptoativos como meio de pagamento no dia a dia veio à tona, agora mais ainda com o risco do aumento do IOF para operações de câmbio.

Formas de pagamento com criptoativos

Finalmente chegamos no ponto focal deste relatório, a utilização dos criptoativos como forma de pagamento no nosso dia a dia. Adianto que, sim, é possível e inclusive temos uma grande variedade de formas.

Talvez você nunca tenha reparado, mas hoje existem diversos comércios nas grandes capitais que já possuem uma placa ou adesivo nos seus estabelecimentos escrito “aceita-se Bitcoin”. Inclusive algumas cidades menores, como Rolante, de apenas 22 mil habitantes, no Rio Grande do Sul, está sendo chamada de “cidade do Bitcoin” devido à sua grande adoção. 

Alguns sites na internet já possuem integração com algumas plataformas que disponibilizam a opção de pagamentos com cripto. E, por incrível que pareça, muitas vezes, o lojista nem precisa saber que você está pagando com cripto. 

Então, vamos abordar as diversas formas de gastar seus criptoativos atualmente.

  • Diretamente da sua carteira

Esse é o caminho para nos tornarmos cada vez mais independentes das instituições financeiras. Você pode pagar diretamente um conhecido, transferindo o ativo da sua carteira para a dele em troca de alguma mercadoria. 

Um dos inconvenientes do processo é que, dependendo do ativo, o tempo dessa transação pode oscilar bastante, desde poucos segundos, como, por exemplo, utilizando SOL, até algumas horas, caso você utilize o BTC ou ETH em momentos de rede congestionada.

Outra dificuldade, a depender do momento do mercado, é que pode haver uma grande variação nas taxas. Em momentos de tranquilidade do mercado cripto, as transações partem de alguns centavos, mas durante as temporadas de alta, as taxas podem passar dos US$ 50, inviabilizando transações pequenas.

  • Rede da Lightning Network (LN)

Conforme comentado no início deste relatório, existe a possibilidade de você utilizar a rede da Lightning Network para gastar seu BTC como meio de pagamento. Certamente é uma rede rápida e barata, e justamente por isso, é a rede que é mais utilizada nos comércios de Rolante e em El Salvador.

A LN de fato possibilita uma estabilidade nas taxas extremamente baixas, mas tem um risco significativo, pois sua rede ainda é relativamente nova e precisa de mais tempo para se provar eficaz.

  • Segundas camadas

Principalmente para a rede da Ethereum, é possível utilizar a camada da Polygon, da Arbitrum, da Base, entre outras, para transferências de criptoativos de forma rápida e barata, custando poucos centavos. 

É possível, inclusive, utilizar stablecoins e ter mais previsibilidade do saldo da sua carteira. Este seria um dos meus modelos favoritos atualmente.

  • Maquininhas físicas de POS

Já existem também algumas empresas que distribuem maquininhas POS, que aceitam pagamento com criptoativos, inclusive algumas da bandeira da Cielo. Também existem outros aparelhos desenvolvidos exclusivamente para cripto. Mas a necessidade de distribuição deles fisicamente restringe bastante a sua adoção. 

Aqui, o custo operacional fica mais concentrado na empresa intermediadora da operação, pois ela já inclui uma taxa em cada transação.

  • Gateways de pagamento

Quanto aos pagamentos online, temos diversas plataformas, como CoinGate, MoonPay, Bitybank, MercadoBitcoin e até o gigante de pagamentos PayPal, que já entrou nessa. 

Essas empresas oferecem soluções para empreendimentos aceitarem pagamento com criptoativos, simplesmente por meio de um QR code, processo bem parecido com o PIX. Aqui também temos um custo operacional do intermediário que será responsável pelo serviço prestado.

  • Carteiras quentes no celular

Em todos esses casos citados anteriormente, exige-se que o cliente possua uma carteira de criptoativos no computador ou no celular para realizar o pagamento ou um cartão de criptoativos da empresa específica.

  • Cartões de criptoativos VISA e MasterCard

A solução mais prática, em minha opinião - porém, também, uma das mais caras -, são os cartões de criptoativos em parceria  com as gigantes de pagamento, das bandeiras VISA e MasterCard. Por meio deles, você pode tanto utilizar o saldo disponível na corretora quanto carregá-los e utilizá-los como cartão de débito. 

Nesse caso, o lojista nem sequer precisa ficar sabendo que você está pagando com criptoativos. A exchange que opera o cartão  responsabiliza-se pela conversão do ativo para a moeda local, juntamente com a bandeira do cartão. Essa opção pode ser utilizada para viagens internacionais com tranquilidade, porém seu custo é significativo, e detalharemos a seguir.

Pagamento com criptoativos em viagens internacionais

Conforme vimos no item anterior, não é tão fácil essa comparação para meios de pagamentos em viagens internacionais, pois cada investidor pode estar em uma etapa diferente no mercado cripto.

Certamente, o modelo ideal seria o pagamento com criptoativos pelas segundas camadas, seja pela LN do BTC ou pelas redes da Polygon, Arbitrum e Base do ecossistema da Ethereum. Entretanto, poucos estabelecimentos possuirão esse conhecimento e, conforme vimos, grande parte ainda prefere o depósito em moeda Fiat. 

Por isso, nosso principal filtro para este objetivo específico será a aceitação do comércio global. Nesse quesito, não tenho dúvidas: a melhor solução serão os cartões com parceria da VISA ou MasterCard. Pois eles são aceitos amplamente onde quer que você esteja, porém é claro que não será tão barato quanto nas segundas camadas, onde apenas se pagam alguns centavos pela taxa da rede por não precisar de um intermediário.

Então, para começarmos este comparativo, faremos um breve levantamento dos principais cartões de viagem do mercado, que, segundo minha pesquisa, provavelmente serão: Inter, Wise e Nomad. 

O Inter é o que cobra a menor taxa de spread de câmbio de 0,99%; em seguida, a Wise, que cobra 1,3% de spread; e a Nomad possui uma taxa variável, que parte dos 2% até US$ 1 mil convertidos, portanto, já prefiro eliminar esta última opção.

Agora, entramos novamente na polêmica recente do IOF. No momento da redação deste relatório, apesar de o congresso ter aprovado a derrubada da MP, ainda não houve a divulgação oficial no Diário Oficial da União para identificarmos se o IOF, para a realização de câmbio de cartões internacionais, de fato, voltará para 1,1%, mas é essa a expectativa. Assim, o Inter totaliza 2,09% e a Wise, 2,4% de taxas para carregar o cartão.

Não confunda essa operação com remessas internacionais, que têm como finalidade investimentos. Neste caso, o IOF deve voltar para 0,38%. Inclusive, no Banco inter, é possível realizar essa manobra, solicitando a transferência da conta investimento, para o modelo no qual é cobrado um spread maior de 1,5%: deixe seu dinheiro algumas semanas investido e, um pouco antes da viagem, resgate do investimento e transfira para a conta pagamento, de modo que o custo total será 1,88%. Sem considerar que você ainda pode ter um pequeno rendimento. Contudo, fazendo isso, aumentará a complexidade da sua declaração anual do IRPF.

Nos cartões de criptoativos, precisamos considerar outros custos operacionais  inexistentes nos cartões tradicionais. Como seu dinheiro não estará em moeda Fiat, você precisa do serviço da bandeira do cartão para executar essa operação e depositar Fiat para o comerciante. A Mastercard cobra 1% pelo serviço, mais 0,2% de spread de câmbio, além da taxa de corretagem da exchange, que pode variar de 0,1% a 0,25%.

Além disso, nos cartões de criptoativos das exchanges nacionais, como Foxbit e Bitybank, também há incidência de IOF nas suas operações internacionais. Pegando como exemplo a Foxbit, somam-se uma taxa de corretagem para adquirir USDT de 0,25%, taxa de 0,25% da operação do cartão e outra taxa de liquidação da transação de 0,5%, referente à corretagem de uma ordem de mercado, ou seja, totalizando 1%, o que seria equivalente à taxa de câmbio do Banco inter. 

Por isso, o modelo só seria um pouco vantajoso para quem já possui USDT na conta ou está disposto a liquidar ativos voláteis, pois pouparia uma operação. Então, na minha opinião, os cartões cripto brasileiros não possuem um diferencial muito competitivo em relação aos cartões de viagem tradicionais. Portanto, vamos focar essa análise nos cartões de criptoativos internacionais, acessíveis pelos brasileiros e por meio dos quais conseguimos escapar do IOF.

No cartão da Bytbit, a taxa de conversão de cripto é de 0,9%, o que pode parecer caro, mas atualmente eles oferecem um cashback mínimo de 2%, praticamente anulando mais 1% do serviço de câmbio da bandeira e 0,2% do spread. Enquanto esse benefício durar, pode ser uma opção.

A Ripio está oferecendo o mesmo benefício para cashback, porém tem uma taxa operacional menor de 0,5%. Não encontrei informações sobre a taxa de conversão do criptoativo, mas sua ordem de mercado é de 0,5%. E não se esqueça dos 1,2% do serviço da bandeira. Se a taxa de conversão se confirmar, será uma opção melhor do que a da Bybit.

O cartão da Crypto.com já destaca o benefício da isenção do IOF logo na sua página inicial. Além disso, quem travar pelo menos US$ 270 em CRO, receberá um cashback de 2,5%. Diria que, nesse caso, nem precisamos fazer muitas contas: esse cashback é acessível e certamente já compensa o custo operacional. Além disso, ele foi um dos primeiros cartões cripto a conseguir a parceria com a Visa (em meados de 2018) e vem fazendo um bom trabalho desde então. Se você travar US$ 2.700 de CRO, ainda poderá aumentar o cashback para 3,5%, contudo entendo que este valor é elevado.

Vale lembrar que todos esses cartões tendem a liquidar as operações com uma ordem de mercado, o que te faz “assumir o custo do spread” do book de ofertas naquele momento, além do spread natural do dólar nas exchanges. Sem contar que, não temos total certeza de que a cotação com a qual a operação está sendo executada é, de fato, à do book de ofertas; poderíamos colocar, pelo menos, mais 0,1% de custo operacional oculto.

Agora que entendemos os custos básicos, precisamos compreender um pouco melhor quais são as possibilidades desse processo passo a passo.

  • Realização direta de criptoativos voláteis

Caso você já possua criptoativos e deseje realizar lucros gradualmente, você pode fazer a utilização do ativo diretamente, como, meio de pagamento, como, por exemplo, BTC ou ETH. 

Isso pode acontecer quando você não quer se desfazer deles, mas também não se importa em realizar um pouco do lucro durante as temporadas de alta. Ou também para quem quer camuflar um pouco da realização, pois esse gasto dificulta a rastreabilidade dessas operações financeiras. Por outro lado, vale lembrar que ao segurar um ativo volátil, você fica exposto à oscilação de preços dos ativos, que pode ser muito maior do que uma taxa operacional.

Então, supondo que você já possui os ativos na sua conta, não precisamos acrescentar um custo de aquisição. Agora, a taxa operacional do cartão geralmente existe e varia de 0,25% a 0,9%. Certamente essa taxa inviabiliza a utilização dos criptoativos como meio de pagamento aqui no Brasil, pois os bancos tradicionais não cobram essa taxa. Contudo, ainda podem fazer algum sentido utilizar internacionalmente.

Também precisamos acrescentar uma taxa de envio do ativo de determinada rede, que, se for uma segunda camada da Ethereum, é quase que insignificante, na casa dos US$ 0,10. 

Em seguida, a operação de câmbio da bandeira de 1%, mais um spread na cotação que é de 0,2% na Mastercard e 0,3% na VISA, para converter o criptoativo na moeda local e depositar a moeda Fiat para o lojista. 

Dependendo do cartão e da bandeira, a taxa fica entre 1,45% a 2,2% no modelo, mais uma taxa da rede mínima, ficando em uma faixa bem equivalente ao Inter e ao Wise. O benefício do cashback dos cartões cripto é quem fazem toda diferença no final das contas.

  • Stablecoins

Para a utilização das stablecoins, temos basicamente duas possibilidades. Você já pode ter realizado algum lucro dos ativos voláteis e agora quer utilizar a stablecoin como meio de pagamento, e, nesse caso, perceba que essa usabilidade não era sua intenção inicial e, por isso, essa taxa de conversão para o ativo estável não deve ser considerada.

Ou a outra opção seria você realmente planejar utilizar as stablecoins como forma de pagamento e, por isso, precisa comprá-las com Real. Nessa compra de USDT, você pagará cerca de 0,4% em relação ao câmbio comercial, somado a uma taxa de corretagem de 0,1% a 0,25%. Acrescendo o custo operacional do cartão de 0,25% a 0,9% mais o serviço da bandeira citado no item anterior de 1,2% a 1,3%, a operação pode variar de 1,95% até 2,85%. Ou seja, você precisa tomar muito cuidado ao escolher o seu cartão, pois acaba não ficando tão interessante, a não ser que você consiga um cashback interessante.

Se você já tem alguns criptoativos, e quer apenas converter o ativo volátil para USDT, você simplesmente paga uma taxa de corretagem a mais (0,1% a 0,25%), porém não paga o spread do câmbio. Somando-se os custos operacionais do cartão cripto (0,25% a 0,9%), mais a operação da bandeira citada no item anterior de 1,2% a 1,3%, totaliza de 1,55% a 2,45%, potencialmente melhor do que os cartões tradicionais, mesmo desconsiderando o cashback.

Observações gerais

A utilização dos cartões de cripto brasileiros ainda não é viável, nem no Brasil e muito menos para viagens. Eles possuem uma taxa operacional que não temos nos bancos tradicionais e também sofrem com a incidência de IOF quando utilizados no exterior. Talvez possa valer a pena algum caso específico simplesmente por causa do cashback, que aumenta com a indicação de amigos.

Já os cartões de cripto internacionais, que conseguem evitar o IOF, pode ser, sim, uma opção interessante, não só porque alguns conseguem ficar mais baratos do que os cartões viagem, mas também disponibiliza um cashback interessante, o que compensa o custo operacional.

Lembre-se que, independentemente de o cartão consumir seu saldo disponível na exchange ou em uma hot wallet específica, sugiro não deixar muito saldo nela, pois esse dinheiro está em risco simplesmente por você sair com essa carteira por aí. Deixe disponível somente o que pretende utilizar nos próximos dias.

Um dos pontos que não levei em consideração é que todo capital investido nos criptoativos está dolarizado, e se você estiver somente em reais, você pode perder poder de compra no exterior. Além disso, é possível deixar o USDT e USDC rendendo cerca de 5% ao ano em plataformas de DeFi. 

Outro detalhe importante: certifique-se de que o cartão que você se interessou, é compatível com a moeda do país para o qual você pretende ir. Além disso, podem existir taxas diferentes para diferentes moedas. Cada cartão e bandeira abrange um número de lugares, mas de forma geral, a bandeira Visa é mais aceita mundialmente - porém tem taxas maiores do que a Mastercard. 

Inclusive, se você vai para um país com uma infraestrutura mais simples, que utiliza muito papel moeda ainda, repare bastante nas taxas de saques, pois isso pode fazer bastante diferença de um cartão para o outro. 

Entusiasta Cripto

Fonte: Finclass data: 26 de junho

Conclusão

Certamente, os cartões cripto internacionais são uma opção interessante para nossas viagens, principalmente se voltarmos a ter um aumento do IOF para 3,5% para operações de câmbio. Pois, adicionando de 1% a 2% de taxa de câmbio, os cartões de viagem tradicionais podem chegar a ter um custo de 4,5% a 5,5%.

Com o IOF em 1,1% a diferença se dá principalmente por causa do benefício do cashback, que pode chegar aos 2,5% como na crypto.com. No entanto, alguns cartões também disponibilizam benefícios gerais, como salas VIPS nos aeroportos, programas de indicação, lojas parceiras, entre outros.

Outra vantagem significativa é poder fazer as remessas 24h por dia, em qualquer lugar do mundo, de forma quase imediata, enquanto transações tradicionais podem demorar até dois dias. 

O cenário ideal seria, você já investir em criptoativos, saber manusear uma hot wallet, e utilizar as stablecoins - obtidas de uma realização de lucro - como forma de pagamento e, para finalizar, ainda receber o cashback de 2,5% para reembolsar o custo operacional.

Veja que esse não é um processo tão simples, mas acredito que vale o esforço, portanto é onde você deve almejar chegar!

Forte abraço,

Thales

Sobre os analistas

Thales Inada

Especialista em Criptoativos

Especialista em criptoativos e investimentos alternativos da Finclass. Engenheiro, com MBA em investimentos e Asset Allocation. Iniciou no mercado de criptoativos em 2017, com passagem por importantes exchanges como Binance (a maior do mundo), Mercado Bitcoin (a maior da América Latina) e XDEX, a antiga exchange da XP Inc. Agora, deixou as instituições para ficar do lado de investidoras e investidores, com missão de democratizar o universo dos criptoativos e investimentos alternativos por meio de uma linguagem simples e direta, a fim de tornar esse mercado visionário acessível a todas as pessoas.

Rodrigo Xavier

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.