Relatórios

Desempenho da carteira Renda Total em outubro + recomendação da LCA prefixada do BTG Pactual com pagamento de juros mensal

Escrito por Fillipe Colus, Guilherme Cadonhotto, Luciana Seabra em RENDA TOTAL

9 min de leitura

No relatório de hoje, trazemos um resumo dos acontecimentos do mês de outubro e os seus impactos no mercado e na carteira Renda Total, que fechou com prejuízo de -1,49%, ainda assim, melhor frente ao Ibovespa (-4,27%) e ao índice de inflação de longo prazo (-4,56%), e também manteve taxa de dividendos anualizados em 7,67% a.a. Além disso, vamos explorar um pouco os benefícios da diversificação da nossa carteira quando comparada com simulações de outras carteiras de investimentos.

Para finalizar, vamos aproveitar o mês de estresse de mercado para movimentar a nossa carteira, com a adição de 2,5% na LCA Prefixada do Banco BTG Pactual com vencimento em 3 anos e taxa de remuneração de 10,98% a.a. Para isso, faremos uma redução de 2,5% do Tesouro Prefixado 2031 com juros semestrais. Assim, o título público passa a representar apenas 7,5% da nossa carteira.

Destaques de outubro: descuido fiscal, inflação e reunião do Copom

Na semana passada, o cenário político tomou conta dos noticiários e abalou os mercados de renda fixa e renda variável do país. É sempre importante lembrar que ambas as classes de ativos estão conectadas, pois quando as perspectivas de juros futuros aumentam, a perspectiva de crescimento diminui.

Fonte: Spiti

Os impactos na renda variável são verdadeiros reflexos dos acontecimentos no mercado de juros. Ao passo que estes se elevam, as perspectivas de crescimento das empresas e da economia tendem a diminuir, impactando assim o seu valor atual.

Assim, uma piora nas perspectivas de juros afeta os investimentos muito mais que a renda fixa apenas. Veja a seguir o impacto sobre os principais índices do mercado e como eles variaram no mês de outubro:

Fonte: Quantum. Elaboração: Spiti

Note que na primeira metade do mês não houve nenhuma piora significativa nos indicadores, mas a partir do dia 18 nota-se uma deterioração dos ativos de risco em geral, sendo que os únicos que fecharam esse período com rentabilidade positiva foram o dólar e o CDI.

Na semana iniciada nesse dia, as perspectivas de juros se elevaram de forma mais intensa do que vimos acontecer ao longo do ano:

Fonte: Broadcast. Elaboração: Spiti

E entre os dias 18 e 22 de outubro, a expectativa de juros de longo prazo subiu 1% e de curto prazo, 1,4%. Os acontecimentos dessa semana foram os principais responsáveis por esse movimento, que serão explicados a seguir e passarão pela nossa análise.

Mudança e indecisão em relação à PEC dos Precatórios

Os holofotes e as manchetes de outubro ficaram voltadas para as decisões políticas. Dois acontecimentos colocaram em xeque a credibilidade fiscal do país:

A limitação do pagamento dos precatórios e a mudança da correção do teto adicionaram no orçamento R$ 84 bilhões, segundo previsão do governo. Esse valor, que vai acomodar o Auxílio Brasil, não estava previsto no estudo anterior e marca mais um malabarismo fiscal para que as contas fechem.

Esse aumento do orçamento consegue acomodar o novo programa assistencial, as emendas parlamentares e outros gastos do governo, incluindo o possível novo aumento do fundo eleitoral antes do ano que vem, no qual teremos eleições no Brasil. Essas mudanças no texto causaram uma debandada da equipe do Ministério da Economia.

Além disso, a votação da PEC dos Precatórios tem sido adiada semana após semana, adicionando incertezas sobre o tamanho do aumento dos gastos.

E como tudo isso impacta nos juros?

Uma mudança de tamanha ordem diminui a confiança no governo, que cada vez mais demonstra menor preocupação com a austeridade fiscal. Como reflexo direto, as perspectivas de juros na semana citada anteriormente aumentaram, a Bolsa caiu, o risco-país medido pelo CDS (o Credit Default Swap, uma medida de risco de crédito de países) aumentou e a nossa moeda se desvalorizou frente às moedas de outros países emergentes, ficando atrás apenas da lira turca em termos de depreciação.

Fonte: Broadcast. Elaboração: Spiti

Fonte: Broadcast. Elaboração: Spiti

Veja no gráfico anterior a elevação do nível de CDS em 30 pontos em apenas poucos dias. Se fôssemos traduzir esses acontecimentos para emoções, seriam as de incerteza e receio com relação ao futuro do Brasil, que não dá sinais de frear suas medidas expansionistas sem diligência ou contraparte fiscal.

Indicadores de inflação: surpresa, e não foi boa

Os dados de inflação medidos pelo IPCA-15 (considerado uma prévia do IPCA, que mede a inflação oficial) e IGP-M no mês de outubro vieram acima do esperado, renovando ainda mais as preocupações com elevação dos preços e necessidade de uma taxa de juros mais elevada para conter a inflação.

Fonte: IBGE

A divulgação do IPCA-15 de outubro, com alta de 1,20%, superou a perspectiva mediana do mercado (1%), com destaque para duas linhas: alimentação domiciliar e combustíveis.

A alimentação em domicílio tem registrado reajustes acima do esperado, sendo que esse aumento perdurou também em outubro. Além disso, a recente crise energética global, associada à desvalorização cambial, tem promovido significativos (e recorrentes) reajustes em derivados de petróleo, como, por exemplo, gasolina, diesel e até mesmo fertilizantes, insumo importante para o setor agropecuário do Brasil.

Decisão do Copom: menos agressiva que o mercado pediu, mais dura que havia prometido

A cada 45 dias, o Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central, se reúne para tomar decisões sobre a taxa básica de juros do país, a Selic. Além da decisão tomada no dia, normalmente o comitê deixa claro também qual o movimento a ser tomado nas próximas reuniões. No encontro realizado em setembro deste ano, por exemplo, o comitê deixou claro que faria uma elevação de juros de mesma ordem (1%) na reunião de outubro, que aconteceu nos dias 26 e 27.

Porém, com as novas decisões de mudança do teto de gastos, Auxílio Brasil e índices de inflação nada amistosos, o comitê decidiu ser mais duro que o previsto e elevou a taxa de juros em 1,5%, levando a taxa Selic para 7,75%. Importante salientar que parte do mercado esperava uma mão mais dura e chegou a prever um aumento de 2% dias antes da reunião.

E a carteira Renda Total no meio de todos esses acontecimentos?

Todos esses acontecimentos do mês impactam uma carteira de renda pelo risco de mercado que se mantém vivo e com força nas últimas semanas do mês de outubro.

Nós sempre batemos na tecla de que a diversificação é algo importante para uma carteira de longo prazo, a fim de aguentarmos as oscilações, evitar nos expormos a riscos de forma desnecessária e colher os benefícios de todas as categorias de investimentos.

Nesses momentos de estresse, os benefícios da diversificação ficam ainda mais claros. Conseguimos performar melhor que os principais índices do mercado, com exceção do Ifix, e manter o nível de dividendos anualizados, que, levando em conta os preços dos ativos da última sexta-feira (29 de outubro) e os pagamentos de mês de outubro, atingiu 7,67% a.a.

Fonte: Quantum - Elaboração: Spiti

  • IMA-B 5+: índice formado por títulos públicos indexados à inflação medida pelo IPCA, que são as NTN-Bs (Notas do Tesouro Nacional – Série B ou Tesouro IPCA+ com juros semestrais) com vencimento igual ou acima de cinco anos.
  • IRF-M 1+: Índice formado por títulos públicos prefixados, que são as LTNs (Letras do Tesouro Nacional ou Tesouro Prefixado) e NTN-Fs (Notas do Tesouro Nacional – Série F ou Tesouro Prefixado com juros semestrais) com vencimentos acima de um ano.

Além disso, a diversificação vai muito além do nicho de investimentos (Bolsa, ações e títulos) e deve levar em conta também a seleção de bons ativos e o percentual adequado para cada um. Inclusive fizemos uma simulação para mostrar isso. Veja a seguir, no mesmo período, como carteiras que montamos usando os índices de mercado se comportaram quando comparada à de Renda Total.

Fonte: Spiti

Cada parcela tem sua importância em nossa carteira, mas vai muito além de escolher os indicadores. Os ativos selecionados individualmente são os grandes astros da resiliência da carteira, e isso pode ser comprovado pelo retorno das carteiras que simulamos.

E, como sempre falamos nos relatórios, momentos de estresse como o atual abrem espaço para adição de novos ativos. Hoje, vamos fazer uma alteração em nossa carteira: na parte de títulos públicos será retirado 2,5% do nosso percentual do Tesouro Prefixado com juros semestrais 2031 para adicionar um ativo prefixado de curto prazo que deve se encaixar muito bem na nossa carteira de renda, a LCA prefixada de curto prazo com pagamento de juros mensais do BTG Pactuall. Essa mudança tem como intuito melhorar o retorno e diminuir o risco de mercado da carteira.

BTG Pactual: situação financeira e taxas

O banco BTG Pactual é um antigo conhecido para quem investe em renda fixa – inclusive, é uma das intuições que passou no nosso crivo quanto à qualidade, resiliência e resultados, bem como é nossa recomendação na outra série que tocamos aqui na Spiti, O Melhor da Renda Fixa.

Atualmente, é o maior banco de investimentos da América Latina, com R$ 880 bilhões sob custódia e 38 anos de história. Possui Índice de Basileia (IB) considerado alto, no valor de 17,3% segundo as últimas informações do Banco Central. Com lucro líquido reportado no valor de R$ 3,98 bilhões em 2020, o BTG apresenta um histórico robusto de resultados alinhado com bom controle de risco. E, nos últimos dias, as LCAs prefixadas com juros mensais ficaram disponíveis apenas em sua plataforma.

Como esse ativo é novidade na carteira para algumas pessoas, as LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio) são títulos de renda fixa emitidos por instituições financeiras com lastro em ativos do agronegócio, ou seja, uma LCA só pode ser emitida se houver por trás dela um ativo financeiro do agronegócio como garantia.

Um lastro do agronegócio pode ser direitos creditórios vinculados a produtores rurais, suas cooperativas e terceiros, inclusive empréstimos e financiamentos relacionados com a produção, comercialização, beneficiamento ou industrialização de produtos, insumos agropecuários ou de máquinas e implementos utilizados nesse setor. Além disso, são ativos isentos de Imposto de Renda e são protegidos pelo FGC, o Fundo Garantidor de Créditos, no valor de até R$ 250 mil por CPF.

Os ativos na plataforma do BTG Digital contam com spread médio de 0,39% quando comparados a títulos públicos de mesmo vencimento, e estão disponíveis em três diferentes vencimentos:

Fonte: Spiti

Na última coluna, você encontra a estimativa do valor que será pago mensalmente seguindo os princípios de títulos com pagamentos de juros periódicos. Na linha demarcada em azul estão os cálculos para a nossa recomendação de hoje:

Fonte: BTG Digital

A LCA que vamos recomendar possui o vencimento mais longo dos três (de 3 anos) e spread de 0,35% ao ano frente a um título público de mesmo vencimento. Conforme nossas estimativas, a cada R$ 1 mil investidos, será pago mensalmente o valor de R$ 8,72. Vale lembrar também que esse ativo está disponível apenas na plataforma do BTG Pactual Digital.

Hoje, a parcela de prefixados da nossa carteira é composta apenas pelo título público. E vemos que uma grande oportunidade de adquirir um título com menor vencimento e uma taxa equivalente superior está disponível no momento. Para comparar, a taxa do Tesouro Prefixado 2031 com juros semestrais fechou a 12,26% na última sexta-feira (29/10/2021). Além disso, ao fazer essa alteração melhoramos o fluxo de caixa dos dividendos, uma vez que os juros da LCA são mensais, ao passo que os do título público prefixado são semestrais.

Assim, vamos travar uma posição da nossa carteira Renda Total, mas por um bom motivo: aproveitar o momento de estresse pelo qual os títulos de renda fixa estão passando por conta das turbulências fiscais do país.

É fato que nossa carteira perde um pouco de liquidez por ser um título de crédito privado, e por isso vamos adicionar apenas 2,5% dele em carteira. Mas lembre-se de que estamos adquirindo um ativo que paga renda recorrente a taxas mais atrativas e com prazo de vencimento mais curto do que o mesmo título que tínhamos em carteira.

Assim, ao adicionarmos esse ativo de crédito privado, estamos também diminuindo o risco de mercado da nossa carteira e aumentando a perspectiva de retorno da nossa carteira, um verdadeiro movimento de ganha-ganha.

Conclusão

Os melhores momentos para se adquirir ativos de risco são os de estresse no mercado. Os últimos dias fizeram com que as taxas dos ativos prefixados subissem de maneira considerável, aumentando a expectativa de quem investe em renda fixa. Dessa forma, hoje vamos aproveitar esse momento para adicionar em nossa carteira um ativo de renda fixa que paga juros mensais e é isento de Imposto de Renda.

Esse movimento vai entrar com total sinergia na nossa carteira para substituir uma parcela do nosso ativo prefixado que paga juros semestrais, já que, ao fazer essa adição, ganhamos diversos benefícios para a carteira: aumento da perspectiva de dividendos, diminuição do risco de mercado, melhora do fluxo de caixa dividendos e aumento do retorno anual da carteira ao custo de diminuir a liquidez da nossa carteira. Na nossa visão, os benefícios superam em muito os pontos negativos.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Luciana Seabra

Fundadora

Fundadora da Spiti, uma das maiores casas de análise do Brasil, Luciana Seabra é reconhecida por sua abordagem clara e acessível para explicar assuntos complexos relacionados ao mundo financeiro para o público em geral.