Glossário rápido para entender os conceitos relevantes do setor de atuação;
Dito isso, compre Prio
Escrito por Evandro Medeiros em AÇÕES
Neste relatório, você encontrará:
Cenário macro que reforça nossa convicção na tese;
Fatores de risco que envolvem o investimento em PRIO3;
Valuation atualizado da Prio;
Potencial de pagamento de dividendos/recompras;
Considerações finais.
Olá, estimado(a) assinante,
Nesta edição trouxemos atualizações do valuation de Prio, uma das teses de maior convicção e peso da ARCA Valorização.
Glossário (conceitos importantes)
(1) Brent: preço do barril de petróleo adotado pela maior parte dos países. Seus contratos são negociados na bolsa de Londres.
Um barril tem aproximadamente 159 litros de petróleo cru. A contraparte do Brent é o WTI, que vem de West Texas Intermediate, negociado na bolsa americana. O WTI tende a ter uma qualidade levemente superior, mas negocia com desconto frente ao Brent pois é extraído no interior do Texas e, portanto, agrega maiores custos de transporte.
(2) Custo de extração (lifting cost): o custo caixa de retirar o petróleo do fundo do poço de petróleo. Considera aluguel de embarcações, pessoal, materiais e não considera depreciação (uma despesa não-caixa) e royalties.
(3) Royalties: na prática, são impostos pagos à União e aos municípios sobre a venda de petróleo.
(4) TIR: a taxa de retorno estimada do investimento.
(5) Upside: o quanto a ação precisa subir para chegar ao seu preço justo, que é aquele que entrega o retorno igual à taxa de desconto.
Cenário macro
O petróleo segue apresentando um elevado nível de volatilidade dado o conflito no Irã e as reviravoltas das negociações entre o governo Trump e os líderes iranianos. Atualmente, os futuros da commodity se situam em US$ 84, e a média do ano foi superior a isso.
Fonte: Bloomberg.
Nossa tese se ampara nos fundamentos microeconômicos da Prio, e no fato de que o petróleo segue sendo fortemente demandado. Em 2025 consumimos o “ouro negro” como nunca: 105,3 milhões de barris ao dia.
Fonte: US Energy Administration. Elaboração: Finclass.
O petróleo está em tudo, não somente em combustíveis. Batons, computadores, fones de ouvido, lubrificantes etc. E a Prio é parte da solução para essa demanda.
Riscos
Toda tese de investimento engloba riscos, e PRIO3, a despeito de suas virtudes, não é uma exceção. Leia esta seção atentamente.
(1) Cambial: a Prio é uma empresa essencialmente dolarizada, embora parte de seus custos, como mão de obra e alguns serviços, seja denominada em reais. Em um cenário de valorização significativa do real frente ao dólar, os resultados quando convertidos para reais podem ser pressionados.
Por outro lado, essa mesma dinâmica funciona como uma proteção natural contra a inflação doméstica e contra a tendência histórica de desvalorização da moeda brasileira no longo prazo.
(2) Execução: o histórico de aquisições é louvável, com a companhia gerando um valor considerável aos seus acionistas. No caso de aquisições futuras, uma fatia do valor presente do ativo pode ser profundamente impactada.
(3) Endividamento: a Prio está razoavelmente alavancada a 2x seu EBITDA. Contudo, o motivo foram as aquisições que vêm gerando mais resultados e reduzindo a razão dívida líquida/EBITDA.
(4) Preço da commodity: a principal variável que determinará a geração de caixa da Prio está fora do controle da companhia (e do nosso). Um período extenso de preços baixos pode gerar resultados fracos e um imenso custo de oportunidade potencial.
Valuation
A atualização do valuation publicado no relatório fez-se necessária por três principais fatores:
• Houve um incremento de produção acima do que nossas estimativas conservadoras contemplavam;
• O custo de extração (lifting cost) por barril tem se provado mais favorável do que originalmente projetado;
• Os preços de 2026 também superaram nossas expectativas, o que eleva o valor presente do ativo, dado que é o período menos sujeito à diluição da taxa de desconto.
Consideramos 9,5% pagos em royalties, mais o imposto de exportação de 12% estabelecido pelo Governo Federal em março de 2026 após a eclosão do conflito no Irã, e prorrogado até setembro. Para adicionar uma camada de segurança, consideramos que o imposto será pago referente ao ano completo, de janeiro até dezembro.
Quanto à produção, assumimos uma curva crescente, refletindo o bom desempenho das campanhas de perfuração dos campos, com destaque para Wahoo e Peregrino e, posteriormente, uma queda do volume produzido refletindo a depleção natural dos campos.
Dados históricos (2018 a 2025): Prio. Projeções e elaboração: Finclass.
Para a precificação, contemplamos um Brent de referência de US$ 85 para 2026 e de US$ 70 em 2027. Para os anos posteriores, entre 2028 e 2044, utilizamos o preço de US$ 65 o barril, um patamar que nos parece pessimista, pois eventualmente ocorrem choques do petróleo que impulsionam os preços. Já o custo de extração cai, recua aos níveis de 2022 e depois volta a subir, estabilizando em US$ 15/barril, bastante acima do seu histórico.
Projeções e elaboração: Finclass.
Para a estrutura de capital, assumimos que a Prio encerrará 2026 com uma dívida líquida/EBITDA de 1,4x e nos anos posteriores operará em 1x. O custo da dívida atual de 6,3% em dólares foi assumido para o ano, elevando-se para 6,5% nos anos posteriores.
Para os impostos, vale frisar que a Prio tem créditos tributários bilionários oriundos dos prejuízos da antiga HRT e da Dommo, e, com isso, consegue pagar uma alíquota sobre o lucro (IR e CSLL) mais baixa do que o usual. Ademais, a companhia utiliza sua controlada em Luxemburgo para comercializar barris incorrendo em uma tributação inferior à brasileira.
Os demais unit economics, que são as métricas por barril, são descritos na seguinte tabela:
A taxa de desconto empregada foi de CPI (índice de inflação dos EUA) +10% e com um dólar cotado a R$ 5,00 (17 centavos abaixo da cotação atual).
Com isso, chegamos ao valor justo por ação de R$ 79,02, um patamar que julgamos ser conservador e que sequer considera o upside de aquisições de campos novos, uma atividade que a gestão atual provou fazer com maestria.
A seguir, temos a matriz de sensibilidade, que mensura o valor justo de PRIO3 conforme a cotação do dólar e o preço do Brent:
Potencial de pagamento de dividendos
A Prio já remunera seus acionistas, embora não por meio de dividendos. A empresa vem recomprando ações próprias e, apesar de esse mecanismo ser menos perceptível do que o pagamento de proventos, seu efeito não deve ser subestimado.
Imagine uma empresa com 100 ações, das quais você possui 20 (20% do capital). Se ela recompra e cancela 50 ações, sua participação passa para 40%, sem que você precise investir mais um centavo. É claro que a Prio faz isso em menor escala, mas apenas nos últimos meses recomprou quase 15 milhões de ações.
E como isso se traduz em dividendos? Se essa empresa distribuir R$ 100 por ano, cada ação receberá R$ 1. Após o cancelamento de metade das ações, os mesmos R$ 100 serão divididos entre apenas 50 ações, elevando o dividendo para R$ 2 por ação. Em outras palavras, mesmo sem aumentar o lucro, cada acionista passa a receber uma parcela maior dos resultados. É esse o efeito que as recompras da Prio tendem a gerar quando a companhia iniciar a distribuição de dividendos.
E a boa (ou excelente) notícia é que a empresa recomprou um total de R$ 876 milhões de suas próprias ações nos seis primeiros meses de 2026.
Fonte: Bloomberg. Elaboração: Finclass.
Chama a atenção que a gestão, que conhece a empresa melhor do que ninguém, utilizou o caixa da companhia para comprar as próprias ações a um preço de R$ 65,30 por ação em junho, totalizando R$ 206 milhões, um patamar que considera barato. Nós concordamos.
Ainda assim, os dividendos não são o cerne da tese de Prio, que historicamente priorizou crescimento, o que se traduziu na valorização das ações. Embora a empresa não tenha pago sequer um centavo de dividendos nos últimos cinco anos, o acionista que segurou o ativo está certamente contente com seu resultado:
Fonte: Google.
Considerações finais
A Prio não é uma tese imune a riscos: o preço do petróleo não obedece a ninguém, o câmbio oscila e aquisições futuras podem não repetir o sucesso das anteriores. É justamente por isso que nossas premissas são conservadoras: Brent de US$ 65 no longo prazo, custo de extração acima do histórico e nenhum upside de novas aquisições e, ainda assim, chegamos a um valor justo de R$ 79,02 por ação, bastante acima da cotação atual.
Do outro lado da balança, temos uma companhia que produz cada vez mais, extrai seus barris a custos competitivos, paga menos impostos graças aos seus créditos tributários e já devolve valor ao acionista recomprando as próprias ações.
Poucas vezes encontramos uma combinação tão favorável de preço, qualidade operacional e qualidade da gestão.
Dito isso, compre Prio.
Forte abraço,
Evandro Medeiros
CNPI 9270
Sobre os analistas
Evandro Medeiros
Especialista em Ações
Analista CNPI, economista e especialista em mercado acionário da Finclass. Iniciou sua trajetória em análise de ações em 2019, cobrindo inicialmente o mercado brasileiro e, posteriormente, ampliando seu escopo para os mercados globais, com foco especial em ativos dos Estados Unidos e da Argentina, países onde também teve a oportunidade de residir. É um apaixonado declarado pela filosofia do Value Investing e um entusiasta das empresas “pouco empolgantes”, que muitas vezes oferecem uma precificação mais atrativa do que os grandes nomes conhecidos.