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Dívida do Brasil: irreversível ou ainda tem saída?

Escrito por Guilherme Cadonhotto em RENDA FIXA

18 min de leitura

Neste relatório, você encontrará:

  • A saúde fiscal do país é uma preocupação constante dos agentes econômicos, já que déficits excessivos pressionam a inflação, elevam os juros e comprometem o crescimento.

  • Quando o governo gasta mais do que arrecada, recorre à emissão de moeda (com efeitos inflacionários) ou à emissão de dívida (alternativa mais segura, mas com limites).

  • A sustentabilidade da dívida pública depende de quatro fatores: nível inicial de endividamento, crescimento do PIB, juros reais e resultado primário.

  • Em 2025, a dívida bruta do Brasil está em cerca de 76% do PIB; o desafio está na sua trajetória, marcada por crescimento acelerado, juros elevados e espaço fiscal reduzido.

  • Países como EUA e Japão operam com dívidas maiores, mas enfrentam menor risco fiscal devido a juros baixos, maior credibilidade e capacidade de crescimento sustentável.

  • Para estabilizar a dívida, o Brasil precisa gerar um superávit primário em torno de 1,9% do PIB, uma meta exigente, porém possível com compromisso fiscal consistente.

Você já parou para pensar por que investidores se preocupam tanto com o endividamento público, com questões fiscais, com o equilíbrio das contas públicas do país?

Bom, existem alguns pontos relativamente óbvios para isso, mas vamos explicar os mais explícitos e consequências menos óbvias do porque manter o equilíbrio das contas públicas é algo desejável para um país que queira crescer e proporcionar uma melhor qualidade de vida para sua população.

Vale lembrar que o governo possui receitas e despesas, como uma boa parte das pessoas e empresas.

Quando o governo gasta mais do que arrecada, ele pode seguir dois caminhos:emitir moeda e contrair dívida. 

Abaixo falaremos um pouco mais sobre eles.

1) Emitir moeda.

Através do Banco Central, um país pode criar mais moedas a fim de cobrir o “buraco” que apresentou em seu resultado fiscal.

As consequências de se fazer isso nós já conhecemos muito bem.

Cobrir déficits com emissão de moeda, geralmente, leva à inflação e à desvalorização da nossa moeda perante outras divisas internacionais, além da perda de credibilidade, do aumento dos juros e por aí vai.

O Brasil conhece esses efeitos muito bem. Nos anos 1980, o país financiou os seus déficits públicos com a emissão de moeda; a consequência você deve se lembrar - mas se é jovem demais para isso eu vou lhe contar:

Inflação e hiperinflação

A inflação anual no Brasil superou o patamar de 1.000%, ou seja, os preços médios na economia se multiplicaram por 10. No auge da inflação, esse aumento foi de 2.477%.

A inflação acumulada no Brasil, entre 1980 e 1994, ano da criação do Plano Real, chegou a 2% TRILHÕES . É exatamente isso que você leu: um percentual superior a trilhões.

Esse dado pode ser consultado no site do Banco Central:

Fonte: Banco Central do Brasil

Desvalorização da moeda

A confiança nas moedas nacionais desapareceu. Informalmente, a economia ia se “dolarizando” - afinal, essa era uma moeda estável.

Incerteza e recessão

Empresas pararam de investir devido à falta de previsibilidade de retorno. A produção diminuiu, o desemprego aumentou e a economia entrou em estagnação.

Desigualdade social

Quem possuía dinheiro e conhecimento para dolarizar o seu patrimônio, o fazia; os mais pobres ficaram “presos” à desvalorização da moeda nacional.

Percebemos, então, depois de muito tentar, que financiar o déficit público, através da emissão de moeda, não era o melhor caminho; portanto, partimos para a outra opção mais saudável.

2) Contrair dívida

Essa contração de dívidas significa a emissão de títulos públicos. É o caminho racional, escolhido hoje pela maior parte dos países do mundo - o que estabilizou, em grande parte, os problemas de economias em desenvolvimento nas últimas décadas.

Apesar de ter resolvido um grande problema das décadas de 1980 e 1990, o financiamento do déficit público, através da dívida pública, tem também os seus limites.

No texto abaixo, falarei um pouco mais sobre dívida pública, a situação do Brasil em 2025; também apresentarei conceitos como, dívida bruta, dívida líquida, déficit primário e déficit nominal. Os termos parecem ser chatos, mas acredite em mim, são importantes e mais interessantes do que parecem. Além disso, farei um paralelo da situação brasileira com a situação de países emergentes e desenvolvidos.

Dívida Bruta do Governo Geral: cerca de 75% a 76% do PIB, no início de 2025. Em março de 2025, a dívida bruta estava em 75,9% do PIB (aproximadamente, R$ 9,1 trilhões). No mês seguinte, abril/2025, atingiu 76,2% do PIB, segundo o Banco Central.

“Mas o que é essa dívida?”

É o total devido pelo setor público. A dívida bruta corresponde ao montante total que o governo deve a credores (títulos emitidos, empréstimos, etc.). Utilizando uma analogia: é como a dívida total de uma família no cartão, empréstimo e financiamento. Já a dívida líquida, que é um outro conceito importante, deduz certos ativos do governo (por exemplo, as reservas), refletindo o endividamento, após descontar recursos em caixa – semelhante à dívida da mesma família, após abater o dinheiro que ela tem guardado.

Para você ter uma ideia, a dívida líquida é significativamente menor do que a bruta - hoje, ao redor de 61% do PIB. Isso porque, hoje, o Brasil conta com um volume relevante de reservas internacionais, que estão aplicadas basicamente em títulos públicos americanos.

“Como interpreto esses percentuais?”

Imagine que um casal tenha uma renda anual de R$ 100 mil e tenha uma dívida de R$ 50 mil O que isso significa?

Eles possuem uma dívida de 50% de sua renda anual. A pergunta que você, provavelmente, está se fazendo é se esse é um patamar elevado ou não.

Bom, o nível não nos diz muita coisa; mas para respondermos se isso é elevado ou não, precisamos olhar outros três pontos:

1) A capacidade de crescimento da renda desse casal.

Se esse for um casal jovem, de menos de 30 anos, provavelmente ambos estão em ascensão na carreira, e a renda pode crescer sem muitos problemas - então, esses 50% não seriam preocupantes. Vou dar um exemplo.

Vamos imaginar que a renda combinada suba para R$ 150 mil por ano, e a dívida continue em R$ 50 mil. Qual será o novo percentual de endividamento desse casal?

R$ 50 mil divididos por R$ 150 mil resultam em 33,33%; ou seja, o endividamento do casal, com relação à sua renda, caiu de 50% para 33,33%.

Perceba que a dívida em si não caiu, mas o endividamento relativo à sua renda caiu bastante - o que deixa o casal menos “sufocado” pela sua dívida.

Então, é importante que você entenda que um país é afetado pelo mesmo princípio - mas, ao invés da renda, falamos de PIB.

Quanto maior a capacidade de um país crescer, maior pode ser a sua relação dívida/PIB sem que isso comprometa de maneira relevante sua sustentabilidade fiscal.

2) O custo da dívida

Vamos imaginar a situação inicial do casal, com uma renda de R$ 100 mil e uma dívida de R$ 50 mil, o que dá um endividamento de 50% em termos de dívida/renda - o que seria equivalente à dívida/PIB.

Agora, imaginemos que essa dívida cresça a uma taxa de 30% ao ano; o que aconteceria um ano depois, se a renda do casal permanecesse a mesma?

A renda seria de R$ 100 mil e a dívida de R$ 65 mil - ou seja, depois de um ano, o nível de endividamento subiria de 50% para 65%.

Mas não para por aí. Ao final do segundo ano, se a renda permanecesse a mesma, a dívida subiria para R$ 84.500, o que significaria um endividamento de 84,5%, com relação à sua renda. 

E isso é exponencial. Ao final do terceiro ano, o casal já teria um endividamento de 110%.

Qual é o problema?

Se você tem uma dívida de R$ 110 mil e sua renda anual é de R$ 100 mil, somente os juros da sua dívida consumirão mais de 30% da sua renda.

O conceito simplificado te ajuda a entender o problema para um país. Quanto maiores os juros que aquele país precisa ter, menor o nível de endividamento que ele pode assumir.

No mesmo exemplo de um casal, vamos imaginar que um outro casal com a mesma renda de R$ 100 mil e a mesma dívida de R$ 50 mil, conseguiu juros de 5% ao ano. Qual seria o nível de endividamento deles, ao final de três anos, tudo o mais constante?

Aproximadamente, 58%.

Lembre-se de que o casal anterior, depois de três anos, possuía um endividamento com relação à sua renda de 110% no mesmo período.

O que isso significa?

Países com uma taxa de juros menor podem ter um nível de endividamento maior, sem que isso comprometa sua sustentabilidade fiscal.

3) Capacidade de poupança

Vamos voltar à situação inicial do casal com uma renda de R$ 100 mil e dívida de R$ 50 mil - ou seja, endividamento de 50%.

Nesta simulação, imaginemos que a sua dívida cresça a uma taxa de 10% ao ano - o que significa um crescimento da dívida de R$ 10 mil, logo no primeiro ano. Aqui, vamos imaginar que a renda do casal não cresça, ou seja, continue em R$ 100 mil por ano; isso é um problema necessariamente?

Não, o casal pode poupar e usar esse “superávit” do seu orçamento para abater - o que significa literalmente pagar uma parte da sua dívida.

Então, vamos imaginar o seguinte: em janeiro, o casal tem uma dívida de R$ 50 mil, mas em dezembro essa dívida é de R$ 55 mil, por conta dos juros. Essa dívida aumentou?

Não, em nossa simulação, o casal gastou menos do que recebeu e poupou R$ 10 mil, que foi utilizado para abater a sua dívida; ou seja, a dívida que, ao final de dezembro, era de R$ 55 mil caiu para R$ 45 mil. O que significa que o novo nível de endividamento do casal é de 45% com relação à sua renda.

Veja, a renda do casal não cresceu e, mesmo com os juros correndo, ele conseguiu reduzir o seu nível de endividamento de maneira significativa, utilizando o conceito de SUPERÁVIT, ou seja, gastar menos do que se arrecada.

Um país também utiliza esse conceito, que pode ser separado nos chamados “Resultado primário” e “Resultado nominal”.

A diferença entre eles?

O resultado primário considera o resultado financeiro de um país, ou seja, receitas menos despesas, sem considerar o pagamento de juros em cima da dívida. 

Seria como os R$ 10 mil que o casal no exemplo anterior utilizou para pagar a dívida. Como ele foi positivo, chamamos de superávit primário; se fosse negativo, ou seja, o casal teria gasto R$ 10 mil a mais do que recebeu, contraindo assim mais dívida - chamaríamos de déficit primário.

O resultado nominal considera o pagamento de juros.

No exemplo do casal, podemos pensar como: Resultado primário – pagamento de juros, ou seja, R$ 10 mil – R$ 5 mil (juros) = R$ 5 mil positivo. Neste caso, tivemos um superávit nominal também.

É sempre assim?

Não, o resultado primário pode ser positivo e o pagamento de juros ser alto ao ponto de anular o primário, e mesmo assim a dívida crescer.

Com um exemplo do casal, se os juros não fossem de 10%, mas sim de 25% ao ano, o resultado seria diferente.

Mantendo o “superávit primário” de R$ 10 mil, isso não seria suficiente para pagar os juros da dívida, que seriam de R$ 12.500 ou seja, o resultado nominal seria:

R$ 10 mil – R$ 12.500 = -R$ 2.500 (Déficit Nominal)

No exemplo acima, temos um Superávit Primário com um Déficit Nominal, que é o que importa para o saldo da dívida, no final das contas.

*Uma observação: em termos proporcionais, se a renda do casal crescesse, não haveria problema.

Ou seja, concluímos, então, que a sustentabilidade da dívida de um casal, de uma família e de um país, dependem de quatro fatores:

1 - O nível inicial de endividamento

2 - Capacidade de crescimento

3 - Juros da dívida

4 – Capacidade de poupança (Resultado primário)

E por que é importante que você entenda isso?

A maioria das pessoas só olha para o nível de endividamento público de um país, e não para os outros três pontos muito importantes, na hora de falar sobre um possível problema fiscal. 

Para mostrar como isso é extremamente importante, vou fazer um quadro com exemplos de como os níveis de endividamento iniciais semelhantes podem trazer resultados completamente diversos, em termos de sustentabilidade fiscal.

*Uma observação importante: Quando falamos de contas públicas de países, sempre consideramos  taxas reais, levando em conta a inflação. Então, capacidade de crescimento da renda/PIB acima da inflação, assim como os juros, seriam os juros desconsiderando a inflação,- ou também conhecidos como juros reais.

Achei melhor te informar isso agora, já que começaremos a falar um pouco mais sobre situações de países - e não mais de famílias ou casais.

Simulação com nível de endividamento inicial de 30% (Dívida/PIB).

Vamos ao quadro geral, trazendo a situação de países que sairiam de um endividamento inicial de 30%. Lembre-se de que essa relação mostra o tamanho da dívida, com relação ao PIB de um país.

Vale ressaltar que são poucos países que mantêm um nível de endividamento tão baixo; alguns deles são Dinamarca, Suécia e Arábia Saudita.

Fonte: Finclass

Observe o quadro acima. Nele, você pode perceber que todos os países do exemplo partem de um nível de endividamento de 30%, mas as semelhanças param por aí. Eles têm resultado primário diferente, juros diferentes, taxa de crescimento diferente e, consequentemente, suas dívidas se comportariam de maneira diferente.

Perceba que, apesar de todos começarem com uma dívida de 30%, o resultado final, depois de um ano, é diferente. 

No melhor dos casos, o país 1 terminou com uma dívida/PIB de 28,30%, enquanto o pior dos países terminou com 31,75%.

A diferença é pequena, mas isso pode ser explicado pelo baixo nível de endividamento inicial dos países. Conforme avançamos, em termos de nível de endividamento, você verá que as diferenças no final de um ano começam a ficar relevantes.

Simulação com nível de endividamento inicial de 50% (Dívida/PIB).

Fonte: Finclass

Nesta simulação, alterei apenas alguns dados da coluna de juros reais - ou seja, qual o nível de juros do país descontando a inflação.

Podemos notar que, ao final do ano, alguns países têm uma melhora no seu nível de endividamento; como é o caso do país 1, 2 e 3; já outro apresenta estabilidade, que é o caso do país 4; enquanto o país 5 tem um acréscimo considerável da sua dívida de um ano para o outro.

O país 5 estaria em uma situação fiscal delicada e o motivo não é pelos finais 54,25% do nível de endividamento, mas, sim, pela velocidade do crescimento dessa dívida - ela cresce de maneira muito rápida.

Apesar disso, 54,25% ainda é um patamar significativamente baixo. Vamos entender, agora, o que aconteceria com os países partindo de um nível de dívida de 70% do PIB.

Simulação com nível de endividamento inicial de 70% (Dívida/PIB).

Fonte: Finclass

Observe como o cenário é interessante: com tudo igual, com a diferença de apenas partir de um nível de endividamento de 70% do PIB e não mais 50%, o crescimento da dívida do país 5 seria de 5,55%, contra 4,25%, se ele estivesse partindo do nível de dívida mais baixo.

A lógica aqui é a mesma: o país 5 está em uma situação frágil, do ponto de vista fiscal, por conta do crescimento forte do seu nível de endividamento de um ano para o outro.

Até aqui, vimos simulações com países partindo do mesmo nível de dívida; mas,  se partirmos de níveis diferentes e chegarmos em patamar similar, ao final de um ano, podemos dizer que países estão em situações fiscais diferentes mesmo com o mesmo nível de dívida?

Para ficar mais claro, vamos ao exemplo abaixo:

Simulação com níveis de endividamento inicial DIFERENTES.

Fonte: Finclass

Observe atentamente no quadro acima: os países partem de situações iniciais muito diferentes, porém chegam a um nível de endividamento muito similar ao final de um ano.

Isso significa que eles estão todos na mesma situação fiscal?

Definitivamente, não. 

Não podemos deixar de notar a coluna extremamente importante de “Oscilação da dívida”.

Vamos destacá-la para entender quem está em melhor situação.

Fonte: Finclass

As células coloridas, agora, mostram que a situação fiscal é muito diferente entre os países - apesar de todos terem uma dívida/PIB semelhante ao final do ano, na casa de 73%.

O país 1 viu sua dívida crescer 11,44% em um único ano, enquanto o 5 viu sua dívida reduzir em 5,37%. Essa coluna de oscilação da dívida combinada com a dívida final do país nos dá uma verdadeira noção do risco fiscal de um país.

Talvez, você esteja se perguntando:

“Mas, Gui, as coisas não podem mudar abruptamente de um ano para o outro?”

A velocidade de crescimento da dívida pública, com relação ao PIB, depende dos três fatores que vimos anteriormente:

1 - Crescimento

2 - Juros

3 – Resultado primário

Esses são aspectos rígidos no cenário macroeconômico de um país. Você não aperta um botão e o país passa a crescer mais. Não aperta outro botão e a inflação (e consequentemente os juros) caem rapidamente; do mesmo modo que, usualmente, não consegue sair de um déficit primário relevante para um superávit considerável.

Todas essas mudanças exigem anos para acontecer de maneira sustentável e, por isso, países com crescimento da dívida pública relevante, de um ano para o outro, são vistos como frágeis do ponto de vista fiscal; afinal, se não está bom agora, não é no ano que vem que esse problema será resolvido.

É por isso que, muitas vezes, países com nível de endividamento mais baixo apresentam o chamado risco fiscal mais alto, devido à  dinâmica do crescimento da dívida pública - e não do nível da dívida em si. 

Para ficar mais fácil, que tal analisar o caso real de países, incluindo o Brasil?

Vamos analisar a situação de países reais:

Para isso, utilizaremos obviamente a situação de Brasil, EUA e Japão - considerando que os dois últimos são países desenvolvidos, que possuem uma dívida/PIB muito maior do que a do Brasil, mas que não sofrem tanto quanto o nosso país com relação à preocupação fiscal constante.

Agora, vamos entender finalmente o motivo por trás disso, analisando os países, com base em seus últimos indicadores:

Fonte: Finclass

Veja que interessante: os dados utilizados na tabela acima são reais.

Observe que, se olharmos a última coluna, parecerá que o Brasil está na melhor situação dentre os países analisados; porém, ao observarmos a dinâmica da dívida pública, a situação piora muito para o nosso lado.

Em termos de crescimento da dívida, somos campeões; de um ano para o outro, a expectativa é que nossa dívida cresça quase 6%, enquanto a expectativa é que nos EUA cresça 1,7% e no Japão ela caia. Olhe que interessante, mesmo com um déficit primário superior a 3% do PIB.

O motivo dessa queda no nível de endividamento no Japão está em seus juros reais negativos, ou seja, no seu nível de juros descontando a inflação.

Por esse prisma, podemos notar que a fragilidade do Brasil é muito superior à dos outros países.

Talvez, você esteja se questionando:

“Mas por que o Brasil não corta os juros, então?”

Existe um conceito chamado de Juros reais neutros. Esses juros reais neutros de uma economia seriam o nível de juros descontando a inflação, que permitem a um país crescer, sem que isso pressione a sua inflação.

A estimativa da taxa de juros real neutra do Brasil é de aproximadamente 5%, enquanto a dos EUA é de 1% e a do Japão perto de 0% - isso mesmo, 0%.

O que isso significa?

Que nós precisamos consistentemente de juros maiores para controlar a nossa inflação e que isso nos torna mais suscetíveis a problemas fiscais.

O motivo por trás dessa necessidade fica para uma próxima ocasião; afinal, precisaríamos de outro relatório completo para abordá-lo.

Mas o que eu quero que você entenda é que os nossos juros são altos por um motivo: porque precisamos de juros mais altos para controlar a nossa inflação e também porque o receio com nossa situação fiscal é consistentemente problemático.

Vale ressaltar que os juros no Brasil também são altos porque, consistentemente, governos não mostram verdadeira preocupação com o nível de endividamento público; é o que chamamos de  prêmio de risco, ou seja, o quanto os juros têm que ser mais altos, por conta do receio dos investidores com a sustentabilidade da nossa dívida.

Além disso, a alteração da taxa de juros de um país não depende da vontade do governo vigente, mas, sim, do corpo diretivo do Banco Central - que, hoje, detém autonomia protegida por lei, assim como mandatos com períodos fixos para diretores e presidente.

Cortar os juros sem ter o controle da inflação, sem ter credibilidade fiscal, até poderia até trazer um resultado positivo no curto prazo, mas poderia nos jogar em uma situação muito pior a médio e a longo prazo.

“Mas por que o Brasil não cresce então?”

Assim como não basta um aperto de botão para reduzir os juros sem consequências negativas à frente, não podemos simplesmente decidir crescer mais; afinal, esse é o objetivo: que a economia cresça e as pessoas tenham uma vida melhor.

O crescimento sustentável depende de uma série de fatores, que não são fáceis nem alterados rapidamente, por isso temos pouco controle sob esse aspecto.

Então, o que nos sobra como país?

GASTAR MENOS!

Se um governo estiver verdadeiramente preocupado com a situação fiscal de um país, a única coisa que vai verdadeiramente mostrar isso é o quanto ele vai gerar de resultado primário, ou seja, qual será o saldo final de suas receitas, menos as despesas - sem considerar o pagamento de juros.

É claro que a mudança nessa variável não se altera de maneira brusca, de um ano para o outro, mas é importante que a melhora, mesmo que gradual aconteça; assim, dois fatores que vão ajudar a reduzir a dívida pública também começam a acontecer:

A expectativa de inflação cai, assim como o prêmio de risco;  lembre-se, significa o quão o juro precisa ser mais alto para compensar o medo dos investidores com a nossa sustentabilidade fiscal.

Os juros “podendo cair” trarão um outro aspecto positivo, um crescimento maior.

Veja, o início de uma virada em termos de expectativa fiscal começa pelo resultado primário melhorando, não é pelos juros, nem mesmo pelo crescimento.

“Mas qual seria o resultado primário ideal para o Brasil, Gui?”

Para responder essa pergunta, precisamos de três pontos:

- Nível de endividamento inicial.

- Nível do juro real neutro.

- PIB Potencial.

Expliquei acima o conceito de juros reais neutros, mas o que seria o PIB potencial?

Abre parênteses. O que é o PIB potencial?

O PIB potencial tem relação com a capacidade máxima de crescimento de um país de forma sustentável - ou seja, sem que isso pressione a inflação.

Sei que o relatório está bacana, com uma série de números e dados, mas vou precisar recorrer a uma analogia, quase que infantil, para explicar bem esse termo.

Gosto de dizer que, para entender esse conceito, precisamos pensar na economia como se fosse um cavalo em uma corrida. Cada cavalo, dependendo de sua raça, alimentação e treinamento, consegue atingir uma velocidade por um determinado período de tempo. Essa velocidade seria o sua potencial.

Quando um cavalo, estimulado pelo seu jóquei com seu chicote (que não dói, diga-se de passagem), corre acima de seu potencial, lesões podem surgir, estiramentos, problemas nos ligamentos e por aí vai.

Fonte: Globo Esporte

Ou seja, apesar de ter atingido uma velocidade maior do que o seu potencial, a sua capacidade de correr pelos próximos meses, e às vezes anos, pode ter sido prejudicada por alguma lesão.

Com o crescimento da economia, funciona de maneira semelhante. Devido à infraestrutura de um país, ao nível educacional, a capacidade instalada no país, ele possui um potencial máximo de crescimento. Crescer acima dessa taxa pode gerar “lesões”, que se traduzem basicamente em inflação e perda da capacidade de crescer no futuro, se isso permanecer por muito tempo.

Por isso o jóquei ou, nesse caso, o governo e o Banco Central, devem se atentar se isso não está acontecendo; em caso positivo, devem usar o chicote (ou os juros ou à política fiscal), para dar o comando ao cavalo (nossa economia) que desacelere.

Segundo estimativas de economistas e do Banco Central, nosso PIB potencial está perto de 2,5% ao ano.

Fecha parênteses 

Agora, com endividamento inicial, juros reais neutros e PIB potencial, podemos calcular qual seria o resultado primário que deveria ser perseguido pelo Brasil; veja, independentemente de quem seja o presidente.

Estou falando de um resultado primário suficiente para estabilizar a dívida pública brasileira a médio e a longo prazo.

Vamos à tabela:

Fonte: Finclass

Veja, considerando os juros neutros e o PIB potencial brasileiro, o resultado primário, que estabiliza nossa dívida pública, é de 1,91% do PIB.

O PIB do Brasil é, hoje, de aproximadamente R$ 10 TRILHÕES, ou seja, o superávit brasileiro necessário, para estabilizar a dívida pública, deveria ser de R$ 200 bilhões.

É fácil? De jeito nenhum.

Possível? Totalmente.

Os anos entre 2000 e 2012 foram marcados por superávits primários dessa magnitude ou maiores - patamar que perdemos após o governo da presidente Dilma Roussef e seu Ministro da Fazenda Guido Mantega.

O Brasil precisa lutar para que esse patamar de superávit volte a ser o normal e não algo pontual, como vimos em 2022.

Mas e se continuarmos na mesma?

O cenário não será dos melhores. Desenhei alguns cenários, considerando diferentes taxas de juros e resultado primário.

Fonte: Finclass

Se fizermos um superávit primário alto de 2,50% do PIB e os juros reais cairem para 4%, o que é um cenário muito otimista, reduziríamos a dívida e 1,36% do PIB.

Qualquer resultado primário inferior a esse poderia - no melhor dos casos - manter nossa dívida relativamente estável, enquanto resultados primários muito menores nos levariam a um crescimento da dívida muito alto; por isso, há a preocupação dos investidores com o nível de endividamento do Brasil.

Lembre-se, ao comprar títulos públicos você empresta dinheiro para o governo brasileiro. E é extremamente importante que ele mantenha suas contas equilibradas, assim como sua dívida no trilho correto, para que você e outros investidores tenham a confiança de que receberão de volta os seus recursos no futuro. Se isso não acontecer, os juros devem subir ainda mais, o que reforça o caminho negativo para a dívida.

“Mas, Gui, não invisto em títulos públicos, não tem problema, certo?”

Errado!

Títulos públicos são a base de um sistema financeiro saudável.

Grande parte dos ativos dos bancos está alocada em títulos públicos.

Os bancos, por sua vez, são o meio utilizado pelas empresas e pessoas para investir ou captar recursos.

Além disso, pessoas e empresas também investem em títulos públicos. Isso significa que títulos públicos são a base de um sistema financeiro saudável, ou seja, de uma economia saudável. Com títulos públicos se desvalorizando, perdendo a credibilidade devido à preocupação fiscal, não existe economia saudável.

O esquema acima pode ser representado pela imagem abaixo:

Fonte: Finclass

Conclusão:

O Brasil está em uma situação fiscal desconfortável. Devemos observar a dívida subir de maneira relevante no próximo ano, mas existe um caminho possível de saída, um caminho que, inclusive, trilhamos por anos consecutivos. Apesar disso, não há espaço, nem tempo, para descaso, afinal, a cada ano que passa sem endereçarmos esse problema, ele se torna maior.

Espero que a partir de agora você entenda muito mais o que significa credibilidade fiscal e qual a situação atual do Brasil

Abraços,

Guilherme Cadonhotto

Sobre os analistas

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de Estrategista da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como um grande especialista em Renda Fixa. Bacharel em Economia pela FGV e pela Nova School of Business and Economics, além de ter mais de 10 anos na gestão de fundos de investimento de Renda Fixa, Crédito Privado e Multimercado, hoje ele ensina seus alunos e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.