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Dollar cost averaging: a tática de aportes que não devemos abandonar em tempos incertos

Escrito por Felipe Arrais em INTERNACIONAL

18 min de leitura

Neste relatório, você encontrará:

  • Apresentando o conceito de investimento periódico dollar cost averaging (DCA), em comparação com um aporte volumoso feito de uma única vez. Em cerca de 75% das janelas de análise com ações norte-americanas, foi melhor investir tudo de uma vez embora esse resultado desconsidere fatores qualitativos importantes, como a resiliência emocional para suportar uma desvalorização logo após investir uma grande soma.

  • Em casos em que não há uma grande soma a se investir de uma vez, devemos tentar ao máximo exercer a regularidade do investimento, dentro da possibilidade de cada um, independentemente do momento de mercado. Manter a tática de compra regular costuma gerar um retorno ponderado pelo dinheiro melhor do que nos abstermos de aportar em momentos ruins de mercado.

  • O fundo Bridgewater Core Global Macro sairá de nossas recomendações por conta de o mandato ser encerrado em seus espelhos europeus (UCITS). A recomendação é de resgate integral e migração para outros ativos recomendados.

Nos últimos anos, nós, investidores, vimos praticamente de tudo: pandemia, cadeia logística travada, inflação disparando, bancos centrais no mundo inteiro correndo atrás do prejuízo com a maior alta de juros em décadas e, depois, a fase atual em que boa parte desses juros começa a descer, mas talvez não em uma velocidade e intensidade que o mercado chegou a esperar há pouco tempo. Nos EUA, por exemplo, a inflação já cedeu em relação ao pico e o Fed iniciou cortes graduais, mas ainda trabalha com juros reais positivos e um discurso cauteloso.

Na Europa, o BCE já reduziu os juros diversas vezes e hoje opera perto de 2% de inflação, também em modo de observação, sem pressa para voltar a estimular demais.

Enquanto isso, as bolsas oscilaram entre medo de recessão e empolgação com o “novo mundo” da inteligência artificial. Um punhado de gigantes de tecnologia passou a concentrar uma fatia recorde do S&P 500 — a famosa “Magnificent 7” já representa cerca de um terço do índice, o que alimenta tanto manchetes sobre inovação quanto discussões sobre risco de concentração e possível bolha.

Em alguns momentos, parecia que bastava ter “IA” no release de resultados para a ação subir, em outros qualquer dado de inflação ou discurso de banco central era motivo para correção pesada.

No Brasil, a história também ganhou capítulos intensos. Depois de um ciclo de queda, a taxa Selic voltou a patamares de dois dígitos e hoje ronda 15% ao ano, uma das mais altas do mundo, fruto de inflação teimosa e preocupações fiscais.

Ao mesmo tempo, a bolsa brasileira saiu de um 2024 difícil e em 2025 emplacou um rali forte, renovando máximas históricas acima dos 150 mil pontos e acumulando alta superior a 25% no ano, impulsionada por fluxo estrangeiro e dólar mais fraco.

Para completar, a inflação doméstica vem caindo, mas ainda gira acima da meta, o que mantém um clima de “meio do caminho”: não é mais descontrole, mas também não é conforto total.

Ou seja: se em 2022, quando os juros se elevaram fortemente e “apavoraram” o mercado, a sensação era “como é que eu vou continuar investindo vendo tudo cair?”, em 2025 muitos se perguntam “como é que eu vou continuar investindo com a bolsa nas máximas, juros altíssimos aqui, IA bombando lá fora e todo mundo falando em possível bolha ou correção?”. A angústia mudou de forma, mas continua sendo angústia.

Alguns investidores olham para trás e pensam que “perderam o bonde” da recuperação pós-pandemia ou da alta recente da bolsa. Outros, ao contrário, têm medo de seguir aportando agora e comprar bem na “beira do topo” e sofrer com uma queda que possa se materializar nos meses seguintes. Tem ainda quem esteja tentado a abandonar a estratégia de longo prazo para tentar adivinhar o próximo movimento do Fed, do BCE, do Copom, do câmbio, do noticiário geopolítico, das empresas de tecnologia… Haja variável para controlar.

É justamente aqui que a mensagem deste relatório se torna importante, talvez até mais do que em 2022: em um mundo em que o cenário muda o tempo todo, o que permanece como âncora é o plano. Em vez de tentar prever qual será o próximo capítulo da novela dos juros, da inflação ou da IA, faz muito mais sentido ter uma estratégia clara de alocação, rebalancear quando necessário e manter aportes recorrentes — o famoso conceito de alocação estrutural aliado ao dollar cost averaging (DCA), que é a estrela do relatório de hoje.

Ao longo das próximas páginas, vamos falar justamente sobre como se comportar em períodos de grande incerteza (seja ela de queda ou de alta de mercado) e quais benefícios podem surgir, no longo prazo, de continuar investindo de forma disciplinada, mesmo quando o noticiário parece dizer o contrário. A ideia é tirar um pouco a abstração do “invista para o longo prazo” e mostrar, com números e exemplos, como a constância pode trabalhar a seu favor.

Seja você alguém que sobreviveu à fase de juros zero, encarou a disparada das taxas, viu a bolsa apanhar e agora observa novos recordes com desconfiança, este conteúdo foi pensado para te ajudar a manter a calma, ajustar as expectativas e seguir o plano com mais confiança.

Apenas um detalhe antes de começarmos: ao final da discussão sobre o tema principal do relatório, traremos uma pequena seção oficializando a saída do fundo Bridgewater Core Global Macro de nossa prateleira de fundos aprovados. A saída, como você verá, não tem a ver com performance, mas com uma decisão de negócios tomada pela gestora. Se você investe no fundo, vale checar o final do relatório.

Vamos lá?

O que é dollar cost averaging?

Dollar cost averaging, ou DCA, é uma abordagem de investimento pautada em construção de preço médio através de aportes periódicos. Talvez você já esteja fazendo uso dessa abordagem mesmo sem saber que ela tem um nome chique.

Afinal, sempre defendemos aqui que o ato de investir deve ter regularidade, como no caso de trabalhadores assalariados que separam uma fatia do salário todos os meses para investir.

Agora, se você pesquisar o termo no Google, os primeiros resultados apresentados seriam sobre o DCA sob outra ótica, comparando a abordagem de como seria a melhor maneira de investir uma grande soma de dinheiro.

Essa discussão é um antigo debate sobre DCA e Lump Sum, ou investir em pequenos pedacinhos, ou tudo de uma vez. Apesar de esse debate não ser o tema central de nosso relatório de hoje, explicaremos um pouco melhor para que você tenha um contexto completo sobre vantagens e desvantagens de cada alternativa.

Discussão sobre DCA vs Lump Sum

Quando temos uma grande quantia disponível para investir, é normal nos perguntamos o que seria melhor, dividir o montante em vários pedacinhos e investir de maneira periódica (DCA) ou investir tudo de uma vez (Lump Sum).

Quase todas as pesquisas feitas sobre esse comparativo chegam a uma conclusão numérica de que, para ações norte-americanas, por exemplo, é mais provável que você tenha um melhor resultado ao investir tudo de uma vez.

Veja abaixo um gráfico de janelas móveis de retorno de dois anos da estratégia DCA versus Lump Sum aplicada a ações norte-americanas.

Quando a linha do gráfico se encontra acima do eixo horizontal (área verde) são as ocasiões em que a abordagem DCA foi melhor, do contrário, abaixo do eixo (área vermelha) é quando a DCA foi pior.

Fonte: ofdollarsanddata.com

Em quase 75% das janelas de dois anos, investir a quantia de US$ 12 mil de uma vez foi melhor do que dividir em aportes de US$ 1 mil ao longo de 12 meses. O excesso de retorno da estratégia Lump Sum em relação a DCA foi, em média, 7,5%.

Ou seja, se analisarmos o que aconteceu no passado e testando vários pontos de entrada, investir todo o dinheiro de uma vez foi mais rentável. Agora, isso não significa que você deva adotar essa abordagem de olhos fechados sem pensar direito no assunto.

Existe uma variável psicológica que é extremamente relevante para considerarmos.

Efeito psicológico de um aporte em queda

É preciso dizer que, em termos financeiros, não estamos falando de um resultado em que, quando a DCA vai pior, ela destrói seu patrimônio enquanto Lump Sum triunfa. Queremos dizer que, quando a abordagem Lump Sum foi melhor, não significava que a DCA destruiu seu patrimônio, e sim que ficou um pouco para trás (como dissemos, em média 7,5% ao longo de dois anos).

Agora, colocar todo o patrimônio de uma vez pode destruir seu patrimônio por conta de efeitos psicológicos.

Vamos a um exercício. Suponha que você tenha juntado todas as suas economias e decidido começar a investir. Ao pesquisar sobre a melhor maneira de aportar esse dinheiro descobre essa estatística de que, na maior parte das vezes, colocar tudo de uma vez é mais vantajoso e, então, o faz.

Agora, suponha que poucos dias depois aconteça uma catástrofe imprevisível nos mercados (algo que acontece com mais frequência do que gostaríamos). Aportar todas suas economias de uma vida e ver seu patrimônio se desvalorizando fortemente em sequência pode ser perturbador para a maioria das pessoas, principalmente para quem está começando.

Quando estamos começando a aprender sobre investimentos, muitas vezes não sabemos ao certo qual é o nosso próprio perfil. É muito comum que nos julguemos arrojados, pois sabemos que portfólios mais apimentados têm potencial de retorno maior.

Aí basta passar por uma grande crise para entendermos, na prática, e da pior maneira, que talvez não sejamos tão arrojados assim.

O problema é que, se mudar de plano no momento em que seu portfólio já está se desvalorizando fortemente, você mata o potencial de recuperação desse patrimônio.

É a chamada perda permanente de capital.

Se um patrimônio com 60% de exposição em ações cai 40% e você diminui sua exposição em ações para migrar para ativos mais conservadores, você demorará muito mais para recuperar o valor perdido (isso se chegar a recuperar um dia).

Portanto, por mais que as estatísticas mostrem uma maior probabilidade de obter uma melhor performance aportando tudo de uma vez, ainda vemos valor na abordagem de executar aportes periódicos.

Existe valor no aprendizado e vale lembrar que não somos robôs e a grande maioria das pessoas não tolera passar por momentos em que a maior parte de suas economias se desvaloriza fortemente.

Então, se na prática grande parte dos investidores reagiria de maneira errada em uma queda expressiva após ter aportado suas economias, temos que considerar que existem vantagens qualitativas para a abordagem DCA.

No mundo real, que leva em conta o comportamento dos investidores, essa tática pode obter resultados tão bons ou até melhores que Lump Sum.

Mas e quando não se tem uma grande soma de dinheiro?

A dúvida entre aportar tudo de uma vez ou dividir em pequenos aportes ao longo do ano é um “problema” para quem já tem recursos acumulados e quer iniciar uma alocação de longo prazo. Mas precisamos falar também da realidade da maioria das pessoas, quando têm uma grande “bolada” para investir e, portanto, ainda precisa acumular patrimônio ao longo do tempo.

A melhor maneira de acumular patrimônio é ter regularidade de aportes, fazendo do investimento um hábito (ou até mesmo obrigação) recorrente. Se não deixamos passar um mês sem pagar o aluguel ou a conta de luz, por exemplo, por que será que muitos de nós não investimos uma parcela todos os meses?

Porque o aluguel é uma obrigação e o investimento pode ser postergado, você poderia argumentar. Sim, o aluguel é uma obrigação, mas é uma escolha sua considerar o investimento como algo obrigatório ou apenas esporádico.

O tempo é a variável mais importante na fórmula dos juros compostos e, por isso, é mais importante que a gente invista um pouquinho todos os meses com regularidade do que esperar um momento da vida em que haja mais conforto para poupar uma quantia maior.

Não estamos falando para deixar de ter uma vida confortável para guardar dinheiro, mas de adequar seu custo de vida para comportar um aporte mensal, mesmo que modesto.

Ao fazer isso, potencializamos nossas chances de acumulação ao longo do tempo e, quando esse hábito de poupança é aliado a investimentos, temos uma combinação muito especial e que, inclusive, ajuda a amenizar sabores amargos de momentos ruins de mercado.

É sobre isso que falaremos daqui em diante.

DCA aplicado em crises

Vamos analisar como teria sido o impacto de um investimento no índice S&P 500, que concentra as 500 maiores empresas dos Estados Unidos, ao longo da grande crise financeira iniciada em 2007 até o momento que o mercado retorna ao mesmo patamar de preço, alguns anos depois do início do segundo trimestre de 2012.

Primeiro, vejamos o comportamento do índice com e sem exposição cambial e, também, do dólar desde o pico atingido antes da crise até o momento em que o mercado retornou ao mesmo patamar, quase cinco anos depois.

No gráfico abaixo, a linha vermelha representa o índice S&P 500 com a variação cambial do período, a linha azul é a variação do mesmo índice em dólar[SG2] , portanto, sem a variação cambial. Já a linha cinza é a variação do dólar contra o real no período.

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Fontes: Bloomberg e Finclass | Período: de 09/10/2007 a 26/04/2012

Para nosso estudo, tomaremos como padrão a linha vermelha, afinal, como nós somos brasileiros, temos um grau a mais de incerteza e ansiedade, que é a variação do dólar versus o real. Às vezes o S&P 500 pode estar indo de vento em popa e, se o dólar perde força perante o real, temos a sensação de nosso dinheiro estar encolhendo. Inclusive, escrevemos recentemente um relatório falando sobre a dolarização dos ativos em nossa carteira, que pode ser interessante revisitar. Basta clicar aqui.

Por isso, apesar de sempre recomendarmos analisar um investimento exposto a outra moeda auferindo a rentabilidade em moeda local (que seria a linha azul no gráfico acima), faremos o estudo considerando a exposição cambial.

Isolando apenas a linha vermelha, a valorização obtida no período foi de quase 0% (0,4% para sermos mais precisos). Assim, representaremos uma variação que sai do pico do mercado, passa por uma desvalorização e, depois, se recupera até o patamar inicial.

Fontes: Bloomberg e Finclass | Período: de 09/10/2007 a 26/04/2012

Simulação das diferentes abordagens ao longo da crise

Suponha que duas pessoas decidam investir em Bolsa norte-americana e comecem com R$ 10 mil. Ambas fazem o primeiro aporte no momento mais alto da Bolsa, antes do início da queda do mercado pela grande crise de 2007 (ponto inicial do gráfico que exibimos anteriormente).

Agora vamos supor que elas tenham abordagens diferentes. A primeira pessoa faz investimentos recorrentes e, mesmo que soubesse que iniciou os investimentos no momento mais alto do mercado antes de uma crise, ela continua com seus aportes regulares de R$ 500 por mês.

A outra pessoa, por sua vez, suspeitava que o mercado passaria por uma correção (o que não é provável dado que a crise foi um grande imprevisto para a maior parte das pessoas do planeta) e decidiu não aportar mais nada além dos R$ 10 mil iniciais.

Em vez disso, ela guardou os mesmos R$ 500 que tinha disponíveis para investimento todos os meses embaixo do colchão com a promessa de investir o dinheiro acumulado quando o dinheiro já investido voltasse ao mesmo patamar inicial de R$ 10 mil.

De forma resumida, a primeira pessoa enfrentou a crise, continuando sua programação regular de aportes, enquanto a segunda preferiu não direcionar seus aportes ao longo desse período de instabilidade e só voltar a investir depois que o mercado tivesse se recuperado.

Veja abaixo a diferença de acumulação ao longo do tempo.

Fontes: Bloomberg e Finclass | Período: de 09/10/2007 a 26/04/2012

Podemos ver que, no começo, enquanto o mercado estava caindo, a linha vermelha fica acima da azul, afinal, o dinheiro estava sendo acumulado embaixo do colchão e não sendo investido em um ativo que estava se desvalorizando fortemente.

Entretanto, mesmo escapando desse momento incerto, o fato de ter deixado de acumular mais ativos enquanto o mercado caía diminui o potencial de retornos futuros.

Quando o mercado retornou ao patamar inicial, a primeira pessoa já tinha mais patrimônio acumulado, portanto, mesmo que a partir desse momento ambas passassem a investir periodicamente da mesma forma (exatamente como simulamos no gráfico acima), no longo prazo existe uma grande diferença no valor acumulado.

Sem falar que, na vida real, a maior probabilidade seja de a pessoa decidir que não quer mais aportar apenas depois que o mercado já está caindo um certo tanto. No exercício proposto, partimos da premissa que a segunda pessoa foi capaz de acertar o ponto máximo do mercado para decidir que não iria mais aportar novos recursos.

Mas e se a pessoa tivesse voltado a investir antes?

Você poderia argumentar que a pessoa não precisaria esperar o dinheiro retornar ao patamar inicial para voltar a investir e que ela poderia ter voltado a investir quando o mercado já estava nas mínimas da crise. Mas será que esse seria um cenário realístico?

É a velha discussão sobre a eficiência do market timing, que se acertado constantemente ao longo do tempo é capaz de deixar qualquer um milionário.

Entretanto, a probabilidade de acertar o momento certo de retirar risco e acertar novamente a hora de voltar a investir em todas as crises ao longo de muitos anos é quase nula.

O gráfico da variação do S&P 500 em reais é extremamente sinuoso, ou seja, o mercado não caiu de maneira linear e voltou a se recuperar em linha reta, de forma que fosse mais fácil prever quando o pior já tivesse ficado para trás.

Fontes: Bloomberg e Finclass | Período: de 09/10/2007 a 26/04/2012

Veja só como, do pico do mercado à sua recuperação, tivemos diversas mudanças intensas de direção com o mercado se recuperando fortemente e voltando a cair diversas vezes. Você teria que ter uma bola de cristal para conseguir capturar todos esses movimentos de maneira eficiente.

Além disso, a diferença de performance acumulada quando se perde os melhores dias de recuperação costuma ser relevante. E esses dias mais fortes de recuperação costumam estar muito próximos dos “fundos de mercado” que só temos como identificar em retrospectiva (quando estamos vivendo o momento, não temos como saber que a queda já terminou).

Depois de janeiro de 2009, o mercado passou por uma alta (nada linear) de 36%, o que poderia ter feito muitos investidores acreditarem que era hora da recuperação. Quem tivesse decidido voltar a investir nesse ponto amargaria uma queda de 15% e outra de 19% antes de ver seu investimento realmente se valorizar.

Por isso, em média, quem investe com base em movimentos recentes do mercado tende a comprar na alta e vender na baixa, destruindo o patrimônio ao longo do tempo.

Dollar weighted return

Ao adotar aportes periódicos, o dinheiro que você investe acaba comprando ativos com preços diferentes e, portanto, terá rentabilidades diferentes ao longo do tempo. Esse é justamente o conceito de preço médio, em que você tem vários aportes a preços diferentes e, se ponderarmos o valor de cada aporte pelo preço de entrada, teremos o nosso preço médio de investimento.

Entretanto, o jeito mais correto de averiguarmos a rentabilidade de uma carteira é se considerarmos o valor inicial, todos os fluxos de aportes em todas as datas e, por fim, comparar com o valor final acumulado. Essa aferição é chamada de dollar weighted return, ou retorno ponderado pela quantidade de dinheiro, que é bem diferente do retorno nominal de um ativo ao longo do tempo.

Em outras palavras, a rentabilidade real sobre o dinheiro do investidor que faz aporte todos os meses não é igual a rentabilidade obtida pelo mercado naquele período.

Se voltarmos ao gráfico exibido no início, do retorno do S&P 500 em reais, lembraremos que o retorno nominal do índice de ações norte-americanas no período foi de 0,4%.

Fontes: Bloomberg e Finclass | Período: de 09/10/2007 a 26/04/2012

No exemplo de acumulação que fizemos, a pessoa que decidiu não aportar depois que a crise começou teria tido um retorno ponderado pelo dinheiro de exatamente 0,4%, ao longo do período destacado acima. Isso porque não fez nenhum aporte no caminho e a variação do patrimônio no período iniciou em R$ 10 mil e terminou com R$ 10.040,00, ou seja, com R$ 40 a mais. Esse valor deveria ser somado com todo o dinheiro que a pessoa deixou embaixo do colchão, ou seja, R$ 24.500,00, totalizando o valor de R$ 34.540,00 ao final do período.

Agora, para o exemplo da primeira pessoa, que investiu de forma recorrente, temos um retorno ponderado pelo dinheiro de 7,4%. Ou seja, mesmo o ativo investido quase não tendo se valorizado no período, fazer aportes recorrentes ajudou o retorno do período ser consideravelmente maior.

No fim das contas, a primeira pessoa teria acumulado R$ 42.562,22, investindo a mesma quantidade de dinheiro no período.

Fontes: Bloomberg e Finclass | Período: de 09/10/2007 a 26/04/2012

Como falamos anteriormente, quando o mercado retornou ao patamar inicial de preço, ambas as pessoas investidoras passaram a adotar a mesma abordagem de aportes recorrentes, mas, como partiram de pontos diferentes, o retorno no longo prazo foi muito diferente apenas por conta de terem adotado um comportamento diferente ao longo de uma única crise em 2007.

Se imaginarmos que esse padrão de comportamento de tentar acertar os movimentos do mercado poderia ter se repetido em crises futuras, muito provavelmente a diferença de acumulação no longo prazo tivesse sido ainda maior.

Cuidado com a “faca caindo”

Até aqui, esperamos que você tenha compreendido a importância de investir com recorrência e não abrir mão disso mesmo que o mercado esteja em queda.

Porém, ainda não tocamos em um ponto fundamental: a alocação.

Nem todo ativo irá se recuperar. Portanto, não basta só colocar na cabeça que você tem que continuar comprando mesmo que os ativos estejam se desvalorizando. É importante ter um bom plano para que você tenha convicção de que será recompensado(a) por segui-lo.

No mercado financeiro, talvez você já tenha ouvido falar para tomar cuidado com a faca caindo. Essa metáfora faz alusão ao fato de que se você tentar pegar uma faca caindo pode se cortar, da mesma forma que continuar comprando um ativo ruim enquanto ele cai pode destruir seu patrimônio.

Portanto, a estratégia é válida e comprovada, desde que o plano seja diversificado apropriadamente com bons ativos.

Ainda sobre a diversificação

Nos exercícios que exibimos hoje, estávamos simulando investimento apenas em ações. Agora, vale lembrar que nossa proposta de investimento global inclui diversas outras classes de ativos, que se comportam de maneiras diferentes.

A crise atual tem afetado diversas classes de ativos em que investimos, mas não todas.

Lembremos, ainda, que a carteira de investimentos no Brasil também faz parte de sua alocação e pode ser uma fonte de recursos na hora de rebalancear o portfólio, ainda mais em um ano em que o dólar recuou fortemente enquanto ativos de risco no Brasil performam bem. Na verdade, qualquer fatia que esteja se valorizando pode aliviar um pouco a necessidade de novos aportes, pois podemos pegar esse lucro para redistribuir.

Claro que, no caso de haver dinheiro novo disponível, é preferível utilizá-lo para rebalancear a carteira ao invés de vender as fatias que estão maiores do que deveriam. Isso pois uma venda com lucro te gerará pagamento de impostos que poderiam ser evitados. Não havendo dinheiro novo suficiente para rebalancear a carteira, aí podemos cogitar a venda para garantir que o desenho da carteira permanece correto ao longo do tempo.

Conclusão

É amargo o sabor da desvalorização de uma carteira de investimentos, ainda mais para quem está iniciando a jornada dos investimentos.

O investimento global é predominantemente feito em ativos mais arriscados, já que o potencial da renda fixa é muito menos atrativo no exterior. E isso resulta em uma percepção maior de volatilidade, ainda mais com a camada da dolarização que pode ampliar esse “chacoalho” percebido por investidores brasileiros.

Em outras palavras, pode chacoalhar bastante em momentos de incerteza global.

Apesar de não serem agradáveis, momentos de incerteza assim fazem parte de uma trajetória bem-sucedida de investimentos. Tudo o que não podemos fazer em um cenário como esse é mudar drasticamente o plano, sacar os investimentos ou interromper a periodicidade dos aportes em momentos ruins para o mercado ou até mesmo em que o mercado está em muita euforia.

Se você tem um bom plano e mantém a regularidade de compra, terá todas as condições de acumular ativos a preços menores enquanto o mercado cai e, com isso, preparar o seu portfólio para um triunfo futuro no momento em que a recuperação vier.

Ah... e ela sempre vem!

O mercado é cíclico e nenhum grande ciclo virtuoso veio de maneira linear.

Pense como se antes de todo grande salto tivéssemos que nos permitir dar passos para trás como forma de tomar impulso. Lembre-se, também, de que investir é uma maratona, e não uma corrida de 100 metros, e que temos que nos permitir levar os investimentos para o longo prazo.

Depois da tempestade, vem a calmaria. Pode acreditar!

Um grande abraço,

Felipe Arrais

Bridgewater Core Global Macro Dólar

Por questões regulatórias, toda retirada de recomendação deve estar contida em uma peça regulatória como o nosso relatório recorrente.

Como todos sabem, a Bridgewater é uma das gestoras mais famosas do mundo, amplamente conhecida por aplicação de seus robustos modelos sistemáticos e sucesso de estratégias híbridas (humano + máquina) como a All Weather Portfolio e a estratégia Pure Alpha.

O fundo Core Global Macro nasceu para combinar as principais ideias da gestora em uma única estratégia. Metade do risco do fundo fica alocado no All Weather Portfolio, e a outra metade em uma estratégia derivada da Pure Alpha, chamada Pure Alpha Major Markets.

A estratégia Pure Alpha Major Markets já havia sido lançada como uma tentativa de ampliar o capacity (capacidade de gerar bons resultados devido ao tamanho do fundo) da estratégia ao passar a operar mais mercados. O resultado foi aquém do que a gestora julga satisfatório e uma das conclusões foi que a estratégia deveria ter tamanho drasticamente reduzido para que voltasse a funcionar como esperado.

Com isso, a Bridgewater devolveu mais de US$ 10 bilhões aos seus investidores e isso tornou alguns projetos relacionados à gestora economicamente inviáveis. A gestora Amundi fazia a gestão dos portfólios da Bridgewater na Europa, berço de acesso do mercado de fundos. E com tamanha redução do patrimônio sob gestão, não valeria a pena mais para a Amundi continuar o projeto.

Isso fará com que a estratégia deixe de existir nos principais meios que temos de acessá-la e por isso faremos a retirada da recomendação.

Os espelhos brasileiros serão incorporados a outras estratégias, mas a decisão ficará a cargo de cada gestora. Por exemplo, o espelho da estratégia Core Global Macro na XP será incorporado ao fundo Morgan Stanley Risco Dinâmico Advisory FIC FIM.

Neste exemplo, além de ser uma estratégia totalmente diferente, ainda não possui exposição cambial.

Nem os parceiros que representam a Bridgewater no Brasil têm a informação exata de qual fundo cada corretora decidirá fundir com o espelho da Bridgewater e, por isso, nossa retirada de recomendação vale para qualquer caso de fundo não recomendado, ou recomendado, mas sem a exposição cambial.

Se você investe no fundo deverá proceder com o resgate integral das cotas e migração dos recursos para outros fundos/ativos aprovados.

Ativos Internacionais Aprovados

Disponibilizamos, ao final de cada relatório internacional, diversas opções de ativos aprovados, voltados para investidores experientes que desejam exposição mais específica a determinados setores ou mercados.

Considere essas alternativas como um verdadeiro “cardápio” cuidadosamente selecionado, permitindo que você personalize sua estratégia, enquanto mantém ativos com a cobertura da Finclass.

Fundos Internacionais Aprovados

Sobre os analistas

Felipe Arrais

Sócio

Analista CNPI, especialista em investimentos globais da Finclass. Engenheiro de gestão e bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC, Arrais também é engenheiro mecatrônico pela Middlesex University London. Iniciou sua trajetória no mercado financeiro ainda em 2015, atuando como consultor financeiro autônomo, quando se apaixonou pelo trabalho direcionado à pessoa física, mantendo total independência em suas recomendações. Especializou-se em análise de fundos de investimento trabalhando com recomendações voltadas a pessoa física atuando em casas de análise independentes e expandiu sua experiência com fundos de investimento e alocação para além da fronteira brasileira ao se tornar um dos principais nomes do país no tema investimentos no exterior.