Eu, Fê, posso afirmar que morar longe da família é difícil, pois, além da distância e da saudade, pode-se perder alguns eventos e datas importantes. Por isso, é preciso se planejar para que isso não aconteça.
Quando meu pai celebrou seu aniversário de 60 anos, por exemplo, fiz questão de estar presente. E quando penso que isso aconteceu em 2020, em um momento crítico da pandemia, fiquei muito grato por ter tido a oportunidade.
Na ocasião, lembro que estendi meu tempo de estadia na casa dos meus pais, em Ribeirão Preto (SP), por mais alguns dias antes de retornar para São Paulo.
Além de aproveitar o dia a dia com a minha família, tomar um café da manhã acompanhado dos cachorros e das pessoas da casa, conseguimos retomar uma clássica tradição na casa Colus: realizar pequenos reparos em conjunto. Na ocasião, o problema em questão era nossa companheira de home office, a rede de internet sem fio, cujo sinal estava muito fraco.
Depois de analisar a situação, bolei uma solução, comprei as peças de que iríamos precisar e organizei com meu velho como faríamos. A tarefa se mostrou muito mais ardilosa do que aqueles tutoriais do YouTube, especialmente a de passar o cabo azul de rede pelas tubulações de fiação.
Estávamos prestes a desistir da tarefa, até que meu pai se lembrou de uma ferramenta muito específica: o passa-fio.
Para quem não conhece, é um tipo de cabo usado para inserir cabos e fiações no interior dos dutos elétricos. E foi com essa ferramenta que conseguimos passar o último trecho de cabo que estava se mostrando impossível anteriormente.
Só sei que, quando finalmente vimos o cabo azul saindo pela tubulação lotada de fios, vibramos como se tivéssemos marcado um gol decisivo em final de campeonato.
Tudo isso mostrou que utilizar a ferramenta adequada para realizar uma tarefa tende a tornar a execução mais prática e garantir o resultado que se espera. E o relatório de hoje vai trazer justamente duas ferramentas muito úteis que vão auxiliar você a organizar e ajustar sua carteira e seus investimentos a fim de atender às suas expectativas para viver de renda.
Tipos de renda
Antes de mais nada, é importante mostrar quais tipos de renda existem, e aqui vamos falar de duas categorias principais para nós, investidores: ativa e passiva.
A renda ativa é aquela que as pessoas recebem por trabalhar ativamente. Ela está diretamente associada ao tempo, ou seja, quanto mais horas utilizamos na execução de trabalho, mais renda será gerada.
Já quando pensamos em renda passiva, estamos falando da renda que não depende do seu tempo e esforço diretamente, e aqui entram as rendas provenientes dos seus investimentos.
É importante pontuar que, dentro da renda passiva, os rendimentos podem se dar de duas maneiras. E, ao montarmos uma carteira de renda, precisamos entender as diferenças entre elas:
- Ganhos de capital: são aqueles que levamos para casa quando nos desfazemos de um ativo, ou seja, é um ganho real, mas que fica disponível para ser utilizado apenas no momento da venda de um ativo. Um exemplo: você comprou cotas de um fundo em 2010, que desde então valorizou em 600%; seu patrimônio se multiplicou, porém só poderá usá-lo ao se desfazer das suas cotas.
- Dividendos: são remunerações periódicas que vêm em diferentes formas. Alguns títulos públicos, por exemplo, pagam cupom de juros semestrais; ações e fundos de investimento imobiliários pagam dividendos. Os nomes e prazos de pagamento podem variar de acordo com o ativo, mas o que importa é que fazem pagamentos recorrentes.
A série O Melhor da Renda Fixa foca em utilizar ativos de qualidade a fim de maximizar os ganhos de capital com a valorização dos ativos no decorrer do tempo no médio e longo prazos, mas também você já deve ter visto algumas recomendações nossas que pagam proventos recorrentes, como é o caso da LCA com juros mensais do BTG, o KDIF11 ou o IFRA11. Além disso, nada impede que você possua outra carteira com foco no pagamento de dividendos.
Ferramentas para viver de renda
Aqui, vamos falar sobre duas ferramentas com objetivos distintos, que têm como intuito complementar seu kit de investimento. Elas vão te ajudar a calcular quanto de renda passiva você poderá obter com determinado valor investido e quanto tempo você levará para atingir esse montante.
Ferramenta 1: cálculo do montante necessário para se obter uma renda mensal no valor dos custos mensais
A definição de “financeiramente livre” é algo muito pessoal, uma vez que cada pessoa possui despesas específicas. Porém, é comum escutarmos que, para isso, basta que nossas rendas passivas superem os nossos custos fixos, aqui entram os gastos com aluguel, contas da casa e filhos ou dependentes.
Tomando essa ideia como base, vou apresentar qual o cálculo a ser feito a fim de obter o montante necessário para que você possa obter de uma renda passiva que pague os gastos fixos.
Para estimar tal valor, utilizarei a taxa de dividendos, um importante índice para auxiliar no cálculo. A partir dele, é possível calcular o valor de dividendos pagos mensal ou anualmente.
Aqui cabe uma observação: não levarei em consideração os ganhos de capital, uma vez que, para se valer desse benefício, devemos nos desfazer de nossa posição.
A taxa de dividendo é obtida através da divisão do valor distribuído ao acionista, cotista ou investidor pelo valor da quota, ação ou investimento, e pode ser obtida a partir da seguinte fórmula:
Uma taxa conservadora a se considerar no longo prazo para uma carteira bem estruturada e diversificada que pague proventos e dividendos gira em torno de 7% a 8%.
Agora, vamos calcular o montante necessário que precisa ser investido para se obter uma quantidade de dividendos que supra seus gastos mensais. Para calculá-lo, vamos supor que o objetivo é receber o valor de R$ 5 mil por mês.
O primeiro passo é multiplicar esse número por 12 (o número de meses do ano), a fim de obter o valor total pago em dividendos em um ano. Depois, divide-se esse montante pela taxa de dividendos esperado da carteira (para o exemplo, estipulamos uma taxa de 8% ao ano) para, finalmente, obter o valor necessário que se precisa investir para receber esses dividendos mensalmente.
Assim, chegamos ao seguinte ponto:
Pronto! Para obter R$ 5 mil em rendimentos por mês, é necessário R$ 750 mil investidos nessa carteira que paga renda passiva, lembrando aqui que estamos desconsiderando os ganhos de capital.
Agora que já entendemos como calcular a renda passiva a partir dos dividendos e proventos, vamos à segunda etapa do nosso relatório.
Ferramenta 2: cálculo de quanto tempo leva para atingir determinado valor investindo recorrentemente
Meu primeiro investimento, assim como o de muita gente, foi a aquisição de um título público com apenas R$ 30. Depois de alguns anos, posso dizer que aumentei esse montante através de aportes recorrentes obtidos a partir do meu trabalho, do pagamento de dividendos e do crescimento do capital investido, conhecido como ganhos de capital.
Ganhos de capital representam a evolução do seu investimento. Quando vemos que uma carteira teve uma performance de 2% ao longo de um período, por exemplo, quer dizer que nesse período a carteira se valorizou 2%, e esse crescimento é exponencial.
Para demonstrar quanto tempo leva para atingir determinado valor investindo recorrentemente, vamos tomar como exemplo um título público com vencimento de três anos que está pagando 13% ao ano, uma remuneração conservadora de investimento. Vamos imaginar agora que você, leitor ou leitora, fez os cálculos com a primeira ferramenta e descobriu que precisa de R$ 750 mil para que os dividendos da carteira superem seus gastos mensais, mas atualmente possui apenas R$ 250 mil investidos.
Assim, em quanto tempo sua carteira atingirá os R$ 750 mil para poder finalmente viver de renda?
De forma simplificada, queremos calcular o número de anos para atingir um valor partindo de um montante inicial com uma carteira que renda certa porcentagem ao ano. Para isso, você vai precisar das seguintes informações:
- Performance esperada da carteira (i);
- Valor investido atualmente (P);
- Montante a ser atingido (M).
O cálculo é obtido através de uma fórmula que pode dar medo à primeira vista, mas é mais simples que parece:
No caso, temos os seguintes valores:
- Performance esperada da carteira (i) = 13%;
- Valor investido atualmente (P) = R$ 250 mil;
- Montante a ser atingido (M) = R$ 750 mil.
Agora vou te mostrar no Excel que o cálculo é bem menos assustador que o apresentado através da fórmula acima. Se você se sentir confortável, pode usar a fórmula que também funciona:
Fonte: Spiti
É possível notar que, nessa simulação, a meta de superar os R$ 750 mil foi obtida no nono ano. Mas e se você não apenas dependesse do rendimento a cada 30 dias, mas também fizesse aportes mensais na carteira?
No caso, vou considerar o valor de R$ 1.500 por mês, o que totaliza R$ 18 mil por ano:
Fonte: Spiti
Note que, com o investimento recorrente, a meta foi atingida já no sétimo ano. Isso mostra o papel fundamental que os aportes recorrentes apresentam para os nossos investimentos.
Aqui é importante mencionar que esses cálculos estão embasados na performance de um título público e que a remuneração desses ativos pode variar no decorrer dos anos.
Vale mencionar também que uma carteira voltada para pagamento de proventos, que englobam tanto juros quanto dividendos, pode ser montada utilizando vários tipos de ativos, como por exemplo FIIs, ações boas pagadores de dividendos e títulos públicos. Aqui na série O Melhor da Renda Fixa temos três recomendações, como já mencionamos, que pagam proventos. São elas: a LCA com juros mensais do BTG, o KDIF11 ou o IFRA11.
Por fim, para auxiliar em seus cálculos, disponibilizamos a seguir a planilha em Excel também. Espero que goste e aproveite bem!
Ferramentas para viver de renda (Planilha)Baixar
Conclusão
Esperamos que as ferramentas trazidas neste relatório consigam oferecer com a maior precisão possível dois valores fundamentais para que você consiga viver de renda:
- O montante investido que você precisa ter para receber um dividendo preestabelecido;
- O tempo que vai levar para atingir esse valor através de ganhos de capital.
Além disso, esperamos que elas também ajudem a organizar sua vida financeira e a analisar a evolução dos ativos e dos pagamentos de dividendos da sua carteira.
Um abraço,
Filipe Colus e Guilherme Cadonhotto