Eu comprei meu primeiro carro relativamente tarde, aos 26 anos.
Sempre escutei os conselhos de meu antigo chefe, que tinha uma história de vida bem parecida com a minha, assim como as condições financeiras de origem de sua família.
Uma de suas recomendações era que eu postergasse ao máximo a aquisição de um carro, que traria um custo bem alto no meu dia a dia e acabaria com uma boa parte da minha capacidade de poupança.
De fato, ele estava certo, se tivesse adquirido um veículo antes, eu teria montado a minha reserva de emergência muito mais tarde, não teria acumulado um patrimônio suficiente para fazer uma parte da faculdade fora do país e talvez tivesse perdido algumas oportunidades profissionais no meio do caminho.
Muito provavelmente hoje você não estaria lendo este texto. Quem sabe onde o Guilherme Cadonhotto poderia estar?
Mas depois de anos de equilíbrio financeiro e poupança, resolvi “me dar ao luxo” de adquirir o meu primeiro carro.
E bota aspas nesse “luxo”, porque eu comprei um Peugeot 206 com mais de dez anos de uso.
Se você não conhece muito sobre carros, vou te dar uma explicação rápida.
Os modelos da montadora francesa, principalmente os mais antigos, não são populares pela sua qualidade mecânica, durabilidade e confiabilidade. Na verdade, é o contrário.
Eu sabia dessa fama, mas pelo preço que eu estava disposto a pagar, o Peugeot era o melhor em termos de design e equipamentos oferecidos.
Ao adquiri-lo, pensei: “Tudo bem, eu vou ficar pouco tempo com ele mesmo”.
Vamos pular agora para o ano de 2023, mais especificamente, 31 de maio de 2023, o último dia para a declaração do Imposto de Renda.
Na parte de “Patrimônio”, declarei por mais um ano consecutivo o meu primeiro carro, o famoso “peugeotzinho”, que continua na família até hoje.
Quem o utiliza atualmente é a minha mãe.
Uma aquisição modesta, feita com o intuito de funcionar apenas para um determinado momento no curto prazo, acabou se estendendo por anos a fio.
Por que eu lembrei dessa história?
Alguns assinantes, mesmo depois do relatório anterior em que mostro por que acredito em ganhos com marcação a mercado no futuro com ativos de risco na renda fixa, ainda estão desconfortáveis com adquiri-los a taxas mais baixas do que três meses atrás.
O meu intuito hoje é mostrar um cenário em que você adquira esses títulos e eles não sofram marcação a mercado positiva. Ou seja, como seria a performance deles se você os adquirisse agora e as taxas não caíssem gerando valorização relevante.
Vamos fazer isso para os prefixados e indexados à inflação.
A minha ideia é pegar os níveis médios dos títulos, assim como os de alguns fundos, principalmente os de debêntures de infraestrutura, e verificar como seria a rentabilidade desses ativos frente aos principais benchmarks do país nos últimos anos.
Por exemplo, hoje a taxa média dos ativos dentro do Sparta Infra FICF (JURO11) é equivalente a um título público pagando IPCA + 9% ao ano. Se há cinco anos você tivesse adquirido um ativo que remunerasse esse nível de taxa, qual teria sido sua rentabilidade frente aos principais índices no Brasil até o momento?
E em um período de 10 anos, 15 anos e 20 anos?
A ideia desse estudo é mostrar se esses investimentos são interessantes mesmo se nos próximos meses e anos não tivermos mais queda de juros futuros, gerando a famosa marcação a mercado.
Vamos nessa?
Comecemos pelos prefixados.
Hoje, um título público prefixado de curto prazo está pagando uma taxa de 10,59% ao ano.
Na minha opinião, ainda há espaço para ganhos de marcação a mercado, embora obviamente menores do que há três meses.
Mas vamos verificar a rentabilidade de um ativo que pagou 10,59% há cinco anos e se ela seria competitiva frente a outros índices do mercado brasileiro? É isso que o gráfico abaixo mostra:
Fonte: Quantum
Veja, o ativo que paga uma taxa de 10,59% ao ano é representado pela linha azul clara. Comparamos ele com a rentabilidade do CDI, Ibovespa, Ifix e o próprio IPCA nos últimos cinco anos.
Mesmo parecendo uma taxa “pequena” aos olhos de hoje, ela ainda é bem representativa se considerarmos o desempenho dos principais índices do mercado brasileiro nesse período. O título prefixado ficaria abaixo apenas do Ibovespa, por uma leve diferença, mas, claro, com um risco muito menor.
Será que essa competitividade se manteria se voltássemos um pouco mais no passado?
Vejamos o gráfico de dez anos:
Fonte: Quantum
Perceba que a rentabilidade não só se manteria competitiva como também seria a primeira em termos de retorno frente aos principais indicadores do mercado, e dessa vez com uma vantagem relevante em relação ao segundo colocado.
Mas vamos voltar mais cinco anos e conferir a rentabilidade frente a esses benchmarks em um período de 15 anos. Importante ressaltar que o Ifix não fará mais parte da amostra dada sua limitação temporal (o índice foi criado apenas em 2011).
Fonte: Quantum
Note que, desde 2008, o destaque absoluto em termos de retorno seria um ativo pagando uma taxa de 10,59% ao ano.
Vale ressaltar que essa vantagem se manteve mesmo quando incluímos um período em que os juros estruturais do país eram maiores, o que beneficia bastante o CDI. Mesmo com essa observação, podemos notar a competitividade de um ativo que nos garante um retorno nominal de 10,59% ao ano.
O que isso significa?
Uma taxa de 10,59% ao ano para um título público prefixado não é interessante somente para a marcação a mercado, mas também porque, historicamente, esse é um nível de retorno muito bom se compararmos com os nossos principais benchmarks.
Você está sentindo falta de algum índice de referência?
Provavelmente, está se perguntando: “Cadê o IMA-B, Gui?”.
E o gráfico do período de 15 anos está aqui, desta vez com o meu benchmark favorito:
Fonte: Quantum
Sim, o IMA-B venceria o nosso prefixado, mas isso não significa que devemos colocar todo o nosso recurso nesse ativo, afinal essa prática vai contra o princípio da diversificação.
Nos períodos mais curtos, o IMA-B também leva vantagem, mas fica com uma rentabilidade mais próxima do nosso prefixado, pagando 10,59% ao ano.
Falando em IMA-B, que tal passarmos para a avaliação de um título IPCA+ com uma rentabilidade igual à de um Tesouro IPCA+ hoje no Tesouro Direto?
A ideia aqui é mostrar para você que pode ter perdido essa pernada de alta no preço dos ativos indexados à inflação que a taxa atual de um título público ainda é vantajosa, mesmo se o seu retorno principal não estiver no processo de ganhos com marcação a mercado.
Vamos para a avaliação do período de cinco anos:
Fonte: Quantum
Na primeira janela, o título IPCA+ 5,64% ficou à frente de todos os benchmarks mais relevantes, incluindo o IMA-B. Ele acumulou uma rentabilidade no período de 74,85%.
Um bom sinal para você que pensa em não adquirir mais nenhum ativo IPCA+ simplesmente porque a taxa “caiu demais”.
O gráfico acima nos dá uma ideia inicial de que a rentabilidade parece estar em um patamar ainda muito relevante.
Mas e se estendermos isso para dez anos?
Fonte: Quantum
O gráfico acima deixa clara a competitividade dos ativos indexados à inflação no nível atual de taxa frente às outras opções no mercado.
Mais uma vez, ficam em primeiro lugar, à frente inclusive do IMA-B.
Vamos para a janela de 15 anos, lembrando que o Ifix não estará na amostra:
Fonte: Quantum
Nessa janela de tempo, o IMA-B fica levemente acima do Tesouro IPCA+ a uma taxa de IPCA+ 5,64%. Porém note que a rentabilidade é parecida, e ambos estão consideravelmente à frente da grande maioria dos outros benchmarks.
Veja, em ambos os casos dos títulos públicos, tanto os prefixados quanto os indexados à inflação se mostram com rentabilidades ainda muito atrativas para aquisição, mesmo se você imaginar que não há espaço para ganhos de marcação a mercado nos próximos meses e anos.
Mas há uma classe de ativos que está em um momento ainda mais propício e com um nível de taxa ainda muito perto de suas máximas, e que não observou uma queda tão relevante quanto a dos títulos públicos: as debêntures incentivadas.
A cereja do bolo
Talvez pelo diminuto interesse da pessoa física e ainda impactadas pelos acontecimentos negativos no mercado de crédito privado no início do ano com os títulos de Americanas e Light, as debêntures estão com um nível de taxa muito atrativo.
Em nossa carteira, três fundos de debêntures incentivadas se beneficiarão desse movimento: KDIF11, IFRA11 e JURO11.
Esse último apresenta um nível médio de taxa de retorno extremamente atrativo. O retorno médio dos ativos dentro do fundo está em um patamar equivalente ao de um título público pagando IPCA + 9,70% ao ano.
Não, eu não vou fazer a simulação nesse nível de taxa.
Por ser um fundo de crédito privado, é normal que ele tenha problemas no meio do caminho, ou seja, alguns defaults, marcações a mercado bem negativas e tudo mais. Isso não tira sua atratividade, já que é um veículo com exposição pulverizada em crédito e que tende a passar de maneira relativamente tranquila por esses estresses.
Para considerar esses problemas em nossas contas, vou reduzir a taxa média de retorno em 1,50% ao ano. Portanto faremos as simulações com uma taxa de IPCA + 8,20% ao ano.
Vejamos qual seria o retorno dessa cesta de ativos comparada com os outros títulos acima e os principais benchmarks.
Primeiro, começando com o clássico período de cinco anos:
Fonte: Quantum
Logo de cara, entendemos o potencial de retorno de um ativo que poderia garantir um retorno de IPCA + 8,20%.
Olhe a diferença em termos de rentabilidade acumulada em um período relativamente curto, de cinco anos, para o segundo lugar (23%).
Isso não é tudo. Vamos para janelas maiores de tempo.
Observação importante: as carteiras dos fundos de debêntures de infraestrutura não são compostas, em sua média, por ativos de crédito que vencem em um prazo muito superior a cinco anos. Os exercícios a seguir são uma demonstração do quanto essa remuneração pode ser vantajosa em prazos ainda maiores.
Janela de dez anos:
Fonte: Quantum
Em dez anos, a diferença de retorno começa a ficar quase que assustadora.
O diferencial para o segundo colocado chega a incríveis 80%.
Vamos agora para a última janela de tempo, a de 15 anos.
Fonte: Quantum
Aqui a diferença chega a praticamente 200% e supera qualquer benchmark em praticamente todos os momentos, em todos os períodos.
É, de fato, uma taxa extremamente atrativa.
Conclusão
Este relatório repleto de gráficos tem como intuito dar a você mais conforto para continuar adquirindo os títulos prefixados e indexados à inflação recomendados em nossa carteira, especialmente se você ainda não os adquiriu e está com receio de fazê-lo depois da queda das taxas dos últimos meses.
Fica evidente, analisando os dados — que sempre devem basear nossas decisões —, que adquirir ativos de renda fixa, inclusive títulos públicos, nos atuais níveis de taxa tende ainda a ser um grande negócio para os seus investimentos. Além, é claro, de haver uma oportunidade irrecusável de adquirir com uma parte de sua carteira os títulos de crédito privado perto das máximas históricas de rentabilidade.
Abraços,
Gui Cadonhotto