Relatórios

Efeitos positivos de reinvestir os dividendos recebidos + Mudanças na carteira alternativa Renda Total

Escrito por Guilherme Cadonhotto, Fillipe Colus, Luciana Seabra em RENDA TOTAL

8 min de leitura

Fábulas são histórias cujos personagens são animais que possuem características humanas, como falar e escrever, e essas narrativas apresentam uma carga intensa de aspectos morais. O gênero é um antigo método de ensinamento, normalmente utilizado para ensinar crianças sobre as complexidades morais que a vida adulta nos impõe.

E talvez uma das fábulas mais conhecidas tem uma relação com a trajetória de muitas pessoas no mercado de investimentos: a fábula da lebre e da tartaruga.

Para quem não conhece ou não se lembra, ela conta a história de uma tartaruga e de uma lebre que constantemente zombava da primeira por ser lenta demais. Cansada de tanta chacota, a tartaruga desafiou a lebre para uma corrida.

Enquanto a tartaruga começou a disputa com seus passinhos lentos, porém firmes, a lebre, mais rápida, abriu certa distância da adversária sem dificuldades. Tão confiante de si, decidiu tirar uma soneca no meio da corrida. Ao acordar, a lebre não conseguia mais ver a tartaruga por perto e voltou a correr. A questão é que, já na reta final, viu sua adversária cruzando a linha de chegada triunfante.

No mundo dos investimentos, algo semelhante acontece quando investimentos com foco no recebimento de dividendos. No início dessa jornada, os primeiros proventos podem parecer um montante irrisório perto daquele valor projetado que um dia queremos atingir. Por isso, trouxemos neste relatório uma simulação que mostra como o simples fato de reinvestir dividendos com regularidade e disciplina pode multiplicar, no fim de 30 anos, o nosso capital em várias vezes o valor aportado na carteira quando comparado ao cenário sem esses reinvestimentos.

Por fim, a pedidos de assinantes, vamos trazer também uma atualização da carteira Renda Total alternativa, incluindo os percentuais de nossas últimas recomendações: o KDFI11 (2,5%) e IFRA11 (2,5%), que substituem o Tesouro IPCA+ 2030 (que representava 5% da carteira), e o MCCI11 (5%), que substituirá uma parcela de 5% do BCFF11 (que antes representava 10% da carteira).

Simulação do efeito de reinvestir os dividendos

Para demonstrar a efetividade do reinvestimento regular dos dividendos, precisamos inicialmente selecionar um parâmetro para a nossa simulação. Utilizaremos uma carteira fictícia que leva em conta a rentabilidade média desde o ano 2000 até hoje, divididos igualmente para simplificar a compreensão.

Veja a seguir como foi a rentabilidade anual dos principais índices de mercado:

Aqui, vale lembrar que rentabilidade passada não garante retornos futuros. Esse exercício, como dissemos, é apenas para exemplificar o poder dos reinvestimentos dos dividendos.

Para a taxa de dividendos, vamos usar a nossa taxa atual de dividendos da série Renda Total, no valor de 7,34%. Com isso já temos a nossa carteira para fins de exemplo:

Retorno médio (% a.a.)13,9%
Taxa de dividendos (% a.a.)7,34%

Fonter: Spiti

Três cenários bem distintos

Agora vamos direto ao ponto. Nossa simulação vai considerar que consigamos guardar R$ 500 por mês em um período de 30 anos para investir nessa carteira hipotética de dividendos e que o pagamento destes seja mensal.

No cenário 1, vamos reinvestir todos os dividendos obtidos na carteira, e, no cenário 2, os proventos não serão reinvestidos, mas sacados, sendo que vamos obter apenas os ganhos de capital. Além disso, trazemos também o cenário 3, em que você não investiria nada, apenas deixaria seu dinheiro numa conta de banco sem rendimento.

Antes de seguir com os resultados, um ponto importante: no cenário 1, sabe quanto seu dinheiro vai receber no primeiro mês de dividendos? Eu respondo já: R$ 3,18. Com esse valor, dificilmente conseguiríamos comprar uma coxinha!

Mas calma! Sabemos que esse montante vai aumentando ao longo do tempo e, ao investir R$ 500 por mês, os dividendos no fim dos primeiros 12 meses de carteira já somam R$ 231, por exemplo.

Agora, vejamos o quanto cada estratégia vai render depois de 30 anos:

Acho que ficou claro qual é a melhor estratégia para seus dividendos quando o assunto é acúmulo de capital, não?

Vale lembrar que não estamos considerando o risco de mercado nas simulações, ou seja, as famosas oscilações diárias que vão acontecer em qualquer ativo de risco. Por mais lineares que pareçam, as linhas não refletem o que de fato vai acontecer. Salientemos que o caminho é longo, de 30 anos, portanto mais sinuoso, justamente por conta da marcação a mercado e o preço justo dos ativos em carteira.

Logo, esse gráfico tem como objetivo apenas demonstrar o poder de reinvestir dividendos, e não qualquer tipo de promessa de retorno.

Ainda assim, podemos fazer algumas reflexões interessantes ao analisarmos esse gráfico. A primeira delas (e que sempre me impacta quando faço esse tipo de análise) é como a diferença entre os cenários começa a ficar gritante apenas depois de 15 anos. Ou seja, assim como a tartaruga da fábula, que anda a passos lentos, porém com constância, muitas vezes o valor dos dividendos, que no início pode nos causar desânimo por ser baixo, provavelmente vai te levar a resultados bem satisfatórios.

A segunda reflexão é observar o poder acumulativo de reinvestir os dividendos. O cenário 2, em que não houve nenhum reinvestimento ao longo de 30 anos, o montante é quase 5 vezes menor em valores monetários.

Importante pontuar que um grande causador disso é o valor da taxa de dividendos da carteira que colocamos nas premissas. Lembro também que com os primeiros dividendos você não conseguiria comprar nem uma coxinha. Então, a mensagem aqui é que você não deixe se abater pelo desânimo com os dividendos iniciais, mas foque sempre aonde você quer chegar!

Aproveitando o assunto taxa de dividendos, na próxima seção vamos visitar a nossa carteira alternativa da série Renda Total e falar sobre os novos percentuais recomendados para cada classe de ativos, incluindo três recomendações recentes da série: MCCI11, KDIF11 e IFRA11.

Alterações na carteira alternativa de Renda Total

Caso ainda não conheça a carteira alternativa de Renda Total, fizemos um relatório dedicado para explicá-la. De forma breve, trata-se de uma versão alternativa de carteira com os ativos já recomendados na carteira “original” da série, mas com percentuais diferentes. Isso porque o objetivo dessa segunda carteira é o pagamento de dividendos mensais, provendo assim um fluxo de caixa mais constante para quem deseja viver de renda a partir de dividendos ou já o faz, mas procura uma estratégia diferente.

A carteira alternativa Renda Total continuará seguindo a mesma divisão macro. Vamos retomar as proporções, inclusive fazendo uma comparação com a carteira original:

Fonte: Spiti

Pensando no longo prazo e na recorrência mensal dos pagamentos de dividendos, vamos incluir na carteira alternativa 5% de MCCI11 e diminuir a exposição em BCFF11 a 5% do total. Além disso, vamos trocar a nossa exposição atual de 5% de Tesouro IPCA+ 2030 por 2,5% em KDIF11 e 2,5% em IFRA11.

Agora, vamos falar um pouco mais sobre as alterações.

Redução de BCF11 e adição de MCCI11

Os fundos de fundos imobiliários (FoF-FII) estão passando por um momento desafiador por conta da natureza desses investimentos e do atual momento para a indústria de fundos imobiliários como um todo.

O FoF-FII é um tipo de fundo imobiliário muito peculiar. Majoritariamente, esse tipo de FII tem em seu portfólio cotas de outros fundos imobiliários. Lembremos que o investimento no setor de fundos imobiliários se dá de forma indireta, não pela aquisição de um imóvel ou de crédito atrelado a um imóvel.

Alguns dos pontos que estão afetando negativamente os FoF-FIIs são os mesmos que afetam a indústria de FIIs como um todo: a escalada dos riscos fiscais do país e a inflação corrente. Outro ponto que tem afetado sua performance é que as estratégias mais comuns em fundos do tipo são em operações de compra e venda de cotas de fundos imobiliários pensando no ganho de capital, algo que nem sempre acontece, principalmente em momentos de lateralidade ou de retração do mercado.

O valor patrimonial da cota de um FoF-FII também tem sua peculiaridade. Lembro que esse é justamente a cota de outro FII, logo, seu valor patrimonial é dado pelo valor de mercado das cotas dos FIIs investidos. Portanto, um FoF-FII tem mudança em seu valor patrimonial todos os dias – a bem da verdade, a cada instante que ocorre um negócio com algum dos ativos investidos pelo FoF-FII seria possível recalcular sua cota patrimonial.

Dessa forma, se as cotas que estão em seu patrimônio sofrem, a cota de mercado dos FoF-FIIs também vai sofrer, já que a performance desse tipo de fundo está intimamente atrelada ao desempenho do setor como um todo. Ou seja, quando o setor está bem, os fundos de fundos imobiliários normalmente performam de forma positiva, e o contrário também é verdade, quando o mercado de FIIs está mal, é natural que os FoF-FIIs também sigam essa tendência.

E também não é segredo que 2021 foi um ano desafiador para a indústria de FIIs. Vejamos, por exemplo, o índice Ifix, que mede a performance desse mercado: desde o começo do ano, acumula perda de 5,60%.

Por isso, vamos retirar uma parcela de 5% de BCFF11 da carteira alternativa Renda Total para incluir 5% da nossa recomendação mais recente, o MCCI11. Vale lembrar que você talvez tenha alguma perda nessa operação, mas pode abater esse prejuízo de forma a maximizar seu ganho contábil em relação ao pagamento de Imposto de Renda. E a maneira de fazer isso foi explicada com detalhe neste relatório passado, em que também explicamos o que é Darf e como pagá-lo.

Retirada do Tesouro IPCA+ 2030 para inclusão de KDIF11 e IFRA11

Em relação às seções de crédito privado e títulos públicos, vamos recomendar a venda da nossa parcela em Tesouro IPCA+ 2030 para a inclusão de KDIF11 e IFRA11.

Como explicamos em nosso relatório de recomendação desses ativos, eles são fundos que investem majoritariamente em debêntures incentivadas e possuem vários benefícios para quem investe neles. Além disso, estão em processo de transição para serem oferecidos para investidores em geral (hoje é voltado apenas para qualificados) e as gestoras estão trabalhando para aumentar a recorrência do pagamento de dividendos.

Esses fundos têm uma sinergia forte com a carteira e o título público que estamos retirando da carteira, o Tesouro IPCA+ 2030, já que os ativos que compõem o KDIF11 e o IFRA11 possuem vencimento próximo justamente ao título que estamos retirando. Ou seja, a duration, que representa o risco desses ativos, é bem parecida.

Outro ponto importante é que os ativos que adicionamos na carteira melhoraram o fluxo de pagamento de dividendos, que antes seriam pagos apenas semestralmente pelo Tesouro IPCA+ 2030.

Com isso, a nossa nova divisão para a carteira alternativa é a seguinte:

ClasseTickerPercentual
FIIBCFF115,0%
FIIBTLG1110,0%
FIICPTS115,0%
FIIHGRU115,0%
FIIKNIP1110,0%
FIIKNRI115,0%
FIIRBRR115,0%
FIIPVBI115,0%
FIIVILG115,0%
FIIMCII115,0%
AçõesITUB45,0%
AçõesTAEE117,5%
AçõesVIVT35,0%
AçõesVALE37,5%
Crédito PrivadoCVRDA62,5%
Crédito PrivadoKDIF112,5%
Crédito PrivadoIFRA112,5%
Título PúblicoIPCA+ 20552,5%
Título PúblicoPRÉ 20315,0%

Fonte: Spiti

Caso você não seja investidor qualificado, a nossa recomendação é fazer a alteração apenas da retirada de 5% do BCFF11 para adicionar o MCCI11 e manter o IPCA+2030 em carteira até os fundos KDIF11 e IFRA11 passarem a aceitar aportes de investidores comuns.

Conclusão

Conforme vimos, o reinvestimento dos dividendos recebidos pode ser uma estratégia muito poderosa se tivermos como foco o longo prazo, o aporte recorrente e uma boa carteira focada no pagamento desses proventos. Depois de 30 anos, isso pode aumentar o capital investido final em até 5 vezes.

Vale lembrar também que essa trajetória não é tão linear e garantida, por conta do risco de mercado associado aos ativos em carteira. Ainda assim, tal estratégia pode ser muito mais eficiente do que não reinvestir os dividendos recebidos.

E, como o foco da carteira alternativa Renda Total é justamente o fluxo de pagamentos de dividendos recorrentes, trouxemos também mudanças nas alocações que achamos relevantes: troca de BCFF11 por MCCI11 e retirada do Tesouro IPCA+ 2030 para introduzirmos as nossas recomendações mais recentes: KDIF11 e IFRA11.

Abraços,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Luciana Seabra

Fundadora

Fundadora da Spiti, uma das maiores casas de análise do Brasil, Luciana Seabra é reconhecida por sua abordagem clara e acessível para explicar assuntos complexos relacionados ao mundo financeiro para o público em geral.