Como os ETFs de renda fixa estão se consolidando como uma alternativa eficiente para investir em crédito privado e títulos públicos, oferecendo diversificação, baixo custo e praticidade.
ETFs de renda fixa: o que são, quais aprovamos e em quais estamos de olho
Escrito por Guilherme Cadonhotto em RENDA FIXA
Neste relatório, você encontrará:
Por que, mesmo com a popularização dos ETFs de ações, os de renda fixa estão ganhando cada vez mais relevância, especialmente em um cenário de juros mais altos.
Os critérios que usamos para aprovar ou monitorar ETFs, levando em conta riscos, custos, liquidez e qualidade da carteira — explicados de forma simples e transparente.
Quais ETFs já fazem parte da nossa lista de recomendados, como o LFIN11 e o AREA11, e quais ainda estamos observando de perto antes de incluir nas carteiras.
Como cada estratégia — crédito privado, títulos atrelados ao CDI e IPCA+ — pode contribuir de forma diferente na composição da sua renda fixa.
Vou começar este relatório compartilhando com você uma informação interessante. Em 2023 já havia mais dinheiro investido em fundos de investimento passivo, isto é, que replicam um determinado índice, do que em fundos de investimento ativo, que tentam superar seus respectivos índices.
Se você está começando agora no mundo dos investimentos talvez esteja se perguntando o que seria uma estratégia em que você tenta replicar algum índice e outra em que tenta superá-lo. Não tenho nenhuma analogia inovadora, mas pensei em uma lista de compras que às vezes a Nicole me passa para o supermercado.
Imagine que ela me dê uma lista de compras muito detalhada, me passando exatamente quais produtos comprar, quais as marcas e em quais quantidades.
Eu posso fazer essa compra de dois modos: o passivo e o ativo.
No modo passivo, pego a lista de compras que ela teve o trabalho de elaborar e simplesmente a sigo, sem nenhum juízo de valor. Eu não vou pegar um pão de outra marca, aumentar a quantidade de ovos ou reduzir a de arroz, porque estou seguindo de modo passivo a missão que me foi dada. Ou seja, eu quero replicar exatamente a lista de compras que ela me passou.
No modo ativo, eu, Gui, faço o meu juízo de valor na hora de ir às compras. O que isso significa? Compro um queijo de uma marca diferente, aquele que acho que tem um melhor custo-benefício, compro uma geleia mais barata, compro mais ovos do que o apontado.
De modo geral, sigo a lista como inspiração para as minhas compras, porém tento otimizá-la de acordo com a minha visão do que é melhor.
Fazendo uma analogia com o mundo dos investimentos, seria como se a lista de compras elaborada pela Nicole fosse o índice a ser seguido, e como eu faço as compras seria o estilo de gestão.
Mas o que seria um índice?
Um exemplo claro é o Ibovespa. Ele é um índice elaborado pela B3, a bolsa brasileira, e representa as maiores e mais negociadas empresas listadas em bolsa no Brasil. A sua variação mostra o desempenho dessas mesmas empresas.
Todas as empresas e suas ações têm o mesmo peso no Ibovespa? Não, funciona como na lista de compras da Nicole. O ovo, ingrediente indispensável em nossa dieta, tem um peso maior do que, por exemplo, a manteiga, que compramos uma vez ou outra. A geleia, apesar de não comprarmos com frequência, tem um peso relevante na cesta de café da manhã, afinal seu valor é bem elevado. Funciona basicamente da mesma maneira com o Ibovespa e alguns outros índices. Algumas empresas, ou ativos, terão peso maior ou menor. Mas o que interessa para um investidor de fundo passivo é na verdade como está a performance daquele mercado como um todo.
No caso do Ibovespa falamos das ações no Brasil, no caso do Ifix, um outro índice brasileiro, falamos sobre os maiores e mais negociados fundos imobiliários da bolsa brasileira.
Para um investidor de fundos passivos não interessa a performance de uma ação ou fundo imobiliário em específico, mas sim do conjunto daquele mercado. Por exemplo, para um investidor do ETF do Ibovespa, o BOVA11, não interessa se as ações da Braskem caíram 30% em setembro, mas sim que o Ibovespa está subindo quase 20% em 2025.
Para um investidor que busca fundos de ações ativos, uma queda dessa magnitude pode chamar a atenção, afinal, a ação pode estar dentro de um fundo que busca superar o Ibovespa e deu mais peso para a ação da Braskem do que de outras empresas. Nesse caso seria como se eu decidisse que da lista de compras da Nicole não vou comprar ovo, mas vou substituir essa proteína por queijo branco.
Eu posso me dar bem, caso o preço do queijo branco esteja barato, mas posso me dar muito mal caso esteja muito elevado.
No caso dos investimentos passivos os solavancos e sustos são menores, é difícil que o mercado todo de ações no Brasil caia de modo muito forte. Mas quando você faz uma gestão ativa, escolhe papéis específicos, abre-se espaço para solavancos maiores, assim como para ganhos maiores.
Você não vai ver o Ibovespa subindo 100% em um ano, mas selecionando cuidadosamente as ações você tem essa possibilidade. Para o lado negativo também é verdade, você não irá ver o Ibovespa cair 90%, mas pode mais facilmente ter uma única ação em carteira que apresente esse movimento. Espaço Laser (ESPA3), por exemplo, caiu mais de 90% desde o lançamento de suas ações em 2021. Get Ninjas (NINJ3) caiu quase 90% desde período semelhante. Talvez você se lembre do caso da OGX, a petroleira de Eike Batista, que já foi uma das empresas da bolsa brasileira e amargou prejuízos de mais de 90% para seus acionistas.
Casos como esses não são raros, mas no Ibovespa nunca ocorreram.
Mais tarde irei falar sobre as vantagens, desvantagens e atenção que devemos ter nesse tipo de investimento, mas agora quero falar sobre os dois modos de acessar esses investimentos passivos: através de fundos de plataforma e através de ETFs.
1 – Fundos de plataforma
São fundos de investimento disponibilizados em algumas plataformas de investimento específicas, e só estão disponíveis para quem tem conta naquela corretora. O exemplo mais comum são os fundos da família Trend da XP Investimentos. Eles estão disponíveis apenas para quem é cliente da XP. Pense neles como se fossem produtos que você encontra apenas nas gôndolas específicas de um determinado supermercado, como um pão especial produzido artesanalmente pelo Carrefour perto da sua casa. Você não encontra o mesmo pão no Extra, no Assaí ou no Giga, certo?
2 – ETFS – Fundos passivos negociados em bolsa
Esses caras também são fundos de investimento, mas têm uma peculiaridade: são negociados em bolsa — ou seja, são acessíveis em qualquer plataforma de investimento. Pense neles como um pão de forma da Pullman, ou seja, está disponível em qualquer supermercado, inclusive no site.
Os investimentos passivos no geral vêm ganhando relevância no mundo e no Brasil, mas você não vai ver corretoras falando sobre o quanto eles podem ser vantajosos para suas estratégias de investimento.
Você pode até pensar que eles são ruins — afinal, o Ibovespa vem apresentando um desempenho duvidoso nos últimos anos, assim como o Ifix —, mas o que talvez não esteja entendendo é que o que pode estar mal elaborado seja essa “lista de compras”, ou seja, o índice que um ETF segue.
Por exemplo, desde o início do BOVA11, o ETF mais antigo que replica o Ibovespa, sua performance é inferior à do CDI, ou seja, alguém investindo na renda fixa mais conservadora nos últimos 17 anos teria um retorno maior do que quem investiu no Ibovespa.
1Fonte: Finclass
Alguém pode imaginar que investir em ações no Brasil seja ruim, afinal, o Ibovespa perdeu para o CDI nesse período.
Mas e se dermos uma olhada em um outro índice, ou seja, uma outra “lista de compras”?
Vejamos o DIVO11, ETF que busca replicar um índice de ações pagadoras de dividendos no Brasil:
A situação muda de figura. Enquanto o BOVA11 (que replica o Ibovespa), desde 2012, lançamento do DIVO11, ainda fica bem para trás do CDI, o DIVO11 o ultrapassa — por pouco, mas ultrapassa.
Se pegarmos a janela dos últimos 5 anos, a foto é mais bonita para o DIVO11:
Nos últimos 5 anos o Ibovespa ficou atrás do CDI, porém o DIVO conseguiu apresentar um retorno bem maior do que o índice da bolsa e também o CDI.
Veja, investir em ações não foi ruim nos últimos 5 anos, mas investir em um índice de ações ruim, sim, foi uma escolha que trouxe prejuízo.
O mais interessante é que podemos não parar por aqui. A renda fixa, como você talvez já saiba, não se resume ao CDI, na verdade o que não é o CDI é muito maior.
Pense nos títulos públicos indexados à inflação e nos prefixados. Talvez você pense:
“Mas, Gui, são apenas outros 2 índices na renda fixa, correto?”
Não, você pode escolher os indexados à inflação de curto prazo e os de longo prazo, assim como fazer isso com os prefixados.
“Legal, Gui, são então outros 4 índices de renda fixa.”
Não. Você pode fazer ETFs indexados à inflação de prazo fixo, 2 anos, 3 anos, 4 anos, e assim sucessivamente. Transformando o investimento em simples títulos públicos em índices extremamente vantajosos a médio e longo prazo, que possuam alta consistência em superar o CDI e vários outros índices do mercado brasileiro.
Acrescente a esse universo de títulos públicos os créditos privados. Temos CDBs, LFs (Letras Financeiras), debêntures, debêntures incentivadas, CRIs, CRAs e por aí vai.
Isso posto, vemos que há ainda uma infinidade de índices e ETFs a serem explorados no mercado brasileiro.
Nos próximos parágrafos vou me aprofundar um pouco mais, de maneira mais didática e direta, em explicar ETFs. Depois vou trazer algumas classificações de risco desses ETFs de renda fixa e quais temos aprovados na Finclass, em quais estamos de olho para uma eventual recomendação e onde eles se classificam.
Aprendendo mais sobre ETFS
1) O que é um ETF?
ETF é a sigla para Exchange Traded Fund, ou fundo negociado em bolsa. Em termos simples, é um tipo de investimento que reúne vários ativos dentro de uma única cota. Assim, em vez de comprar ações ou títulos um por um, o investidor compra apenas um ETF e, com isso, passa a ter exposição a uma cesta de ativos. É como se o ETF fosse um carrinho de compras: ao comprá-lo, você leva diversos produtos juntos. A maioria dos ETFs busca acompanhar o desempenho de um índice, como o Ibovespa ou o S&P 500 (o principal índice da bolsa americana), e suas cotas são negociadas em tempo real na bolsa, do mesmo modo que uma ação.
Por trás disso, o funcionamento é relativamente simples. Cada ETF tem um índice de referência (benchmark) que serve de guia para definir o que ele vai replicar. Há diferentes formas de replicar um índice: alguns compram todos os ativos (replicação física total), outros compram apenas uma parte representativa (replicação por amostragem), e há também os que utilizam derivativos para atingir o mesmo resultado (replicação sintética). Em todos os casos, há um formador de mercado que garante a liquidez dessas cotas, ou seja, você não precisa se preocupar tanto com a liquidez de um ETF quanto precisa se preocupar com a liquidez de uma ação ou fundo imobiliário em específico.
2) Tipos de ETFs
Os ETFs podem ser de vários tipos. Há os de ações amplas, que seguem índices de mercado, como o Ibovespa ou o IBrX-100. Existem os setoriais, que focam em segmentos específicos da economia, como tecnologia, energia ou saúde. Também há os fatoriais, conhecidos como smart beta, que priorizam certas características, como valor, qualidade ou volatilidade. Além disso, existem ETFs de renda fixa, que investem em títulos públicos ou privados, e ETFs internacionais, que dão exposição a outros países e moedas. Há ainda ETFs de commodities, como ouro e prata, e os ETFs alavancados e inversos, que multiplicam ou invertem o desempenho diário de um índice — estes últimos, no entanto, ainda não aparecem no Brasil, dando as caras em mercados mais desenvolvidos como o americano.
3) Por que os ETFs são populares?
Os ETFs ganharam popularidade por diversos motivos. Primeiro, pela simplicidade: com um clique, é possível ter acesso a dezenas ou até centenas de ativos. Em segundo lugar, pelos custos reduzidos, já que a taxa de administração costuma ser muito mais baixa do que a de um fundo de gestão ativa. Além disso, são transparentes — o investidor sabe exatamente o que o ETF busca replicar — e oferecem liquidez diária, podendo ser comprados e vendidos em qualquer pregão. Outro fator é a diversificação instantânea: com um único investimento, é possível reduzir o risco de concentração em uma única empresa ou setor. Por fim, os ETFs também facilitam o acesso a mercados internacionais e moedas estrangeiras, algo que antes exigia muito mais conhecimento e capital.
4) Vantagens
Entre as principais vantagens dos ETFs está a diversificação, que reduz o risco de perdas específicas e facilita o investimento em amplos segmentos do mercado. Além disso, o custo é outro ponto forte: as taxas de administração e os custos de operação tendem a ser menores, o que ajuda a melhorar o retorno líquido no longo prazo. Outro benefício é a disciplina: como os ETFs seguem um índice, eles eliminam o viés emocional e podem facilitar o investimento recorrente. A transparência também é uma grande vantagem, já que o investidor sabe claramente qual índice está sendo replicado.
Por fim, mas não menos importante, eles dão acesso fácil a estratégias complexas — como exposição a mercados internacionais, setores específicos ou renda fixa global — e podem ser utilizados tanto em estratégias de longo prazo quanto táticas de curto prazo.
5) Desvantagens
Nem tudo são rosas, apesar de suas qualidades, os ETFs também têm limitações. Como o objetivo é apenas replicar um índice, eles não conseguirão superar o mercado no qual você tem exposição, o que não necessariamente é um ponto muito negativo, afinal se selecionar bem os índices e ETFs sua carteira pode ter rendimento muito relevante. Além disso, fique atento, alguns índices podem ser concentrados em poucas empresas, o que reduz a diversificação efetiva. Também é importante lembrar que o desempenho pode diferir levemente do índice de referência, por causa das taxas e custos operacionais — isso é o chamado tracking error, uma gestão desatenta às mudanças e peculiaridades do índice pode acabar fazendo com que o desempenho do ETF se afaste do desempenho do índice.
6) Riscos
Há riscos? Sim. No geral os riscos de se investir em ETFs não estão associados ao ETF, mas sim ao índice que ele busca replicar. Por exemplo, o ETF NFTS11 é um ETF da Investo, uma excelente gestora de ETFs, porém o índice que o ETF replica apresentou um desempenho desafiador desde o seu início, de -23% em um período em que o mercado americano está apresentando uma alta relevante.
Além disso há o cuidado com a empresa que faz a gestão do dinheiro do ETF. Ela precisa ter processos robustos, auxílio de ferramentas e tecnologia para que consiga executar as operações com maestria, afinal, em alguns ETFs dezenas e até centenas de ativos estarão dentro da carteira do fundo.
7) Como escolher um ETF
Na hora de escolher um ETF, é importante avaliar se o objetivo dele está alinhado com o seu. Entenda qual índice ele replica, sua consistência em superar os principais índices do mercado, sua volatilidade, seu máximo drawdown (nome dado ao pior período do fundo, ou seja, a queda máxima que ele apresentou em toda a sua história) e também, é claro, sua taxa de administração. Não adianta ser um bom ETF e ter um taxa significativamente alta, isso tira uma parte da atratividade do produto.
Observe o histórico de aderência ao índice (tracking error), a metodologia do índice e se há riscos específicos — como exposição cambial ou uso de derivativos. É recomendável analisar como são feitos os rebalanceamentos da carteira e se o ETF distribui ou reinveste dividendos. Por fim, vale conferir quem é a gestora, o administrador e o formador de mercado responsáveis pelo fundo.
8) Como usar ETFs na carteira
Investir através de ETFs já foi sinônimo de ter uma carteira simples e de baixa rentabilidade, e esse jogo está mudando com o aumento do número de produtos disponíveis no mercado brasileiro, e com o acesso que temos ao mercado global.
Hoje ETFs de estratégias mais sofisticadas, mais baratos e consistentes estão disponíveis a poucos toques em nosso celular.
Resumindo, os ETFs podem ser usados de várias formas em uma carteira. Muitos investidores os utilizam como o núcleo da estratégia — o chamado core —, com 1 a 3 ETFs amplos que cobrem renda fixa, ações e exposição internacional. Outros preferem adicionar ETFs temáticos ou setoriais para complementar — os chamados satélites — e buscar retornos adicionais. Eles também são úteis para montar posições defensivas, como exposição a ouro ou moeda estrangeira, reduzindo a volatilidade da carteira, como fazemos na Finclass inclusive. A melhor prática é fazer aportes regulares, de preferência mensais, e rebalancear periodicamente para manter o risco sob controle.
9) Cuidados e erros comuns
Muitos investidores cometem erros por falta de compreensão. Um dos mais frequentes é achar que ETFs de renda fixa não oscilam — na prática, eles variam conforme os ativos que estão lá dentro, e esses oscilam de acordo com os juros e suas expectativas para o futuro. O grande ponto é que essas expectativas mudam a todo instante, o que significa balanço de preços para os ETFs de renda fixa.
Veja por exemplo o comportamento de preços do ETF de títulos públicos indexados à inflação, o IMAB11:
Ele é representado pela linha cinza. Se eu não dissesse que ele é um ETF de renda fixa talvez você pensasse que a linha está representando o valor de uma ação.
Há outros ETFs de renda fixa que podem oscilar ainda mais.
Outro erro é escolher ETFs apenas pela rentabilidade passada, sem avaliar custos, composição e ciclo de mercado.
Por exemplo, você investiria no ETF destacado pela linha cinza abaixo?
Em 4 anos de história o ETF em questão apresentou uma rentabilidade negativa de -33,22% contra uma positiva de 45,68% do CDI.
Se você houvesse investido R$ 100 mil em janeiro de 2012 nesse ETF, no início de 2016 teria R$ 67 mil de patrimônio, enquanto quem colocou o mesmo dinheiro no CDI teria R$ 145 mil, uma diferença muito alta.
O que a maioria das pessoas fez, e ainda faz, é não investir no ETF, seja ele qual for, por conta de uma performance passada ruim, esquecendo que o mercado é cíclico, ou seja, passa por momentos ruins para ativos de risco e posteriormente por momentos bons.
Dê uma olhada na comparação dos 4 anos seguintes do ETF contra o CDI:
Nos 4 anos posteriores o resultado foi muito diferente. O ETF em questão, que é o DIVO11, rendeu 239%, enquanto o CDI rendeu “apenas” 41%.
Voltamos para nossa simulação:
Eu não vou considerar que você investiu R$ 100 mil no início de 2016, isso seria injusto, mas vou considerar que manteve o valor anterior investido, ou seja, R$ 67 mil no ETF. Considerarei também uma outra pessoa, que investiu R$ 145 mil no CDI.
Entre 2016 e janeiro de 2020, se você manteve o dinheiro no DIVO11, ficou com um patrimônio de R$ 227 mil, enquanto a pessoa do CDI terminou o período com um patrimônio de R$ 204 mil.
Mas geralmente não é isso que acontece. Entre 2012 e 2016, com uma performance muito ruim do DIVO11, os investidores tenderiam a voltar para o CDI, porque esqueceriam os ciclos do mercado e tomariam decisões de onde investir olhando apenas o passado.
Se o investidor que segurou DIVO11 desde 2012 até 2016 tivesse trocado pelo CDI nesse período, no início de 2020 teria um patrimônio de “apenas” R$ 94 mil, ou seja, investiria durante 8 anos e ainda estaria com uma rentabilidade negativa.
Veja, o maior risco dos ETFs está em não saber investir bem, e não no próprio veículo.
Também é comum ignorar o spread, usar ETFs alavancados como se fossem de longo prazo ou montar carteiras com ETFs que replicam temas muito semelhantes, o que gera sobreposição. Outro ponto crucial é acompanhar as regras tributárias, que podem mudar com o tempo e afetam o retorno líquido. Planejar, estudar e entender o produto são as melhores formas de evitar armadilhas, e é justamente isso que fazemos para você aqui na Finclass.
10) Conclusão
Os ETFs são uma das formas mais práticas e eficientes de investir hoje. Com eles, é possível ter uma carteira diversificada, transparente e de baixo custo, mesmo com pouco capital. São ideais para quem busca simplicidade e eficiência, mas também exigem conhecimento sobre o índice que replicam e os riscos envolvidos.
Mas como classificamos os ETFs de renda fixa na Finclass?
Agora que você entende bem o mercado de ETFs, seus benefícios, vantagens, desvantagens e riscos, que basicamente moram no fato de você não saber ao certo onde e quando está investindo, vou dizer como gosto de classificar os ETFs recomendados pela Finclass.
Importante dizer que monitoramos alguns riscos antes de recomendar um ETF, e damos notas de 1 a 3 para cada um deles, onde 1 indica menor risco e 3 maior risco. São eles:
Risco de mercado: a oscilação de preço que os ativos do fundo apresentam.
Risco de crédito: chance de o emissor dos títulos e do investimento. Isso se aplica basicamente para renda fixa.
Complexidade: é um índice de fácil elaboração pela gestora, simples de ser acompanhado.
Execução: a gestora executa com excelência a gestão do ETF, reduzindo o descasamento entre performance do fundo e o que o índice aponta?
Depois de dadas essas notas, passamos para a parte de custos, com nota 1 para custos baixos e nota 3 para custos elevados:
Taxas: se o valor da taxa de administração junto com o custo do provedor do índice é justo. Além disso, se o formador de mercado atua de modo a deixar o spread entre compra e venda da cota do ETF sempre justo.
Só então passamos para a avaliação de performance:
Desempenho: o índice que o ETF replica supera com consistência o CDI, no caso de renda fixa, ou o Ibovespa, para ações? Apresentar uma boa relação risco-retorno também é essencial.
Então, por último avaliamos a gestora. Fazemos isso porque entendemos que gestoras com times dedicados à gestão de ETFs são melhores para nós analistas e vocês clientes. Isso porque reduzem o risco de erro operacional, facilitam o acesso a informação e estão sempre de prontidão para tirar qualquer dúvida.
Nesse caso, o Itaú é destaque, com um time experiente e dedicado.
Abaixo você consegue enxergar como isso se mostra em uma tabela contendo alguns dos ETFs que eventualmente aprovamos e outros que entram em nossa carteira base.
Vale lembrar que “aprovado” significa que o ETF pode estar em sua carteira ou pode substituir alguma opção presente em nossa carteira recomendada.
Veja, dentre os ETFs listados na tabela acima apenas um não aprovamos, e não é por ser um ETF ruim.
Hoje acreditamos que fundos de plataforma cumprem melhor essa função de investimento em debêntures DI do que o ETF do BTG. Fundos conseguem colocar métricas mais rígidas para o risco de crédito das empresas que estão lá dentro, o que nos deixa mais confortáveis em termos de risco de crédito.
Há um outro ponto, que não necessariamente é um problema, mas a carteira do DEBB11 é montada por amostragem, ou seja, como o índice possui muitos papéis, o gestor pode pegar a maior parte deles e montar a posição, mas não necessariamente precisa comprar todos. A performance fica em linha com o desempenho do índice, mas o tracking error começa a subir, ou seja, apesar de comedida, a distância entre a performance do fundo e do índice começa a crescer, embora sigam a mesma direção.
Mas há dois novos produtos em que estamos de olho, e um deles pode funcionar bem para a nossa carteira de renda e outro para a nossa carteira de valorização.
São eles: LFIN11 e AREA11.
Vamos falar um pouco mais sobre esses ETFs.
LFIN11 – ETF de crédito privado CDI (muito promissor)
O ETF LFIN11 replica o Índice Teva LFIN DI. Este índice tem como objetivo refletir o retorno total de uma carteira composta por letras financeiras (LFs) seniores indexadas à taxa do CDI emitidas pelas maiores instituições financeiras. A metodologia é proprietária da Teva Índices.
Uma Letra Financeira Sênior (LFS) é um título de renda fixa emitido por instituições financeiras, como bancos e financeiras, com o objetivo de captar recursos de investidores para financiar suas operações. Ela é chamada de “sênior” porque tem prioridade de pagamento em relação a outras dívidas do emissor, ou seja, em caso de liquidação ou falência, o investidor que possui uma LF Sênior recebe antes de quem detém dívidas “subordinadas”.
Em outras palavras, são os ativos mais seguros emitidos por um banco. Vale lembrar que não há a proteção do FGC, afinal, ela só é válida para investimentos diretos realizado por nós pessoas físicas. Mas isso não é motivo para grande preocupação se o índice for bem elaborado, com posições majoritárias em excelentes emissores e com uma gestão responsável.
O índice tem 45% da sua composição representada por ativos de bancos da categoria S1 (classificação mais alta pelo Banco Central), onde você encontra nomes como Itaú, Bradesco, Santander, entre outros. Um total de 20% da sua composição está em bancos da categoria S2 (Banco Safra é um exemplo) e 35% da categoria S3 (Banco Daycoval, por exemplo).
Importante ressaltar que essa categorização tem relação com o tamanho da instituição e não com sua saúde financeira. É claro que, quanto maior o tamanho do banco, maior a vigilância do Banco Central sobre suas métricas de saúde, mas é importante ressaltar que um banco S3 não necessariamente tem um perfil arriscado, mas simplesmente é um banco de menor tamanho com relação ao PIB.
No ano o índice acompanhado por esse ETF acumula um retorno de 11,20%, contra 10,6% do CDI. Sua taxa de administração é relativamente baixa, de 0,30%, o que o coloca como uma opção atrativa para nossa parcela de renda fixa indexada ao CDI.
Lembre-se, não é aqui que sua carteira vai brilhar, mas vale colocar boas peças em sua composição.
Mas por que não o recomendar desde já?
Uma parte relevante de se analisar um ETF é verificar como é feita a sua execução. Vale aguardar um tempo para verificar se a gestora mantém uma aderência relevante ao índice. Satisfeita essa condição, o produto deve entrar em nossa carteira recomendada.
AREA11 – ETF de renda fixa com pagamentos constantes de renda (promissor)
Há um certo desconforto em nossa carteira de renda na parte de títulos públicos. Eles não possuem pagamentos de renda tão constante quanto os fundos imobiliários e os fundos de debêntures incentivadas, como o IFRA11 e JURO11.
Em nossa carteira de renda fazemos um mix entre títulos de renda fixa que pagam juros semestrais com vencimento ímpar e par, e por um motivo muito claro. Títulos públicos IPCA+ que vencem em anos ímpares pagam juros em maio e novembro, já títulos com vencimento em ano par pagam juros em fevereiro e agosto.
Se você fizer um mix entre eles vai acabar com juros em 4 dos 12 meses do ano.
Claro que você pode complementar esse fluxo com títulos prefixados, que é justamente o que tentamos fazer em nossa carteira de renda, mas parece que nosso trabalho vai ficando mais fácil com a criação do AREA11
Pensando no desconforto de rendimentos muito espaçados, o ETF foi lançado em uma parceria entre AUVP e BTG Pactual.
Ele visa normalizar esse pagamento de juros advindos de títulos públicos IPCA+, ou seja, distribui o que exceder a inflação ao longo do ano.
A taxa de administração é baixa, 0,30%, e o índice elaborado pela Teva, uma das maiores e mais capacitadas provedoras de índices do Brasil.
Estamos confiantes de que será uma inclusão futura em nossa carteira recomendada, porém vamos aguardar um pouco mais de tempo. O diabo mora nos detalhes, e apesar do plano ser muito bom, a execução também precisa ser, ou seja, o ETF não pode se descolar de seu índice e o operacional precisa estar redondo.
Satisfeitas essas condições, ele pode entrar em nossa carteira em um futuro não muito distante.
Vale ressaltar que 70% da composição desse ETF está em títulos IPCA+ de prazo superior a 10 anos, o que lhe traz uma volatilidade relevante, ou seja, balanço de preços.
E como esses dois ETFs, LFIN11 e AREA11, são avaliados até aqui em nossa tabela?
Na tabela acima não preenchemos a parte de execução, dado que os produtos são muito novos e ainda precisam ser acompanhados de perto para verificar se a execução será bem feita. O restante dos critérios os enquadraria para entrar como nossas recomendações.
Espero que com este relatório você tenha compreendido o poder, as vantagens e como ter ETFs na sua carteira pode ser lucrativo.
Abraços,
Guilherme Cadonhotto
Sobre os analistas
Guilherme Cadonhotto
Sócio
Além de Estrategista da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como um grande especialista em Renda Fixa. Bacharel em Economia pela FGV e pela Nova School of Business and Economics, além de ter mais de 10 anos na gestão de fundos de investimento de Renda Fixa, Crédito Privado e Multimercado, hoje ele ensina seus alunos e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.