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Olá, assinantes do Spiti One!
A Hypera Pharma (HYPE3) está na carteira da série de ações há cerca de dois anos, com retorno de 36,57%, considerando os dividendos reinvestidos, desde a indicação a R$ 33,25 em 12/8/2020.
Se você está chegando agora, permita-me explicar um pouco sobre ela.
A Hypera Pharma é uma das maiores farmacêuticas do país, com um faturamento que ultrapassa os R$ 8 bilhões. Isso dá a ela o título de detentora de 8% do market share desse mercado.
Tudo começou em 2001, quando João Alves de Queiroz Júnior (também conhecido pelo apelido "Júnior da Arisco", uma vez que é filho do fundador de tal empresa) iniciou um ambicioso empreendimento: comprou a Prátika, fabricante das famosas esponjas de aço Assolan.
Júnior investiu pesado em marketing, fazendo frente à Bombril, o que levou a Assolan a saltar de um market share de 9,5% em 2002 para quase 30% em 2005. A partir de 2003, com o dinheiro que ganhou na empreitada, ele começou a comprar outras empresas. Foi assim que, em 2007, a Assolan trocou de nome para Hypermarcas, visando demarcar a nova fase, em que a empresa, muito mais parecida com uma holding, aglomerava todas as aquisições feitas por ele.
Daquele ano até 2018, a Hypermarcas comprou companhias nas áreas de higiene pessoal, beleza e medicamentos.
Ainda em 2018, contudo, a Hypermarcas mudou mais uma vez de nome, passando a figurar – finalmente – como a nossa tão conhecida Hypera. Novamente, o objetivo era destacar a nova fase vivida, na qual o foco passava a ser totalmente voltado ao mercado farmacêutico.
Hoje, a Hypera está dividida em cinco unidades de negócios:
- Consumer health (OTC e adoçantes): OTC (over the counter, que significa "sobre o balcão") pode ser resumido a medicamentos úteis no alívio de pequenos sintomas ou incômodos, facilmente diagnosticados pelo próprio consumidor, como dores de cabeça, gripes e resfriados, acidez estomacal, entre outros. Inclusive, você deve conhecer alguns deles: Neosaldina, Buscopan, Benegrip, Engov, Estomazil e até mesmo o Biotônico Fontoura. Tais produtos são distribuídos nas farmácias (canal farma), onde ficam expostos no autosserviço (aquele em que você mesmo pega o produto e paga por ele no caixa). Adicionalmente, a Hypera é líder no mercado brasileiro de adoçantes, tendo marcas como a Finn e Zero-Cal, que possuem mais de 50% de market share, segundo dados do mercado.
- Produtos de prescrição: aqui estão os medicamentos RX (aqueles que você precisa de receita para comprar) e os medicamentos OTX (que não precisam de receita, mas que normalmente são comprados por indicação de um médico).
- Dermocosméticos: os famosos creminhos (brincadeira, tem mais coisa). São produtos com o objetivo de prevenir e/ou combater o envelhecimento da pele e que, por conter certas substâncias, exigem prescrição de um dermatologista. Já ouviu falar das marcas Mantecorp, Bioage e Simple Organic? Pois é, elas são da Hypera.
- Similares e genéricos: ok, esses aqui todo mundo conhece. Se você já comprou um genérico da Neo Química, saiba que ele também é da Hypera.
- Mercado institucional: em 2021, a Hypera passou a atuar também no Mercado Farmacêutico Institucional, que compreende a venda direta para clientes corporativos, como hospitais e clínicas. Como você pode imaginar, a demanda institucional é bem diferente daquela de uma farmácia, já que os medicamentos utilizados em hospitais são específicos. Para atender a esse mercado, a Hypera está investindo fortemente em P&D (pesquisa e desenvolvimento), criando novas moléculas (medicamentos) que promoverão o tratamento em diversas áreas da saúde.
Fonte: Hypera Pharma
Como boa parte das empresas do setor farmacêutico, o principal motor de crescimento da Hypera é o bom e velho envelhecimento populacional. O IBGE nos dá a projeção demográfica da população brasileira por faixa etária (idade) até 2060. Por isso, em nosso modelo de valuation, projetamos os resultados da Hypera até lá. A partir de então, assumimos que a empresa entrará na perpetuidade (um termo em "financês" para se referir a um estágio em que ela cresce pouco, porque já está muito madura).
A receita que uma pessoa jovem gera para os laboratórios é muito menor do que a gerada por uma idosa, já que, com o passar da idade, gasta-se muito mais dinheiro com remédios.
Para você ter uma ideia, um brasileiro com 60 anos gasta com remédios mais de 4x o que uma pessoa com menos de 19 anos gasta. O auge acontece na virada dos 70 anos: nesse momento da vida, o cliente gera o máximo de receita possível para a indústria farmacêutica.
Sabendo quanto uma pessoa de cada faixa etária gasta em remédios, nós podemos criar uma Curva de Maturação do Consumidor.
A ideia aqui é descobrir exatamente quanto um consumidor com mais de 70 anos gasta com remédios. O problema é que nós sabemos apenas o número total de consumidores e a idade deles. A boa notícia é que isso é suficiente para nós.
Tendo em mente que o faturamento da indústria farmacêutica em 2021 foi de R$ 88,3 bilhões, tudo o que precisamos fazer foi dividir esse valor pelo número de consumidores existentes, ponderando cada um deles pela idade. Uma pessoa com menos de 20 anos, como é possível ver pela curva, gera apenas 20% da receita trazida por um consumidor de 70. Logo, o peso do jovem será de apenas 20%.
Fazendo isso, descobrimos quanto um cliente com mais de 70 anos gerou, em média, de receita para a indústria em 2021: R$ 913. Chamaremos isso de "Receita da Indústria Farmacêutica para cada Consumidor Maduro".
De 2023 em diante, projetamos que esse valor crescerá no mesmo ritmo do PIB nominal. Multiplicando os pouco mais de R$ 900 pelo número de pessoas em cada faixa etária e pela maturação do consumidor de cada faixa etária, conseguimos chegar no tamanho do mercado em cada ano até 2060.
Com a projeção do tamanho do mercado em mãos, podemos partir para o que interessa, que é a receita da Hypera.
Para isso, assumimos que a receita bruta vai crescer acima do mercado farmacêutico na mesma proporção que cresceu entre 2010 e 2022. Para isso, fizemos um crescimento equivalente a uma regra de três entre o CAGR (taxa de crescimento anual composto) de 2010 a 2022 da receita bruta de produtos farmacêuticos da Hypera, o CAGR do crescimento da indústria farmacêutica desse mesmo período e do crescimento projetado do setor.
Tirando todos os impostos que a empresa tem que pagar sobre a produção, chegamos à seguinte receita líquida projetada:
Posteriormente, projetamos a margem Ebit como uma média das margens recorrentes de 2017, 2018, 2021 e 2022, chegando a um valor de 32,6%.
Com essas premissas e atualizando a taxa de desconto para refletir um valor condizente com o atual nível de juros, chegamos a um preço-alvo de R$ 38,94 para HYPE3.
Como hoje a cotação está em R$ 42,20, optamos por retirar HYPE3 das carteiras do Spiti One. Caso você tenha ela em seu portfólio, recomendamos que você se desfaça dessas ações.
Fonte: Spiti
Então, por que HYPE3 está com um preço tão destoante?
Uma das expectativas do mercado é de que a empresa faça alguma fusão. Afinal, o M&A (sigla em inglês para fusões e aquisições) no setor é muito comum, já que comprar uma marca é muito mais fácil que desenvolver um produto do zero e registrar um novo produto junto aos órgãos regulatórios é um processo bem rigoroso e demorado.
Havia até um boato, que repercutiu até outubro de 2022, que o Júnior da Arisco estava conversando com alguns laboratórios brasileiros pra fechar uma fusão. No páreo, estavam o Grupo NC, líder do mercado farmacêutico brasileiro e dono de marcas como EMS e Legrand, e a Eurofarma, terceira colocada no setor, que ficou para trás.
Aparentemente, as negociações foram frustradas, pois não houve um acordo sobre a distribuição societária entre o grupo NC e a Hypera. Para nós, essa tentativa de fusão frustrada é um forte indicativo de que o mercado está sendo demasiadamente otimista em algo que enxergamos como possibilidade remota no curto prazo.
Dessa forma, após essa revisão da tese de investimentos de Hypera Pharma, reiteramos a decisão de retirar HYPE3 das carteiras.
E como fica o Spiti One?
No Spiti One, faremos a retirada da HYPE3 sem nenhuma outra inclusão para “compensar”. A diferença será distribuída com ajustes muito pontuais nas ações que se mantêm na carteira, como indicamos abaixo:
Fonte: Spiti
Os valores sinalizados na tabela se referem aos percentuais alterados por decorrência da saída de HYPE3, que, obviamente, só interfere nas opções dentro da classe de ações locais.
Importante lembrar que esse percentual de ajuste pode ser feito de maneira gradual. Como se trata de percentuais relativamente pequenos da carteira, pode ser que sejam automaticamente corrigidos por oscilações de mercado. O mais importante aqui é manter o foco no longo prazo e buscar sempre se aproximar dos percentuais sugeridos para as classes de ativos sugeridas no Spiti One.
Abraços,
Leandro Siqueira