Relatórios

Institucionais presos às regras: a vantagem que você tem

Escrito por Eduardo Perez em RENDA FIXA

6 min de leitura

O senso comum costuma dizer que, em momentos de confusão no mercado financeiro, os grandes investidores institucionais sempre levam vantagem.

Fundos, bancos e grandes instituições financeiras seriam os “tubarões”, enquanto o investidor comum só pode cruzar os braços.

Mas essa visão ignora um ponto essencial: os grandes têm limites rígidos — você, não.

Imagine um documentário estilo Animal Planet onde o foco é mostrar o equilíbrio daquele habitat: no mercado financeiro, os institucionais funcionam como predadores que ajudam a equilibrar o ecossistema.

Gestores de fundos multimercado que operam juros percebem que o mercado está precificando uma Selic (e o CDI por tabela) excessivamente alta e entram com posições em contratos futuros de DI apostando na queda das expectativas.

Quando muitos pensam igual, a força coletiva corrige os preços rapidamente.

O mesmo vale para inflação: quando as projeções de IPCA se descolam do cenário provável, eles buscam o retorno extra da distorção operando contratos de juro real.

Em condições normais, os institucionais trazem o mercado de volta ao equilíbrio. Mas, assim como na natureza, quando os predadores não dão conta de tanta “presa”, surge uma praga fora de controle.

No mercado, isso acontece quando os limites de alocação são atingidos.

Todo fundo segue políticas de investimentos decididas no momento da sua estruturação para proteger e dar previsibilidade na condução do fundo. Um multimercado, por exemplo, pode ter teto de 70% em curva de juros.

Mesmo com alta convicção e por mais doido que o gestor seja, ele tem que respeitar os limites estabelecidos.

Há ainda o institucional “defensivo”: o hedge clássico. Um gestor com carteira pesada em títulos IPCA monta posições opostas para atravessar um período de alta volatilidade (ex.: eleições).

Se as expectativas de juros/inflação sobem, a carteira perde, mas o hedge compensa. Se caem, ocorre o inverso.

O objetivo? Suavizar resultados, entregar consistência no médio e longo prazo. “Com grandes retornos vêm grandes volatilidades”, já dizia o tio Ben.

Assim, forças opostas atuam: quem aposta na queda pressiona taxas para baixo; quem faz hedge pressiona para cima.

O problema surge quando a maioria já atingiu algum limite

Foi o que rolou em 2025 com debêntures incentivadas: a regulação exigia que pelo menos 67% do patrimônio líquido fosse alocado na classe após 6 meses, levando corrida por novas emissões, levando à compressão dos spreads, queda das taxas e barateamento recorde das emissões.

Muitas ofertas ficaram pouco atrativas, conforme vemos nas notícias abaixo:

Fonte: InfoMoney

Fonte: Neofeed

Agora chegamos no ponto central. Nós, reles mortais com CPF debaixo do braço, podemos tirar um proveito desse cenário.

Enquanto os gestores se preocupam em manter a volatilidade e exposição controladas, nós nos preocupamos apenas com a nossa política de investimentos, que é única e pessoal — mas que pode mudar com o tempo.

Em tese, a aptidão ao risco para investir R$ 100 não deve ser igual para R$ 1 milhão. E na verdade, esses testes de suitability devem ser refeitos periodicamente para atualizarmos nossas expectativas e realidade.

E quando eu digo que podemos aproveitar uma situação por sermos investidores sardinha, eu me refiro a podermos aumentar nossa exposição ao risco controlado.

É aí que uma boa análise de investimento entra em jogo.

 Não somos obrigados a zerar boas posições só porque o mercado está volátil.

Lembra março de 2020? Circuit breakers nos dias 9, 11, 12, 16 e 18 e quedas brutais. Muitos gestores zeraram posições de qualidade para enquadrar risco e volatilidade, mesmo com teses intactas.

Isso causou uma reação em cadeia e uma das maiores dores de cabeça para os gestores que viam seus papéis se desvalorizando e, mesmo com boas posições, tiveram que zerar grande parte por conta do aumento exagerado de volatilidade e por conta do enquadramento da carteira.

Isso gerou uma rentabilidade incrivelmente negativa e, como você pode imaginar, vários pedidos de resgates, forçando ainda mais a venda de boas posições a preço de banana. O que faltou de Rivotril deve ter sido brincadeira.

Mas não vamos nos desviar do assunto de renda fixa. O Tesouro Renda+65, por exemplo, é uma opção de renda fixa de longo prazo, alta duration e alta sensibilidade a mudanças nas taxas de juros, mas a convexidade (característica que significa “ganhamos mais quando juros caem pouco do que perdemos quando juros sobem pouco”) joga a nosso favor, além de que, atualmente a taxa do IPCA Renda+65, que já esteve em níveis próximos de IPCA+7,45% em janeiro de 2025, agora está por volta de IPCA+6,90%.

Para efeito de comparação: em 2015 (caos da época do impeachment), o Tesouro IPCA+ 2019 (com vencimento em apenas 4 anos) pagava IPCA+7,35% — precificando risco extremo no curto prazo.

 

Fonte: UOL (https://economia.uol.com.br/noticias/infomoney/2015/12/22/tesouro-direto-prefixado-paga-166-ao-ano-veja-todas-as-taxas.htm)

Claro que outros fatores entram em jogo quando o assunto é saber o nível de taxa para se exigir de títulos públicos, como juro neutro, expansão da base monetária, níveis de renda e desemprego entre outras coisas.

Contudo, agora eu te pergunto do fundo do coração: Faz sentido o mercado precificar risco estrutural parecido com 2015 por quase 40 anos daqui para a frente?

Só tente pensar como seria ter 39 anos de uma rentabilidade acima da inflação, e ainda por cima de 7,35% ao ano.

Isso é loucura. Tudo bem que não estamos mil maravilhas, mas o Brasil e seus políticos têm a estranha mania de chegar bem perto da beirada do precipício, esticar o pescoço, dar uma espiadinha e depois sair de lá.

Em 2012 a taxa Selic vinha de uma queda dos 12,50% para 7,25% em uma época que o projeto de autonomia do Banco Central não existia ainda e uma grande pressão política era exercida para que a Selic fosse reduzida resultando anos mais tarde em um IPCA em 12 meses no final de 2015 de 10,67%.

 

Fonte: Banco Central

“Mas dessa vez é sério, acho que vamos virar Venezuela.”

Eu tenho zero convicção nessa teoria e os sinais de que isso não vai acontecer estão por aí.

Calma, vamos voltar para 2025 e ver o IPCA em 12 meses a 4,26%.

Olhando a Selic, percebe-se que o menino Galípolo deu show de bola com decisões técnicas no comando do Banco Central, inclusive a decisão de manter a Selic em 15% ao ano na primeira reunião de 2026 veio em unanimidade justamente com diretores do Copom inteiramente indicados do governo atual com 7 das cadeiras ocupadas (2 estão vagas).

O cenário externo também pode favorecer a gente aqui no Brasil, com o investidor gringo trazendo dólares para cá e ajudando a controlar a cotação da moeda norte-americana, como resultado a inflação de custo fica mais controlada, e os preços no país tendem a subir menos (caso da gasolina e do petróleo por exemplo).

Sabendo de tudo que foi pontuado aqui, chegamos a um último ponto que não podemos esquecer.

O que fazer quando nosso plano não dá certo?

Eventualmente você vai errar investindo.

A meta é diminuir esses erros com o tempo, já que é certeza que algo vai dar errado durante esse caminho até o tão falado “longo prazo”.

Sabendo que você vai errar, que gestores vão errar, analistas vão errar, economistas vão errar e pessoas que escolhem muito bem os ativos em que vão investir também vão errar, a sua missão é “quando errar, perca pouco e, quando acertar, ganhe muito”.

Isso se traduz em: “Investi errado e agora essa aplicação não bate o CDI.”

É ruim?

Sim. Mas não é péssimo.

O importante é que essa diminuição de rentabilidade não seja significativa no aspecto geral do seu portfólio.

Agora se você se incomodou com o comportamento de algum ativo da sua carteira, então provavelmente a concentração que você tem dele é excessiva.

Existem algumas maneiras de reduzir esse risco.

Por exemplo, aportar regularmente ao invés de esporadicamente, entender o racional das teses de investimento antes de aplicar sua grana, entender que o mercado muitas vezes foca demais no curto prazo (resultado de empresas, falas de governo, boatos de mercado) para que você aprenda a filtrar o ruído e, se prepare, porque agora vem a frase mais clichê de finanças, mas que realmente funciona: diversifique.

Diversificação salva e tira a mentalidade de escolher alguns poucos ativos e te direciona para ter uma boa seleção que, na média, tem que te entregar um retorno no longo prazo.

Conclusão

●       O mercado é razoavelmente bom em projetar expectativas, mas está longe de ser perfeito;

●       Cenários podem ficar distorcidos;

●       Se concentre em não concentrar (seus investimentos);

●       Não somos forçados a zerar boas posições na baixa — e isso é ouro para quem sabe o valor real dos ativos.

 

Um ótimo Carnaval para todos,

 

Eduardo Perez (CNPI 7393)

Sobre os analistas

Eduardo Perez

Especialista em Renda Fixa

Eduardo Perez é analista CNPI-P, com certificações CGA e CGE da Anbima, e especialista em renda fixa na Finclass. Formado em Economia e Gestão Financeira, construiu sua trajetória no mercado financeiro passando por diferentes áreas, desde o atendimento ao cliente na Easynvest até o research de renda fixa e análise macroeconômica no Nubank, onde também contribuiu com recomendações e conteúdos para o portal InvestNews. Posteriormente, atuou na mesa de operações de renda fixa, integrando a equipe de gestão do book proprietário. Acredita que o mercado de capitais brasileiro ainda tem um amplo espaço para crescimento e amadurecimento, especialmente do ponto de vista do investidor pessoa física, e vê a educação financeira como o principal caminho para transformar esse potencial em decisões de investimento mais conscientes e eficientes.