Um dos meus passeios mensais, se puder chamar assim, é a ida até o mercado. Prefiro fazer uma compra mensal, comprar em quantidade, e evitar de ir ao mercado toda semana.
Como o carrinho fica muito cheio, pego as filas “normais”, que por sinal podem demorar muito tempo até chegar ao caixa. Então, a escolha da fila é sempre um aspecto muito importante para economizar tempo. Sempre observo o número de caixas atendendo, número de pessoas e volume aparente de compras nos carrinhos.
Quando pequeno, eu, Fê, lembro de ir ao mercado e, na fila, perguntar para meu pai, quando uma fila adjacente estava indo mais rápido que a nossa, se não era melhor trocar de fila para salvar tempo. E a resposta era sempre:
“Não, filho, provavelmente não vai mudar nada e pode até ser mais demorado.”
Escolher uma fila e manter-se nela parecia um absurdo. Sempre achei que era melhor criar atalhos e ir trocando de fila quando parecesse melhor, mas, quando chegava a nossa vez, percebia que meu pai estava correto: a posição que estaríamos na outra fila estava para trás ou junto conosco.
Nos investimentos, pode acontecer algo similar. Em momentos de estresse no mercado, muita gente pode querer mudar de estratégia para tentar fugir de riscos econômicos e políticos do país, dando preferência a ativos mais estáveis, como os indexados ao CDI, ou, numa situação mais extrema, pode até mesmo parar de investir.
Com isso em mente, decidimos fazer a simulação de algumas carteiras em diferentes cenários para provar que a melhor estratégia é de seguir, firme e forte, investindo, mesmo em momentos de risco.
A estratégia de manter a prática de investimentos recorrentes melhora inclusive o percentual de vezes em que as carteiras superam o CDI. Manter investimentos em momentos de estresse adiciona volatilidade à carteira, isso é fato. Porém, vamos mostrar que essa estratégia é campeã tanto no curto prazo (um ano) quanto no longo prazo (três ou mais anos).
A dança das carteiras: riscos e benefícios de continuar investindo sempre
As últimas semanas não foram fáceis para quem possui mais risco na carteira. Naturalmente, nesses momentos, alguns pensamentos podem passar pela cabeça de quem investe, como parar de investir ou focar o investimento em ativos de menor risco.
Com isso em mente, realizamos um estudo para validar se essa seria realmente a melhor estratégia para uma carteira – e encontramos resultados surpreendentes.
Independentemente de termos objetivos para nossa carteira no curto prazo (um ano) ou no longo prazo (três ou mais anos), descobrimos que a melhor opção, pensando em risco e retorno, é não deixar de investir por sequer um mês nos ativos analisados neste estudo: os índices da Bolsa de Valores (Ibovespa), fundos imobiliários (Ifix), títulos públicos indexados à inflação de longo prazo (IMA-B 5+), títulos públicos prefixados com vencimento superior a um ano (IRF-M 1+) e pós-fixados indexados ao CDI.
Nossas descobertas mostraram que a perspectiva de retorno acima do CDI e o percentual de janelas positivas são maiores para quem investe recorrentemente, tanto na janela de curto prazo quanto na de longo prazo.
A amostra de dados utilizada nessa análise data de 2011, ano em que o Ifix foi criado, para a frente.
Para começar, vamos explicar os três tipos de carteira que criamos para nossas simulações:
- Investindo sempre: todo mês aporta R$ 100 igualmente distribuídos entre CDI, ações, fundos imobiliários, títulos públicos prefixados e indexados à inflação.
- Conservadora: todo mês que o risco está abaixo da média menos o desvio padrão dos últimos três anos, aporta R$ 100 igualmente distribuídos entre CDI, ações, fundos imobiliários, títulos públicos prefixados e indexados à inflação.
- Mais conservadora: todo mês que o risco está abaixo da média menos o desvio padrão dos últimos três anos, aporta majoritariamente em CDI.
Para medir o risco, utilizamos o Emerging Markets Bond Index Plus (EMBI+), que é um parâmetro comparativo de risco de crédito de países calculado pelo banco J.P. Morgan Chase. Quanto maior o EMBI+, maior a percepção de risco do país:
Fonte: Ipea
E, como suspeitávamos, a carteira que melhor performou foi a que investiu recorrentemente:
Fonte: Spiti
| Retorno Médio (Anualizado) | Volatilidade (Anualizada) | |
| Conservadora | 8,73% | 6,65% |
| Investindo Sempre | 9,01% | 8,38% |
| Mais Conservadora | 8,47% | 4,36% |
Fonte: Spiti
Dessa forma a primeira evidência desse estudo é que esperar momentos de calmaria no mercado para investir em ativos de risco é ruim para a performance da carteira no médio e longo prazos. Além disso, quando analisamos a carteira "Conservadora", vemos um detrimento da relação risco vs retorno quando comparada com as outras.
Para simplificar, a redução percentual de risco, de “Investindo Sempre” para a “Conservadora”, traz uma redução percentual maior do retorno anualizado.
Uma próxima hipótese era de que o percentual de dias em que as carteiras performaram acima do CDI seriam menores para quem investe recorrentemente. Porém, novamente os dados mostram um resultado diferente. O percentual de dias positivos é praticamente similar entre as três carteiras:
Percentual de Janelas Positivas – Acima do CDI
| 1 ano | 2 anos | 3 anos | |
| Conservadora | 58,0% | 74,3% | 84,8% |
| Investindo Sempre | 58,4% | 74,3% | 85,1% |
| Mais Conservadora | 58,0% | 74,4% | 84,8% |
Fonte: Spiti
O quadro nos mostra que, ao investir na carteira “Investindo Sempre” a partir 2011, por exemplo, investidores que mantiveram os investimentos por um ano superaram o CDI na média em 58,4% das observações diárias.
Mesmo que você não tenha entrado no melhor momento nos ativos de risco, o tempo joga a seu favor. Conforme ele passa, o percentual das janelas que superam o CDI nas janelas móveis aumenta, pois é uma relação positiva. Ou seja, quanto mais tempo passa, maior a possibilidade de você superar o CDI, o índice mais conservador no mercado brasileiro.
Já entendemos que o tempo joga a nosso favor e que as carteiras possuem janelas positivas similares. A próxima pergunta é: para cada período, quanto na média cada carteira performa acima do CDI? E, novamente, como vemos na próxima tabela, os resultados de quem investe recorrentemente são os melhores dentre as três carteiras.
Para chegarmos aos resultados, usamos a esperança matemática.
Vamos explicar o resultado da tabela logo a seguir, mas, antes, uma breve explicação para quem nunca ouviu falar neste conceito: esperança matemática é a soma do produto da probabilidade de cada acontecimento multiplicado pelo valor dela, que, no nosso caso, é o retorno da carteira menos o retorno do CDI por período.
Fonte: Spiti
Por exemplo, para a carteira “Conservadora”, durante o período analisado nas janelas de um ano, o retorno médio esperado foi de 2,46% acima do CDI, ao passo que, para o mesmo período, na “Investindo Sempre” o retorno foi de 3,15%.
Obviamente, como mencionamos no começo do relatório, continuar aportando valores nos seus investimentos mesmo em momentos de estresse adiciona volatilidade à carteira, porém essa volatilidade maior também é compensada pelo retorno mais atrativo.
A melhor opção para manter a relação risco vs retorno é não parar de investir em momentos de risco – obviamente escolhendo bons investimentos e seguindo sempre os percentuais recomendados.
Minerva Foods (BEEF3): resultados surpreendentes e Ebitda recorde
Antes de finalizarmos o relatório de hoje, trazemos um breve comentário sobre o resultado do terceiro trimestre de 2021 da Minerva Foods.
Mesmo com o cenário de aumento de preço da carne bovina e diminuição da exportação de carne brasileira, a Minerva registrou lucro líquido de R$ 72,4 milhões no 3T21, um aumento de 24% quando comparado com mesmo período de 2020.
O Ebitda alcançou o recorde R$ 648,1 milhões, avanço de 16,9% se comparado ao 3T20. A receita líquida cresceu 43,4% no período e atingiu R$ 7,368 bilhões.
Na divulgação dos resultados, a empresa mais uma vez reforçou a responsabilidade da gestão em alongar o perfil da dívida e reduzir o seu custo. O diretor financeiro e de Relações com Investidores, Edison Ticle, lembrou que o caixa acumulado pela empresa está sendo utilizado para recomprar dívidas, com parte das obrigações emitidas pela companhia sendo recompradas a preços mais atrativos.
A Minerva também anunciou a distribuição de dividendos no valor de R$ 200 milhões, ou R$ 0,35 por ação, ou seja, 45% do lucro acumulado nos primeiros nove meses de 2021. Utilizando os valores de fechamento do mês de outubro, equivale a um dividend yield de aproximadamente 12% em 2021.
Quando recomendamos a Minerva, deixamos claro se tratar de uma empresa cíclica. Nossa recomendação continua de compra para BEEF3 para aproveitarmos os pagamentos de dividendos e o momento positivo da indústria bovina.
Conclusão
Muitas vezes, alguns meses ou períodos parecem ser tão desafiadores para nossos investimentos que ficamos tentados a parar de investir ou a escolher opções mais conservadoras, para tentarmos passar ilesos por esses períodos.
No entanto, vimos que na verdade essa estratégia penaliza o resultado de quem investe e não muda o percentual de períodos positivos quando comparado a um investimento no CDI.
Na semana que vem, incluiremos nessa análise os períodos que apresentam riscos de mercado mais elevados, e se historicamente eles são bons para elevação de aportes em ativos de maior risco.
Um abraço,
Filipe Colus e Gui Cadonhotto