Pense em algumas situações comuns como estas:
- Seu pai pediu para você um dinheiro emprestado, ou
- Você vai pagar o dinheiro que pegou emprestado com sua amiga no fim de semana, ou
- Você vai fazer a compra de um produto via transferência bancária.
Daí, você preenche todas as informações no aplicativo do banco e, quando nota que a conta de destino não é do mesmo banco que o seu, já sente aquela dorzinha no coração?
Afinal, TEDs realizadas para contas de outro banco normalmente são cobradas, e, em alguns casos, essa tarifa é bem alta.
A conta bancária das franquias que tive era no banco Santander, e a TED nos custava, sem exagero, R$ 10 CADA. Um absurdo!
E isso, vale lembrar, independentemente do valor da transferência que se quisesse fazer.
Se for uma transferência de R$ 20 ou de R$ 5 mil, o valor cobrado vai ser o mesmo, os famosos R$ 10.
Mas essa não é uma taxa exclusiva do Santander. O Itaú, assim como os outros grandes bancos, tem grande parte de suas receitas advindas justamente dessas transações, e, posso te falar? Isso não é pouca coisa. Mas os serviços do banco vão muito, muito além da conta-corrente. Dê uma olhada na imagem a seguir:
Fonte: Itaú Unibanco
Além dos serviços oferecidos e cobrados (muito bem, diga-se de passagem) pelo uso da conta-corrente, o Itaú também oferece uma gama ampla de crédito em diversos nichos para seus clientes, e, claro, seguros: seguro de cartão, de vida, imobiliário e por aí vai. Tem até seguro para o seu celular... Enfim, a gama é bem ampla.
Sobre o Itaú: o banco em números
O Itaú Unibanco (nome e sobrenome) é o maior banco privado do país, com valor de mercado de R$ 220 bilhões.
Apesar de ser o maior banco do país, o Itaú atua em 18 países – não com todas as funções completas em todos os territórios, mas atende 18 países com algum serviço financeiro.
O resultado do banco no segundo trimestre de 2020 foi de R$ 4 bilhões, uma queda de 40% com relação ao trimestre do ano anterior, percentual semelhante ao dos seus concorrentes diretos.
O Itaú Unibanco conta com nada mais, nada menos do que 97 mil funcionários e mais de 4 mil agências e PABs espalhados pelo Brasil e mundo – é ou não é um gigante? Inclusive os números comprovam isso, quando comparamos em valor de mercado o Itaú Unibanco é o 14º maior banco do mundo!
O Itaú, porém, não é só mais um “rostinho bonito”
Além de ser o maior banco privado no Brasil, é também o mais rentável dentre os outros grandes bancos, ou seja, é o banco que entrega o maior lucro frente ao patrimônio investido, indicador que é conhecido como ROE – ou Retorno sobre o Patrimônio Líquido, em português e sem abreviações.
Em 2019, o ROE do Itaú Unibanco foi de 24%, ou seja, a cada R$ 100 investidos no banco, ele gerava um lucro de R$ 24.
Parece pouco para você?
Pode até parecer, mas o Itaú foi considerado um dos bancos mais rentáveis do mundo pela ótica do ROE. Não só o ele ficou em posição favorável nesse ranking, mas também Santander, Bradesco e até o Banco do Brasil, que, apesar de se tratar de um banco com controle governamental, do ponto de vista global de lucratividade apresenta um bom índice.
Mas a pandemia do novo coronavírus também impactou o resultado do banco neste ano. Dê uma olhada no gráfico abaixo:
Fonte: Itaú Unibanco
O lucro trimestral do Itaú Unibanco girava em torno de R$ 7 bilhões por trimestre, e esse número caiu 40%, indo para níveis próximos de R$ 4 bilhões por trimestre, o que fez com que o ROE do banco saísse de níveis próximos de 24% e para 13%.
Apesar do susto, os indicadores de rentabilidade já voltaram a apontar para uma recuperação no segundo trimestre deste ano.
O fato de possuirmos um oligopólio no setor bancário favorece os bancos já presentes no mercado brasileiro. Desse fato deriva outra pergunta:
As fintechs podem prejudicar os grandes bancos, como o Itaú?
Bom, antes de entrar na questão da nova concorrência, devemos ter em mente que a gestão do Itaú é realizada pelas famílias Moreira Salles, Setúbal e Villela, especialistas em gerir bancos no Brasil, e que vêm entregando um desempenho notável ao longo de vários e vários anos.
Uma característica específica do sistema financeiro brasileiro é a capacidade que ele tem de absorver iniciativas inovadores em seu sistema, ou quando algum sistema ameace uma boa fatia de sua receita.
O Itaú tem um destaque ainda maior quando o assunto é aquisição de participação em empresas emergentes e, claro, concorrentes.
Unibanco, Porto Seguro, BBA e Citibank são alguns exemplos de aquisições já realizadas pelo banco.
Se você ainda não está convencido ou convencida de que a gestão do Itaú tem acertado a mão em suas aquisições, basta lembrar da última.
O Itaú Unibanco comprou 49,90% do capital da XP Investimentos por R$ 6 bilhões.
Será que foi um bom investimento para eles?
Hoje, depois de apenas três anos, essa participação na XP Investimentos está avaliada em mais de R$ 60 bilhões e com potencial e espaço para continuar crescendo, visto que poucos acreditam que o mercado financeiro brasileiro vai parar de crescer, seja em volume de negócios e dinheiro transacionado, seja em número de investidores.
Devo lembrar que apenas 6 milhões de pessoas – nem 3% da população brasileira – têm cadastro no Tesouro Direto, portal do Tesouro Nacional que visa facilitar acesso ao investimento em títulos públicos por investidores pessoa física.
Então, o Itaú pode até estar perdendo receita na parte de plataforma de investimentos, porém, com a aquisição certa, está compensando essa perda de receita de maneira brilhante.
A ameaça já foi a XP. Qual é a de agora?
Vivemos em uma época em que a digitalização dos serviços bancários, ou seja, a oferta dos serviços financeiros feitos exclusivamente por vias digitais ganha cada vez mais adeptos pelo Brasil.
As fintechs – empresas do setor financeiro, mas que são voltadas também para soluções de tecnologia – estão ganhando um espaço que antes era ocupado apenas pelos bancos tradicionais. Uma das vantagens de ter uma conta em um banco digital, por exemplo, são custos mais baixos e serviços cada vez mais replicáveis e escalonáveis, ou seja, com custos relativamente fixos, as fintechs conseguem atingir uma enorme quantidade de pessoas, diluindo os altos custos em tecnologia, até um ponto em que eles fiquem muito baixos.
Essa queda no custo dos serviços por cliente é repassada ao consumidor, que acaba experimentando cada vez mais essas opções de instituições digitais, os cartões de crédito com cashback e as contas-corrente com remuneração diária.
Alguns analistas se preocupam com o futuro do Itaú Unibanco nesse sentido. Eles dizem que a concorrência deve fazer com que a receita desses serviços oferecidos por outros bancos digitais caia de maneira considerável, prejudicando a rentabilidade e o potencial de ganho das ações do maior banco privado brasileiro.
Mas eu não concordo com esse cenário.
Primeiro, porque o Itaú possui dinheiro suficiente para adquirir um banco digital em plena expansão e que, por acaso, o esteja realmente incomodando. E isso pode ser feito com o lucro de poucos ou apenas um trimestre.
Segundo, que a digitalização dos serviços financeiros também está sendo implementada pelo banco. Cada vez mais o Itaú Unibanco passa por um processo de migração do atendimento por agências físicas para focar seus esforços em soluções digitais; portanto, o avanço em termos de custos e tecnologia oferecida ao cliente pode muito bem ser inserido nos serviços ofertados pelo banco.
E, terceiro, mesmo que reduzíssemos a receita do Itaú com serviços para o setor do varejo, que seria a área mais afetada pelos bancos digitais, em 70%, ou seja, se cortássemos em mais da metade o ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) do banco, iria para 19%, vindo de 22% no último trimestre, uma queda modesta e que ainda deixaria o banco em um patamar elevadíssimo para o indicador.
Em quarto e último lugar, mesmo com o avanço das fintechs nos últimos semestres, a receita em serviços para o setor de varejo cresceu 3,4% no primeiro semestre de 2020 se comparado com o primeiro semestre de 2019.
Em resumo, não há dúvida de que o Itaú Unibanco foi e deve continuar sendo uma máquina de gerar dinheiro. Porém, devemos analisar o papel do banco em três quesitos antes de incluí-lo em nossa carteira:
1. Potencial de valorização, perspectiva de pagamento de dividendos e comportamento do preço nos últimos meses
Para falar do potencial de valorização do ativo no médio e longo prazo, vamos usar um modelo já utilizado há algum tempo por analistas na hora de calcular o preço justo das ações de bancos.
Trata-se do Modelo de Gordon, que utiliza basicamente os dividendos pagos pelo banco ao longo dos últimos meses para projetar um preço justo para o preço das ações, com base também, claro, em lucratividade para os próximos anos, juros no Brasil e também crescimento da economia brasileira.
Dito isso, em um cenário otimista, em que consideramos uma taxa de crescimento do negócio de 5% ao ano, um ROE de 15% no longo prazo e uma taxa de juros de longo prazo no Brasil em 7% ao ano, temos um preço-alvo para a ação de R$ 29.
Isso indica um potencial de retorno de quase 30% sobre os preços atuais.
No cenário pessimista, em que o ROE do banco no longo prazo cairia para 10% e o crescimento do negócio seria de 2,5%, o preço-alvo iria para R$ 21,33.
Isso significa uma queda de aproximadamente 7% no preço da ação em relação aos níveis atuais.
Basicamente, estamos dizendo que, em um cenário otimista, o seu potencial de ganho é de quase 30% e, em um cenário pessimista, as perdas são estimadas em 7%.
Isso é o que eu chamo de assimetria positiva para quem investe na ação, ou seja, o resultado esperado dessa operação é positivo.
Se o investidor ou a investidora entrar em operações em que as assimetrias estejam ao seu favor, assim como nesse cenário, o resultado no longo prazo tende a ser muito favorável.
2. Pagamento de dividendos
O Itaú Unibanco vem sendo cada dia mais reconhecido como um bom pagador de dividendos. E isso tem se mostrado em seus indicadores, cada vez mais positivos nesse sentido.
O payout, que é o indicador que nos mostra qual percentual do lucro do banco vai ser distribuído aos seus acionistas, saiu de 53% há alguns anos e chegou a 83% em 2017.
Em 2019, esse número chegou a 66,2%, o que significou um Dividend Yield (Taxa de Dividendo) de 5,5% aos acionistas, ou seja, a cada R$ 100 investidos no ano de 2019 em Itaú Unibanco, o investidor recebeu R$ 5,5 de lucro na sua conta, isso sem considerar a oscilação no preço desse ativo.
Para verificar o potencial da nossa mesada, devemos observar justamente essa perspectiva de Dividend Yield para o ano posterior. No caso do Itaú, a perspectiva é que essa taxa de dividendo permaneça estável no ano de 2021, ou seja, continue pagando uma taxa atrativa de lucro.
3. Comportamento do preço nos últimos meses
Com a crise do novo coronavírus, o preço de ITUB4 (a ação do Itaú Unibanco) caiu de maneira semelhante ao Ibovespa. Porém, depois do pior momento, em meados de março, no movimento de recuperação do preço das ações no Brasil, o setor bancário ainda ficou para trás.
Esse atraso se deu, em minha visão, principalmente pela possibilidade da ampliação de uma forte concorrência, em especial no setor digital, nos próximos meses.
Essa diferença fez com que o preço das ações do Itaú Unibanco subisse apenas 14% desde o pior momento em março até o fim de setembro, enquanto o Ibovespa subiu mais de 50% no mesmo período, como ilustra o gráfico abaixo:
Fonte: Bloomberg
Para o investidor entender: Em verde claro temos o índice IBOVESPA que representa o valor da bolsa, levando em considerações todas movimentações de compra e venda. E em branco temos o mesmo indicador, mas apenas para a o ITUB4. Como mencionamos acima, o valor de mercado das ações de ITUB4 não se recuperou da mesma forma que o índice IBOV, isso pode ser notado na direita pela diferença entre a linha verde e branca.
Conclusão
A ação do Itaú Unibanco (ITUB4), portanto, agrega os três principais pontos que olhamos na hora de tomar a decisão de compra de uma ação para nossa carteira: (i) potencial de valorização, (ii) boa perspectiva de pagamento de dividendos e (iii) assimetria positiva entre ganhos e perdas.
Sendo assim, ITUB4 terá uma participação de 5% na carteira da nossa série Renda Total.
Um abraço,