Seguindo com os nossos relatórios de revisão de estimativas e perspectivas setoriais das empresas cujos ativos fazem parte da carteira Renda Total, hoje vamos revisitar o caso da Minerva (BEEF3), uma das maiores produtoras de carne do país.
E, com a ajuda da equipe de análise de ações da Spiti, liderada pela Aline Tavares, vamos revisitar a tese de investimento da empresa, bem como colocar os últimos resultados e calcular o novo preço-alvo para a ação.
Como resultado dessa reavaliação, já antecipamos que continuamos recomendando a COMPRA de BEEF3, que atualmente representa 2,5% da nossa carteira, com novo preço-alvo de R$ 16.
Vamos começar!
Um breve histórico da companhia
A Minerva teve início em 1992, com a aquisição pela família Vilela de Queiroz do Frigorífico Minerva do Brasil, localizado na cidade de Barretos, interior do estado de São Paulo.
Desde então, expandiu seus negócios via crescimento orgânico, principalmente em São Paulo e nos estados da região Centro-oeste do país, e via inorgânica, com uma série de aquisições no Brasil e na América do Sul, sendo a mais importante delas em 2017, na qual a companhia adquiriu as operações da JBS na América do Sul, o que representou um aumento de 52% da capacidade de abate na época.
Em 2018, foi criada a subsidiária Athena Foods, sediada em Santiago no Chile e responsável pelas operações da companhia na América do Sul, excluindo as operações brasileiras que continuaram sob o guarda-chuva da Minerva. No ano seguinte, a companhia constituiu uma joint-venture (uma parceria entre duas empresas já existentes que trabalham com um propósito definido e por tempo limitado, sem que nenhuma delas perca sua identidade) com representantes chineses com o intuito de explorar o mercado da China, principalmente a importação e distribuição de carne bovina, e assim reduzir o número de intermediários, gerando margens e retornos mais elevadas.
No ano de 2020, anunciou a criação de uma área de inovação focada em análise de dados, e-commerce e venture capital (investimento em startups). Nesse mesmo ano, foi anunciado o investimento de US$ 4 milhões na Clara Foods, startup sediada nos Estados Unidos que desenvolve produtos proteicos sem origem animal. Já no ano passado, a Minerva realizou a aquisição de duas plantas na Austrália e atualmente opera com o total de 27 plantas de abate, sendo 25 de bovinos e 2 de ovinos.
Fonte: Minerva
Governança corporativa
A Minerva faz parte do Novo Mercado, o segmento de mais alto nível de governança corporativa das empresas listadas na B3. Aquelas que fazem parte desse nicho garantem aos seus acionistas minoritários um tag along de 100%, o que significa que, em caso de venda do controle da companhia, eles tenham o direito de vender suas ações pelo mesmo preço ofertado ao bloco controlador.
Além disso, de acordo com o regulamento desse segmento, o conselho de administração deve ser composto por no mínimo cinco membros, dos quais 20% devem ser conselheiros independentes.
O bloco controlador da companhia é formado pela Salic UK (Saudi Agricultural and Livestock Investment Company, um fundo soberano da Arábia Saudita) e VDQ Holding, veículo de investimento da família Vilela de Queiroz. O restante das ações estão em free float (ações em circulação).
Fontes: Minerva e Spiti
Atividades da empresa
A Minerva é umas líderes no mercado brasileiro de (i) produção e comercialização de carne bovina in natura; (ii) produtos industrializados de carne bovina, suína e aves; (iii) gado vivo; e (iv) subprodutos (couro beneficiado e miúdos). A empresa é a líder na exportação de carne bovina na América do Sul, com um market share (participação de mercado) de aproximadamente 18%. Em 2020, essas exportações representaram cerca de 67% da receita bruta total da companhia.
É importante destacar que a Minerva compra gado de mais de 25 mil criadores nos países onde possui operação e não desenvolve a atividade de criação desses animais. Além disso, a empresa considera como mercado interno a comercialização de produtos nos países que ela opera e mercado externo os países para os quais ela exporta.
Fontes: Minerva
As plantas de abate de bovinos estão espalhadas geograficamente por cinco países: Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina e Colômbia, o que permite a redução de riscos relacionados a doenças do gado e a barreiras sanitárias e comerciais, como a imposta pela China à carne bovina brasileira no mês de setembro de 2021 após a confirmação de casos atípicos de doença conhecida como “mal da vaca louca”.
O embargo chinês só foi suspenso na metade do mês de dezembro. Além disso, a diversificação geográfica desempenha um papel importante à medida que proporciona uma maior abundância de pastagens ao rebanho e reduz a dependência de grãos e ração, o que torna a produção mais lucrativa.
Ao fim de 2020, as plantas da Minerva tinham uma capacidade diária de abate de 26.180 cabeças de gado e de desossa de 27.800 cabeças de gado.
Fontes: Minerva
Atualmente, a empresa conta com 16 escritórios comerciais localizados em países ao redor do mundo, como China, Estados Unidos, Singapura, Taiwan, Emirados Árabes Unidos e Argélia, de modo a facilitar as exportações de seus produtos que são enviados para aproximadamente cem países.
No mercado interno, oferece o conceito de "one stop shop", que consiste na venda e distribuição de produtos próprios e de terceiros (por exemplo, aves, suínos, peixes, batata frita, vegetais congelados, entre outros) com foco no pequeno e médio varejista, seguindo a estratégia de aumentar a fidelização desses clientes e ampliar a capilaridade de seus produtos.
Além disso, possui duas plantas de processamento de proteínas na Argentina para o atendimento de sua marca própria, a Swift Argentina, e para o fornecimento das principais redes de fast-food no país, como McDonald’s e Burger King. Vale destacar que a Swift é líder no segmento de patês no país.
Vale destacar que a Minerva monitora toda a sua cadeia de suprimentos, verificando se os pecuaristas estão (i) de acordo com as questões ambientais, respeitando as áreas de conservação e terras indígenas; (ii) em conformidade com as leis trabalhistas; e (iii) a regularidade fundiária das terras, verificando o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e documentos de posse.
Panorama setorial
Nas últimas duas décadas, o mercado global de rebanho bovino sofreu uma relevante retração em vários países como Rússia (-34,8%), México (-32,9%), China (-22,6%), Canadá (-18,1%), Austrália (-17,0%), União Europeia (-9,3%) e Estados Unidos (-3,8%). Já na América do Sul, nesse mesmo período, houve um movimento contrário e os países apresentaram uma forte expansão em seus rebanhos – Brasil (+68,0%), Paraguai (+41,6%), Colômbia (+39,8%), Uruguai (14,6%) e Argentina (+5,3%). No mercado brasileiro, o rebanho passou de 191 milhões de cabeças em 2011 para 244 milhões em 2020, crescimento de aproximadamente 28%.
Fontes: Cepea, USDA e Minerva
De acordo com dados da USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), no período de 2012 a 2020, a exportação mundial de carne bovina na América do Sul apresentou um CAGR (taxa de crescimento anual composta) de 6,9%, enquanto os outros países exportadores tiveram um crescimento de 4,7% – o Brasil em especial teve um CARG de 7,0% no período. Ainda segundo a USDA, 31% do rebanho mundial de bovinos se encontra na Índia, 25% no Brasil e o restante distribuído em pequenas participações ao redor do mundo.
Fontes: Minerva e USDA
Um dado interessante para a empresa é que atualmente as exportações de carne bovina do Brasil representam 24% do mercado global e, ao longo dos anos, houve uma grande concentração no mercado brasileiro de exportação, visto que, em 2007, 11 grandes players foram responsáveis por 70% das exportações e em 2019 apenas três grandes players responderam por 85% das exportações do país. Além disso, em 2007 cerca de 46% da receita total de exportação brasileira da Minerva tinham como destino Rússia e Venezuela e, em 2020, 54% eram destinadas a China e 11% a Hong Kong.
O Brasil acessa cerca de 70% a 80% da demanda mundial de carne bovina e a expectativa da companhia é de que nós próximos anos o país possa adentrar em novos mercados consumidores como Japão, Canadá, México e Coreia do Sul.
Fontes: Secex e Minerva
Um fator determinante para o aumento de demanda de carne bovina na China nos últimos anos foi a evolução da classe média no continente asiático, que, de acordo com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), saiu de 525 milhões de pessoas em 2009 para 1,7 bilhão de pessoas em 2020, com expectativa de alcançar 3,2 bilhões em 2030.
Devido a essa crescente demanda, a China, que basicamente só importava cortes dianteiros de carne bovina (pedaços, bifes, paleta, costelas e peito) e tripas, começou a importar também cortes posteriores, adentrando no mercado de produtos premium, com preços e margens mais elevadas.
Fontes: OCDE e Minerva
Em relação à América do Sul, as perspectivas são muito positivas para o setor, visto que, aproximadamente 40% da exportação global de carne bovina advém da região, que está conseguindo expandir seu mercado consumidor através do acesso a novos mercados como a Indonésia e as aberturas dos Estados Unidos para a carne argentina e do Japão para a uruguaia.
As principais vantagens dos gados criados na América do Sul em relação aos concorrentes são que: (i) mais de 90% é criado a pasto, o que reduz a dependência de grãos; (ii) o uso de hormônios é proibido; (iii) as condições climáticas da região são amenas e abundantes em recursos naturais, como água e terra; e (iv) há grande oferta de mão de obra.
Perspectivas para a companhia
Ao fim do terceiro trimestre de 2021, as unidades localizadas no Brasil foram responsáveis por 38% da receita bruta da companhia, a Athena Foods, por 56% e as duas unidades localizadas na Austrália, por 6%. Na divisão Brasil, 36,6% da receita bruta foi proveniente do mercado interno e 63,4% do mercado externo, enquanto na Athena Foods, 23,7% foi mercado interno e 76,3% mercado externo. Já na divisão trading (Austrália), 67,5% da receita bruta foi referente ao mercado interno e 32,5% do mercado externo.
Fonte: Minerva
Um ponto de destaque importante em relação ao mercado interno foi o crescimento do segmento de Food Service (restaurantes, bares, lanchonetes, churrascarias, entre outros) que representou cerca de 51% da receita bruta no ano de 2019.
Fonte: Minerva
No mercado externo, o grande destaque e o foco principal da Minerva são as exportações para países emergentes do continente asiático, como China, Singapura e Hong Kong, que na composição de receita bruta das exportações da divisão Brasil passaram de 56% nos últimos 12 meses encerrados em setembro de 2020 para 63% no mesmo período em 2021. Na divisão Athena Foods, a participação da Ásia se manteve constante em 37%. Outro destaque da atividade de exportação é o mercado de nicho, representado pelo crescimento da exportação de carne orgânica para EUA e países do continente europeu.
Fonte: Minerva
Abaixo segue uma tabela detalhada com os mercados consumidores a que a Minerva tem acesso e as plantas que podem exportar para os países importadores. Vale ressaltar que o (*) se refere a milhões de toneladas somando carne fresca, congelada e refrigerada no ano de 2020.
Fontes: Minerva e USDA
No primeiro semestre de 2022, a companhia deve se beneficiar com o cenário positivo para o ciclo de gado no Brasil, o que significa um aumento na oferta de animais seguida de uma queda dos preços, o que faz com que a Minerva alcance margens de rentabilidade mais elevadas, uma vez que ela adquire gado de pecuaristas a preços mais baixos. Em 2020, a aquisição de gado representou entre 75% e 85% do custo de produtos vendidos da empresa.
Fonte: Minerva
Vale ressaltar também que, em relação à compra de gado pelos frigoríficos, uma variável muito importante a ser considerada é a sazonalidade, uma vez que nas épocas mais secas e frias do ano há uma diminuição do volume e da qualidade dos pastos, o que resulta em uma menor oferta de gados no mercado. Esse é conhecido como o período entressafra e é geralmente o período em que os preços das carnes bovinas atingem maiores patamares.
Riscos para a tese de investimentos
Certamente um dos maiores riscos para a atividade da companhia é o preço de aquisição de matérias-primas, sendo o mais relevante deles os preços do gado e o venda de seus produtos no mercado. A empresa possui pouco ou nenhum controle sobre esses preços, que podem ser afetados por condições de oferta e demanda desfavoráveis, condições meteorológicas atípicas, como períodos de seca prolongados, surtos de doenças como febre aftosa e “mal da vaca louca”, entre outros.
Outro grande risco é a alta competitividade da indústria de carne, segmento que naturalmente opera com margens menores de rentabilidade. Além da Minerva, os principais players no mercado brasileiro são JBS e Marfrig; no Paraguai, o Frigorífico Concepción, ArreBee e Quickfood; na Argentina, a Marfrig; e, na Colômbia, a empresa Alimentos Carnicos. No mercado internacional, a companhia compete com diversos produtores, incluindo empresas com sede nos Estados Unidos, como JBS, Tyson Foods e National Beef (Marfrig), e na Austrália, como Australian Meat, Teys Bros Pty e Nippon Meat Packers. A concorrência existe tanto na compra de gado, suínos e frangos, quanto na venda de produtos.
Vamos às projeções e revisões de estimativas
Em relação ao cenário macroeconômico, atualizamos o modelo de precificação levando em consideração o ciclo de elevação da taxa Selic. Veja a seguir o resultado da nossa projeção para a empresa para os próximos anos:
Fonte: Spiti
Sendo assim, reiteramos nossa recomendação de compra para BEEF3, com novo preço-alvo de R$ 16.
Conclusão
Continuamos muito positivos com a tese de investimentos em Minerva (BEEF3) pela importante participação de mercado que a América do Sul alcançou nos últimos anos. O fato de a China estar modificando seus hábitos de consumo de forma estrutural, elevando seu consumo de proteína bovina, que os chineses consideram ser mais saudável em relação à carne de aves e suína, também é uma variável muito positiva para nossa tese.
Desde que adicionamos BEEF3 na carteira Renda Total, mencionamos que a Austrália estava passando por problemas ambientais que impactavam seu rebanho. Pois bem, devido à forte seca no país nos últimos dois anos, seu rebanho bovino atingiu o menor patamar em 30 anos. Além disso, a carne australiana se tornou menos competitiva do que a brasileira devido à forte valorização do dólar perante o real.
Ou seja, temos o país com a maior população (China) aumentando seu consumo de carne e o rebanho em um dos maiores países exportadores de carne bovina, a Austrália, no seu menor patamar em 30 anos. Essa assimetria positiva de fatores globais beneficia positivamente a tese de investimento na companhia.
Outro dado importante é que a empresa entregou no ano de 2021 dividendos de 10,18%, e a previsão do mercado para 2022 é de 4,64%. Mesmo com um balanço de assimetrias pendendo positivamente para o setor (uma matriz produtiva advinda de diversos países, o rebanho da Austrália no menor patamar em 30 anos, o real fraco ante o dólar, o mercado chinês aumentando seu consumo de carne bovina e o histórico operacional da empresa), BEEF3 vai continuar representando 2,5% da carteira Renda Total com seu novo preço-alvo de R$ 16.
Um abraço,
Filipe Colus e Gui Cadonhotto