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Minerva Foods (BEEF3): uma recomendação com o olhar para o médio prazo da carteira

Escrito por Fillipe Colus, Guilherme Cadonhotto, Luciana Seabra em RENDA TOTAL

7 min de leitura

No último fim de semana, eu, Fê, e minha família fizemos um churrasco para comemorar o sexagésimo aniversário do meu pai. Mesmo por videoconferência, todos os familiares ficavam palpitando sobre qual o método perfeito de preparar uma bela fatia de contrafilé.

Enquanto a discussão acontecia, notei duas coisas quando olhei com mais atenção para a carne que havíamos comprado: (i) o valor da peça, muito maior do que aquele que pagamos na celebração do ano passado; e (ii) a empresa que a produziu, a Minerva Foods (BEEF3), nossa recomendação de hoje e a primeira Small Cap na nossa carteira. Para quem não conhece o termo, Small Caps são empresas com menor valor de mercado, normalmente de até R$ 10 bilhões.

Acompanhamos a Minerva há um bom tempo e gostamos do seu momento atual para expandir nossa posição de ações em carteira. Por isso, vamos explorar alguns fatos sobre a empresa neste relatório e o cenário muito favorável que vemos para a indústria do boi.

Além disso, como o mercado de commodities é cíclico, entendemos que a nossa posição em BEEF3 dificilmente será uma opção para carregarmos por muito tempo. Vemos que a recente performance da empresa abre uma janela para o médio prazo a fim de absorver uma oportunidade interessante no setor.

A indústria bovina

Vamos começar a análise explicando como funciona a indústria do boi e em quais pontas a Minerva opera e obtém lucros.

A empresa é líder no segmento de exportação de carne bovina na América do Sul, na produção e comercialização de carne in natura e seus derivados, na exportação de gado vivo, além de atuar no processamento de carnes com enfoque produtivo no tipo bovina.

As três frentes de atuação da Minerva se concentram na compra, transformação e venda do gado:

Fonte: Minerva

Hoje, a companhia opera 25 plantas de abate de bovinos, sendo dez no Brasil, cinco no Paraguai, cinco na Argentina, três no Uruguai e duas na Colômbia, com capacidade total de abate de aproximadamente 26 mil cabeças de gado por dia.

Esses números tornam a Minerva líder na exportação de carne bovina na América do Sul, com participação de 17% nas exportações de carne bovina in natura do Brasil, 45% do Paraguai, 20% do Uruguai, 14% da Argentina e 84% na Colômbia.

Preço e perspectivas do mercado de carne bovina

Minha impressão na ocasião do churrasco não estava errada: o preço do boi está nos seus níveis mais elevados! O gráfico abaixo mostra o preço por arroba do boi gordo nos últimos anos:

Isso é um fato que pode ser observado em todas as commodities nos últimos anos, e não é só a gente aqui na Spiti que está falando. Instituições como Goldman Sachs, BlackRock, J.P. Morgan e BTG Pactual divulgaram estudos apontando a existência de fatores relevantes que podem ser indícios de que estejamos no início de um novo ciclo de alta para os preços das commodities.

Sem dúvida é um fato crucial para entender os motivos pelos quais gostamos de Minerva. Afinal, se o preço das commodities aumenta, a tendência é que a arroba do boi gordo siga a mesma tendência.

Porém, como vamos explorar mais à frente no relatório, outros fatores mais reclusos nos fazem recomendar BEEF3, sendo um deles o destino mais significante das exportações: a China.

Oferta e demanda globais

Em conversa que tivemos com outros analistas da Spiti e com o próprio setor de Relações com Investidores da Minerva, fica clara a existência de uma assimetria entre oferta (produtores de gado e carne bovina) e demanda (consumidores de carne bovina).

De maneira comedida, a demanda cresce de forma superior à oferta de produção. Isso também fica claro para a United States Department of Agriculture Foreign Agricultural Service (USDA), agência do governo dos Estados Unidos que promove as relações exteriores ligadas ao agronegócio, em um relatório de dados divulgado em janeiro deste ano e que corrobora o fato:

Analisando a produção de carne bovina no mundo, o Brasil fica em primeiro lugar, seguido pela Austrália, que vem sofrendo com problemas ambientais e está com os níveis de seu rebanho em baixa desde 2001 – fato relevante para que os outros produtores sul-americanos aumentem sua participação global.

Aqui, chamo atenção para os Estados Unidos, que ocupam a quarta posição nesse ranking, mas utilizam toda a sua produção para abastecer o mercado interno. Isso implica na necessidade de importar carne bovina para completar essa demanda.

Sobre a Minerva

Produção e exportação

A Minerva é a maior exportadora de carne bovina da América Latina e possui como maior cliente internacional a China, destino de 34% de toda a exportação de sua produção. É um ponto positivo, uma vez que estamos falando de uma megapotência, cuja economia cresceu 2,3% em 2020, mesmo em meio à crise da pandemia do novo coronavírus.

Dois fatores reforçam a exportação de carne da Minerva para a China: (i) a febre suína, que assola a produção de suínos desde 2018; e (ii) o aumento da renda per capita dos chineses, que propicia um aumento do consumo de carne vermelha em países em desenvolvimento.

Sobre o primeiro, a oferta de carne no país tem sido abalada desde 2018 por conta da febre suína que assola a produção de animais do tipo no país, levando a uma queda de 30% da produção de carne de porco por lá:

Fonte: Minerva

Sobre o segundo ponto, diversos estudos apontam correlação entre aumento do consumo de carne e aumento do PIB per capita:

Consumo de Carne vs. PIB per capita

No eixo horizontal, o PIB per capita em dólares e, no eixo vertical, o consumo de carne por pessoa em quilos.Fonte: Our World in Data

No gráfico acima, note que até US$ 5 mil per capita a correlação é quase inexistente ou negativa entre o consumo de carne e o PIB per capita. Mas, a partir desse montante, vemos que a correlação é positiva, ou seja, quanto maior o PIB per capita, maior o consumo de carne bovina no país. Esse fato, associado ao crescimento do maior destino das exportações da Minerva, melhora ainda mais as perspectivas de receita para a companhia:

PIB per capita Chinês (em milhares de US$)

Fonte: Our World in Data

A tendência positiva do aumento do PIB per capita chinês fortalece mais ainda a tese de que a receita em dólares proveniente das exportações para a China continuará aumentando – o que é ótimo para os produtores que vendem carne bovina para fora.

"China deve continuar o maior consumidor de carne bovina"Fonte: Euromeat

Um outro ponto que indica que a Minerva tem capacidade de aumentar a sua produção e atender a um aumento da demanda chinesa ou global é a sua utilização de capacidade instalada, que permanece em 70%.

Capacidade produtiva utilizada

Fonte: Minerva

Receita e dívida em dólar

Devido à sua grande participação global como maior exportadora de carne da América do Sul, aproximadamente 70% da receita da Minerva vem do exterior, um fato extremamente relevante e que auxiliou a empresa a passar pelos momentos difíceis da crise pandêmica. Mais importante que isso é a adequação do nível de proteção financeira empregado pela empresa, uma vez que 78% de sua dívida também está atrelada ao dólar.

Em conversa com o head de Relações com Investidores da companhia, Danilo Cabrera atribuiu a boa performance financeira à otimização da política de hedge cambial (proteção contra oscilações cambiais), que vem sendo atualizada desde 2018.

Resultado operacional e fluxo de caixa

O resultado do ano de 2020 foi acima do esperado e, mesmo vendendo menos toneladas de carne em comparação ao ano anterior, a Minerva obteve um aumento de 13% em sua receita líquida quando comparada com 2019.

Receita líquida

Fonte: Minerva

Além disso, é possível notar que esse avanço de receita também foi acompanhado de um aumento do Ebitda e um aumento considerável da geração de caixa para a empresa:

Fontes: Minerva e Spiti

Esses bons resultados geraram alguns efeitos diretos na empresa. Um deles foi a diminuição da alavancagem da Minerva, o que diminuiu sua dívida líquida.

Um dos indicadores utilizados para mostrar o endividamento de uma empresa, a dívida líquida por Ebitda ajustado, terminou o ano em níveis melhores do que aqueles apresentados no começo de 2020, batendo a marca de 2,4:

Além disso, a companhia encerrou o ano de 2020 com a melhora de sua nota de risco de crédito fornecido pelas maiores agências internacionais, Fitch e S&P. Isso foi possível, de acordo com a avaliação, devido principalmente ao fortalecimento de suas receitas ao longo do ano passado.

Com uma dívida de duration média de 4,8 anos, o cronograma de amortização e pagamento de encargos financeiros também continua dentro do caixa atual com certa folga:

Dividend Yield estimado

Com o resultado de 2020, a Minerva divulgou que está em tramitação, ou seja, ainda não foi deliberado pelo conselho administrativo da empresa, o pagamento de R$ 384,3 milhões em dividendos. Nos níveis atuais, isso corresponde a R$ 0,73 por ação, o que implica num cálculo de taxa de dividendos de aproximadamente 11% quando comparada ao valor da ação no ano de 2020.

Preço-alvo

Munidos das projeções para os próximos anos para o mercado de carne bovina e o atual nível produtivo, o preço-alvo calculado – com auxílio do Renato Chanes, analista responsável pela série Small Caps – foi de R$ 15,50.

Esse valor mostra uma valorização potencial de 48% quando comparado com a cotação atual do último dia 29 de março, no valor de R$ 10,47.

Nossas ações da série Renda Total

Já que estamos adicionando uma nova empresa em nossa carteira, acreditamos ser fundamental falar brevemente da performance das demais ações que compõem a nossa carteira da série Renda Total.

No relatório passado, abordamos que o resultado de março foi sustentado positivamente pela fatia de ações da nossa carteira. Agora trazemos a performance exclusivamente dessa fatia em comparação ao índice de mercado, o Ibovespa. No gráfico a seguir, podemos ver a performance da carteira de ações desde outubro de 2020:

Repare que a nossa performance foi acima da do mercado durante todo o período e, quando contabilizamos o pagamento de dividendos, notamos a rentabilidade em patamares superiores.

Conclusão

Como mencionamos no início deste relatório, a nossa visão para a Minerva (BEEF3) é uma oportunidade no setor agrícola para o médio prazo, sendo que alguns fatores fortalecem nossa visão para a empresa:

  • Ótimos resultados financeiro e operacional em 2020;
  • Liquidez e endividamento adequados;
  • Possibilidade de aumentar participação no mercado global;
  • Indícios de aumento de exportação de bovinos para a China;
  • Geração de caixa que possibilita pagamento de dividendos.

Assim, a nossa recomendação atual é de alocar 2,5% da carteira em BEEF3. Vamos acompanhar de perto os primeiros resultados operacionais de 2021 e também sua performance a partir de agora. Caso seja necessário, faremos ajustes e traremos aqui para você.

Um abraço,

Filipe Colus e Gui Cadonhotto

Sobre os analistas

Fillipe Colus

É especialista em renda fixa da Spiti, bacharel em Engenharia Mecânica e especialista em Finanças. Auxiliou mais de 15 empresas com recomendações financeiras e operacionais em dois anos de consultoria estratégia e trabalhou na KPMG, ao lado de executivos e diretores de empresas líderes de segmentos, bem como no mercado público, auxiliando órgãos federais. Acredita que conhecimento bom deve ser repassado de uma forma simples e direta. Por isso, adora falar de finanças para quebrar tabus, e faz isso até nas horas vagas.

Guilherme Cadonhotto

Sócio

Além de estrategista-chefe da Finclass, Guilherme Cadonhotto é reconhecido como uma das principais autoridades brasileiras em renda fixa, ensinando seus assinantes e seguidores como conseguir, investindo em renda fixa, rendimentos tão grandes (ou até maiores) que os das ações.

Luciana Seabra

Fundadora

Fundadora da Spiti, uma das maiores casas de análise do Brasil, Luciana Seabra é reconhecida por sua abordagem clara e acessível para explicar assuntos complexos relacionados ao mundo financeiro para o público em geral.