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Mudança nas ações do Spiti One: retirada de BTG Pactual (BPAC11) e adição de Banco do Brasil (BBAS3)

Escrito por Leandro Siqueira, Rodrigo Xavier em AÇÕES

19 min de leitura

Neste relatório, apresentamos os motivos pelos quais retiramos BTG Pactual (BPAC11) da nossa lista de ações recomendadas e decidimos colocar o Banco do Brasil (BBSA3) no seu lugar.

BTG Pactual (BPAC11): tudo que cresce tem preço

Fonte: BTG Pactual

Em janeiro de 2022, anunciamos a recomendação de compra do banco BTG Pactual (BPAC11) na série O Melhor da Bolsa. Na época, as ações da empresa eram negociadas a R$ 19,80, e nossa tese de investimento se baseava em um gatilho muito claro: a perspectiva de crescimento do banco.

De lá pra cá, as nossas expectativas se confirmaram. Já no ano de 2022, a receita do BTG cresceu 24%, mesmo tendo sido impactada pela fraude da Americanas e pelo desaquecimento do mercado de capitais. 

Para entendermos isso melhor, precisamos dar uma olhada nos segmentos em que o banco atua. 

O primeiro segmento de atuação é o Investment Banking. Nele, o banco realiza a coordenação, colocação e assessoria em ofertas de títulos de dívida e ações, e também a assessoria em fusões e aquisições (M&As) de empresas. Em 2022, com o desaquecimento do mercado de ações, a receita desse segmento caiu cerca de 20%.

Outro segmento que sofreu foi o de Corporate & SME Lending, que consiste em empréstimos a empresas. O crescimento de apenas 5% nas receitas desse setor em 2022 foi causado pela provisão para o empréstimo à Americanas e pela subida da taxa de juros, que de forma geral afetou a capacidade de pagamento das empresas, principalmente as pequenas e médias.

Por outro lado, os outros segmentos de atuação cresceram de forma bastante expressiva, em linha com o observado nos anos anteriores. Com Sales & Trading, o crescimento de receita foi de 24%; com o segmento de gestão de ativos, chamado de Asset Management, de 31%; no de gestão de grandes fortunas, chamado de Wealth Management & Consumer Banking, foi ainda maior, de 66%.

No geral, em 2022, a receita do BTG cresceu 24%. Quando tiramos da conta o impacto dos eventos extraordinários, esse crescimento é ainda maior. Prova disso foi o bom crescimento da receita no primeiro trimestre deste ano. Só o segmento de Corporate & SME Lending apresentou uma receita de R$ 1,19 bilhão, quase a metade do R$ 1,74 bilhão de 2022. 

A nossa projeção é de que, em 2023, a receita total do banco seja 24% maior que a de 2022, ficando na casa dos R$ 21 bilhões. Porém, caso o mercado de capitais volte a se aquecer e o número de emissões cresça, essa receita pode atingir a marca dos R$ 23 bilhões.

Mesmo quando deixamos de lado a receita e focamos no resultado do banco, representado pelo lucro líquido, percebemos que nossas expectativas também se confirmaram. Em 2022, o lucro cresceu 24%. Para 2023, acreditamos num crescimento do lucro entre 28% e 30%.

Ao saber que nossas expectativas foram satisfeitas, você deve estar se perguntando o que mudou a ponto de retirarmos BPAC11 da carteira. A resposta é simples: o preço. Se, em janeiro de 2022, as ações eram negociadas a R$ 19,90, hoje elas já são cotadas próximas dos R$ 29. Nesses 15 meses que nos separam da primeira recomendação, o mercado não só enxergou o potencial de crescimento do banco, como também o precificou.

No nosso modelo de valuation, mantendo nossas expectativas, a receita cresceria para próximo de R$ 79 bilhões em 2033, e o lucro, para R$ 40 bilhões. É um crescimento médio anual de 15% da receita e de 16% do lucro. 

O otimismo fica ainda mais visível na nossa projeção de dividendos. Projetamos que já em 2023 será distribuído cerca de R$ 1 por ação em dividendos. Em 2033, esse valor será próximo de R$ 7,40, ou seja, um crescimento médio anual de 25%.

Mesmo com esse “otimismo” no nosso modelo de valuation, o preço justo de BPAC11 não justifica a manutenção dessa ação na carteira. Pelo contrário, o preço justo encontrado é de R$ 27,62, a taxa interna de retorno (TIR) é de apenas 17,31%, e o preço-teto fica em R$ 22,85. Como dissemos, o mercado já precificou o potencial de crescimento do BTG.

Na verdade, um potencial de lucro só aparece quando utilizamos um custo de capital próprio de 17,12% ou inferior. Para esse custo de capital acontecer, a taxa de juros da economia teria que cair para próximo de 8,50%, um cenário bem distante da realidade atual.

Considerando o custo de capital atual, para justificar uma compra próxima de R$ 29, o BTG teria que crescer um nível considerável acima das nossas expectativas. Não tem para onde fugir. Qualquer caminho que busquemos nos mostra que BPAC11 tornou-se mais cara. Afinal, se tudo que é bom tem preço, tudo que cresce também tem. 

Fonte: Spiti

Outra forma de analisarmos o quão caro o BTG Pactual se tornou é através da análise de múltiplos de preço. Embora sejamos céticos quanto aos múltiplos, para alguns setores, como o de bancos, essa análise faz mais sentido.

Quando comparamos o BTG aos outros grandes bancos listados em Bolsa, notamos de forma muito clara que ele é o que apresenta os múltiplos mais caros. Primeiro, é o banco com a maior relação entre preço e lucro, sendo negociado a 14 vezes o seu lucro. Depois, é aquele que possui a maior relação entre preço e valor patrimonial, tendo seu valor de mercado mais de 2,5 vezes maior que o patrimonial. Por fim, é o banco com menor relação entre dividendos distribuídos e preço, com dividend yield (DY) de pouco mais de 2%.

De forma geral, a análise de múltiplos nos mostra que o Banco do Brasil (BBAS3) é o banco de maior desconto. Não à toa passa a integrar nossas carteiras a partir de hoje, como veremos mais adiante no relatório. Depois do BTG, o que aparece com os múltiplos mais esticados é o Itaú (ITUB4), mas a uma distância considerável. 

Além de toda essa distância, o Itaú ainda apresenta um nível de retorno sobre o capital próprio superior ao do BTG. Não há motivos nem racionalidade que justifiquem a manutenção do investimento em BPAC11 ao preço atual.

Portanto, considerando que existem oportunidades mais claras e com maior potencial de lucratividade do que o BTG Pactual na nossa seleção de ativos, optamos por retirar BPAC11 da carteira. 

Caso você tenha ações da empresa, recomendamos a VENDA de BPAC11.

Banco do Brasil (BBAS3): um castelo erguido sobre uma base sólida

O Banco do Brasil (BBAS3) é um conglomerado financeiro que, através de suas controladas, atua, além do segmento bancário, em vários outros, que se mostram valiosas fontes de receitas.

Além disso, no atual cenário macroeconômico desafiador, a carteira de crédito do Banco do Brasil tem cada vez mais se destacado de forma positiva frente aos outros grandes bancos.

Castelos ao vento

O ano era 2011 e, na lista da revista Forbes, um brasileiro chamado Eike Batista, ocupava a oitava colocação no ranking das pessoas mais ricas do mundo. Naquele momento, Eike detinha uma fortuna de aproximadamente US$ 30 bilhões, e, para contar ao mundo a sua trajetória, que ainda era de sucesso, lançou sua autobiografia, chamada O X da Questão.

Fonte: Divulgação

A ideia do empresário era criar um conglomerado em que cada empresa integrante oferecesse algum tipo de serviço ou produto para outra empresa do grupo, a chamada visão 360º. Sua marca registrada era sempre a letra “X” ao final da nomenclatura de cada empresa, para simbolizar um potencial de multiplicação.

Nessa toada, Eike criou o grupo EBX, que, por sua vez, controlava a OGX, empresa do setor de óleo e gás natural, a LLX, do setor de logística, a CCX, do setor de carvão mineral, a MMX, mineradora, a MPX, de energia, a OSX, da indústria naval, e por aí vai. A lista era longa.

Só que a queda de Eike conseguiu ser ainda mais rápida do que sua ascensão. Logo nos anos seguintes, seu conglomerado desabou, algumas empresas mudaram de controle e outras simplesmente faliram. Pior que o destino do grupo EBX foi o do próprio empresário. Acusado de uma série de crimes financeiros, Eike teve sua prisão decretada em 2017 e permanece preso até hoje.

De nascimento promissor, o livro acabou se tornando um meme. Aos vencedores, as batatas, e aos perdedores, a opinião popular.

Esses dez anos que nos separam da queda de Eike nos deixaram lições. Na verdade, mais do que lições, esse tempo serviu para escancarar como, apesar dos pesares, o investidor médio insiste em tentar construir castelos no ar.

A teoria do castelo no ar, elaborada em 1936 por John Keynes, um dos maiores economistas da história, defendia que os investidores não deveriam perder seu precioso tempo tentando encontrar o valor intrínseco (ou valor justo) de uma ação. Para ele, o caminho mais simples era identificar como a multidão de investidores se comportaria no futuro, e aí, se antecipar ao movimento.

Simples, não é? Uma pena que não funciona.

E não é que ela não funcionou apenas uma vez. As tentativas de se construir castelos no ar são corriqueiras na história da humanidade e, por vezes, envolveram nações inteiras. Foi assim na febre dos bulbos de tulipa na Holanda da década de 1630, na bolha dos mares do Sul em 1711, na bolha imobiliária dos Estados Unidos em 2008, e será assim sempre que a loucura das multidões se sobrepuser à sabedoria das multidões.

Ah, e também foi assim com as empresas de Eike Batista. Por exemplo, a principal empresa do grupo, a petroleira OGX, nos dois primeiros anos de negociação em Bolsa, viu suas ações passarem de R$ 250 para R$ 1.700. Ninguém queria ficar de fora daquela empresa, que mais parecia uma ideia do que um negócio. Naquele momento, não havia razão, apenas psicologia de massa.

Por sorte, de tempos em tempos, uma dessas bolhas estouram para mostrar ao mundo que castelos são construídos em base firme, e não no ar. Diferentemente da teoria do castelo no ar, a teoria da base firme defende que o valor de um ativo deve se basear no fluxo de rendimentos que a empresa será capaz de obter.

Particularmente, eu, Leandro, sou um completo entusiasta da teoria da base firme e do valor intrínseco. E hoje, vou mostrar a vocês como, neste exato momento, um castelo está sendo erguido em base firme, enquanto boa parte dos investidores está ocupada demais olhando para o céu em busca de glamorosos castelos ao vento.

Para contrapor o fracassado xis da questão, vos apresento o B da questão, que, se não é tão glamoroso, tem tudo para ser bem mais bem-sucedido. Vamos nessa?

O B da questão

Se a EBX tinha a OGX, a MMX e a MPX, o Banco do Brasil (BBAS3), ou simplesmente BB, tem o BB-BI, a BB-DTVM, a BB Corretora e, por que não, a BB Seguridade (BBSE3).

As coincidências param por aí. Diferentemente do xis da questão, o "bê" da questão funciona, e muito bem.

O BB usa essas controladas para atuar em segmentos diferentes do segmento de banco comercial, que chamaremos de segmento bancário. Esses outros são os de banco de investimentos, de gestão de recursos de terceiros, meios de pagamentos, seguridades e consórcios.

Primeiramente, vamos dar uma olhadinha nesses outros segmentos e depois focar no segmento bancário.

Banco de investimentos

O Banco do Brasil usa o BB-Banco de Investimentos (BB-BI) para faturar com o segmento de investimentos. Basicamente, o que o BB-BI faz é estruturar ofertas de valores mobiliários e colocá-los no mercado.

Por exemplo, imagine que uma empresa queira realizar uma oferta pública inicial (IPO) na Bolsa de Valores ou emitir debêntures para obter recursos. Em ambos os casos, vai ser necessário contratar um banco de investimentos para estruturar todo o processo. É exatamente isso que o Banco do Brasil faz por meio do BB-BI.

Em 2022, o segmento de investimentos gerou uma receita total de R$ 1,6 bilhão ao BB. É uma receita modesta se comparada aos outros segmentos.

Fonte: Banco do Brasil

Gestão

Outro segmento de atuação do Banco do Brasil é a gestão de recursos de terceiros, realizada pela BB Gestão de Recursos DTVM (BB DTVM), líder do segmento no Brasil. Basicamente, a BB DTVM cria fundos de investimentos, os coloca no mercado e fatura com as taxas de administração, gestão e performance cobradas dos investidores,

A BB DTVM é uma gestora completa e atua em diversos tipos de fundos, como multimercados, renda fixa, ações, fundos imobiliários e fundos exclusivos personalizados de acordo com o perfil do cliente. 

Em 2021, a BB DTVM tinha quase R$ 1,5 trilhão de recursos de terceiros sob sua administração e gestão, o que representava aproximadamente 26% de participação de mercado. Em 2022, a receita desse segmento do BB foi de R$ 3,7 bilhões.

Fonte: Banco do Brasil

Meios de pagamentos

O BB também atua no segmento de meios de pagamento. Nesse segmento, estão incluídos todos os meios que você utiliza no seu dia a dia para realizar transações financeiras que não envolvam dinheiro em espécie. 

Com a popularização do Pix no Brasil, os cartões, tanto de crédito quanto de débito, têm se consolidado como a principal fonte de receita nesse segmento. Funciona assim: sempre que você faz uma compra com seu cartão, a loja que vendeu o produto paga uma comissão para a instituição financeira que emitiu o cartão. Quanto mais pessoas utilizarem o cartão, mais a instituição lucra. 

Em 2021, o Banco do Brasil, por meio do seu cartão Ourocard, deteve uma participação total de mercado de 14,3% nos cartões, com 12,8% de participação no mercado de cartão de crédito e 16,6% de participação no mercado de cartão de débito. No ano de 2022, esse segmento registrou um faturamento de R$ 2,7 bilhões.

Fonte: Banco do Brasil

Seguridade

Com 66% das ações, o Banco do Brasil é o principal acionista da BB Seguridade, uma holding de capital aberto que atua nos segmentos de seguros, previdência, títulos de capitalização e planos odontológicos.

É por meio da BB Seguridade que o Banco do Brasil atua no segmento de seguridade. Além de ser o acionista majoritário, o Banco do Brasil e a BB Seguridade possuem uma parceria de grande sucesso nos últimos tempos.

Dentre as empresas controladas pela BB Seguridade, estão a Brasilseg, a Brasilprev e a Brasildental. Nessa parceria, as empresas da BB Seguridade comercializam seus produtos com exclusividade no canal bancário do Banco do Brasil, por meio da BB Corretora.

A BB Corretora utiliza a estrutura de funcionários e sistemas do Banco do Brasil no processo de distribuição dos produtos das empresas da BB Seguridade e, em troca, recebe uma comissão por cada venda. É importante mencionar que a BB Corretora ressarce o Banco do Brasil pelos custos dessa distribuição, que ocorre tanto nas agências físicas quanto nos canais digitais do banco.

Apesar de fazer o ressarcimento, o fato de poder utilizar a ampla estrutura do Banco do Brasil, que alcança 99,5% dos municípios brasileiros, e ter acesso direto à clientela do banco confere uma enorme vantagem às empresas da BB Seguridade. Tanto é que a BB Seguridade, por meio de suas empresas, é líder nos segmentos de seguro de vida, seguros rurais e planos de previdência, além de ocupar a segunda posição no ranking de títulos de capitalização.

Não é por acaso que o segmento de seguridade é o segundo mais representativo no resultado do Banco do Brasil. Em 2022, esse segmento faturou R$ 8,7 bilhões.

Fonte: Banco do Brasil

Consórcios

E para encerrar os setores de atuação do BB fora do segmento bancário, há também a categoria de "outros segmentos", que teoricamente serviria para agrupar diversos setores, mas na prática é dominada pelos consórcios.

É por meio de outra subsidiária, a BB Consórcios, que o Banco do Brasil atua no segmento de administração de consórcios no país. Um consórcio é uma modalidade de crédito que funciona como um financiamento inverso. Enquanto no financiamento, o cliente toma emprestado o dinheiro para adquirir o bem e, posteriormente, paga com juros, no consórcio ele paga parcelas mensais e só tem acesso ao bem após um determinado período.

Parece incoerente, mas as pessoas aceitam participar de consórcios, pois há chances de serem contempladas com o bem antes de pagarem todas as parcelas, embora tenham de continuar pagando até o final. Além disso, é uma forma de se disciplinarem a criar uma poupança para a “compra” do bem.

A função da BB Consórcios, além de angariar clientes, é administrar todos os recursos que os clientes pagam durante a fase de poupança, que é anterior à aquisição do bem. Em 2021, a BB Consórcios era a terceira maior administradora de consórcios do país.

Em 2022, esse segmento gerou um faturamento de R$ 4,9 bilhões para o BB.

Fonte: Banco do Brasil

Segmento bancário

Como era de se esperar, a maior parte do faturamento do BB vem da sua atuação como banco comercial. Porém, antes de contar quanto ele fatura nesse segmento, preciso explicar o que um banco comercial faz.

Um banco comercial é uma instituição financeira que oferece contas correntes aos seus clientes. E isso resume muita coisa. Ao oferecer esses produtos, o banco (no nosso caso, o BB) pode usar parte desse dinheiro e emprestá-lo a outros clientes. Por isso, dizemos que um banco comercial realiza a intermediação financeira. Ele pega dinheiro dos agentes superavitários e empresta aos deficitários, cobrando um spread entre a taxa que paga e a que cobra.

Se numa indústria têxtil o tecido é a manufatura básica, em um banco comercial, a manufatura básica são os recursos de terceiros que o banco consegue captar. Existem várias formas de captação, e as principais são os depósitos à vista, depósitos a prazo, depósitos de poupança e títulos de renda fixa que o banco emite, como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCA).

Também existem diversas formas para o banco aplicar o dinheiro captado. Ele pode emprestá-lo a empresas ou pessoas físicas, investir em títulos e valores mobiliários, emprestá-lo a outros bancos ou simplesmente deixar parado numa conta lá no Banco Central.

O que define o sucesso ou o fracasso de um banco comercial na atividade de intermediação financeira é a capacidade de pegar dinheiro emprestado pagando pouco e emprestar dinheiro cobrando muito. Mas aqui tem um porém: de nada adiantaria cobrar caro nos empréstimos se, ao final do dia, todo mundo desse um calote no banco. 

Como eu disse, a diferença entre a taxa que ele cobra ao emprestar dinheiro e a que ele paga ao tomar emprestado é chamada de spread. O grande desafio de um banco comercial é conseguir um bom spread com o menor risco de inadimplência possível.

É nesse ponto que o BB nos reserva uma surpresa bem agradável. Dentre os grandes bancos brasileiros de capital aberto, a carteira de crédito do BB é a que apresenta o menor risco. E, dentre essas instituições, ele é o que melhor tem rentabilizado o acionista.

Dados do Banco Central (BC), que consolida ativos e passivos dos bancos brasileiros, mostram que, em dezembro de 2022, a carteira de crédito total do BB já totalizava quase R$ 900 bilhões, sendo a terceira maior do setor, equivalente a 15% de todo o mercado.

O BB divide sua carteira de crédito em pessoa física, pessoa jurídica e agronegócio. Desses R$ 900 bilhões, cerca de R$ 282 bilhões são de crédito a pessoa física, R$ 311 bilhões são de crédito a pessoa jurídica e R$ 280 bilhões de crédito ao agronegócio.

Esses dados do BC mostram também que quase 41% da carteira de crédito da pessoa física do BB é de empréstimos consignados, modalidade em que o banco pode descontar a parcela diretamente do salário do cliente, ou seja, o risco de um calote é muito menor.

Para que você possa ter uma noção, no Brasil, há um total de R$ 590 bilhões em empréstimos consignados, sendo o BB o líder nesse segmento, com R$ 115 bilhões em empréstimos. Isso representa 19,5% do montante total. 

Já a carteira de crédito voltada para pessoa jurídica do BB é a terceira maior do mercado, totalizando R$ 311 bilhões, o que equivale a 12,30% de participação de mercado. 

E para fechar a carteira de crédito do BB, precisamos falar do super trunfo do banco, o agronegócio.

Considerando todas as instituições financeiras do Brasil, o crédito total ao agronegócio é de R$ 540 bilhões, sendo que a carteira de crédito do BB representa sozinha R$ 280,3 bilhões, o que corresponde a 52% do total. Essa tendência é explicada pela atuação do BB como agente financeiro do Tesouro Nacional, juntamente com o BNDES e a Caixa Econômica Federal, sendo o principal instrumento de execução da política de crédito do governo.

O BB atua como agente executor do Plano Plurianual (PPA), um instrumento do governo para promover o desenvolvimento sustentável do país. O BB investe em políticas públicas, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO Rural), o FCO Empresarial, a Concessão de Microcrédito Produtivo Orientado (MPO) e a Concessão de Crédito aos Produtores Rurais. O Pronaf, por exemplo, busca estimular a geração de renda nas propriedades rurais, e o BB investiu R$ 18,4 bilhões nesse programa em 2021, com metas de investimento de R$ 14 bilhões em cada ano para 2022 e 2023,.

Em outras palavras, o governo utiliza o Banco do Brasil para financiar o agronegócio brasileiro. Isso dá ao BB uma grande vantagem frente aos outros bancos, uma vez que o agro consegue crescer mesmo em cenários de crise, ou seja, o risco de inadimplência é menor do que de outros setores.

Enfim, o fato é que, mesmo sendo a carteira com o menor nível de risco, o BB ainda consegue faturar bastante com a intermediação financeira. Só em 2022, o BB conseguiu uma margem financeira líquida de mais de R$ 55 milhões. Essa margem financeira representa o resultado bruto da intermediação financeira, ou seja, pega todos os juros que o BB recebeu, subtrai todos os juros que pagou e também subtrai todas as provisões que teve de realizar para cobrir o rombo de possíveis calotes.

Se somarmos esse resultado bruto de intermediação financeira a todas as receitas dos outros segmentos e também das tarifas que o BB cobra nas contas correntes, o faturamento total do banco em 2022 foi de quase R$ 90 bilhões, crescimento considerável em relação aos últimos anos.

Como vocês vão perceber a seguir, todos os segmentos de atuação do BB, somados à sua excelente carteira de crédito, nos colocam diante de uma ótima oportunidade de investimento.

Venham comigo que vou guiar vocês aos novos preços justos do BB.

Valuation do BB: devagar e sempre

Projeção de receita

O primeiro passo para encontrarmos o preço justo de BBAS3 é projetar as receitas do BB. Primeiro, vamos nos concentrar nas receitas e despesas de juros, para conseguirmos chegar à margem financeira líquida projetada.

Atualmente, o BB possui R$ 1,8 trilhão em ativos rentáveis, que geram juros, e R$ 1,6 trilhão em passivos onerosos, em que o BB paga juros. Mantivemos essa proporção (87,3%) entre passivos onerosos e ativos rentáveis como constante e projetamos os passivos onerosos crescendo como a inflação.

Para projetar a lucratividade dos ativos rentáveis e as despesas dos passivos onerosos, consideramos a projeção da taxa Selic. Depois, projetamos as provisões de crédito para liquidação duvidosa crescendo de acordo com a inflação.

Tudo isso nos levou a projetar para 2023 uma margem financeira líquida de R$ 67 bilhões, o que está em linha com a própria projeção do BB, que é de uma margem financeira mínima de R$ 65 bilhões e máxima de R$ 69 bilhões.

Para as outras linhas de receita, consideramos futuro igual ao crescimento nos últimos oito anos. Com isso, chegamos a uma receita projetada de R$ 34 bilhões em 2023 para essa linha. Essa é uma projeção conservadora, uma vez que a projeção do próprio banco é de R$ 34,5 bilhões.

Projeção das despesas

Para projetar as despesas, consideramos que elas crescerão acompanhando o crescimento das receitas de tarifas e serviços. Portanto, em 2023, chegamos a uma despesa operacional de R$ 41 bilhões, enquanto a gestão do BB projeta que, na pior das hipóteses, essas despesas serão de R$ 37,5 bilhões. Mais uma vez, prezamos pela cautela.

Projeção do lucro líquido

Após a projeção das despesas, basta projetar as despesas com impostos e descontar a parte dos acionistas minoritários para, finalmente, encontrarmos o lucro líquido projetado do Banco do Brasil.

No nosso caso, a projeção que encontramos para 2023 foi de R$ 31,26 bilhões. A gestão do BB, por sua vez, projeta que o lucro líquido em 2023 será de pelo menos R$ 33 bilhões.

Projeção dos dividendos

O último passo para encontrarmos o valor justo de BBAS3 é projetar os dividendos que serão distribuídos por ação. Do lucro líquido total, parte é distribuída como dividendos e parte é reinvestida pelo banco. Esse reinvestimento ocorre pois o BB precisa reinvestir na parte operacional para crescer e também precisa aumentar sua reserva de capital para ficar enquadrado no famoso Índice de Basileia (IB).

Esse índice é uma medida que relaciona o capital próprio de um banco aos ativos ponderados pelo risco. Quanto mais arriscados forem os ativos do banco, maior será o valor dos ativos ponderados pelo risco e maiores deverão ser as reservas de capital do banco.

Dessa forma, o IB determina uma relação mínima entre o capital próprio e os ativos ponderados pelo risco, e é usado para garantir a solidez financeira dos bancos. No Brasil, o índice mínimo exigido é de 11,5%. Isso significa, de um jeito bem simplificado, que a cada R$ 100 que o BB investe, ele precisa ter pelo menos R$ 11,5 de capital próprio.

No Brasil, dentre os grandes bancos, o BB é quem apresenta o maior Índice de Basileia, 16,7%. Essa diferença de mais de 5 pontos percentuais entre o índice mínimo exigido e o atual IB do BB é de grande importância por alguns motivos. Em primeiro lugar, mesmo que a capacidade de pagamento dos clientes piore e o BB precise rebaixar o rating de crédito de sua carteira, o banco ainda estaria longe de enfrentar problemas com a regulamentação.

O segundo motivo, de grande importância para os investidores em busca de renda passiva por meio de dividendos, é que com um IB alto, o BB precisará reter uma menor proporção de seus lucros futuros, permitindo uma maior distribuição de dividendos e possibilitando o crescimento dos mesmos.

Além disso, o principal benefício de ter um Índice de Basileia elevado é que o BB tem margem para aumentar significativamente seus lucros. O banco pode, por exemplo, utilizar parte do capital excedente para conceder empréstimos, o que imediatamente elevaria seu Retorno sobre Patrimônio Líquido (ROE). Outra possibilidade seria renovar sua carteira de ativos, ampliando empréstimos a clientes com classificações de risco mais baixas, que normalmente pagam taxas de juros mais altas devido ao maior risco envolvido.

Enfim, na nossa projeção, consideramos que entre o ano atual e 2033, o Índice de Basileia do BB vai cair lentamente, até atingir os 14,5%. Através do IB projetado, conseguimos encontrar os dividendos projetados para cada ano. Por exemplo, em 2023, 2024 e 2025, projetamos que cerca de R$ 4,48, R$ 5,77 e R$ 5,01 serão distribuídos como dividendos respectivamente.

Por fim, trazendo todos os dividendos a valor presente, encontramos um preço-alvo por ação de BBAS3 de R$ 60,55 e preço-teto de R$ 51,67. A taxa interna de retorno (TIR) de BBAS3 é de 23,70% ao ano.

Na nossa matriz de sensibilidade, no cenário mais pessimista, com crescimento na perpetuidade de apenas 3,07% e custo de capital de 19,79%, ainda assim, encontramos um preço justo de R$ 51,10 para BBAS3.

Diante disso, após rever a tese e o valuation, recomendamos COMPRA de BBAS3. O preço-alvo é de R$ 60,55, e o preço-teto de R$ 51,67.

E como ficam as nossas carteiras recomendadas no Spiti One?

Como mencionado no início deste relatório, recomendamos a venda de BTG Pactual (BPAC11) casada com a compra de Banco do Brasil (BBAS3) no seu lugar, sem nenhum tipo de alteração nos percentuais de nenhuma outra ação das carteiras.

Essa mudança afeta apenas as carteiras com patrimônio acima de R$ 50 mil na execução por ativos.

Apesar de o BTG Pactual ser um banco grande, robusto e bem gerido, chegamos à conclusão de que sua cotação atual está bem precificada pelo mercado e já não garante retornos tão atrativos para o futuro quanto outras opções do setor. Diante disso, vimos no Banco do Brasil uma oportunidade com alto potencial, que já é recomendação antiga da série específica de ações e mantém ótimas oportunidades à frente. Na tabela abaixo, podemos verificar como ficou a nova composição das carteiras após a atualização.

Elaboração: Spiti

Na tabela acima, deixamos marcadas todas as alterações que fizemos até aqui. Foram três trocas e uma retirada com redistribuição dos percentuais em outras ações. Essas mudanças fazem parte do nosso processo de revisão das carteiras do Spiti One em conjunto com as séries O Melhor da Bolsa e Small Caps. Tais análises devem se encerrar no decorrer do mês de julho.

Ficamos por aqui!

Em caso de dúvidas, sugestões ou críticas construtivas sinta-se à vontade para nos contatar pelo e-mail spitione@invistaspiti.com.br.

Abraços,

Leandro Siqueira

Sobre os analistas

Leandro Siqueira

Fundador

É especialista em ações da Spiti e bacharel em Economia pela UFRJ. Atuou na gestão de clube de investimentos e no banco de investimento Modal antes de fundar a plataforma de educação financeira Varos (ex-Edufinance). Hoje, lidera um time de sete analistas CNPI e é apaixonado por mergulhar no dia a dia de negócios das empresas, buscando encontrar oportunidades de crescimento e geração de caixa a preços que sejam uma verdadeira barganha.

Rodrigo Xavier

Analista CNPI, especialista em fundos de investimentos e alocação de ativos da Finclass. Bacharel em economia com pós-graduação em mercados financeiros, iniciou sua trajetória profissional no ano de 2006, em área de orçamento e custos na CDHU (maior agente promotor de moradia popular no Brasil). Passou 13 anos na Anbima, entidade que representa os principais bancos e gestoras de recursos, onde atuou na concepção e construção de bases de dados, elaboração de relatórios estatísticos, participação ativa em fóruns qualificados, entre outros ligados a fundos e distribuição. Desde o ano de 2021 faz parte do nosso time de análise e acredita que a educação financeira pode trazer um impacto extremamente positivo na vida das pessoas, por isso, decidiu dedicar-se ao propósito de auxiliá-las nessa jornada.