Aviso Legal: O documento subsequente é uma produção da Varos, uma casa de análise devidamente habilitada junto à Associação dos Profissionais de Investimento no Mercado de Capitais (APIMEC).
Mudanças na Carteira de Renda e as nuances do mercado
O carnaval passou e fevereiro acabou, ou seja, pela crença popular, quer dizer que o ano “começou”.
Apesar de tudo, desde o nosso último relatório, não tivemos enorme novidades no humor do mercado, além do flerte do Ibovespa com a marca (psicológica) dos 130 mil pontos.
No cenário macro, o evento de maior destaque no último mês foi a divulgação do PIB de 2023. O PIB brasileiro fechou o ano em R$ 10,9 trilhões, um crescimento de 2,9%. O resultado ficou levemente abaixo das estimativas, que indicavam um crescimento de 3%. Pela ótica da oferta, a agropecuária foi o principal motor do indicador, com crescimento de 15,1%. Enquanto isso, serviços e indústria cresceram 2,4% e 1,6% respectivamente. Pela ótica da demanda, o consumo das famílias cresceu 3,1% e o do governo, 1,7%. A formação bruta de capital fixo teve uma retração de 4,4%.
Você já deve ter ouvido que uma análise crua do PIB não adianta muita coisa quando o objetivo é interpretar algo mais profundo como, por exemplo, o bem-estar socioeconômico. Nesse sentido, é preferível olhar o PIB per capita. Esse indicador também acaba tendo algumas limitações, mas é melhor do que o anterior. O PIB per capita alcançou o patamar de R$ 50,1 mil em 2023. Esse valor representou um avanço real de 2,2% contra 2022.
Sobre as interpretações em relação à divulgação do indicador, elas foram mistas. Em termos de PIB per capita, o ano de 2023 pode ter iniciado um ponto de inflexão. Isso porque desde 2014 o PIB per capita vinha com desempenho abaixo do observado pela média mundial, conforme explicado pelo Ipea. Para você ter uma noção, em 2013 o indicador brasileiro estava 6,3% acima da média mundial. Em 2022, ele estava 13,9% abaixo. Nesse ponto de vista, com base no crescimento do PIB mundial projetado pelo FMI, o Instituto estima que o PIB per capita mundial gire em torno de 2,2%. O Brasil voltaria a crescer pelo menos igual ao desempenho mundial no último ano.
Mas os resultados trimestrais merecem atenção. Apesar de ter sido o setor com maior crescimento, a agropecuária apresentou desaceleração no terceiro e quarto trimestre do ano, influenciada pelo El Niño. Quando comparado ao trimestre imediatamente anterior, o agro teve uma retração de 3,3% no 3T e de 5,3% no 4T. Pela forte dependência da atividade, o PIB ficou estável nos dois trimestres, com variação de 0,0% e 0,1% no terceiro e quarto trimestres. A proximidade ao campo negativo preocupa quanto à possibilidade de uma recessão técnica. Essa situação ocorre quando uma economia apresenta dois trimestres consecutivos de queda, e liga um alerta para o futuro da atividade econômica.
Ainda no mercado interno, o IPCA iniciou o ano de 2024 com alta de 0,42% em janeiro, acima do consenso (0,34%). Com isso, a inflação dos últimos doze meses se encontra em 4,51%. O valor ainda ficou um pouco acima do intervalo de tolerância definido pelo CMN, que vai de 1,5% a 4,5%. O IPCA-15, considerado uma prévia do IPCA, teve alta de 0,78% em fevereiro. O indicador foi puxado pelos preços da educação, mas ficou abaixo do consenso projetado, de 0,82%.
No exterior, fevereiro foi um mês sem grandes surpresas. Nos Estados Unidos, o CPI ficou em 0,3% em janeiro. Além disso, a economia americana teve uma expansão de 3,2% no quarto trimestre (taxas anualizadas), fechando o ano com crescimento real do PIB de 2,5% em 2023. A última comunicação do Fed tirou definitivamente do radar a possibilidade de aumentos nas taxas de juros nos próximos meses. Mas também confirmou a dificuldade enfrentada pelo banco central americano em fazer com que a inflação convirja à meta (2%), e finalmente sejam iniciados os cortes nos juros americanos. O primeiro corte é esperado para maio pela maioria dos analistas.
Com tudo isso em nosso radar, hoje soltamos a revisão de nossa Carteira de Renda, focada em dividendos. Porém, como de praxe, vale uma breve e importante reflexão sobre essa estratégia.
Dividendos e a alocação de capital
Existe um livro muito bom chamado “The Outsiders”, escrito por William N. Thorndike Jr, que conta a história de 8 CEOs que ficaram marcados pelas suas abordagens não convencionais, porém eficientes. Esse “não convencional” diz respeito tanto às finanças quanto à gestão e por aí vai.
Além das histórias bem interessantes sobre como uma gestão inovadora pode afetar o retorno das ações, o livro traz lições valiosas sobre alocação de capital. Em bom português: como a diretoria gasta o dinheiro que a empresa faz.
Segundo o autor, basicamente, existem 5 opções de alocação de capital possíveis:
● investir em operações existentes (o tal do reinvestimento);
● comprar outros negócios (o que chamamos de crescimento inorgânico);
● pagar dívidas;
● recomprar ações;
● ou pagar dividendos.
Vamos explicar brevemente cada uma dessas opções.
O reinvestimento é fundamental para toda a empresa, até pelo fato de ser a principal via de crescimento orgânico. Geralmente, esse reinvestimento é medido pelo Capex da empresa e, sim, consideramos isso em nossos métodos de valuation, como já comentamos em relatórios anteriores.
Comprar outros negócios também pode ser uma via interessante. Existem setores onde o crescimento orgânico acaba sendo difícil e a aquisição de concorrentes pode encurtar o caminho para o sucesso.
O pagamento de dívidas também diz muito respeito à política de alavancagem de uma companhia. Existem dois tipos de custo de capital: o próprio (Ke) e o de terceiros (Kd). Para um valuation por DCF, nós realizamos uma média ponderada para encontrar a taxa de desconto dos fluxos de caixa futuros. As dívidas fazem parte do Kd, que muitas vezes possuem um custo menor que o Ke. Além disso, muitas empresas possuem metas de endividamento, então o pagamento de dívidas pode gerar valor por trazer mais saúde para a companhia. Cada caso é um caso.
A recompra é algo que pouco se discute entre os investidores no Brasil, mas que pode gerar muito valor. Basicamente, se a diretoria entende que as ações estão “baratas”, eles compram as ações que estão no mercado e as “guardam” na tesouraria ou para revendê-las ou para efetuar um cancelamento. A revenda é a mesma lógica que nós, investidores comprados, temos: compramos barato e vendemos por um preço maior. Sim! A empresa pode lucrar revendendo as ações dela. O cancelamento tem outra lógica: caso eles entendam que o preço não deve subir, retiram essas ações de circulação. Dessa forma, como existe uma oferta menor de ações (e, teoricamente, a demanda se manteve), o papel tende a se valorizar.
Por fim, a empresa pode distribuir seu capital como dividendos. Ou seja, ao invés de ela “gastar”, distribui a seus acionistas. Nos EUA, como os dividendos são tributados, as empresas consideram essa alocação como “última opção”. Ou seja, só se eles não enxergam retornos maiores nas outras opções. No Brasil, como não há essa tributação e o pagamento de dividendos é obrigatório, segundo a Lei das SA (artigo 202, da lei 6.404/76), o pagamento de dividendos é bem comum e é o foco de nossa carteira. Sempre relembrando que, pelo manual de operações da B3 (a bolsa brasileira), o dividendo sai do preço da ação. Ou seja, se sua ação vale R$ 15 e a empresa anuncia dividendos de R$ 1 por ação, no dia do pagamento, sua ação valerá R$ 14 e você terá R$ 1 indo para sua conta. Dessa forma, a estratégia ideal é reinvestir os dividendos comprando mais papéis das ações recomendadas, para gerar um efeito “bola de neve”.
Como não existe empresa com dinheiro infinito, as diretorias precisam escolher como distribuir a alocação entre essas opções. Cada uma delas tem uma taxa de retorno esperada e, como o foco é gerar valor ao acionista, o ideal é escolher a alocação da forma que maximize esse valor.
Muitas vezes no Brasil, as empresas distribuem dividendos para atrair investidores, mesmo não sendo a melhor forma de alocação de capital no momento. Dessa forma, em nossas análises, nós não nos restringimos à empresas que fazem parte do IDIV (carteira teórica que reúne “as melhores pagadoras de dividendos” da bolsa). Nós analisamos quais possuem as melhores estratégias de alocação e que mantêm um bom índice de pagamento de dividendos (DY, em inglês).
Pois é! Investir em dividendos pode parecer trivial, mas envolve uma grande análise em cima das decisões das empresas em alocação de capital.
Nosso foco na Carteira de Renda é recomendar uma seleção de empresas que, além de pagarem dividendos, possuam potencial de retorno interessante. Não faz sentido comprar uma ação só pelo fato de que ela distribui dividendos, pois caso ela não se valorize, o valor que queremos gerar vai por água abaixo.
Tendo tudo isso em mente, creio que já podemos mostrar nossa atualização na Carteira de Renda!
Carteira de Renda
Saem Itaú, B3, Vivo, Taesa e Minerva
Primeiro, vamos aos motivos das saídas.
Visando convergir a carteira de renda da Finclass com as maiores convicções do nosso time de ações, decidimos adaptar os ativos que enxergamos como as melhores opções para gerar valor.
Itaú e B3 são dois ativos em que não enxergamos um retorno interessante a partir de uma análise prévia. Apesar de o setor bancário ser interessante para dividendos, preferimos outras opções.
Por outro lado, Vivo e Taesa são ações que, nos preços atuais, entendemos que estão caras. Pelo que falamos no texto, em nossa carteira iremos manter ações que possuem um potencial de retorno e que pagam dividendos.
Por fim, Minerva é um case muito complicado por tudo o que aconteceu no ano passado. Por conta da aquisição dos ativos da Marfrig no Brasil, a diretoria anunciou que ficará um tempo sem distribuir dividendos, que era um grande chamariz para a tese. Por conta disso, as ações derreteram. Pelo nosso ponto de vista, é melhor “soltar a mão” e assumir logo este prejuízo, do que segurar na esperança de que ela volte a ficar no zero a zero. Além disso, como dissemos, eles não estão na política de alocação de capital com dividendos.
Com essas saídas, sobram apenas Banco do Brasil e Vale na carteira. Para essas, reiteramos nossa recomendação de COMPRA.
Mas chega de falar de saídas! Vamos comentar um pouco sobre as novas entrantes na Carteira de Renda.
Entram Bradesco, Tegma, Klabin, SLC Agrícola, Kepler Weber, Taurus, Banco ABC
Bradesco
Começamos logo com a grande polêmica do ano! Apesar de muitos torcerem o nariz para BBDC4, nós enxergamos uma grande assimetria e uma fonte interessante de dividendos.
Por conta de decisões ruins de concessão de crédito no meio da pandemia, o Bradesco viu o índice de inadimplência de sua carteira crescer de forma assustadora ao longo dos últimos anos. A inadimplência, que em meados de 2021 chegou a ser de 2,5%, atualmente está na casa dos 5,9%.
Com a deterioração do crédito, o banco se viu obrigado a aumentar suas Provisões para Devedores Duvidosos (PDD). Com a despesa de provisão aumentando, o Lucro Líquido e, consequentemente, a rentabilidade do banco despencaram. O mercado passou a ver o Bradesco como um patinho feio dentre os grandes bancos.
Como tentativa de estancar a sangria, nos últimos trimestres a gestão optou por ser bem mais restritiva na liberação de crédito. Na prática, isso significa que novos créditos foram liberados apenas para linhas com menor risco de inadimplência. Se por um lado isso freou o aumento da inadimplência, nos indicando um ponto de inflexão no 2T23, por outro lado, a carteira de crédito do Bradesco tem crescido num ritmo muito lento.
O que esperamos de BBDC4 é de fato uma recuperação lenta. Para retomar a rentabilidade histórica, o banco vai ter que continuar fazendo a lição de casa por um bom tempo. Até lá, a tendência é que o Bradesco continue crescendo na velocidade de uma tartaruga cansada.
Porém, tudo tem seu preço. O Itaú é um banco com qualidade bastante superior ao Bradesco? Sem dúvidas. Só que nem por isso é mais vantajoso investir no Itaú em detrimento do Bradesco.
Quando embutimos premissas pessimistas no modelo de valuation do BBDC4 encontramos um bom upside e TIR. Ou seja, mesmo num cenário de crescimento vagaroso e lentidão na melhora do perfil da carteira, as ações de BBDC4 apresentam um potencial relevante.
Porém, caso a gestão consiga ser mais eficiente na recuperação do banco, uma assimetria de retornos se forma. Como dissemos, o mercado está precificando o caos. Qualquer coisa diferente disso pode servir como gatilho para as ações no médio prazo.
Outro gatilho interessante é o possível descasamento das taxas dos Ativos Rentáveis e Passivos Onerosos do BBDC4. Quando regredimos a rentabilidade média dos Ativos e a despesa de juros com o Passivos e taxa Selic dos últimos anos, encontramos modelos lineares bastante sugestivos. Sem entrar muito na parte matemática da coisa, podemos perceber que a sensibilidade das despesas de juros à taxa de juros foi muito maior que a sensibilidade da rentabilidade dos Ativos.
Caso esse padrão se repita, é plausível um cenário onde uma queda significativa da taxa de juros alavanque o resultado de BBDC no trimestre. Nesse caso, o caos precificado pelo mercado estaria bem distante e poderia servir como gatilho para as ações do Bradesco.
Por fim, a política de dividendos do Bradesco estipula que ao menos 30% do lucro seja distribuído aos acionistas. Essa distribuição ocorre mensalmente, fazendo jus ao recebimento dos detentores de ações ao final do primeiro dia útil de cada mês.
Na prática, embora o payout mínimo estipulado seja de 30%, esse valor varia ano a ano. Por exemplo, em 2023, o BBDC distribuiu 79% do seu lucro em forma de proventos. Para as ações preferenciais (BBDC4) o dividend yield do Bradesco nos últimos 12 meses foi de 9.9%, patamar que julgamos bom.
Portanto, diante da assimetria de preços e do bom histórico de proventos, recomendamos a COMPRA de BBDC4 a um preço teto de R$ 18,66 e um preço justo de R$ 19,36. A TIR para a operação é de 15,9%.
Klabin
Se você pedir para qualquer investidor da Bolsa falar 3 ações pagadoras de dividendos, muito provavelmente ele vai falar da Klabin. Aliás, dizem que eles ficaram tão conhecidos por isso que as outras ações do seu setor (Papel & Celulose), SUZB3 e RANI3, começaram a pagar dividendos para fazer “jus” à fama.
Porém, nós não investimos em nenhuma empresa apenas pela sua suposta fama. A Klabin é a nova integrante da nossa carteira pelo momento de seu case. Vamos então entender como funciona a Klabin.
Em 1889, um rapaz chamado Moishe Elkana, que estava fugindo da Lituânia, desembarcou no porto de Santos, aqui no Brasil. Ele adotou o nome Maurício Freeman Klabin, sendo que este último nome era uma floresta perto de sua cidade natal. A ideia dele era chegar ao Brasil e receber algumas terras do Imperador para produção rural.
A ideia das terras acabou não dando muito certo, e Maurício acabou comprando uma gráfica no centro de São Paulo anos depois. Com o negócio prosperando, decidiu trazer seus parentes para morar no Brasil. Em 1899, Maurício se juntou aos seus irmãos Salomão e Hessel, e também ao seu primo Miguel Lafer, para fundar a holding Klabin Irmãos e Cia – KIC (que vamos chamar só de Klabin, daqui pra frente). Esses quatro foram a base da primeira geração da família no comando da empresa.
A KIC foi o pontapé inicial, há 124 anos, para o colosso que conhecemos. E as famílias fundadoras, Klabin e Lafer, estão no comando das decisões até hoje (essa informação é importantíssima).
Desde o início, a empresa demonstra algumas características marcantes. Uma que podemos destacar é a integração total da cadeia produtiva de papel. Tudo começou em 1909 com a Companhia Fabricadora de Papel (CFP), em que Maurício Klabin passou um tempo na Alemanha aprendendo novas técnicas e trouxe melhores maquinários para o Brasil.
Outra característica marcante é a aproximação com as elites política e intelectual. O principal momento dessa característica foi nos anos 1930 e 1940, com Wolff Klabin e Horácio Lafer, que possuíam bom trânsito com vários políticos importantes, inclusive com o então presidente Getúlio Vargas. Isso ajudou a empresa a arrematar a Fazenda Monte Alegre junto ao estado do Paraná e no financiamento de alguns projetos, como as Indústrias Klabin do Paraná de Celulose (IKPC).
Aqui vem mais um ponto: o gosto da empresa por alavancagem e investimentos. A Klabin sempre buscou se colocar como um dos principais players do setor de papel onde atuava e isso passava muito por M&As (fusões e aquisições) e pela construção de novas fábricas. Aliás, em 2002, essa alavancagem excessiva (que é até comum no setor de papel e celulose) quase quebrou a empresa com o “Efeito Lula”, quando o câmbio e os juros dispararam. Isso obrigou a empresa a se desfazer de alguns de seus ativos e passar pela sua última grande reestruturação de negócios.
Essa reestruturação sempre envolveu a família, que é o personagem principal da história. Apesar de o trio Armando (que faleceu em 2021), Israel e Daniel Klabin terem sido os principais nomes da empresa dos anos 1980 até os dias atuais, não é comum uma figura individual se destacar entre os outros. Isso passa muito pela cultura da empresa e pelo fato de que o comando está nas mãos da família.
Por fim, a última característica marcante da Klabin é o seu tamanho, tão grande que não dá somente para enquadrá-la num setor de “papel e celulose”, pois ela é “madeira, papel e celulose”.
A Klabin era grande e ficou maior ainda neste século com a inauguração da Unidade Puma I, que fica em Ortigueira (PR), e a Puma II, que são mais duas máquinas de papel para papelão anexas ao primeiro projeto e que foram entregues em setembro de 2023.
A Unidade Puma I tem capacidade de produção de 1,5 milhão de toneladas de celulose. Bom destacar que, antes do projeto Puma, a capacidade total da Klabin era de 2 milhões de toneladas. A fábrica é tão grande, que fez a Klabin ser a primeira indústria do país a fornecer, ao mesmo tempo, os três principais tipos de celulose: fibra curta, fibra longa e fluff, além de ser o maior projeto de investimento privado do Paraná, tendo custado cerca de R$ 8,5 bilhões, mas que foi financiado via BNDES. Já pelo lado do Puma II, ela terá capacidade produtiva anual de 920 mil toneladas de kraftliner (nome técnico para papel para papelão).
Assim, com toda essa história, a Klabin chegou até aqui. Hoje, a empresa atua em quatro segmentos: florestal, celulose, papéis e embalagens. Com seus mais de 25 mil colaboradores (diretos e indiretos), a Klabin consegue produzir, anualmente, cerca de 2,6 milhões de toneladas de papel e 1,6 milhão de toneladas de celulose de mercado. Adicionalmente, a empresa é uma das principais nos segmentos de papéis e cartões para embalagens, embalagens de papelão ondulado e sacos industriais. E tudo isso vem das suas cinco unidades florestais de pinus e eucalipto, onde a empresa possui uma área total de 719 mil hectares. Pra você ter uma ideia, a região metropolitana de São Paulo inteira (que tem 39 municípios) tem pouco mais de 794 mil hectares.
No fim das contas, toda essa capacidade tem que se refletir em dinheiro. Em 2023, a Klabin gerou uma Receita Líquida de pouco mais de R$ 18 bilhões, sendo que 65% disso veio do mercado interno. Dessa grana toda, a Klabin tem uma margem líquida de 15,8% e uma Margem EBITDA (ajustado pela própria empresa) de 35%. É importante falarmos da Margem EBITDA, pois a empresa definiu, como política do Conselho, que deve propor dividendos e/ou juros sobre capital próprio (JCP) de 15% e 25% do EBITDA Ajustado. Nos últimos 12 meses, o total de dividendos e/ou JCP que a Klabin pagou foi de R$ 1,4 bilhão, o que dá um DY de 5,8%.
O modelo de negócio da Klabin é relativamente fácil de entender: ela planta árvores, as processa e faz vários tipos de papéis com o resultado desse processamento. Um dos grandes diferenciais competitivos da Klabin é que ela é a única empresa brasileira a produzir três tipos de celulose: fibra curta (usada em papéis A4, higiênicos), fibra longa (usada em papel cartão e papelão) e fluff (base para fraldas e absorventes). A Unidade Puma é a que responde pela produção das três.
No fim das contas, a Klabin é uma empresa que tem uma cadeia produtiva integrada. Isso tudo distribuído em suas 22 instalações no Brasil e uma na Argentina. Fora os novos projetos de investimento que são aprovados com frequência. Aliás, a Klabin investe tanto, que ela considera como um “ciclo de investimento em expansão” apenas projetos acima de US$ 1 bilhão.
Como é possível perceber, a Klabin é uma empresa que fatura bilhões, investe bilhões e tem custos e dívidas bilionários também. Essa característica de capital intensivo é marcante em todo setor, principalmente nas maiores empresas.
Falando dos investimentos, em setembro de 2023 foi inaugurado o Projeto Puma II, que custou R$ 12,9 bilhões. Esse projeto engloba a construção de duas máquinas de papel, MP 27 e MP 28, o que eleva capacidade produtiva a 4,7 milhões de toneladas de celulose e papel anual. Foi o maior investimento da história da empresa, o que a deixou como uma das mais modernas do mundo.
Com tudo isso sendo levado em consideração, entendemos que a Klabin está em um momento de reduzir um pouco a velocidade. Já investiram demais e agora o foco é arrumar a casinha (reduzir custos e aumentar eficiência) para potencializar os retornos e dividendos. Desta forma, nosso valuation nos retornou um preço-teto de R$ 26,55, preço-alvo de R$ 27,60 e uma TIR de 12,1%
SLC Agrícola
A SLC foi fundada em 1945, por Frederico Logemann, no município de Horizontina (RS), o mesmo de onde saiu a gloriosa Gisele Bundchen. A sigla, aliás, é para “Schneider, Logemann & Cia”. Por muito tempo, a SLC era focada no ramo de máquinas agrícolas, porém, em 1977, a empresa comprou a Fazenda Paineira, no município de Coronel Bicaco (RS), que cultivava soja e trigo. Isso fez com que a empresa entrasse de vez para a agropecuária. Esse braço do grupo SLC foi batizado de Agropecuária Schneider Logemann, que é a atual SLC Agrícola.
Hoje, a SLC Agrícola é responsável pela gestão de 23 fazendas espalhadas pelo Brasil, totalizando um portfólio de pouco mais de 674 mil ha plantados na última safra (23/24). Isso dá cerca de 4,4 vezes a área da cidade de São Paulo. Em julho de 2023, a empresa divulgou que uma auditoria externa da Deloitte avaliou todo o portfólio de terras em R$ 10,9 bilhões. De toda essa área plantada, cerca de 51% foi de soja, 24% de algodão e 20,4% de milho.
A área total plantada pode ser o grande destaque para muitos, mas o principal diferencial dessa empresa está no operacional. Para se ter uma ideia, a produtividade da soja na última safra foi de 3.910 kg/ha. Esse valor foi 11,5% maior que a média nacional, divulgada pela CONAB. Ou seja, mesmo em uma área plantada enorme, a SLC ainda consegue se distanciar (positivamente) em relação à média nacional, que já é uma das maiores do mundo.
Por falar do operacional da empresa, essa parte é uma tarefa bem complexa de se projetar em uma empresa de commodities que é exportadora por vocação. Assim, em nosso valuation, projetamos a produtividade para os próximos anos como a média histórica. Isso nos deixa tranquilos em relação a quebras de safras no futuro e pode nos trazer boas surpresas com incremento da produtividade.
A mesma coisa vale para os preços projetados das commodities. Aqui, nós projetamos o preço unitário por cultura com a média histórica em dólar corrigida pela inflação. O argumento se repete pois o preço das commodities é cíclico, tendo momentos bons e outros ruins. Lembrando que o câmbio é projetado pela correção da inflação (Brasil e EUA) futura esperada. Por exemplo, nesses últimos meses o agro brasileiro realmente está num momento difícil do ciclo, com um El Niño trazendo a seca e com uma briga política ferrenha para ver quem acerta no quanto a safra será prejudicada (algo que só saberemos no meio do ano).
Porém, em janeiro, chegou uma bomba positiva. Quatro integrantes da família Scheffer, uma das mais relevantes do mercado agrícola brasileiro, compraram 5,37% da SLC Agrícola por cerca de R$ 445 milhões. Ninguém esperava essa transação, ainda mais vinda de uma família que já possui um grande histórico na exploração de terras.
Quando perguntados pela imprensa, os familiares, representados por Guilherme Eliseu Maggi Scheffer, foram enfáticos:
- Essa forma se mostrou mais eficiente para a alocação de capital.
Ou seja, dentre todas as opções que a família poderia fazer com o dinheiro, como comprar novas terras ou outros negócios, eles concluíram que comprar as ações da SLC seria a melhor opção. O motivo é simples: para eles e para nós, as ações estavam muito baratas. Em uma conversa com investidores, Guilherme Scheffer chegou até a dizer que “hoje é mais barato comprar SLC do que fazenda” e que “as terras do padrão da SLC mais a operação deveriam valer de 2x a 2,5x o valor da ação”.
Aliás, até ano passado, o segundo maior acionista da SLC era o fundo britânico Odey Asset Management. Porém, com várias denúncias de assédio no decorrer do ano, o fundo zerou sua posição e isso, além de derrubar um pouco a cotação, deixou muitos papéis no mercado. Dessa forma, não era inesperado que alguma hora alguém tomasse essa parte. A surpresa (positiva) foi essa fé que os Scheffer depositaram na SLC.
Com o “empurrãozinho” da família Scheffer, que após a aprovação da transação no Cade será o segundo maior acionista da SLC, o papel emplacou uma sequência de alta interessante. Isso afetou nossa decisão? Sinceramente, não! Já acompanhávamos e gostávamos do case há alguns meses. Esse movimento ajudou mais a nos indicar que o próprio agro enxerga a SLC como uma boa empresa.
Além disso, temos projeções até o fim da década que já levam em consideração as oscilações naturais do mercado. Isso nos deixa bem tranquilos com quaisquer movimentos de curto prazo, que não afetam substancialmente a estrutura da empresa, já que é algo esperado.
Apesar do resultado não ter agradado o mercado, vindo abaixo do consenso, no 4T23, entendemos que é um excelente ativo e que tem perfil para pagar bons dividendos aos acionistas. Na proposta enviada pela administração para a Assembleia Geral, consta a distribuição de dividendos de cerca de R$ 389 milhões. Desse montante, já foram pagos R$ 24 milhões (em janeiro deste ano) que já vão contar neste cálculo. O DY dos últimos 12 meses da ação é de 7,07%.
No fim das contas, nossa SLC Agrícola tem um preço-alvo projetado de R$ 27,95, preço-teto de R$ 27,20 e uma TIR de 19,35%.
Para as próximas 4 empresas, elas já figuraram em outras carteiras aqui da casa. Tegma Taurus e Banco ABC estavam na Carteira de Valorização mas foram retiradas no último relatório. Precisamos falar que elas não perderam os fundamentos! Porém, como já até deixamos as pistas, as empresas (e agora incluindo Kepler) possuem um grande perfil de pagadoras de dividendos. Assim, elas se adequam mais à estratégia da Carteira de Renda.
Vamos a elas!
Kepler Weber
A Kepler Weber é uma empresa quase centenária. Criada em 1925, ela sempre esteve ligada ao agronegócio. Inicialmente fabricando equipamentos como prensas de óleo e carrocerias de caminhões, a companhia ao longo do tempo expandiu sua atuação para os silos de armazenagem, hoje seu principal produto.
Como você já deve ter ouvido por aí, o Brasil é conhecido como o “celeiro do mundo”. Não à toa, nosso país conta com posição de destaque na produção e exportação de diversas commodities.
O Brasil lidera o avanço da produtividade agrícola mundial. Pra você ter ideia, de 2000 a 2019, nossa produtividade aumentou cerca de 3,18% ao ano, enquanto a dos EUA foi de 0,5% e a da China, de 2%, com a média do mundo ficando em 1,66%.
A produção de grãos, especificamente, vem crescendo a uma taxa de 5,5% ao ano.
Tudo isso são bons indicadores que só confirmam a tese de que o agro brasileiro é extremamente relevante para a economia não só doméstica, como também a mundial.
Entretanto, o Brasil possui um sério problema no segmento. Enquanto a safra de grãos cresce ano a ano em ritmo acelerado e tende a continuar assim no futuro, a capacidade de armazenamento do nosso país anda em marcha lenta. Não é raro ver notícias de grãos sendo estocados a céu aberto, o que sujeita não só o produtor rural a perdas, como também impacta a segurança alimentar do país.
Nesse quesito, o Brasil fica muito atrás de outros países. Enquanto a capacidade de armazenamento instalada nas fazendas brasileiras é de 15% do total, a Argentina tem 40%, a União Europeia possui 50%, os EUA — nosso principal competidor no agronegócio — tem 65% e o Canadá, 85%.
Para nossa sorte, a Kepler Weber é uma das empresas mais bem posicionadas para resolver esse problema.
A Kepler é vista pelo mercado do agronegócio como uma marca premium e top of mind. Com isso, a empresa consegue cobrar um valor de 5% a 15% maior do que os concorrentes. A Kepler ainda tem a maior rede de assistência técnica do país e possui 8 centros de distribuição, estrategicamente localizados em grandes regiões produtoras de grãos.
Além disso, ela também é líder no segmento na América Latina (com cerca de 30% de market share) e já exportou para mais de 53 países, contando hoje com 130 agentes comerciais.
A empresa entretanto não fica presa ao que já conquistou e está de olho no futuro. O seu segmento de Reposição & Serviços oferece uma plataforma tecnológica de automação, monitoramento e controle das plantas de armazenagem e tem crescido a taxas acima de 20% ao ano. A Kepler ainda tem grande potencial de crescimento surfando a produtividade do agro brasileiro e se beneficia dos recursos disponibilizados pelo Plano Safra.
Sendo conservador no nosso modelo, projetamos um crescimento de receita real com base no aumento histórico da capacidade de armazenagem do Brasil, que é de cerca de 2,4% ao ano (mesmo que, na prática, seja um crescimento insuficiente para atender a demanda). E projetamos a Margem EBIT com base na média histórica de 14,5%. Vale ressaltar que, em 2021, a empresa apresentou uma margem de 16,7%, seguida de 28,7% em 2022 e de 20% no 1S23.
A Kepler opera com baixa necessidade de capital, já que quando um cliente fecha a compra com a companhia, ele faz um pagamento de cerca de 25%. Antes de o equipamento ser levado para a instalação, o que pode ocorrer entre 2 a 8 meses (considerando aí os prazos de elaboração dos projetos e o processo de fabricação em si), o cliente já vai ter pago cerca de 90% do produto.
A empresa também possui posição financeira extremamente confortável, tendo caixa líquido. No seu balanço do 4T23, a empresa possuía R$ 322 milhões em caixa, enquanto seu endividamento (já considerando arrendamentos) era de R$ 196 milhões.
Todos esses fatores contribuem para que a Kepler seja uma opção interessante de investimento voltada a dividendos. Nos últimos 12 meses, seu DY foi de 8,58%. Em nosso modelo, seu preço justo é de R$ 13,49 e TIR de 16,9%.
Taurus
A Taurus é uma tradicional fabricante de armas brasileira fundada em 1939, na cidade de São Leopoldo - RS. Ainda em 1968 a empresa começou a exportar para os Estados Unidos, o principal mercado de armas do planeta.
Embora tenha tido uma história de crescimento ao longo dos anos, a empresa passou por um período conturbado na última década. Problemas contábeis e operacionais, com o recall de armas nos EUA e recolhimento de pistolas usadas por policiais no Brasil, afetaram a companhia. Em 2015, entretanto, o jogo começou a mudar com seu controle sendo adquirido pela CBC - Companhia Brasileira de Cartuchos. Naquele ano, Salésio Nuhs e Sérgio Sgrillo, atuais CEO e CFO da empresa, entraram na Taurus e a lideraram rumo a um dos maiores turnarounds da Bolsa brasileira.
De ação esquecida, a empresa surfou uma alta desde então que levou sua cotação, por várias vezes, a uma valorização que ultrapassou a marca dos 1.000%.
Desde então, a empresa passou por mudanças importantes. Em 2019, sua fábrica nos EUA foi transferida de Miami, na Flórida, para Bainbridge, na Geórgia, por conta de benefícios governamentais. Em 2020, ela criou uma joint venture no Brasil para a fabricação de carregadores e componentes estampados de armas leves. No mesmo ano, ela ainda firmou uma outra joint-venture, dessa vez voltada para a produção de armas na Índia.
O resultado final do processo de turnaround da empresa foi coroado com a volta da distribuição de dividendos, anunciada em 2021, no valor de R$ 194 milhões, um DY de 6,8%. Naquele ano, a Taurus vendeu 2,35 milhões de armas, alcançando a liderança mundial na produção de armas curtas.
Embora o cenário brasileiro tenha mudado em 2023 com restrições do governo ao mercado de armas, a empresa não ficou parada. Ela já anunciou o desenvolvimento de novos produtos voltados aos calibres permitidos e trouxe uma novidade ainda mais importante. Em julho, a Taurus divulgou um memorando de entendimentos com uma das maiores empresas de defesa da Árabia Saudita para a formação também de uma joint venture no país. A Arábia Saudita possui o 5º maior orçamento de defesa no mundo e tem um programa relevante de desenvolvimento no segmento visando produção local.
A Taurus já fez a maior parte dos seus investimentos em expansão e modernização de suas fábricas durante o boom de vendas que a empresa teve nos anos de 2021 e 2022. Dessa forma, a diretoria estima que os gastos com Capex da empresa para os próximos anos serão muito mais voltados à manutenção. A expansão para a Índia não contou com investimentos da empresa, tendo ela feito apenas transferência de tecnologia. Na Árabia Saudita, caso a joint venture se concretize, a Taurus espera que o acordo siga o mesmo formato do país indiano. Além disso, a empresa tem um nível de alavancagem baixíssimo, de menos de 1x Dívida Líquida/EBITDA. Ou seja, sem investimentos grandes a serem feitos e sem dívida para pagar, sobra espaço no balanço para o pagamento de dividendos.
Mais um ponto para a tese de dividendos da empresa é que Luiz Barsi, o “rei dos dividendos”, é um dos maiores acionistas da Taurus, com 7,7% das ações preferenciais da companhia.
E, ao contrário da maioria das outras empresas, que pagam 25% do Lucro Líquido como dividendos, a Taurus tem definido em seu estatuto o pagamento mínimo de 35% do Lucro Líquido. A empresa pagou dividendos de forma anual desde seu retorno em 2021, mas em abril sua Assembleia de Acionistas aprovou a criação de uma reserva estatutária que viabiliza a distribuição de dividendos a qualquer momento, a critério do Conselho de Administração.
Por último, o DY da empresa nos últimos 12 meses foi de 9,5%. Nosso preço justo para a ação é de R$ 19,51 com TIR de 18,9%.
Banco ABC
O Banco ABC Brasil (ABCB4) é um banco comercial com o foco na concessão de crédito a médias e grandes empresas. Além da intermediação financeira, o Banco ABC também atua em operações estruturadas, como em emissões de títulos e fusões e aquisições.
O ABC surgiu em 1989 através de um parceria entre o Arab Banking Corporation (Bank ABC) e o Grupo Roberto Marinho. No início, o foco do banco era apenas a concessão de crédito a grandes empresas e as atividades de tesouraria.
Em 1997, o Arab Banking Corporation comprou a participação do Grupo Roberto Marinho, tornando-se o controlador do ABC. Dez anos depois, o Banco ABC fez seu IPO na bolsa. Mais recentemente, em 2019, ele passou a atuar no segmento Middle, concedendo crédito a empresas com faturamento anual entre R$ 30 milhões e R$ 300 milhões.
Atualmente, o controle segue com o Arab Banking Corporation, que detém a totalidade das ações ordinárias e, quando consideradas as ações preferenciais, possui 62,2% da participação acionária total. O Arab Banking Corporation, por sua vez, é controlado pelo Banco Central da Líbia em parceria com o governo do Kuwait. Porém, historicamente a operação do ABC Brasil ocorreu de forma independente, sem ingerência desses países.
Os dois grandes pilares que nos levaram a recomendar a compra de ABCB4 na carteira de renda foram a qualidade da carteira de crédito do banco e o valuation extremamente atrativo.
A carteira de crédito atual do ABCB é de R$ 46,4 bilhões. A maior parte desse valor, cerca de 59%, está em operações que envolvem clientes Corporate, ou seja, empresas com faturamento entre R$ 300 milhões e R$ 4 bilhões. Há ainda um percentual considerável, 32%, em operações com clientes com faturamento anual acima de R$ 4 bilhões.
Em relação à divisão da carteira de crédito por setor, o agronegócio é que detém a maior participação, próximo de 25%. Já quando olhamos para a qualidade dos devedores, cerca de 90% deles possuem rating entre AA e B, ou seja, é improvável que ocorra algum problema sério com eles.
Esse perfil de carteira de crédito faz com que o Banco ABC possua um índice de inadimplência de 1,1%, muito inferior ao do sistema financeiro nacional. Se ainda desconsiderarmos o efeito das Lojas Americanas, esse índice cai para 0,9%.
Outro ponto que merece destaque é o casamento de prazos entre os ativos e passivos do Banco ABC. Esse casamento é primordial para que um banco não sofra com problemas de liquidez. Além disso, o ABC conta com um índice de Basileia de 15%, superior à média dos grandes bancos nacionais.
Qualitativamente, o Banco ABC mostra sinais claros de solidez que acabam impactando também no valuation do banco. Quando consideramos um cenário conservador com uma expansão da carteira de crédito inferior ao crescimento histórico e diminuímos a margem obtida nessas operações, ainda assim, o valuation de ABCB4 aponta para um preço-teto de R$ 34,05 e um preço justo de R$ 37,76.
Embora a política de dividendos do Banco ABC Brasil estipule payout mínimo de 25%, normalmente o banco distribui entre 30% e 40% do lucro líquido em forma de proventos. Nos últimos 12 meses, essa distribuição representou um dividend yield de 8,1%, nível que consideramos atrativo. Esses proventos são distribuídos 4 vezes ao ano, no último mês de cada trimestre.
O nível atrativo de dividendos e o potencial de upside nos levaram à recomendação de COMPRA para as ações do ABCB4.
Tegma
A Tegma Logística é uma empresa fundada em 1969, especializada em logística integrada e soluções de transporte. Seu principal foco é o transporte rodoviário de veículos, com uma presença significativa em território nacional. A empresa também oferece serviços de armazenagem e logística dedicada, atendendo a empresas do setor químico e de eletrodomésticos, especialmente a Electrolux.
A empresa possui uma ampla rede de clientes na indústria automobilística e outros setores, o que proporciona um fluxo constante de demanda por seus serviços. Além disso, a Tegma tem uma experiência considerável no setor e uma reputação de confiabilidade e qualidade.
O problema é que a indústria automobilística pode expor a empresa à volatilidade do ciclo econômico, como anda acontecendo nos últimos anos. As perspectivas futuras da Tegma estão ligadas principalmente ao desempenho da indústria automobilística, à economia brasileira e às tendências logísticas globais. O aumento da demanda por transporte e logística, impulsionado pelo crescimento econômico, poderia beneficiar a empresa, caso a venda de veículos novos se recupere. Desde o início da pandemia, a venda dos carros no Brasil está em patamares muito baixos, considerados os últimos 15 anos.
Empresas cíclicas são boas de se comprar quando o ciclo está em baixa. Afinal, uma recuperação no setor vai puxar os resultados da empresa. Ainda que nosso valuation não dependa disso, essa recuperação pode servir como um gatilho importante para a empresa.
Iniciando o ano de 2024 em ritmo intenso, o setor automobilístico vivenciou um expressivo crescimento nos primeiros dois meses, com um salto de cerca de 25% na quantidade de veículos emplacados em comparação ao mesmo intervalo do ano anterior. Apesar de um modesto declínio de quase 1% em fevereiro quando comparado a janeiro de 2024, esse fenômeno foi relacionado à menor quantidade de dias úteis e à celebração do Carnaval, que exerceu influência sobre os resultados de vendas, conforme dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (FENABRAVE).
Foi observado um aumento de 14,6% na média de vendas diárias de veículos ao longo de todos os setores, destacando a diferença entre os 19 dias úteis de fevereiro e os 22 de janeiro. Nas palavras do presidente da federação, Andreta Jr.: “São resultados consistentes para os segmentos de maior volume, o que nos deixa otimistas. Temos indicativos econômicos e setoriais que mostram uma conjuntura positiva para esse ano, especialmente, pela redução das taxas de juros e um ambiente mais favorável à oferta de crédito e, portanto, à maior disponibilidade de recursos para financiamentos de veículos”.
Em outras palavras, se o resto do ano seguir o resultado do bimestre, pode ser que estejamos diante da aguardada virada de ciclo. Com mais carros novos sendo vendidos, mais carros a empresa transportará. Ou seja, é bem possível que a gente veja um impacto positivo no lucro líquido da companhia já no 1T24.
Vale lembrar que a Tegma é a transportadora dos carros da BYD, bem como é a responsável pelo desembaraço aduaneiro desses carros através da GDL. E a BYD não está para brincadeira. A meta da empresa é vender 100 mil carros no Brasil em 2024.
Se a BYD vai conseguir essa façanha, não sabemos dizer. O que podemos dizer é que caso ela consiga, a Tegma vai ser uma das principais beneficiadas.
No 3T23, a Tegma reportou uma Receita Líquida de R$ 427 milhões, 2,8% maior que no 3T22. No acumulado de 9M23 a Receita Líquida foi de R$ 961,1 milhões, 17,5% maior. Este aumento significativo é atribuído ao crescimento na quantidade de veículos transportados e na distância média percorrida na Divisão de Logística Automotiva. A Tegma transportou um total de 169,7 mil veículos no 3T23, um aumento de 2,2% em relação ao 3T22. Este aumento é um indicativo da recuperação do mercado automotivo, que parece ter marcado fundo em 2022. Apesar de uma ligeira redução no market share para 24,7%, a empresa se manteve forte em um mercado competitivo e dividido conforme a evolução da venda dos clientes atendidos.
O EBIT no 3T23 foi de R$ 65,5 milhões, o que representa uma diminuição de 4,8% em relação ao EBIT de R$ 68,7 milhões registrado no 3T22. Acontece que ele seguiu pressionado pelo aumento de despesas com pessoal e a ligeira queda de Margem Bruta da empresa, dada a inflação de custos que não teve contraparte no reajuste de preços da divisão automotiva ainda.
Já o Lucro Líquido da empresa foi de R$ 56,3 milhões, um aumento de 5,3% em relação ao 3T22. Esse aumento pode ser atribuído principalmente à melhora do resultado financeiro líquido em comparação com o ano passado e à melhora dos resultados da GDL (subsidiária de desembaraço aduaneiro e armazenagem). Ou seja, a companhia se beneficiou da sua estrutura de capital desalavancada, uma vez que recebeu mais juros das suas aplicações financeiras do que teve que pagar de juros da sua dívida. É fato que dívida pode levar a uma estrutura de capital ótima, que aumente o valor da empresa. No entanto, na vida real, nem todo empresário está disposto a se endividar. E quando o caixa é grande, a receita financeira dele acaba virando mais dividendos.
E por falar em dividendos, a Tegma é uma das principais pagadoras de dividendos da bolsa brasileira. Eu sei que você está acostumado a pensar em bancos, elétricas e saneamento quando o assunto é dividendos regulares. Mas a Tegma paga regularmente desde 2008 (exceto por 2014, quando ela passou por um turnaround). Inclusive, desde 2010, foi aprovada a adoção da política indicativa de distribuição de dividendos da companhia, para distribuir dividendos, inclusive juros sobre o capital próprio, no mínimo em valor equivalente a 50% do Lucro Líquido do exercício.
Apesar de atuar em um segmento cíclico, a matriz de custos da empresa é composta basicamente por custos variáveis. Isso quer dizer que se precisar ela pode encolher ou esticar a operação para se adequar à demanda. É por isso que, mesmo em um ciclo de baixa do mercado de veículos novos como o que estamos vivendo, ela continua lucrativa.
No 3T23 a empresa pagou proventos intercalares, que incluem dividendos e Juros sobre Capital Próprio (JCP). O valor total dos proventos intercalares foi de R$ 35,6 milhões, dos quais R$ 26,4 milhões correspondem a dividendos e R$ 9,2 milhões a JCP. Este valor representou R$ 0,54 por ação, equivalente a 72% do lucro líquido ajustado do 3T23.
O payout médio da empresa desde 2008 foi de 63% do Lucro Líquido. O DY médio foi de 5,8% e, atualmente, o DY dos últimos 12 meses está em 4,21%. Por essa razão, acreditamos que ela seja uma boa oportunidade para a carteira de renda. Nosso preço-teto ficou em R$ 31,74, o preço justo ficou em R$ 33,76, com TIR de 15,09%.
E como ficam as ações recomendadas?
Com todas essas mudanças, a carteira está de cara nova!
Para facilitar, basta conferir como ficam as novas distribuições após a atualização na tabela abaixo:
Porém, após os ajustes, caso você venda mais de R$ 20 mil com lucro nessas operações, ainda temos mais uma etapa.
Pagando a DARF
DARF significa Documento de Arrecadação de Receitas Federais. Ele é um formulário onde pessoas físicas declaram seus rendimentos no mercado financeiro.
Para as operações comuns, existe a isenção de imposto se o ganho de capital existir em vendas de um volume menor que R$ 20 mil dentro de um mesmo mês. Já no day trade, essa isenção não existe.
No caso dos fundos de investimento em ações, a alíquota do Imposto de Renda é fixa em 15% sobre os rendimentos, independentemente do prazo da aplicação. O imposto é cobrado somente na hora do resgate das cotas do fundo.
O prazo para pagamento do imposto sobre o ganho de capital em ações é até o último dia útil do mês seguinte ao da venda das ações.
Você deve emitir um DARF com o código 6015 e pagar no banco de sua preferência ou em casas lotéricas.
Mas tenha atenção, se você não fizer o pagamento no prazo, além dos juros, você pagará multa e tenho certeza que você não vai querer ter problemas com a Receita Federal.
Como emitir um DARF?
Agora que você já sabe o que é a tributação sobre o investimento em ações, aprendeu a calcular o ganho de capital e o imposto que precisa pagar (se tiver que pagar), chegou a hora de aprender a emitir um DARF.
Para emitir o DARF, você vai precisar entrar no site da Receita para entrar no Sicalc Web, que é o sistema de cálculos e pagamentos da Receita. E, para facilitar a sua vida, deixamos o link aqui embaixo.
Site para emitir o Darf: Sicalc (economia.gov.br)
Na primeira página, será solicitado seu CPF e sua data de nascimento. Depois, é só clicar na caixinha de verificação de segurança que o botão “Continuar” vai ser liberado.
Após isso, o sistema vai pedir o seu domicílio atual (normalmente essa opção já vem preenchida). Porém, caso isso não aconteça, você pode digitar o nome da sua cidade que vai aparecer na lista ao lado de um número de identificação.
Nessa mesma página, aparece o campo onde você digita o código do imposto, aquele que falamos lá em cima, o 6015.
Depois, novos campos vão aparecer, e agora é só preenchê-los com bastante atenção.
Em relação à data de consolidação, você pode deixar a que está no sistema. E o tipo de apuração já foi definido quando você indicou o código 6015.
O período de apuração é o mês referente ao seu lucro, ou seja, aquele em que você vendeu suas ações com lucro acima de R$ 20 mil.
Agora, você vai ver que a data de vencimento vai aparecer como sendo o último dia do mês seguinte, assim como mencionamos lá em cima.
Abaixo dela, você vai inserir o valor do imposto a pagar. Preste atenção, pois aqui não é para inserir o valor do lucro.
Assim que preencher todos os dados, o botão “Calcular” vai ficar liberado. Clicando nele, você vai perceber que o imposto vai ser cadastrado na tabela.
Agora, é só clicar em “Emitir Darf” e realizar o pagamento até o vencimento em qualquer grande banco ou casa lotérica. Ele tem essa cara aqui:
****E sobre as ações das carteiras O Melhor da Bolsa e Small Caps?
Fiquem tranquilos. Ainda faremos o acompanhamento das ações que estavam nas carteiras O Melhor da Bolsa e Small Caps para que de forma gradual você possa ajustar suas carteiras pessoais.
Vamos avisar o momento ideal de vender as ações que foram recomendadas nas carteiras extintas e, ao mesmo tempo, recomendaremos as ações da Carteira de Valorização. Assim, aos poucos você poderá alinhar suas carteiras.
Vamos começar com O Melhor da Bolsa.
O Melhor da Bolsa
Na carteira O Melhor da Bolsa, teremos poucos ajustes para adequar à Carteira de Valorização. Das 10 ações que tínhamos lá, 7 estão na de Valorização, sendo elas:
● Banco do Brasil
● C&A
● Vale
● Bradesco
● Transmissão Paulista (Isa Cteep)
● Fleury
● SLC Agrícola
As três empresas restantes eram Tegma (TGMA3), Simpar (SIMH3) e Eletrobras (ELET3), que tiveram recomendação de venda a partir do momento que entramos na Finclass. Apesar disso, como vimos no relatório de hoje, Tegma está diligenciada na Carteira de Renda, caso haja algum interesse em acompanhá-la.
Dessa forma, podem seguir completamente as recomendações da Carteira de Valorização.
Agora, podemos seguir para a Small Caps.
Small Caps
Na carteira de Small Caps, das 13 ações que tínhamos lá, apenas 3 já estão na Carteira de Valorização, sendo elas:
● C&A
● Ambipar
● SLC Agrícola
Na Carteira de Renda, temos:
● Taurus (TASA4)
● Kepler Weber (KEPL3)
● Banco ABC (ABCB4)
Já retiramos quatro ações, que são Banco ABC (ABCB4), Tupy (TUPY3), Simpar (SIMH3) e Taurus (TASA4), desde que chegamos à Finclass. Bom ressaltar que, como também vimos no relatório de hoje, o Banco ABC agora está na Carteira de Renda, pois seu perfil se enquadra melhor nesta estratégia.
Hoje, seguindo o que comentamos no relatório, estamos RETIRANDO a recomendação de Minerva (BEEF3). Dessa forma, a recomendação é de VENDER as ações da companhia e ir distribuindo os pesos entre os papéis.
Das 4 ações restantes, seguem abaixo seus preços máximos de compra e preços-alvos:
Abraços,
Varos Brasil